Estudei no Colégio Estadual D.Pedro I, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. Não é saudade, são flashes de memórias acesas pelos estímulos do Conte Sua História.
Eram os anos de 1967 a 1973. Em pleno Governo Militar. O bairro era distante dos movimentos civis e de estudantes em defesa da Democracia. Estudava conforme as regras da época imposta aos estudantes do ginásio. No colégio, de famoso, havia estudado Antonio Marcos, o da Jovem Guarda.
Naqueles anos, do outro lado da Estrada Velha São Paulo-Rio, em frente a escola, em um terreno vazio, levantava-se o prédio do mercado municipal e uma alta caixa d’água. Lá em cima da torre instalou-se um grande e único relógio com quatro faces. Seus ponteiros marcavam a hora certa ao som do “ding-dong” que pautava o dia de moradores e estudantes.
Mais um flash se acende.
Vejo agora a estrada velha, de pista simples, mão-dupla, calçadas por paralelepípedos. Vejo pela janela, na carreira de carteiras da sala de aula. Pela cortina aberta, observava: hora passavam carros, ônibus e caminhões. Hora passavam charretes e carroças. Muitas vezes presenciava as patas dos cavalos escorregarem com suas ferraduras nas pedras do piso liso e desgastado.
As lembranças seguem por aqui.
Todos os anos, lembro-me que eu desfilava pela escola, uniformizado, em marcha, seguindo a banda do colégio, com um sentimento que me faz viajar nas memórias de São Miguel Paulista.
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Atsushi Asano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Sou a primeira criança brasileira em uma família de judeus fugidos da Polônia por causa do antissemitismo, nascida nesta Pauliceia, chamada “desvairada”. Minha mãe deixou uma pequena cidade, no norte do Paraná, especialmente para dar à luz na Avenida Paulista. Ali, na esquina com a Alameda Rocha Azevedo onde hoje está uma agência da Caixa Econômica e o restaurante Spot, que eu nasci. Um casarão no meio de um jardim, todo verde. Me levaram para o Paraná, porém, São Paulo era o meu lugar.
Viemos, meus pais e eu, para morar na rua Oriente, no Brás. Minha alegria de menina, quase sete anos, era quando chegava o fim de semana. Ai eu voltava para a Avenida Paulista. Para o Parque Trianon. Lugar todo verde, com as árvores muuuito altas, os bancos de madeira, onde sentávamos para respirar o ar puro do lugar. E tinha um prêmio: antes de ir embora, no portão do parque, lá estava o homem do realejo, girando a manivela sempre com a mesma música. Aquele pássaro que saia da gaiola, olhava pra mim e bicava uma folhinha de papel, escolhida entre tantas dentro da caixinha: umas amarelas, outras verdes, rosas e azuis, todas bem clarinhas. Cada vez ele me entregava uma frase mais linda que a anterior. Era tão bom que faz minha felicidade recordar até hoje, cada vez que vou ao Trianon (e vou bastante, pois moro perto).
Sou uma Paulistana (com P maiúsculo) da Avenida Paulista! Orgulhosa desse título, faço coro com o poeta Guilherme de Almeida, na frase escolhida para o brasão da cidade: ”non ducor, duco”! Não sou conduzido, conduzo!
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Tania Plapler Tarandach é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie agora o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Por volta de 1960. Tenho treze anos. Mas não lembro se São Paulo já dispunha de supermercados – ao menos o pioneiro Peg-Pag, na Vila Mariana. Perto do Cine Phenix. Não faltavam mercearias, empórios ou quitandas, onde – tal qual em padarias, bares e botecos – uma plaquinha alertava. “FIADO? Quando o Corinthians for campeão”. Durou até 1977, sabemos. Osvaldo Brandão tirou as plaquinhas, das paredes.
Num incerto dia – quase noitinha, lembro – subi a escada de cimento e granilito do sobradão, ainda hoje em pé. Dobrando a esquina toda, Domingos de Morais com Rodrigues Alves, grandão! À frente do então lindo Largo Dona Ana Rosa, que mantinha resquícios, ainda, de footing… Ali, um entroncamento de trilhos e fios. Dos bondes; uns iam até São Judas; outros, até Santo Amaro. Mais um: Vila Clementino.
Então, eis-me no amplo salão de grandes janelas, onde ouvíamos o “tec-tetec”, típico, dos teclados da Escola de Datilografia Rodrigues Alves. Quando, inédita vez, meus olhos e minhas mãos acercaram-se pertinho de uma máquina de escrever – se lembro, hein! Uma Olivetti, meio esverdeada.
Aluno do curso, eu me sentava rente à janela. Donde podia ver – não antes visto – os bondes, de cima, que passavam. Algo me intrigava. Do chão, mal se notava. Era um revestimento escuro que recobria o bonde, exteriormente; todo o “teto” que suportava a alavanca de contato. Que seria “aquilo”? Perguntava-me, a mim. Alguém explicou. Era linóleo. Imensa lona que impermeabilizava o teto de madeira, do bonde, ante a intempérie. Igual aos tetos dos carros de passageiros da Santos-a-Jundiaí. Que podíamos ver na Luz, das passarelas sobre as plataformas. Jornais antigos mostram que ônibus paulistanos, de até os anos 40, também traziam revestimento de linóleo – um charme que carrocerias metálicas dispensaram, obviamente.
Todos sabem. A datilografia, a das máquinas, morreu, não? De atestado emitido – ironicamente – pela própria causa-mortis: e-mail! Digitar, no computador, eu? Não morro de amores. Sempre adorei da-ti-lo…grafar! Tanto que – inviável, descabido e anacrônico, sei bem, mas…
Deparasse eu, num jornal, com um fantasmagórico anúncio… Exatamente assim: “PRECISA-SE DE DATILÓGRAFO”, ah… Precisa-se, é? Algum rascunho de escritorinho, de fundo de corredor? Uma portinha só, uma tosca escrivaninha – puxa vida! – com uma autêntica Remington-Rand? Caramba!
Ei! Eô, eô: me chama, que eu “vô”!
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Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Pedro Galuchi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Roger Machado em foto de arquivo de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Décima derrota em 15 partidas disputadas no Brasileiro. A quarta partida seguida sem vitória. Vitória? Somamos apenas três até este momento na competição. Gols? Foram somente dez, o que nos coloca como o pior ataque do campeonato. E contrariando a máxima de que “quem não faz leva”, para cada gol que marcamos, levamos dois.
Tenho sempre a crença de que algo acontecerá para nos tirar dessa situação. Deposito minhas esperanças ainda na chegada de reforços e na recuperação de lesionados, em especial Diego Costa. Agora, diante de uma campanha como esta, me surpreende que a principal preocupação do torcedor gremista, nesta semana, foi o fato de um profissional de futebol aceitar um convite para trabalhar em um clube que lhe oferece a oportunidade de crescer na carreira e ser muito bem remunerado para exercer sua função.
Sim, eu sei que Roger Machado treinar o Internacional sensibiliza o coração de todos nós que o admiramos pelo futebol jogado no Grêmio em seu passado. Temos a ilusão de que aqueles que vestiram a camisa tricolor e foram elevados a posição de ídolo devem reverência ao clube para o restante de suas vidas. Queremos acreditar que são como nós, torcedores e apaixonados, incapazes de cometermos o sacrilégio de vestirmos outro manto que não seja o do Imortal. E se o fizerem, que nunca, jamais e em nenhuma circunstância seja o do colorado.
Roger tem o direito de treinar o clube que bem entender. É profissional do futebol. Deve escolher a trajetória que lhe convier. É inteligente, tem personalidade amadurecida e um equilíbrio emocional que poucas pessoas alcançam. Certamente, precisou de muita coragem para tomar a decisão de se transferir para o Internacional. Calculou o risco que corria e a pressão que sofreria. Chego a imaginar com quem se consultou antes de aceitar o convite. Fez uma escolha bem pensada, porque foi assim que sempre se comportou ao construir sua carreira, especialmente desde que migrou de jogador para treinador.
O conheci pessoalmente em 2015, em virtude de entrevista que participei a convite da ESPN. Vinha de uma sequência inédita de vitórias no Campeonato Brasileiro, edição em que o Grêmio terminou na terceira posição e com vaga na Libertadores, apresentando um futebol bonito de se ver. Ano em que venceu o Gre-Nal do Dia dos Pais com um histórico 5 a 0.
A conversa que havia iniciado, antes da entrevista, diante de um ídolo do futebol, encerrou-se bem depois do programa de TV, frente a um ser humano admirável, que me inspira e respeito profundamente. Um cara que defende causas fundamentais para a humanidade, preza valores como integridade, justiça e solidariedade, e utiliza sua influência para promover o bem-estar social e a igualdade. Suas ações fora dos campos revelam um compromisso genuíno com a construção de um mundo melhor, fazendo dele um exemplo de cidadania e liderança.
Na época, revelou, ainda, uma visão estratégica para a vida. Assumir um clube de expressão como o Grêmio havia sido uma das etapas estabelecidas para seguir na carreira. Desejava conquistar um título de expressão e concluir sua missão como treinador aos 55 anos. Está com 49. Cheguei a perguntar a ele se aceitaria treinar o Internacional. Respondeu-me que tinha uma relação histórica com o Grêmio e acrescentou: “me preparei para treinar grandes times”.
As glórias que teve pelo Grêmio e com o Grêmio ficarão registradas para todo e sempre no nosso coração (no meu com certeza). Fez parte de um dos maiores times que já formamos. Foi campeão Gaúcho, da Copa do Brasil, do Brasileiro e da Libertadores. Sempre que esteve com a camisa do clube, seja como jogador seja como técnico, honrou aquilo que gostamos de nominar como imortalidade. Nunca deu as costas aos compromissos que lhe eram propostos. Mereceu e seguirá merecendo cada homenagem que recebeu desde então: dos pés na calçada da fama ao título de atleta laureado. Qualquer movimento que busque apagar a história e importância de Roger Machado é apequenar o clube, não bastasse ser inútil. O que ele fez com a nossa camisa está nos registros e foi gigante.
Melhor faremos se nos voltarmos para os problemas que levam o Grêmio a atual situação de dificuldade no Campeonato Brasileiro. Isso, sim, é preocupante e pode ser desastroso para a nossa história — esta que Roger ajudou a construir.
Montanhas, vales e planícies. Assim era um amontoado de terra e um punhado de pessoas que há 470 anos começaram a escrever uma história boa, ruim, interessante, diferente. As montanhas transformaram-se em arranha céus, os vales tornaram-se formigueiros de casas e comércios, as planícies em estradas, as avenidas e ruas cortando cada centímetro de uma terra que atrai felicidade e ganância, paz e tormento, tranquilidade e insegurança. Paradoxo de uma metrópole.
As pessoas, mestiças em sua maioria, não tiveram medo dos desafios, descobriram que a terra da pequena cidadezinha poderia ser as bênçãos de Deus para suas vidas e, com esse objetivo, várias outras pessoas desembarcaram naquela que seria a maior cidade da América Latina e uma das maiores do mundo.
Tudo aconteceu tão de repente que não dá para entender, pois a metrópole invadiu o mundo, fincou seus alicerces no meio da humanidade, implantou seu telhado por entre as plantações que existiam na época. O mundo nunca mais foi o mesmo, os transportes mudaram. Antes carro de boi, depois trens, ônibus, táxis, metrôs, lotações. As fazendas deram lugar aos condomínios, outra parte transformaram-se em fábricas, da noite para o dia transformaram-se em shoppings.
As pessoas simples e pacatas que passeavam pelas ruas da metrópole se enredando entre os bondes com seus chapéus. Hoje, piercing no nariz, cabelos vermelhos, roupas curtas, longas. Assim uma metrópole se transforma. Quem pode impedir o crescimento de São Paulo? Quem é louco para dizer que eladeve parar de crescer?
Os paradoxos de uma metrópole são algo sagaz e encantador. Observamos o bairro do Morumbi com suas mansões e prédios, rodeados por favelas de madeira e papelão. Os carros importados se confundem com os catadores de latas e seus carrinhos. O verde do Trianon com o cimento dos arranhas céus da Paulista. O cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, muro áamuro com a maternidade Cachoeirinha. O maior índice de doentes com o maior hospital da América Latina. O maior número de carros por metro quadrado e o maior trânsito de todo o Brasil. Um mundo de policiais e uma multidão de ladrões. Quem entende?
O amor a São Paulo nasce a cada manhã, pois com chuva ou sol ,a cidade se parece com as ondas do mar. Nunca se sabe o que a “maré poderá trazer”. O coração bate forte quando se enxerga a marginal lotada, e o alívio é rápido quando o fluxo se esvai. O corre-corre do centro é adrenalina pura, mata alguns e outros ficam milhões de reais muito mais ricos.
O amor a São Paulo transforma as pessoas de corações frios em labareda. Com a agitação do dia a dia não existe mau tempo. Toda hora é hora de uma cervejinha ou happy hour no bar da esquina. O coração fica quente de qualquer jeito. Eita terra boa que tudo dá.
São Paulo é assim. Uma metrópole sem fim. Cresce e cresce; desenvolve e desenvolve. Nunca para, nunca fica muda. Sempre em movimento, falante e altiva. São Paulo é maravilha. Pulsam corações de milhões de apaixonados a cada metro dessa que é nossa metrópole.
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Paulo Bregantin é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo
Neste final de semana ensolarado, com o fim de contrariar o ditado “santo de casa não faz milagres”, levantei disposto a conhecer a lendária “Fazenda Biacica”, nascedouro dos bairros Vila Curuçá, Itaim Paulista e Jardim Helena, na zona leste de Sampa. Eu moro a 15 minutos de carro deste lugar.
Embora estivesse disposto a ir mesmo caso não encontrasse quem comigo fosse, como a vida deve ser uma festa de pão e vinho a ser compartilhada, tive a ventura de ligar para meu amigo Izau que, por ser professor de história, de plano aceitou. Assim, como os irmãos Vilas-Boas, porém desbravadores urbanos do próprio quintal, rumamos ao local. Em lá chegando, ficamos fascinados com o que vimos e nos certificamos que tudo ali faz jus ao nome Biacica, derivado do tupi “imbeicica” que significa “cipó resistente”.
Posso afirmar isso porque, entre 1610 e 1611, a título de sesmaria, aquelas terras da região do Boi Sentado, localizadas na margem esquerda da várzea do Rio Tietê, estiveram sob o controle do bandeirante Domingos de Góes. Em 1621, passou ao domínio dos padres carmelitas. Foi quando deram início à construção da capela com estilo português, considerada um marco da colonização da região e denominada “Nossa Senhora da Biacica”. Tanto é que por muito tempo a região do Itaim Paulista, Vila Curuçá e a parte leste do Jardim Helena, era chamada de “imbeicica”.
A capela passou às mãos da família Fontoura, que a adaptou para um casarão de veraneio, já que às margens do Tietê. Apesar de algumas alterações, dá para notar as características sacras da construção. A família fez novos cômodos ao redor e uma varanda na frente da capela, com dois painéis de azulejos, datados de 1952. Os painéis retratam a chegada dos portugueses a São Paulo, em 1532, e a catequização de jesuítas, em 1554.
O casarão foi tombado pelo patrimônio histórico, nos anos de 1990, medida que já havia sido sugerida pelo escritor modernista Mário de Andrade, em 1937, quando a visitou como diretor do IPHAN em São Paulo.
E o que é melhor? É que tudo isso está protegido pelo “Núcleo Itaim Biacica”, parque inaugurado, em 2018, na várzea do Tietê, que além de preservar a natureza, com suas alamedas arborizadas, ainda protege parte da várzea. Se o Egito é uma dádiva do Nilo, nossa Sampa é uma dádiva do Tietê.
Pois bem, o espaço público de lazer e atividades esportivas, conta com 140 mil m², e parte dele com equipamentos de lazer e esporte, quadras poliesportivas, playground, campo de futebol, quiosques com churrasqueiras, academia ao ar livre e espaços de convivência, que podem ser usados pela população.
O oásis de que falo ganha maior relevância porque localizado no Distrito Jardim Helena, com 136 mil habitantes e um dos menores IDH da cidade.
Por estas bandas, há muito o que se fazer do que ensinou o Cristo, inclusive dar pão a quem tem fome, o que fizemos logo depois da expedição, quando comemos um baião de dois, acompanhado de uma deliciosa tilápia frita, regada a algumas doses de salinas, na Vila Nair, ao lado do Tietê, em São Miguel Paulista, porque nem só de pesquisa vive o homem.
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Arnaldo Bispo do Rosário é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem da nossa cidade. Envie agora o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Em 1947, meus pais compraram um terreno no Alto da Vila Prudente e logo começaram a construir num sistema de mutirão com irmãos, sobrinhos e cunhados. A primeira etapa a ser feita foi o poço que, quando atingiu 12 metros, nos deu a santa água! Foi uma alegria!!
Aos domingos, eu e o meu pai saíamos cedo, pegávamos o bonde aberto n° 32, Vila Prudente, na Praça João Mendes, e ali encontrávamos o tio Miro, esposo da tia Tica, Lídia por batismo e irmã do meu pai. Tio Miro era o nosso mestre de obras. Na ocasião, estavam construindo o Cine Marrocos, junto com o Antonio, o Tonhão, irmão do meu pai, e o Luizinho, cunhado do Tonhão. Com todos reunidos, seguíamos em direção à Vila Prudente. O bonde descia a Rua da Glória, Lavapés, e eu não via a hora da passagem pelo campo do Ipiranga F.C. Ficava na rua Silva Bueno, onde grandes craques jogavam: Ceci, Brandão, Rubens .… Lá vai o bonde na porteira do Ipiranga, parava para esperar outro carro, pois só tinha uma linha, e até vir outro a espera era por vezes longa, mas emocionante.
O bonde parava em frente ao Cine Vila Prudente. Até o Largo da Vila Prudente o calçamento era de paralelepípedo. Já a rua do Orfanato era uma subida de terra, que em dias de sol era uma poeira só, e no de chuva, barro e lama. No cruzamento da rua do Oratório tinha um orfanato enorme: ao lado, um casarão antigo do Dr. Camillo e um trilho entre os eucaliptos que nos levava ao terreno em frente: um enorme morro. Do terreno avistava-se a cidade e a torre do Banco do Brasil e ao nosso redor, só mato, terra e céu. Subíamos a rua até chegar ao terreno, onde a tão sonhada casa era erguida.
Os adultos assentavam os enormes tijolos que eu carregava um por vez, faziam a massa de barro, enquanto meu pai tirava água do poço. A casa subia devagar e assim foi até 1950 quando ficou pronta pra ser a nossa moradia.
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José Luiz da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você também pode ser personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Photo by Guilherme Gonu00e7alves Jaques on Pexels.com
Êh, São Paulo!
Foram doze anos muito intensos. Nos primeiros, muita correria. Já nem seria necessária uma agenda tão apertada; mas, o convite a superar novos desafios era tentador.
A recompensa veio com as amizades que fui conquistando. Umas, mais sólidas, me acompanharam com frequência e intimidade, fazendo-se presentes nos meus passeios de exploração cultural, gastronômica e ambiental dessa quatrocentona, que tem meu ritmo; e nas viagens mais longas, que serviram de teste e cola das nossas relações.
Levarei saudades dos nossos encontros na casa de um de nós ou em restaurantes honestos em qualidade e preço, onde passávamos horas jogando conversa fora; o respeito mútuo e ao vinho que acompanhava nosso papo estimulava a troca de ideias, sem confundi-las com as pessoas que as defendiam, consolidando nossa amizade.
Perdi a conta dos sítios onde também deixamos nossas pegadas: Sala São Paulo, Teatro Municipal, Casa das Rosas, Museus de Arte de São Paulo, do Ipiranga, da Imagem e do Som, da Língua Portuguesa e da Casa Brasileira, MASP, Pinacoteca, Japan House. Os parques Ibirapuera (“meu” Ibira), Villa Lobos e Água Branca.
Ah aqueles cafezinhos no CCBB, na Bolsa de Valores, no Pateo do Colégio e na Casa Mathilde, no centro histórico da cidade; ou na Livraria Cultura da Paulista, Reserva Cultural, Instituto Moreira Sales!
Guardarei para sempre os passeios no dia do aniversário da cidade, 25 de Janeiro. Saía de casa com uma mochila e um bom calçado de caminhada, para explorar o centro histórico com amigos, com olhar fotográfico para cada marca deixada pelos que por lá passaram antes de nós. O ponto de partida era, sempre, o da fundação da cidade: o Pateo do Colégio.
Nesse dia especial, sob proteção policial reforçada, até os bancos e coretos da Praça da Luz e da República ficavam seguros para uma parada de contemplação e fotos.
A beleza dos prédios históricos e da cidade limpa para a festa contracenava com a feiura da chocante quantidade de moradores de rua e pedintes. Com a consciência tranquila de que nossa parte estava sendo feita, seguíamos no passeio.
Descíamos pelo calçadão listrado da Rua General Carneiro, em busca de um pastel de bacalhau com cerveja bem geladinha no Mercadão (Mercado Municipal). Depois, subíamos a escada rolante que só os paulistanos conhecem, evitando a íngreme e lotada Ladeira Porto Geral, para tomar um café com pastel de Belém, na Doceria Mathilde.
Próximo passo era apreciar a cidade de cima do Edifício Martinelle e seguir pela Rua São Bento e Vale do Anhagabaú até oTheatro Municipal; de lá, seguir para tomar mais um café no SESC 24 de Maio, após um click em frente à Galeria do Rock.
Depois, um passeio na Praça da República e uma chegada no Bar e Lanches Estadão, para repor as energias com um sanduíche de pernil e um chopp, após dar uma passadinha pela Biblioteca Mário de Andrade.
Refeitos, seguíamos até o Parque Jardim da Luz, pela Av. Ipiranga, algo impensável pra mim, em dias normais. Incrível a beleza daquele parque, visto por dentro!
Dali, adentrar a Estação da Luz e apreciar, do andar de cima, o sobe e desce de gente e o vai e vem dos trens vermelho e cinza da CPTM; depois tomar mais um cafezinho na Pinacoteca, finalizando o dia pegando a linha azul do Metrô de volta pra casa, com o coração agradecido por aquele dia de sol maravilhoso e o privilégio da liberdade de ir e vir, como pedestre, em boa companhia.
Êh São Paulo! Você e os amigos que fiz por aí ficaram encrustrados na minha alma como as conchas na rocha! Até breve!
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Iêda Lima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Nasci no Hospital Nove de Julho, na época em que meus pais moravam na Vila Mariana. Vivemos na rua Dona Avelina até os meus 5 anos de idade.
Os muros das casas eram baixos, bem como seus portões. Acreditávamos que o “velho do saco” levava, em seus enormes sacos apoiados em suas costas, crianças desobedientes. Sim, éramos constantemente ameaçados de sermos carregados pelo “velho do saco”. Mas, imagine você, aos quatro anos de vida, a menina travessa, com muita energia, corria e brincava na rua. Rua de paralelepípedo.
Será que os nascidos no século XXI sabem ou já pisaram numa rua assim? Eu não só pisei como me ralei algumas vezes.
Digo sempre que estreei meus joelhos nos paralelepípedos da Vila Mariana. O primeiro tombo, inesquecível! Mesmo porque foi curado com mertiolate — o que arde, cura!.
O progresso e as melhorias da pavimentação chegaram e, nos meus cinco anos de idade, mudamos da Vila Mariana para o Planalto Paulista. Sensacional! Ladeiras lisas. As ruas já com asfalto pareciam um escorregador. Brincávamos de pega-pega, esconde-esconde, queimada, pula-corda e os meninos mais velhos e descolados ousavam se arriscar, ladeira a baixo na “pilotagem” de um carrinho de rolimã “made in home”.
Que época interessante. Nós, crianças até a década de 1970, amávamos quando, à noite, a luz do interior de nossas casas e das ruas era, repentinamente, cortada, e não chovia. Claro, era a combinação perfeita para deixarmos de fazer nossas tarefas escolares, buscar as lanternas e correr para a rua, onde encontraríamos com nossos amigos e amigas e as brincadeiras começavam.
Nossos pais, com olhos a postos, nos vigiavam atentamente sobre os baixos muros, pois, a escuridão era algo assustador… Era mesmo?
Assim que a luz voltava, se antes das dez da noite, ok, poderíamos seguir mas, se já passasse meia hora que fosse, “stop”, parem tudo, vamos entrar e dormir. Amanhã é dia de aula e vocês têm que acordar cedo!
Esta história é uma pequena recordação de uma infância paulistana, vivenciada nas décadas de 60 e 70, que se passava, literalmente, na rua que tinha casas com portas abertas ou destrancadas. Época em que se podia encontrar cadeiras nas calçadas, sobretudo, no verão, ocupadas pelas moradoras das vizinhança, para aquele bate-papo.
Pensar que Sampa um dia já foi vivida com pouco ou quase nenhum medo nas suas ruas que, majoritariamente, eram palcos de brincadeiras e felicidade.
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Glaucia Rosa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.