Conte Sua História de SP: a solidariedade que marcou minha chegada de Santa Fé

 

Osvaldo Seguel

 

 

 

1975, Brasil,fim do governo Geisel, em São Paulo ainda funcionava a rodoviária da Luz, onde afluíam e do seu interior saiam a grande maioria dos ônibus vindos e indo para o interior do Estado e do Brasil todo. Foi nessa rodoviária, febril e estreita, pois de teto baixo (onde ônibus quase riscavam no topo),e,por isso,permanentemente poluída pela fumaça dos escapamentos … que desembarquei em São Paulo, numa manha de março, há quase quarenta anos..e .doente !

 

Vindo da cidade de Santa Fé, num dos ônibus da empresa argentina General Urquizar, onde e após 72 horas de viagem contrai intoxicação alimentar …. chegando a São Paulo com vômitos convulsivos e quase não parando em pé. E aqui tive que descer pois era fim de linha.

 

A generosa solidariedade dos dois motoristas e da rodomoça foi inesquecível. A cada momento desse mau-passar, estavam acompanhando-me nas idas e vidas do banheiro do ônibus, enquanto o mesmo escalava a serra do cafezal, próximo à cidade de Registro, já no Estado de São Paulo. Relembro agora a elegância dos mesmos no trajar e até terem me fornecido cruzeiros que devia exibir, se indagado na alfândega, da fronteira argentino-brasileira, de Foz do Iguaçu.

 

Também devo assinalar aqui a solidariedade de alguns passageiros, dentre eles destaco uma casal de irmãos da minha idade (17 anos), brasileiros, porém que falavam o espanhol e me deram as primeiras aulas de português, ensinando como “cambiar diñero” “pedir una bebida” “preguntar por una calle”…eram filhos de um dono de uma agêcia de viagens e apesar de muito jovens viajavam sozinhos…veio-me agora seus rostos de traços europeus, alegres e solidários…

 

Porém, não guardo o rosto solidário e oportuno do passageiro chileno: era um jovem mais velho do que eu e que já morava no Brasil há vários anos, foi ele quem me ajudou a descer do ônibus nesse estado febril, com as minhas malas. Com elas permaneceu na rodoviária enquanto eu saía a procura de uma farmácia para tratar da minha intoxicação. A única coisa que encontrava chamavam de drogarias.
Um jovem de aspecto indígena dentro de seu avental branco me atendeu, após ser chamado pelas outras funcionárias da tal drogaria. Devem ter-lhe dito, que havia um jovem doente que não falava português mas aparentava estar passando mal.

 

Que fue lo que comistes ?…y há cuanto tiempo ?….

 

Contei que comecei a passar mal nessa madrugada após ter comido um pedaço de bolo com café com leite, numa das paradas daquela noite… e aí veio o milagre …o jovem farmacêutico preparou um coquetel líquido e após ter-me injetado esse misterioso elixir químico, como por passo e mágica, melhorei….e mui agradecido, fui pagando … ele afinal alertou-me de que iria sentir muito sono… ele não soube mas eu já não dormia praticamente desde que saíra do Chile…há quatro dias!

 

Voltei à rodoviária a procura de minhas coisas que ficaram com aquele passageiro desconhecido. Lá estava ele e minhas coisas .. graças a Deus! E sentindo-me agora melhor nesse país de nomes tão estranhos, e, certamente, enorme, populoso, febril e barulhento, onde as vulcanizadoras na estrada chamam-se borracharias que, em espanhol significam bêbados e as fármacias são drogarias, onde lá na Argentina é onde se vende drogas.

 

Coisas desta nova linguagem tropical..!

 

Osvaldo Seguel é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Avalanche Tricolor: Desistir, jamais!

 

Santa Fé 1 x 0 Grêmio
Libertadores – Bogotá (Colômbia)

 

Santa Fe x Gremio

 

Somos Imortais não porque jamais perdemos, mas porque jamais desistimos.

 

(…e nada mais digo por enquanto frente ao adiantado da hora, mas voltarei a este espaço ainda nessa sexta-feira)

 

Estou de volta (editado às 11h15 de 17/05):

 

Ao escrever logo após o jogo, chuto a razão para as cucuias (que imagino seja um lugar bem distante), desabafo minhas emoções e desprezo a lógica do futebol. Prefiro assim pois teclar como pulsa o coração me faz sofrer menos e me impede de enxergar as fragilidades de um clube que quero Imortal. O adiantado da hora e a necessidade de dormir o mínimo possível para me colocar em condições de pensar às notícias do dia, me impediram de dizer o que pensava logo após o apito final da partida na Colômbia que nos desclassificou da Libertadores.

 

Somente agora, noite mal dormida e dia já praticamente trabalhado, é que sento diante do computador para escrever o que penso do desempenho do tricolor nesta edição da Libertadores. Talvez este distanciamento me tenha feito entender um pouco mais a sensação que me acompanhou durante todo o jogo de ontem à noite e em parte da competição. Não havia a confiança quase deslumbrada de sempre, mesmo nos melhores momentos do jogo e ciente do bom elenco de jogadores que tínhamos à disposição. As escapadas em direção ao gol adversário não me iludiam, nem mesmo a aparente tranquilidade no toque de bola de nossos jogadores. Cheguei a pensar que era apenas forma de controlar meu nervosismo: não acreditar no possível para não se frustrar no revés. Mas isto não é coisa de gremista, pensava comigo mesmo.

 

Foi a boa crônica do jogo, intitulada “Os Miseráveis”, escrita por Maurício Brum, no site Impedimento.org, que me ajudou a traduzir o sentimento e desconforto com o time. Não com os jogadores em si, apesar de alguns terem provado que não merecem vestir a camisa do Grêmio. Desconforto com a alma de um time, que desapareceu em meio a estratégias mirabolantes e palavras rebuscadas. Que acabou com a raça que sempre nos diferenciou sem sequer dar vazão para o talento que existe em muitos dos que estão na equipe. Raça e categoria estiveram juntas apenas em uns poucos instantes desta temporada; raridade como no jogo do Fluminense, no Maracanã, por exemplo.

 

A mudança de postura se fará necessária para que os desafios de 2013 não sejam desperdiçados como foram todos os que enfrentamos na Era Luxemburgo, a começar pela Copa Sul-Americana do ano passado, na qual assistimos à virada histórica do Millionários, nas quartas-de-final, e às perdas do vice-campeonato Brasileiro e da vaga direta à Libertadores ao aceitar um empate no jogo final do Olímpico. E para que esta mudança ocorra, em vez de aplicarmos a política da terra arrasada, dispensando aleatoriamente nomes que não renderam o que podiam até aqui, é preciso identificar, antes, quem sugou nosso ímpeto, quem consumiu nossa alma.

 

E você, caro e raro leitor deste Blog, sempre acostumado a me ver ufanista mesmo nos piores momentos, não pense que estou incrédulo. Estou apenas com os pés no chão e pedindo que recuperem a saga do Imortal Tricolor, este que é Imortal não por jamais perder, mas por jamais desistir.

 

Eu não desisto: Grêmio, sempre!