Conte Sua História de São Paulo 470: minha Móoca tem o cheiro do cotonifício e o sabor do cannoli

Italo Cassoli Filho

Ouvinte da CBN

Fachada do Cotonifício Rodolfo Crespi. Foto de Daniellima89 Domínio público

Destacar um ponto especial de São Paulo não é tarefa fácil. Cada lugar, cada cantinho, cada nicho tem seus encantos próprios.

Se você for ao Brás, Liberdade ou Bela Vista terás a oportunidade de vivenciar emoções diferentes ainda hoje.

Mas o meu “cantinho” é a Mooca…ahhh como eu te amo!

E essa paixão vem dos idos de 1960 quando passava as férias na casa do tio Américo e da tia Ida.

O encanto era ainda maior porque eu vinha de Pirassununga, uma realidade totalmente diferente. Desembarcar na estação da Luz e embarcar no bonde rumo a rua Javari passando pela rua dos Trilhos já fazia aquele menino tremer na base. 

Quando o motorneiro parava próximo ao Cotonifício Rodolfo Crespi, uma industria têxtil, fundada em 1897, que ocupava uma enorme área a minha pulsação disparava. Até a fumaça e o odor que ela exalava, me encantavam.

E assistir aos treinos e jogos do Juventus? Que felicidade vibrar com meu Moleque Travesso, aquele cannoli de sabor incomparável. Dá água na boca.

Dez anos depois, eu iniciei minha carreira profissional como professor. 

Onde?  No Colégio MMDC na rua Cuiabá. Claro, na Mooca. Destino? Se foi ou não, eu pouco me importei, a minha felicidade era estar novamente no bairro que aprendi a amar.

O bonde fora substituído pelo ônibus, que partia da Praça Clovis Beviláqua, e ao mesmo tempo que fazia seu trajeto projetava em minha memória um filme que até hoje, quando tenho a oportunidade de lá retornar, ainda vejo: a fumaça, o cheiro do Cotonifício, o sabor do cannoli, as vitórias do Moleque Travesso.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Italo Cassoli Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Venha participar das comemorações dos 470 anos da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br , acesse o novo site da cbn CBN.com.br, e ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 470: futebol no paredão de Pinheiros

Edison N. Fujiki

Ouvinte da CBN

Viajar para São Paulo, era uma aventura. O melhor era ir de trem: Estrada de ferro da Alta Paulista. Parava nas principais cidades: Adamantina, Marilia, Bauru, Limeira, Americana, Campinas e Jundiaí. Tinham outras que hoje já não me lembro mais. A viagem demorava 14 horas. Pela janela, a cada cidade que passava, meus sonhos ficavam para trás. 

Lá em Pacaembu, andávamos, descalço ou quando muito usava alpargatas, pescava e nadava num rio perto de onde morávamos. Levava o estilingue no pescoço, e minha paixão era jogar futebol.

Viemos morar com os irmãos num apartamento, na Cardeal de frente ao mercado de Pinheiros —- esse era um lugar que eu gostava: tinha verduras, uma banca que vendia animais e pássaros e aquilo me fazia lembrar dos meus tempos recém deixados para trás.  

Lá em Pinheiros, tinha a Cooperativa Agrícola de Cotia. Lembro que meus pais falavam deste grande empreendimento da colônia japonesa. E para meu deleite, onde os caminhões estacionavam para carga e descarga ficava vazio nos finais de semana. Eu pegava a minha bola de futebol, corria e chutava contra o paredão. Às vezes, transmitia a partida como um speaker de rádio.

Uma figura da época era o Luizão, que morava na rua. Fazia bico ajudando na descarga dos caminhões.  Quando estava embalado nos seus devaneios, Luizão gritava: “o tempo passa!”,  lembrando Pedro Luis, um dos maiores locutores esportivos de todos os tempos. A voz de Luizão ecoou pelas ruas de Pinheiros onde hoje está o Largo da Batata. O mercado não existe mais. O apartamento da Cardeal foi demolido. A sede da Cooperativa deu lugar a outros prédios. Meu campinho sumiu assim como o do Sete de Setembro, no fim da Rebouças que  agora é o Shopping Eldorado. 

O tempo, sim, o tempo passa!

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Conte Sua História de São Paulo: memórias fotográficas do Parque da Água Branca

Dora del Mercato

Ouvinte da CBN

Foto do perfil no Instragram @aguabrancaparque

O ano era 1987. Na época, eu com 23 anos e meu namorado, hoje meu marido, com 26. Éramos estudantes da Faculdade Cásper Líbero e usávamos os fins de semana para passear, namorar e fotografar. 

Um de nossos lugares preferidos era o Parque da Água Branca, na Barra Funda. Fácil de chegar e relativamente perto de nossas residências, nos encontrávamos lá quase todos os sábados para fazer fotos com uma máquina Nikon emprestada e depois revelaríamos o filme no laboratório da faculdade.   

Foram tantas e lindas fotos! 

Dentre elas um menino que trabalhava como pipoqueiro que não devia ter mais de 10 anos; idosos pensativos sentados nos bancos; e muitos animais atravessando as alamedas. 

Aprendemos a olhar com os olhos da alma, a admirar a beleza daquelas imensas árvores e ouvir os cantos dos galos. Tantas crianças, com pedaços de pão, correndo atrás das galinhas, patos e gatos, habitantes que viviam livres no Parque! 

No mini zoológico, alguns bois, bezerros e bodes ouviam desatentos os insistentes chamados das crianças penduradas nas cercas. Caminhando em direção a rua Turiassú, sempre parávamos no Pergolado. Lá, cantos de pássaros podiam ser ouvidos, e o local nos convidava a reflexão e quietude. Podia até imaginar esse sossego quando os portões se fechavam, depois de um dia intenso de sol. Os bichos se aninhando nas gramas, nas árvores, nos cantos. Em paz, enfim! 

Andando pelo parque, no meio de tantas árvores, parecia que não estávamos em São Paulo. O Água Branca era um oásis no barulho da Avenida Francisco Matarazzo.

Caminhávamos de mãos dadas, máquina pendurada no ombro, sem sentir as subidas que faziam parte dos diversos caminhos que nos levavam para as ruas Ministro de Godói e Turiassú. Parando ora aqui, ora ali, para uma foto, um comentário, um beijo! 

Muita coisa mudou na cidade e o Parque da Água Branca acompanhou essa transformação: envelheceu e soube manter seu frescor. Como todos na cidade, teve que se adaptar aos tempos: hoje tem aparelhos para ginástica, mesas e cadeiras para o café na feira orgânica, o Revelando SP, que apresenta comidas e artesanato de várias cidades do interior de São Paulo. 

O modo de fazer fotos também mudou. Hoje, os visitantes têm celulares e não precisam economizar o filme. Saem fazendo diversos cliques e fotos de tudo o que veem, muitas vezes se esquecendo de só olhar, de registrar a lembrança na memória e de andarem de mãos dadas pelas alamedas.

O Parque continua majestoso, recebendo de braços abertos pessoas de todos os locais da cidade e do mundo.  

Dora del Mercato é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Daniel Mesquita. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Venha participar da edição especial do Conte Sua História de São Paulo, em homenagem ao aniversário da cidade. Escreva seu texto agora e nvie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: cheguei com a cidada pronta para comemorar o Ano-Novo

Sonia Regina dos Santos

Ouvinte da CBN

Em 31 de Dezembro de 1967. Com 18 anos, alguns trocados e uma carteira de trabalho novinha, saí de Minas para morar em São Paulo. Da Rodoviária da Luz fui direto ao apartamento de um grande amigo, na Rua 24 de Maio, coração da cidade. Ao chegar, a melhor das surpresas: abastecida e decorada, a sala estava pronta para receber um novo ano, dentro de poucas horas, e, também, a me desejar boas-vindas.

Não se fizeram esperar os primeiros convidados; e antes de anoitecer, de longe se ouvia o genuíno sotaque paulistano dos rapazes elegantes e barulhentos. Bem mais tarde, as moças e, com elas, o tom da alegria, o brilho e a magia das noites de festa. 

De madrugada, descemos animados para ver a Avenida São João. Os bares e restaurantes lotados prolongariam ao máximo as comemorações do Réveillon. As luzes, a multidão em festa, uma energia quase a trepidar. Imersa numa espécie de doce euforia, a cada passo, mais e mais eu me distanciava de mim mesma e da minha pequena cidade.

Tantos anos se passaram e ainda me emociono em meio à multidão. Não é fácil, dela ser parte. Dá trabalho ser independente, ter liberdade. Nunca me curei da minha mineira cacofonia, mas São Paulo me aceitou mesmo assim, desde aquele Ano Novo. 

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Sonia Regina dos Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Você pode ouvir este e outros capítulos aqui no blog ou no podcast do Conte Sua História de São Paulo:

Conte Sua História de São Paulo: a rosa na escadaria da Sé

Márcia Dainez

Ouvinte da CBN

Vista da Praça da Sé a partir dos altos da Catedram, foto: Mílton Jung

Minha história em São Paulo começou em 1986, no bairro do Ipiranga, na visita a casa de umas tias que moravam na rua Bom Pastor. Até então, via São Paulo  pela televisão. Era algo distante de minha realidade, nascida e criada no interior. 

Foi naquele ano que surgiu a oportunidade de ir para a capital paulista. Na época, não tínhamos telefone. Era ainda por carta que avisamos de nossa viagem. Desembarcando na rodoviária do Tietê foi um desespero ver tanta gente apressada em chegar ao destino; e o tempo todo alguém dizendo: tenha cuidado, a cidade grande é perigosa! Pegar o metrô foi outra novela, tudo muito novo e arriscado.

Com parada na Sé, aproveitamos para conhecer a Igreja Matriz. logo na escadaria, um jovenzinho me ofereceu uma rosa, gesto que achei muito gentil,  afinal ele não me conhecia. Aceitei de imediato tal carinho. Até que o jovem deu o valor — não lembro quanto, mas era alto.  Devolvi a rosa!

Fomos ao metrô novamente e chegamos ao destino. Uma casa com algumas divisões em que cada pedacinho fora aproveitado. O pedreiro de um bairro distante pernoitava num cômodo nos fundos durante a semana e prestava serviços à minha tia já idosa como forma de pagamento. 

Ao lado, uma jovem equipou um outro espaço com potes e vasilhas pois estava sem emprego e montou ali a sua cozinha e o ponto de venda de bolos. Do outro lado, uma cabeleireira fez o seu salão. Tudo alugado. 

As tias falaram de uma peça com Ary Toledo, logo mais à noite. De repente me senti gente e conheci um teatro! No retorno pra casa vi que a cidade de São Paulo não parava mesmo e funcionava a noite toda. No dia seguinte, fomos conhecer o Museu do Ipiranga,  viver a história só lida nos livros da escola. Inesquecível!

As lojas todas com atendimento diferenciado. E, claro, trouxe um tecido lindo, do qual fiz uma camisa. Me orgulhava em vesti-la e dizer aos amigos: trouxe de São Paulo! 

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Márcia Dainez  é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: cantas por quê?

São Paulo 3×0 Grêmio

Brasileiro – Morumbi, São Paulo/SP

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A experiência do estádio ainda me surpreende. Os muitos anos de arquibancadas no Olímpico Monumental não foram suficientes para me oferecer todas as sensações que o futebol pode proporcionar — e quantas emoções eu lá vivi! Falo do Olímpico porque, quando a Era Arena se iniciou, já não vivia mais em Porto Alegre, o que me fez diminuir drasticamente a presença, ao vivo, nas partidas. Transformei-me em torcedor de sofá — que isso não seja visto como demérito, apenas como circunstâncias da vida.

Hoje, porém, dei-me o direito de assistir ao Grêmio no Morumbi. É aqui na vizinhança, pouco menos de 2,5 quilômetros de casa e a 10 minutos de carro. Tinha uma razão especial para ver a partida do estádio: Luis Suárez, nosso atacante que se encaminha para o fim da jornada com a camisa tricolor. É um privilégio ser torcedor de um time que tem um dos quatro maiores goleadores do mundo na ativa a lhe representar. Não canso de admirar o esforço deste gigante que faz o que está a seu alcance para tornar o Grêmio um pouco melhor do que é — não bastasse o talento com que toca na bola e chuta a gol, tem uma raça e uma forma de liderar exemplares.

De Suárez vi o que foi possível a medida que o time faz pouco para que ele apresente todo seu potencial em campo. Por mais que corra desesperadamente em busca de uma boa jogada, a companhia não colabora muito com a sequência do lance. O que me fez feliz em uma noite de infelicidade no futebol jogado no campo esteve na arquibancada do Morumbi, no pequeno e desconfortável espaço reservado à torcida adversária. 

No embalo da banda da Geral do Grêmio, os torcedores, mesmo descrentes em relação ao desempenho do time, entoavam cânticos de exaltação pelos feitos do Imortal. Faltava harmonia entre as letras que falavam de vitórias e conquistas e a performance da equipe. Essa dessintonia fazia do som emitido pelos torcedores algo ainda mais impressionante. Sinalizava o quanto eles (nós) têm noção da relevância daquele distintivo que carregamos no peito, do que representamos e alcançamos nessa longa jornada. 

O melhor foi reservado para depois do jogo. Após um jogo que jogamos abaixo da crítica, tão sem méritos quanto sem organização. Enquanto esperávamos a liberação policial para deixamos o estádio, a banda tocava de forma eletrizante. Dentre os torcedores que pulavam no ritmo das músicas, um menino de cabelos longos, nos ombros do pai, com a camisa de Suárez nas mãos, vibrava como se tivéssemos conquistado um título. Uma alegria contaminante! 

Foi na imagem daquele guri que me encontrei em sintonia com a história do Grêmio mais uma vez. A felicidade dele lembrou-me porque sou um apaixonado por este time. Por que cantamos mesmo quando em campo o time não encanta.

Conte Sua História de São Paulo: memórias da cidade que vivi e cresci

Por Ana Paterno

Ouvinte da CBN

Photo by sergio souza on Pexels.com

O meu amor por São Paulo começou em abril de 1971 quando, com oito anos, desembarquei na cidade, vinda de uma pequena aldeia da região do Douro, em Portugal. Aquele dia ficou gravado na memória como uma fotografia em preto e branco.

Vivi 30 anos na São Paulo da garoa, das chácaras cheias de árvores, que ocupavam enormes quarteirões em ruas com filas de sobrados e casas.

Vivi na São Paulo na qual se brincava sem medo com os amigos, na rua, de queimada, de esconde-esconde, de amarelinha, de tantos outros jogos. Num tempo em que havia bailes de garagem, matinê nos clubes Espéria e Tietê, carnaval com banho de seringa nas ruas. E, também, as quermesses.

Vivi a São Paulo dos ônibus elétricos nos quais íamos à escola e às compras no centro da cidade.

Vivi em uma São Paulo que era segura e na qual os vizinhos se conheciam e sentavam-se ao portão para conversar no fim do dia.

Tenho na memória a beleza das flores dos ipês amarelos, a cor do céu ao entardecer, o cheiro da terra molhada.

Cresci em uma cidade que também vi crescer. Com as construções de prédios, de shoppings, em número de habitantes, em ruas, em progresso. Em violência e problemas de infraestrutura, também.

Cresci como pessoa e como profissional. Formei-me em psicologia. Trabalhei na TV Cultura, um lugar onde já havia inclusão, igualdade e diversidade, num tempo em que mais do que falar sobre cada um, respeitava-se cada um. Lá conheci pessoas incríveis, cheias de histórias interessantes.

Em São Paulo, tenho família, tenho os meus amigos, os melhores, e para a vida toda. Pessoas que amarei para sempre. Continuarei a amar a minha cidade e todos os lugares que dela conheci. A cidade que ficará para sempre no meu coração.

Hoje, vivo no Porto, em Portugal, e amo a minha terra, mas sou feliz por ter essas memórias de uma cidade que foi e continua a ser um dos lugares mais importantes da minha vida.

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Ana Paterno é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite agora o meu blog miltonjung.com.br ou ouça o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: sofrer e vencer!

Grêmio 2×1 São Paulo

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Cristaldo comemora o primeiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Vencer era preciso. E o Grêmio venceu. Poderia ter sido mais bem resolvido pelo que mostramos no primeiro tempo. Porém, foi necessário virar o placar e ser resiliente durante os 54 minutos que duraram o segundo tempo da partida — tempo em que mais sofremos, até mais do que naqueles primeiros minutos de jogo em que levamos um gol em uma rara escapada de contra-ataque que não conseguimos impedir. Naquele momento, havia superioridade técnica do Grêmio e a dúvida era apenas quando sairia o gol de empate — empatamos e viramos.

Voltamos a sofrer para ficar com os três pontos, mas o que ouço nos botecos da cidade e nas resenhas esportivas é que saber sofrer é um mérito. E o Grêmio tem sabido. Hoje, o recuo da marcação para próximo da nossa área — que nunca sei se é tático, se é físico ou se é casual — fez com que tivéssemos de esperar até o apito final para comemorar a vitória que confirma nossa ascensão e nos coloca de volta no G4. Enquanto o jogo não se encerrava, o risco de uma sobra de bola ou chute desviado em direção ao nosso gol era enorme. 

O jeito gremista de sofrer nessas últimas partidas tem aparecido, porém de forma controlada. Deixando a bola com adversário — mais do que eu gostaria — mas sabendo travar a jogada, fechar os espaços, sendo dominante nos cruzamentos sobre a nossa área — a despeito do vacilo no gol que tomamos — e se der, mas apenas se estiver muito certo de que dará, tentamos o passe e a aproximação. Não é o melhor jeito de se jogar, mas é funcional, especialmente diante de adversários que também têm dificuldade de armar o jogo.

A defesa dá sinais de que se acertou com os três zagueiros e, hoje, os laterais conseguiram aproveitar bem essa estratégia, com os dois se soltando pelos lados do campo, chegando no ataque com perigo, tabelando com os homens de meio e até marcando gol — foi o caso de Reinaldo que recebeu um passe adocicado de Luis Suárez, bateu forte e contou com a colaboração do goleiro adversário. Antes já havíamos empatado em outra jogada que passou pelos lados do campo e acabou centralizada para uma sequência de chutes de fora da área que resultou no pênalti bem cobrado por Cristaldo.

Alguns nomes voltaram a brilhar. E precisamos começar a lista por Kannemann que foi dominante na área. Fábio e Reinaldo fizeram muito bem suas funções. Villasanti cobre todos os lados, assim como Bitello aparece para tabelar por todos os lados. Cristaldo além do gol teve a oportunidade de ampliar após receber um passe magistral de Suárez. E Suárez, bem, esse é gênio e a cada movimento que faz no campo a expectativa é saber o que ele vai inventar para se desvencilhar de um marcador, que tipo de chute vai dar em direção ao gol ou qual a solução que buscará para dar assistência ao colega mais bem posicionado — foi assim que chegamos a vitória.

O Grêmio tem sofrido e tem vencido. E com sofrimento e vitorias seguimos em frente na Copa do Brasil e firme e forte em direção ao topo da tabela do Campeonato Brasileiro. 

Conte Sua História de São Paulo: que sorte!

Por Janessa de Fátima Morgado de Oliveira 

Ouvinte da CBN

Photo by FELIPE GARCIA on Pexels.com

 

Quando era criança, pensava que tinha sorte por ter nascido em São Paulo. Não me lembro o que me levou a pensar assim. Acho que foi quando comecei a ter aulas de Geografia, quando aprendi sobre as migrações e o que motivava tanta gente de outras regiões do país a migrarem para lá, onde eu morava.

Já na adolescência, comecei a ter mais motivos para reforçar esse pensamento.

Nunca fui de sair muito. Minha diversão era estudar e aprender. Comecei nessa fase da vida a perceber o quanto a cidade tinha para me oferecer. Tinha como ter um ensino de qualidade, porque dispunha de ótimas escolas, públicas e particulares. Tinha acesso a uma biblioteca, que ficava perto de minha casa, além de ter o Museu do Ipiranga como um quintal. 

Cresci e a cidade cresceu para mim. Quando saí do ginásio e fui para o colegial, mudei de escola e diariamente embarcava no ônibus Pinheiros para o Paraíso. Levava de 20 minutos a meia hora para chegar à escola. 

Conheci o Centro Cultural São Paulo! As rampas de acesso que se cruzavam em planos diferentes me mostravam outras pessoas como eu, com interesses semelhantes. Foi nesta época que também conheci a Liberdade e a feirinha montada aos fins de semana. Até novos sabores me foram apresentados! Foi quando tomei, pela primeira vez, um Mumy de maçã, que hoje é o Mupy.

O fluxo de crescimento me levou a sonhar com a USP. Queria fazer uma boa faculdade, mesmo sem saber, ainda, qual seria a profissão que abraçaria. Todo meu foco estava em estudar para alcançar meu objetivo. Foi assim que meu mundo cresceu mais um pouco, me levando a conhecer o Campus da Cidade Universitária, no Butantã. Entrei pela primeira vez lá no dia em que fui me matricular no curso de Farmácia-Bioquímica. Precisei de uma “guia” para chegar até a faculdade. 

Trabalhei na Freguesia do Ó. Passava pela Av. Rio Branco, Av. Rudge, pelo Largo do Arouche ou pelo alto de Pinheiros.

Meu filho nasceu também paulistano. A cidade dele foi diferente, andando de metrô lotado desde cedo, na linha verde, para ir à creche da Faculdade de Saúde Pública — foi onde fiz meu mestrado e doutorado. Tentei oferecer a ele a melhor versão de São Paulo.

Essa a cidade em que vivi por 44 anos e que fez de mim muito do que sou. Que me emociona por ser tão generosa.

Cidade que continua a receber gente. Os refugiados da Síria, o povo vindo da Bolívia para trabalhar no Bom Retiro. São Paulo também exporta gente. É o meu caso. Nos últimos anos que vivi na capital, a vida foi difícil. Desemprego! Nunca tinha pensado que sairia da cidade onde tive a sorte de nascer. As circunstâncias me fizeram olhar para fora e consegui uma oportunidade de trabalho em Portugal.

Porque ela me deu tanto, a cidade, faço o mesmo por ela. Sou, aqui, uma paulistana. Generosa, como São Paulo, ensino e provo ao mundo que ela tem muito mais do que quantidade. Ela tem qualidade!

Janessa de Fátima Morgado de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Quer ouvir outras histórias, viste o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: Imortalidade posta à prova

Grêmio 3×0 São Paulo

Brasileiro – Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

Thiago marca seu gol, em foto de Lucas UebelGrêmio FBPA

O gol desperdiçado por Thiago Santos, com a goleira escancarada, no momento em que o Grêmio dominava o adversário, oferecia aos descrentes a prova provada de que nosso destino já estava traçado, neste 2021. Apenas mais um dos muitos indícios de uma jornada fadada à desgraça. Antes disso, bem antes disso, a performance no campeonato e os jogos perdidos, mesmo quando o time dava alguns sinais de reação, somavam-se a pênaltis não sinalizados, ao VAR enviesado, às derrotas improváveis e aos jogadores desorientados. A mensagem era clara: entregue os pontos, beije a lona e aceite a derrota. 

Thiago não aceitou. Lamentou, esbravejou e voltou à luta. Resignou-se a marcar pressão, forçar a roubada de bola e reiniciar a retomada para o ataque. Com ele, havia ao menos mais dez em campo e um tanto mais no banco. Uma gente disposta a mostrar para si mesmo que se havia uma só chance por esta chance batalhariam em cada pedaço do gramado. Independentemente do que viesse acontecer, desistir não era verbo a ser conjugado.

Coube ao próprio Thiago provar de sua força. Apareceu mais uma vez na cara do gol, onde se reencontrou com a bola, lançada por Diogo Barbosa, e de cabeça começou a reescrever a história. Colocou o Grêmio à frente no placar e conduziu o time à vitória necessária, diante de sua torcida. Verdade que a bola seguiu tentando nos pregar surpresas. Nos levar à descrença. Desviou em um poste. Chocou-se com o outro. Foi para fora, mesmo após ter sido tratada com o talento e a generosidade de Ferreira.

Foi, então, que o improvável voltou a se impor. Diogo, criticado pela torcida, escanteado do time, que deu assistência para Thiago no primeiro gol, assistiu a si mesmo, no segundo. Driblou com o pé esquerdo e serviu ao direito, que fez a bola tomar uma trajetória circular e se aconchegar no ângulo. Nem mesmo a dupla vantagem parecia tranquilizar os incrédulos que tinham na memória os empates cedidos e as derrotas entregues, em resultados que nos levaram a atual condição. Foi, então, que a perspicácia e precisão de Jonathan Robert enterrou a desesperança em um golaço marcado do meio de campo e por cobertura. 

O que assistimos na noite desta quinta-feira, que se desenhava trágica, pode não ser suficiente para nos manter vivos na primeira divisão. Temos de vencer as duas últimas partidas e esperar que a combinação dos resultados nos tire deste martírio. Uma tarefa mais complicada do que a outra, considerado a condição de nossos próximos adversários e a inconstância de nossa sorte (e futebo. Mas, com certeza, mostramos a incrédulos e crentes de que estamos dispostos, mais uma vez, a colocar a Imortalidade à prova.