Conte Sua História de SP: vinha pra vida, no coração da cidade

 

Por Silvio de Melo Martins
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Nasci e moro em São Paulo há 61 anos.

 

“Alguma coisa acontece no meu coração. Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João” – Caetano Veloso

 

Sim! Alguma coisa aconteceu no meu coração quando cruzei o centro velho de São Paulo. Estava exatamente no cruzamento das Avenidas Ipiranga e São João. Não foi melancolia! Foi o que fizeram com a minha cidade.

 

Lembrei dos tempos de faculdade, vinha de Guarulhos onde estudava. Saía no meio da aula noturna, já cansado de um dia de trabalho, mas com o vigor da juventude vinha para a vida, no coração da cidade de São Paulo. Demorava duas horas para chegar.

 

Éramos quatro: eu, Robertão, Mishio e Jessé. Às vezes, vínhamos na Brasília velha do Robertão, mas para economizarmos preferíamos mesmo o ônibus. Parávamos no Parque Dom Pedro II, subíamos a Ladeira Porto Geral, logo a rua Direita, a praça Patriarca, depois Viaduto do Chá. Passávamos pelo Teatro Municipal, sempre fervilhando de gente elegante. Pela Pitt, com sua vitrine e luminoso imensos. Descíamos a Conselheiro Crispiniano e estávamos na São João.

 

Lembro das ruas cheias de vida, as pessoas que desciam apressadas para o Largo do Paissandú ou Praça do Correio, talvez para pegarem o ultimo ônibus ou quem sabe a última sessão de cinema.

 

A avenida São João com seus cinema: o Art Palácio, tão imponente. Havia outros, Olido, Comodoro, Ritz …

 

Nossas vidas estavam ligadas à São João. Viam-se as pessoas entrando nos cinemas, felizes para a sessão. Falando alto. Os filmes eram os últimos lançamentos de Hollywood. Casais que passavam por nós, por vezes caminhavam na noite quente se deliciando com um sorvete ou apenas comendo pipoca. O mundo não importava a eles! Nem a nós!

 

Nosso “point” era a livraria Avenida com sua entrada discreta, seus engraxates, a charutaria e a lanchonete. Sentávamos para tomar café e jogarmos conversa fora. Por vezes uma paquera, nada mais que isso. Às vezes, folheávamos uma revista, ríamos e comprávamos livros, principalmente os de química.

 

Andávamos pela São João, uma ou outra vez um filme ou uma caminhada até a Alameda Nothman com suas casas noturnas. Tomávamos mais café, refrigerantes … Quando a fome apertavam descíamos para comer um lanche frio no Largo do Paissandú. Andávamos pela madrugada despreocupados. E as pessoas sem qualquer vontade de ir embora, lotavam a avenida e as ruas laterais, davam vida ao lugar. Grupos vindo de um lado, outros no sentido contrário. Riam! Brincavam entre eles.

 

Muitas vezes saíamos em direção a Ipiranga, o Bar Brahma. Quantas vezes pudemos ver o Adoniram por lá. Sentado, tomando sua cerveja rodeado de amigos. Acredito que muitos sucessos tenham tido inspiração ali.

 

Fim de madrugada, às vezes chegávamos à Ipiranga e alguns bares estavam fechando. A população noturna das boates da região tomava seu rumo, por vezes em direção a São Luís ou República para pegar um táxi ou mesmo o elétrico que ali faziam ponto.

 

Nós, agora como outros, íamos em direção ao Parque Dom Pedro II. Jessé tinha um longo caminho, era o único que morava em Guarulhos. A noite tinha sido boa. Afinal fugíamos de uma semana trivial. Tínhamos nos divertido como tantos naquela noite.

 

Após a despedida do Jessé, tomávamos o ônibus rumo a zona leste. Pelo caminho íamos nos despedindo. Hoje nem sei por onde eles andam. A vida nos fez perder contato.

 

Hoje, alguma coisa acontece no meu coração, a cidade que eu amo, tão abandonada foi tomada pelos drogados e camelôs. Cada esquina está marcada pela violência e degradação. Hoje, porém, eu vi que tenho muito a ver com essa cidade e sou um dos responsáveis, pela omissão, no que ela se tornou.

 

Agora cruzo a Ipiranga e a Avenida São João, como cruzo as ruas do centro de São Paulo, e alguma coisa acontece no meu coração.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, no CBN SP, aos sábados, após às 10h30. Tem a sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. Para participar, envie texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: Caetano que me desculpe, mas esta esquina é a da turma de Avaré

 

Por Antonio Carlos Nogueira

 

 

Lembrar dos anos de 1960 leva-me de volta aos tempos da esquina da Ipiranga com a São João, em frente ao Bar do Jeca, famoso na época. Do outro lado da avenida, o Bar da Brahma.

 

Todos os finais de semana, eu e os amigos de Avaré, interior paulista, nos reuníamos para apreciar as garotas que passeavam pelas calçadas, faziam a volta pela Barão de Itapetininga, Dom José, passando ao lado de cinemas e cafés.

 

Que bom recordar essa época: amigos como o Flavinho, o Ximbica, Marcelino, Hadel Aurani (campeão de judô) Paulinho Curiati, e outros que já partiram como o Mauricio – o Gordo, Valdir, Wellington – o Urutu … era o ponto de encontro da turma de Avaré, gente que fez o ginásio juntos, o curso científico no Coronel João Cruz, a escola de técnico de contabilidade do Padre Celso, Instituto Sede Sapience tudo lá em Avaré.

 

Depois todos foram para capital para continuar os estudos em faculdades e também trabalhar, pois os empregos no interior erram escassos e faculdades não existiam na maioria das cidades com até 50 mil habitantes.

 

Essa esquina, a Ipiranga com a São João, veio ficar famosa pela música de Caetano Veloso e hoje, quando ouço, me traz muitas lembranças dessa época, pois vivo em Fortaleza, Ceará, e, graças a internet, posso continuar o contato com esses amigos que não vejo, ao vivo, há 40 anos.

 

Reminiscências juninas de Paraty

 

Por Julio Tannus

 

Quando eu era criança morava na cidade de Paraty.

As festas juninas, Santo Antonio (13 de junho), São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho), eram bastante celebradas pelas crianças.

 

As músicas

SONHO DE PAPEL

 

O balão vai subindo, vem caindo a garoa.
O céu é tão lindo e a noite é tão boa.
São João, São João!
Acende a fogueira no meu coração.
Sonho de papel a girar na escuridão
soltei em seu louvor no sonho multicor.
Oh! Meu São João.
Meu balão azul foi subindo devagar
O vento que soprou meu sonho carregou.
Nem vai mais voltar.

 

CAI, CAI, BALÃO

 

Cai, cai, balão.
Cai, cai, balão.
Aqui na minha mão.
Não vou lá, não vou lá, não vou lá.
T
Tenho medo de apanhar.

 

BALÃOZINHO

 

Venha cá, meu balãozinho.
Diga aonde você vai.
Vou subindo, vou pra longe, vou pra casa dos meus pais.
Ah, ah, ah, mas que bobagem.
Nunca vi balão ter pai.
Fique quieto neste canto, e daí você não sai.
Toda mata pega fogo.
Passarinhos vão morrer.
Se cair em nossas matas, o que pode acontecer.
Já estou arrependido.
Quanto mal faz um balão.
Ficarei bem quietinho, amarrado num cordão.

 

As comidas

E a minha saudade.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier)

Uma realidade quase apocalíptica

 

São Paulo é cenário de histórias construídas pelo poeta Alceu Sebastião Costa, ouvinte-internauta do CBN SP. O texto enviado ao programa foi ponto de partida para outros escritos “focados na figura simpática dos catadores de rua, pelos quais tenhos grande carinho e respeito” – conforme contou em e-mail. De nossa parte, o agradecimento pela gentileza de compartilhar com os leitores do Blog uma dessas histórias:

Por Alceu Sebastião Costa
Poeta-parkinsoniano Feliz

No cruzamento da Avenida Ipiranga com a Avenida São João, jazia o anônimo cidadão. Só a matéria estava ali presente, pois a alma embarcara apressada no trem para o infinito. Premida, talvez, pelas contingências da próxima escala.

Segundo as testemunhas, o atropelamento se dera por volta de 11horas da noite de garoa fina, que lembrava a nostálgica São Paulo de antigamente.

As horas seguintes caminharam preguiçosas. Desfizeram-se rodas e rondas de curiosos. Muita cachaça rolou, enquanto o hoje virava ontem, dando vez a um novo amanhã.

Apesar de solitário, ao morto não faltaram preces colhidas, pelos misteriosos anjos da noite, do acervo de uma piedosa e insone mãe, moradora em Jaçanã.

Quando os gorjeios melancólicos do sabiá-laranjeira, oculto no arvoredo da Praça da República, anunciaram a alvorada, o agito diurno começava a dominar a cena na esquina famosa, imortalizada por Caetano nos versos boêmios de “Sampa”.

Pouco a pouco, o local foi sendo ocupado por figuras maltrapilhas e silenciosas. Ordeiras chegavam, ordeiras estacionavam as suas carrocinhas, de forma a não atulharem o leito da via pública.

Logo, mais de meia centena ali estava para o resgate do companheiro, fazendo por solidariedade o que a autoridade por dever não fazia.

Quatro deles, no devido tempo, tomaram a dianteira e colocaram aquele corpo inerte e enrijecido sobre o que restara da respectiva e bem cuidada carrocinha. Então, respeitosamente beijaram e depositaram sobre o seu peito a surrada bandeirola verde-amarela, que algum desajeitado torcedor lançara ao vento e ele recolhera, guardando-a como se um troféu sagrado.

Circundando o cadáver, o estranho grupo ouviu atentamente o pronunciamento emocionado do líder Adoniran:

“Minha querida São Paulo, fria, vela o corpo de mais um humilde e anônimo colaborador, tombado pelo desvario do corre-corre diário. O falecido passa agora a figurar, com louvor, do honroso quadro estatístico de acidentes fatais no trânsito da Paulicéia. O momento é de profundo pesar e oportuniza séria reflexão. Não chore por mim nem por ele nem por você, São Paulo!

A época ainda é boa para o plantio. Temos que amolecer a terra com o suor. Deixemos as lágrimas para as alegrias das colheitas. O pouco de dignidade que nos resta é a garantia da nossa crença na melhoria do porvir. Palavra dos “Catadores de Rua”.

Todos os companheiros presentes ergueram as mãos para os céus e se curvaram em reverência. Ato contínuo, como chegaram, ordeiros se retiraram, levando o defunto, sob a teimosa garoa dos bons idos paulistanos.

Uma suave brisa beijava e balançava o surrado pendão da esperança, agora desfraldado, encimando a carrocinha que abrigava o corpo, à frente do cortejo. Pena não ter o inocente catador de rua consolidado o seu anseio de ver o lábaro ostentando o fulgor estelar dos Demônios da Garoa, seus devotados ídolos, cujos autógrafos almejara um dia obter.

Curiosamente, a chuva fina e o canto triste do sabiá marcavam presença solene naquela manhã cinzenta, como que buscando exorcizar a cidade grande dos seus demônios.

Conte Sua História de São Paulo: O ponto de partida

 

Elvis Campello nasceu em 1976 na cidade de São Paulo. E foi na noite boêmia noite paulista, na mais famosa esquina da cidade, que ele descobriu sua profissão e construiu sua história. A história ele contou ao Museu da Pessoa em janeiro de 2010, comemorando o aniversário da cidade:

Ouça o texto de Elvis Campello sonorizado por Cláudio Antônio

Minha história com São Paulo, nos últimos anos, foi construída à noite. Tudo começou há 12 anos, quando eu terminei o ensino médio, na época o colegial, e queria cursar a faculdade de publicidade, meu sonho até então.

Eu trabalhava em um escritório de advocacia na Avenida Ipiranga, mas com salário que eu ganhava lá, seria impossível pagar o curso superior que eu queria fazer. Meu irmão e alguns amigos de bairro faziam “bicos” como segurança nos barzinhos e casas noturnas na região dos Jardins, e logo eu me encaixei ali com eles. Eu trabalhava de dia no escritório, e nos finais de semana, à noite, eu ganhava um dinheiro a mais como segurança, mesmo sendo um magricela que não punha medo em ninguém.

Comecei a reparar no trabalho dos garçons e barmen das casas onde eu trabalhava, e me chamou mais atenção ainda quando eu descobri que eles ganhavam, no mínimo, três vezes mais do que eu. Pensei: “se eu ganhasse isso, conseguiria pagar minha faculdade de publicidade!” Enchia o saco de todos eles, perguntando como eu fazia para trabalhar como barmen ou como garçom, até que me indicaram um curso e eu fui atrás. O problema é que o curso, que duraria três meses, era só na parte da manhã.

Eu tive que arriscar: largar o escritório na Avenida Ipiranga e ir ali para perto, no Largo do Arouche, no Sindicato do Bares e Restaurantes de São Paulo, fazer o curso de garçom e Bartender. Na última semana de curso, fui indicado para trabalhar em uma casa de shows na Vila Madalena, reduto de bares e restaurantes em São Paulo. Um novo mundo se abriu para mim. Vindo da periferia, eu trabalhava agora em uma outra realidade. Atendia pessoas finas (educadas ou nem tanto), atores famosos, cantores, repórteres e políticos, inclusive, o na época eterno candidato a presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva! Sim, eu já servi cachaça para o Lula, uma dose de “Espírito de Minas”, uma excelente cachaça. Tem bom gosto o rapaz!

Eu chegava em casa cheio de história para contar, todo empolgado. A noite foi uma escola para mim. Conheci muitas pessoas (interessantes ou não), fiz amigos, adquiri responsabilidade, maturidade e quase casei com uma cliente. Me apaixonei pela profissão que até então seria apenas passageira. Deixei de lado a vontade de fazer uma faculdade de publicidade e resolvi cursar hotelaria.

A faculdade me deu mais experiência ainda na área, e me abriu portas para outras casas noturnas, bares e hotéis da cidade, além de me proporcionar a possibilidade de passar toda minha experiência pelo mundo dos alimentos e bebidas. Fui convidado a ser professor de garçom e bartender.

Começar a dar aulas foi fantástico e, junto com a euforia, veio um novo desafio: aprender a ensinar! Não pensei duas vezes e me matriculei num curso de Pós Graduação em Docência em Gastronomia, para adquirir as técnicas da didática do ensino.

Hoje sou professor de Sala & Bar em um dos mais conceituados centro de estudos do Brasil. Pelas minhas mãos já passaram mais de mil alunos, que hoje, espalhados por São Paulo, capital mundial da gastronomia, preparam cocktails ou servem mesas.

Em troca do que a noite de São Paulo me deu (uma profissão, respeito, amigos e um amor) eu devolvo a ela profissionais capacitados, que carregam em suas bandejas ou misturam em suas coqueteleiras alegria, sonhos, expectativas e histórias.

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar sábados, às 10 e meia, no programa CBN SP. Você participa enviando seu texto ou agendando uma entrevista no site do Museu da Pessoa.

Foto-ouvinte: Banheira Pública

 

Banheira pública

Por Devanir Amâncio
ONG Educa SP

Um grande buraco em formato de poço, que já engoliu as rodas de um caminhão de lixo, vira atração no calçadão da Av. São João com a rua Conselheiro Crispiniano, no centro de São Paulo. Durante o dia, moradores de rua usam o poço para lavar o rosto, as mãos e os pés; à noite, o corpo inteiro.