Sabatina com Renan Santos: divida o candidato por três

Renan Santos, Missão
Renan Santos na sabatina Imagem: reprodução YouTube

Renan Santos entrou no estúdio da redação de O Globo com o cabelo penteado. Franja no lugar. Meia erguida. Calça bem esticada.

Uma assessora — sim, uma mulher —-, pente na mão, acompanhava os últimos ajustes. Cabelo, roupa, cada coisa no seu devido lugar.

Cenário pronto para o candidato reclamar:

— Me deixem ser quem eu sou.

A frase ficou comigo.

Quem é Renan Santos?

O candidato que apareceu para a Sabatina Globo, Valor e CBN não parecia o mesmo dos podcasts e do debate na Band. Ou talvez fosse. Apenas estava penteado de outro jeito.

Durante os 90 minutos de conversa com Malu Gaspar, Maria Cristina Fernandes, Lauro Jardim e comigo, Renan foi simpático desde a chegada. E continuou assim na despedida. Fez questão de dizer que estava diante de jornalistas que admirava.

Em algum momento, lembrou que é vocalista de uma banda de rock e brincou:

— Até pareço de esquerda. 

Definitivamente, não é.

Era outro Renan surgindo.

A equipe que o acompanhava era pequena. Fora do ar, falava-se das limitações financeiras da campanha. Nada de avião particular para atravessar o país. Nada de grande comitiva.

Dois dias antes, porém, o candidato havia passado horas fechado numa sala com sete correligionários preparando-se para a entrevista que daria ao Jornal Nacional. Estudaram os temas que poderiam aparecer. Só não imaginaram que a conversa começaria com bomba atômica.

Renan sobreviveu à explosão.

O treinamento e a entrevista da véspera certamente ajudaram a deixá-lo mais à vontade na nossa sabatina.

À vontade não significa passivo.

Quando discorda, sobe o tom. Quando se incomoda, o rosto denuncia. Faz ar de enfado. Argumenta. Interrompe. Pede para não ser interrompido. Depois volta a sorrir.

Renan parece saber qual personagem precisa ocupar em cada momento.

No debate, era o provocador. Na sabatina, surgiu o formulador. Citou Max Weber, falou de história, economia, direito, relações de trabalho, inteligência artificial e segurança pública.

No fim, perguntei sobre essa diferença.

Ele disse que não repetiria num próximo debate a postura do anterior. E explicou que continua sendo a mesma pessoa, embora momentos diferentes exijam comportamentos diferentes.

Talvez esteja aí uma chave para entender sua candidatura.

Renan se apresenta como candidato da ruptura. O slogan é radical. O vocabulário também. Fala em guerra contra o crime organizado, estado de defesa, fim da Justiça do Trabalho e enfrentamento do sistema político.

À medida que as ideias são escrutinadas, aparecem as gradações.

O homem que combate o Centrão admite que terá de negociar com ele. Ou com os “300 bandidos” que o eleitor “vai meter” no Congresso.

Recorre a Max Weber para explicar que sabe distinguir a ética da convicção da ética da responsabilidade. Como militante e candidato, sustenta suas convicções. Como presidente, reconhece que precisará negociar.

Renan garante que sabe fazer política. Até com aqueles que costuma chamar de picaretas.

O candidato que admite não cumprir uma decisão judicial também diz que não pretende brigar com o Supremo. Define-se como um futuro presidente pacificador. Se uma decisão determinasse a interrupção de uma operação contra o crime organizado que considerasse legal e necessária, porém, recorreria, mas não retiraria imediatamente as forças de segurança.

— Não vou mandar um tanque e atropelar o Xandão.

O radicalismo encontra o rito processual.

A metamorfose aparece também quando o assunto são mulheres.

Declarações antigas dele e de companheiros políticos são apresentadas como brincadeiras de rapazes que cresceram — apesar de seguirem repetindo o discurso nas festinhas com os amigos e algumas aparições públicas. Renan diz que gosta de mulheres e oferece uma regra curiosa para interpretar certas conversas masculinas:

— Se um homem diz alguma coisa, divida por três, porque homens exageram.

A frase provocou risos.

E talvez explique mais sobre a candidatura do que Renan pretendia.

Divida por três.

Há o militante que aprendeu a chamar atenção nas redes e nas ruas. O candidato que precisa conquistar votos. E o político que pretende convencer o eleitor de que sabe governar.

Um provoca. Outro formula. O terceiro negocia.

Qual deles é o verdadeiro?

Talvez os três.

O rapaz que provoca para conseguir atenção, o candidato que penteia o discurso para ampliar o eleitorado e o político que já calcula as concessões necessárias para governar podem habitar a mesma pessoa.

Ao fim de uma hora e meia, a franja já não estava tão no lugar quanto na chegada.

Ou talvez estivesse exatamente onde Renan Santos queria que ela estivesse.

Na dúvida, divida por três.

Sabatina com Ronaldo Caiado: uma corrida contra o tempo

Ronaldo Caiado
Caiado na sabatina Foto: reprodução do vídeo no YouTube

Caiado chegou reclamando do tempo e foi embora clamando por mais tempo.

Antes de a nossa sabatina começar, contou que os 40 minutos destinados a ele na noite anterior, na TV Globo, eram poucos para detalhar seu plano de governo. Por isso, precisou ser mais genérico. Na abertura da conversa, voltou ao assunto: “a eleição é muito curta”.

Pensei que a hora e meia das nossas sabatinas saciasse a fome de falar do candidato.

Ledo engano.

Ao encerrarmos, Caiado ainda sugeriu que poderia ficar com o tempo destinado a Lula e Flávio Bolsonaro, que não aceitaram nosso convite. “Você poderia ter me dado as três horas que eles teriam direito para eu poder continuar aqui o debate”, disse.

O tempo é realmente um problema para o ex-governador de Goiás.

Não apenas porque ele gosta de falar. E fala muito. Caiado parece apreciar o exercício da oratória. A pergunta oferece o ponto de partida; ele escolhe o percurso. Há respostas que começam em Brasília, fazem escala em Goiás e precisam ser conduzidas de volta ao assunto original.

O problema maior é que o relógio eleitoral não tem a mesma paciência.

Faltam 39 dias para o primeiro turno. Caiado precisa convencer o eleitor de que é uma alternativa a Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, de que seria capaz de derrotar Lula no segundo turno.

Na sabatina promovida por Globo, Valor e CBN, ao lado de Malu Gaspar, Maria Cristina Fernandes e Lauro Jardim, ficou claro que ele decidiu não economizar palavras nem adversários.

Bateu forte em Lula. Criticou Flávio Bolsonaro e sua família. Atacou decisões e comportamentos de ministros do Supremo. E, quando dados negativos de Goiás eram apresentados, frequentemente contestava os dados, a interpretação ou a fonte.

Foi assim na discussão sobre o crescimento dos feminicídios no estado. Caiado relativizou a estatística, recorreu à conhecida imagem da pessoa com a cabeça no forno e os pés no freezer (mesmo que a analogia estivesse fora do tempo) e, em seguida, enumerou as políticas que adotou para proteger mulheres.

Também reagiu quando uma pesquisa acadêmica colocou sob escrutínio mortes em intervenções policiais em Goiás. Em vez de se limitar aos números, questionou o trabalho e sugeriu que seu autor pudesse ter vínculos com grupos ligados à defesa de integrantes de facções.

Caiado não gosta de perder o controle da narrativa sobre Goiás.

E compreende-se por quê. Seu estado é o principal argumento de sua campanha.

Na economia, lembra as dificuldades fiscais que encontrou. Na educação, fala das escolas, dos computadores, da alimentação e até da grama esmeralda — para falar dela encontrou tempo, repetiu o feito umas três vezes. Na segurança, cita a redução dos homicídios. Sempre que perguntamos sobre o Brasil que pretende governar, Goiás aparece como prova de que ele sabe fazer.

A questão é saber como transformar Goiás em Brasil.

Esse desafio apareceu quando cobramos detalhes do programa econômico. Caiado promete estabilizar a dívida pública, preservar ganhos do salário mínimo, aposentadorias e pisos de saúde e educação, além de manter políticas sociais. Para fechar a conta, fala em combater excessos, rever incentivos fiscais e reorganizar gastos.

Quando pedimos definições mais concretas, porém, algumas ficaram para depois.

Na discussão sobre a escala 6×1, por exemplo, declarou-se favorável à redução da jornada, mas disse que ainda seria preciso encontrar uma solução para pequenas e microempresas. Instado a apresentar essa solução, não a apresentou. Pouco depois, resumiu sua personalidade política numa frase: “Eu sou sim ou não? Quente ou frio? Morno eu vomito.”

Talvez tenha sido o melhor retrato daqueles 90 minutos.

Caiado gosta das temperaturas altas do discurso. Fala com convicção, repete palavras, interpela os entrevistadores, conta histórias, usa exemplos médicos e imagens religiosas. Às vezes responde à pergunta com outra pergunta. Outras vezes contesta a premissa.

Não é um candidato de voz baixa.

Nem de respostas pequenas.

Quando perguntamos como pretende conquistar os eleitores que hoje estão com Flávio Bolsonaro, ele praticamente apresentou sua estratégia: gostaria de ter oportunidades frequentes para falar por uma hora e meia.

Voltamos, portanto, ao tempo.

Talvez Caiado acredite que seu principal problema eleitoral seja de exposição: se tiver minutos suficientes, conseguirá explicar quem é; se explicar quem é, convencerá o eleitor; se convencer o eleitor, romperá a polarização.

Há uma crueldade no calendário eleitoral.

Pode-se pedir mais cinco minutos ao entrevistador. Pode-se lamentar os 40 minutos da televisão. Pode-se reivindicar as horas deixadas na mesa pelos candidatos ausentes.

Não se pode pedir mais 39 dias ao calendário.

Para Ronaldo Caiado, a questão talvez não seja conseguir mais tempo para falar.

É descobrir, antes que o tempo acabe, o que precisa dizer.

Assista à sabatina Globo, Valor e CBN com Ronaldo Caiado

Sabatina com Romeu Zema: entre a camiseta e a realidade

Romeu Zema
Romeu Zema no estúdio de O Globo Foto: reprodução do video no YouTube

A primeira pergunta da sabatina de Romeu Zema começou a ser respondida antes mesmo de ele se sentar diante de nós. O candidato do Novo à Presidência chegou vestindo uma camisa preta. No peito, em letras grandes, uma mensagem que dispensava interpretação: “Chega de Bet.”

Uma hora e meia depois, eu havia entendido que a camiseta dizia mais do que parecia.

Não apenas sobre as casas de apostas.

Ao lado de Malu Gaspar, Maria Cristina Fernandes e Lauro Jardim, entrevistei Zema na primeira sabatina promovida em conjunto por Globo, Valor e CBN. Foram 90 minutos de perguntas sobre contas públicas, Previdência, relações com o Congresso, privatizações, segurança, educação, trabalho, corrupção e, claro, bets.

Zema fala como empresário. Gosta de exemplos do varejo, compara governo com empresa, emprego com casamento, política pública com administração doméstica. E gosta de propostas que chegam ao eleitor sem precisar de manual de instruções.

“Chega de Bet” é uma delas.

Só que governar costuma ser mais complicado do que estampar uma camiseta.

Quando Malu Gaspar perguntou se ele realmente pretendia acabar com as casas de apostas, a resposta foi ganhando condicionantes. Zema criticou a publicidade, comparou o vício em apostas a uma “cocaína psíquica” e defendeu restrições severas. Diante da pergunta direta sobre a proibição, veio a ressalva: quer acabar; se não for possível, pretende impor limites muito rigorosos.

Há ainda uma ironia nessa história. Como governador, Zema concedeu a Loteria Mineira, que passou a operar também apostas online. Questionado sobre a aparente contradição, argumentou que o Estado seguia a legislação federal e que, como governador, tinha a obrigação de buscar receitas para Minas.

A camiseta dizia “chega”. A resposta dizia algo mais próximo de “vamos ver como”.

Esse movimento apareceu outras vezes durante a conversa.

O programa de governo do Novo fala em privatização completa das estatais. Carlos da Costa, que cuida do programa econômico de Zema, havia sido enfático nesta questão, semana passada, em entrevista no Jornal da CBN.

“Tudo” é outra dessas palavras que funcionam muito bem em campanha. É curta, forte e não deixa espaço para dúvidas.

Até aparecerem as dúvidas.

Perguntamos se “tudo” incluía a Embrapa.

Não.

E a Caixa Econômica Federal?

Também não.

Zema disse que a Caixa exerce uma função social e a comparou a um braço da assistência social do governo. Banco do Brasil e Petrobras, sim, entrariam no projeto. E não simplesmente como estão hoje: ele cogita dividir o Banco do Brasil em três ou quatro instituições e fatiar a Petrobras, inclusive por refinarias e regiões, com o argumento de ampliar a concorrência.

Portanto, privatizar tudo não é exatamente privatizar tudo.

É nessas horas que uma sabatina cumpre uma de suas funções mais interessantes. O slogan chega inteiro. A pergunta vai retirando as embalagens.

A Previdência ofereceu outro exemplo.

O programa promete uma reforma “definitiva”. Quando Lauro Jardim pediu números — qual seria a nova idade mínima, quanto seria necessário aumentar, qual seria a conta — Zema não apresentou uma idade.

Sua proposta é outra: criar um mecanismo automático que ajuste as regras à medida que aumentar a expectativa de vida dos brasileiros.

E aí surgiu uma informação importante. A mudança valeria essencialmente para quem está entrando no mercado de trabalho e produziria efeitos ao longo de 20, 30 ou 40 anos. O próprio candidato apresentou o projeto como um legado, um mecanismo destinado a evitar que o país precise fazer uma grande reforma da Previdência a cada alguns anos.

A reforma “definitiva”, portanto, não é uma grande tesourada imediata. É uma régua que se moveria com o tempo.

No salário mínimo, o ajuste do discurso foi ainda mais explícito.

Diante da discussão sobre a necessidade de controlar as despesas obrigatórias, perguntamos se mudaria a política de reajuste. Zema respondeu que não. Disse que o salário mínimo terá, no mínimo, reposição da inflação e, questionado especificamente sobre a regra atual de ganho real, afirmou que ela não mudaria. Também garantiu que aposentadorias e BPC continuariam vinculados ao reajuste do mínimo.

Isso cria uma questão que provavelmente acompanhará sua campanha: onde estará, afinal, o corte capaz de produzir o ajuste fiscal que ele apresenta como ponto de partida para seu governo?

No começo da sabatina, fiz justamente essa pergunta. Todos os candidatos dizem que precisam cortar gastos. O difícil é dizer onde e quanto.

Zema citou reforma administrativa, combate a fraudes, redução de despesas e sua experiência em Minas. Apresentou exemplos de contratos que, segundo ele, foram renegociados por valores muito menores. O número concreto do corte federal, porém, não apareceu.

Essa talvez seja uma das contradições mais interessantes de sua candidatura.

Zema vende a imagem do gestor disposto a fazer aquilo que a política tradicional não faz. É o candidato do Estado menor, das privatizações, do corte de gastos e da redução de privilégios. Quando a conversa passa do princípio para a execução, porém, aparecem as exceções, as transições e as dificuldades políticas.

Nem sempre isso significa contradição. Muitas vezes significa apenas que a realidade entrou na sala.

A segurança pública mostrou algo semelhante.

Zema cita El Salvador como referência e esteve pessoalmente no país para conhecer a política de Nayib Bukele. Quando perguntamos quais medidas salvadorenhas traria para o Brasil, afastou justamente os instrumentos mais controversos do modelo: não defendeu restrições ao habeas corpus nem a adoção das medidas de exceção que permitiram prisões em massa.

O que pretende importar, disse, é o conceito de retomada de territórios dominados pelo crime organizado. Entre as mudanças concretas, propôs prisão preventiva a partir da terceira reincidência e regras mais duras para quem rompe tornozeleira eletrônica.

De novo: El Salvador, pero no mucho.

Talvez seja inevitável. Campanhas eleitorais vivem de frases curtas; governos vivem de letras miúdas. A primeira precisa caber na camiseta. A segunda precisa caber na Constituição, no Orçamento, no Congresso e, de preferência, na realidade.

Ao final de uma hora e meia, Zema brincou dizendo que nós quatro havíamos preparado uma “metralhadora” de perguntas contra ele e que, apesar disso, estava saindo vivo. Depois voltou à imagem que pretende levar à campanha: a do empresário que recuperou Minas e agora quer repetir a experiência no Brasil. Disse que havia tirado “o Titanic do fundo do mar” e que faria o mesmo com o país.

Saí da sabatina pensando menos no Titanic e mais na camiseta.

Ela continuava dizendo “Chega de Bet”.

Depois de 90 minutos de conversa, eu acrescentaria mentalmente uma linha menor, dessas que quase nunca aparecem nos slogans eleitorais:

Chega. Desde que seja possível.

Assista à sabatina com Romeu Zema