Avalanche Tricolor: foi muito bom reencontrar os amigos

Avenida 0x4 Grêmio
Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos, Santa Cruz do Sul (RS)

Gremio x Avenida
Roger comemora o terceiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Aproveitei o primeiro fim de semana “útil” do ano para visitar amigos no interior de São Paulo. Não nos víamos havia alguns meses. No Natal, eles estavam fora do país, enquanto eu cumpria plantão. No Ano Novo, fui à minha cidade natal, justo quando retornavam ao Brasil. E durante o ano… bem, você sabe como a vida corre, atropela e afasta.

Ao longo do tempo, trocamos mensagens esporádicas. Reencontros, porém, servem para outra coisa: saber das novidades e recontar histórias antigas. Muitas já conhecidas. Mesmo assim, irresistíveis. Falamos também do que acreditamos que pode acontecer em 2026 — projetos de vida, viagens, possibilidades. E lamentamos a insanidade daqueles que insistem em atrasar nossas vidas.

Voltar é reencontrar. Não foi o poeta quem disse. Foi uma frase que me veio à cabeça quando estive em Porto Alegre. Em pastas antigas, usadas como guarda-arquivo, encontrei dezenas de papéis datilografados. Eram crônicas escritas por meu pai, Milton Ferretti Jung, lidas nos primeiros programas de rádio que apresentou, ainda na Rádio Canoas. Assinava como diretor de jornalismo — ao que sei, diretor dele mesmo. Havia poucos profissionais na emissora e menos ainda no departamento.

Entre os papéis guardados por meu irmão, dentro de um baú, descobri também uma coleção de cartas trocadas entre meu pai e o vô Romualdo, quando ele estudava em um internato, na cidade de Farroupilha. Chamou atenção a formalidade da escrita do meu avô. Mais ainda: referências ao futebol. Não me lembro de tê-lo ouvido falar de esporte com os netos, tampouco com meu pai. Ainda assim, lá estava o registro de uma partida do Grêmio a que assistiu no estádio — o que, pela época, deve ter sido no saudoso Fortim da Baixada, no Moinhos de Vento.

Caro e cada vez mais raro leitor, jamais imaginei que esta Avalanche, escrita desde janeiro de 2008, pudesse ser resultado de uma paixão e de um hábito passados de pai para filho desde os anos 1950.

Mas eu falava de reencontros. E, no sábado à noite, havia mais um marcado.

O Grêmio voltava aos gramados pouco tempo depois da despedida de dezembro. Reencontrá-lo, agora sob nova direção, foi uma surpresa agradável. Mesmo levando em conta o curto período de treinos e a fragilidade do adversário, a goleada na estreia fez bem. Aliás, placar semelhante ao da partida que encerrou o ano passado.

Assim como na conversa com os amigos, o Grêmio também apresentou novidades e reacendeu esperanças para 2026.

A presença de Roger e Tiaguinho, ambos com 17 anos, foi a principal delas. Os dois participaram de gols, mostraram personalidade forte, e Roger ainda fechou sua atuação com o terceiro gol. Mais do que o desempenho, o gesto de Luís Castro ao escalá-los como titulares alimenta uma expectativa antiga: investir, de fato, nos talentos da base. Confesso que já não suporto ver nossos protótipos de craques serem vendidos antes mesmo de estrearem no profissional.

É cedo para qualquer projeção. Uma partida não define uma temporada. Ainda assim, reencontrar o Grêmio com uma goleada e algumas boas notícias é muito melhor do que começar o ano apenas relembrando velhas glórias do passado — como aquelas que meu avô contava ao meu pai, nas cartas encardidas que pretendo ler com calma nos próximos dias.

Talvez a Avalanche nunca tenha sido só futebol. Talvez sempre tenha sido, antes de tudo, uma forma de reencontro. Com a família, com os amigos, com você, caro e cada vez mais raro leitor.

Avalanche Tricolor: barba, cabelo e bigode, com toda a elegância

 

Avenida 0x3 Grêmio
Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos – Santa Cruz/RS

 

Arthur

Arthur completou o serviço no segundo tempo

 

Barba, cabelo e bigode. No passado, era assim que se descrevia uma tarefa que havia sido realizada por completo. E assim pode-se descrever a tarefa cumprida pelo Grêmio no simpático estádio e complicado gramado de Santa Cruz do Sul, nesta tarde de domingo.

 

Desde os primeiros movimentos, percebia-se que superar o campo ruim e pesado dos Eucaliptos seria mais difícil do que vencer o adversário que jogava em casa.

 

Apesar de enfrentarmos um time que se propôs a fincar-se diante de sua área e de lá não sair, com o objetivo de não levar gols, o toque de bola do Grêmio era envolvente a ponto de encontrar espaço para jogar.

 

Com a área congestionada, preferimos arriscar de fora e tivemos sucesso nos pés de Ramiro, aos 8 minutos de partida. Aliás, no pé esquerdo de Ramiro, o que não é comum ao meio-campista destro do Grêmio que tem revelado um excelente chute, como já vimos em algumas cobranças de falta, nos últimos jogos.

 

Barba feita, fomos em busca do segundo gol que veio dois minutos depois. A fórmula foi a mesma. Ou quase. Troca de passe veloz e precisa. Deslocamento de jogadores de um lado e de outro. Jael recebeu de Luan na esquerda e ao tentar devolver a bola foi desviada na mão do marcador. Luan cobrou bem o pênalti.

 

Renato chegou a pedir serviço completo ainda no primeiro tempo. Gato escaldado tem medo de água quente, costumava dizer seu Alecir, barbeiro que me atendia nos tempos em que morei em Porto Alegre. Melhor matar o adversário quando ele ainda está tonto do que deixá-lo ir para o vestiário, se reorganizar e reagir. Não foi atendido, mas contou com Marcelo Grohe que mais uma vez fez das suas para impedir qualquer reação: que baita goleiro, heim seu Alecir?!?

 

Fomos para o vestiário com barba e cabelo feitos. E não demorou muito para aparar o bigode, também. Aos 12 do segundo tempo, após nova troca de passe bem elaborada, Arthur recebeu de Everton de frente para o gol. Havia dois marcadores em cima dele, então com a elegância que lhe é comum, Arthur puxou a bola para trás, deixou os dois zagueiros abraçados  e com o mesmo pé que fez o corte completou o serviço: 3 a 0.

 

Restou para a segunda partida, na Arena, quarta-feira à noite, apenas o banho de “aqua velva – aquele toque invisível de distinção que todos notam”, como se lia na publicidade antiga desta que foi das mais famosas águas pós-barba que já conhecemos.

 

 

Avalanche Tricolor: Bem cedinho

 

Avenida 1 x 3 Grêmio
Gaúcho – Santa Cruz (RS)

Tenho de acordar às seis da manhã e mesmo que me acostume a dormir tarde, assistir aos jogos que encerram a rodada da noite de quarta é sempre um esforço a mais. Principalmente por este compromisso de publicar a Avalanche Tricolor imediatamente após a partida. Minha jornada esportiva particular se encerra no começo da madrugada. Sem contar que com o jogo em andamento, não consigo fazer outras tarefas que precisam ser concluídas antes de dormir.

Se você é daqueles que apoiam o fim dos jogos que se iniciam às nove e 50 da noite, esqueça. Apesar de saber que o ideal é que os jogos se iniciassem mais cedo, não farei coro a ideia. O futebol está em um regime profissional e vem da televisão parcela importante do dinheiro que permite a compra dos jogadores que tanto reclamo. Alguma concessão os clubes tem de fazer.

Lembro, ainda, que apenas uma das partidas e somente da rodada de quarta-feira é que leva o torcedor a este sacrifício. Todas as demais são mais cedo nem por isso o público é maior. Nesta noite, por exemplo, o estádio dos Eucaliptos – de arquibancadas acanhadas e gramado esburacado – estava lotado, em Santa Cruz do Sul. Sei que não era preciso muito. Mas o que quero dizer é que não é o horário que afasta o torcedor, é a falta de infra-estrutura e segurança.

O vereador petista Enio Tatto está com projeto de lei que pede o encerramento das partidas no máximo às 11 da noite. Que me desculpe o parlamentar – torcedor do Grêmio assim como eu, mesmo morando há muitos anos em São Paulo -, mas esta questão me parece perfumaria. Muito mais significativa será a discussão em torno de outros ítens da proposta dele que prevê a identificação do comprador dos ingressos, bilhetes nominais, obrigações para os cartolas que doam entradas às organizadas e punição aos baderneiros com o afastamento dos estádios.

Você deve se perguntar por que falo deste assunto se poderia mais uma vez “rasgar seda” para o Imortal Tricolor. Primeiro, porque para escrever sobre este tema não precisava esperar até o fim da partida; segundo, porque com 59 segundos de jogo o Grêmio já vencia e começava o segundo turno como encerrou o primeiro: vencendo e na liderança.