O cérebro na pandemia: mulheres têm até 3 vezes mais chances de apresentar transtornos mentais

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem: Pixabay

 

Diversos estudos têm mostrado o potencial do coronavírus (SARS- COV-2) de invadir o sistema nervoso central, promovendo alterações estruturais e funcionais no cérebro de pacientes com COVID-19. Apesar de não haver precisão no número de pessoas afetadas e no tempo de duração das alterações neurológicas e psicológicas causadas pela COVID-19, pesquisas realizadas em diferentes países sugerem que uma parcela significativa da população mundial experimentará as consequências dessa pandemia na saúde mental.

Um estudo realizado na Espanha sobre os prejuízos psicológicos causados pelo COVID-19 revelou aumento de 7% dos casos de depressão, com maior vulnerabilidade para pessoas de baixo nível socioeconômico, mulheres e pessoas com rede de apoio fragilizada. 

Na China, país no qual surgiram os primeiros casos, os resultados dos estudos mostraram aumento no índice de ansiedade, depressão e uso nocivo de álcool, quando comparados com os índices populacionais anteriores à pandemia.

Um estudo conduzido pelo Instituto de Psicologia da UFRGS avaliou os indicadores de sintomas de transtornos mentais e identificou que ter a renda familiar reduzida, causada pelos impactos econômicos da pandemia, fazer parte do grupo de risco e estar mais exposto a informações negativas, como o número de mortos e infectados, são fatores que podem provocar maior prejuízo para a saúde mental. 

No Brasil, semelhante aos dados do estudo espanhol, as mulheres têm quase 3 vezes mais chances de apresentar transtornos mentais durante a pandemia. A violência doméstica sofrida durante o isolamento social é um dos fatores que contribui para essa estatística.

Além dos impactos emocionais relacionados à pandemia, prejuízos nas funções cognitivas, como atenção, memória e processamento de informações também estão sendo reportados em diversos estudos, como consequência de alterações no cérebro, mesmo em pacientes que tiveram a forma leve da doença.

As medicações usadas no tratamento da COVID-19 podem também promover alterações neuropsiquiátricas como amnésia, delírio, alucinações, mudanças de humor, comprometimento cognitivo leve e psicoses.

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Com base em dados obtidos em epidemias anteriores, como a síndrome respiratória aguda grave, ocorrida em 2003, e a síndrome respiratória do Oriente Médio, em 2012, 78% das pessoas apresentaram problemas cognitivos até um ano após a alta hospitalar.

Falhas de memória para situações cotidianas, como esquecer de tomar medicamentos ou compromissos, foram persistentes até cinco anos após a alta. Naquela época, foram identificados prejuízos cognitivos semelhantes aos que pesquisadores estão observando na pandemia atual, com falhas na atenção, memória, processamento de informações e funções executivas — habilidades cognitivas que envolvem planejamento e realização de tarefas.

Do mesmo modo que não é possível saber o número exato de pessoas que já foram contaminadas pelo coronavírus, possivelmente o número de pessoas impactadas por alterações neuropsiquiátricas também não está bem dimensionado. Assim, tão importante quanto as medidas de prevenção adotadas inicialmente, propostas terapêuticas e de reabilitação devem ser planejadas para atingir as necessidades específicas de cada pessoa, reduzindo as sequelas causadas pela doença, oferecendo ganhos no estado mental e na qualidade de vida do paciente e de seus familiares. 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A Saúde Mental pede socorro

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

O dia Mundial da Saúde Mental é celebrado no dia 10 de outubro, e tem se consagrado por ser uma data marcada por alertas e preocupações. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) aproximadamente 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental —- a maioria não tem acesso a tratamentos. Em países de baixa renda, cerca de 75% das pessoas que têm um transtorno mental não recebem nenhum tipo de tratamento. 

Além da falta de investimentos públicos, outro fator que impacta diretamente o acesso ao tratamento é a desinformação, sustentada pela forma histórica como as doenças mentais foram tratadas ao longo dos anos, favorecendo atitudes preconceituosas e discriminatórias.

No Brasil, até meados do século XIX a doença mental era objeto da justiça. Os pacientes psiquiátricos violentos iam para as prisões e os mais pacíficos vagavam pelas ruas, sem tratamento. Em função de mudanças que aconteceram em outras partes do mundo, as Santas Casas de Misericórdia começaram a admitir esses pacientes, porém, por serem numerosos, não foram mantidos por muito tempo. Em seguida, alguns hospitais psiquiátricos foram construídos, os Hospícios, para onde os pacientes eram levados e permaneciam isolados do convívio social. 

Somente após a década de 80, o surgimento de novos medicamentos permitiu que pacientes que permaneciam em internações por longos períodos pudessem ser tratados de maneira ambulatorial. Somando-se a isso, a mobilização de profissionais de saúde e de familiares de pessoas com transtornos mentais denunciando as péssimas condições da maioria dos hospitais e os maus tratos sofridos, como violências e torturas aos pacientes, permitiram o crescimento dos movimentos antimanicomiais, levando ao fechamento dos grandes hospitais psiquiátricos. 

O avanço da ciência favoreceu que muitas crenças associadas ao paciente psiquiátrico fossem revistas, porém, não impediu que ainda hoje estigmas e preconceitos estejam presentes.

Se em outras doenças os tratamentos são preconizados e seguidos, para as  doenças psiquiátricas há uma tendência coletiva de desvalorização dos sintomas, ainda associados a alterações do comportamento que envolvem escolhas pessoais e tentativas terapêuticas não comprovadas cientificamente. 

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Diversas ações podem ser adotadas na direção de promoção e prevenção em saúde mental. Dentre essas ações destacam-se políticas públicas que promovam melhoria das condições socioeconômicas da população, redução dos níveis de desemprego, incentivo à escolaridade, redução da violência e habitação segura; fatores apontados como os principais riscos à saúde mental de adultos.  

 A educação sobre os transtornos mentais também compreende promoção e prevenção em saúde mental, uma vez que a divulgação de informações em escolas, empresas, comunidades e mídias pode aumentar a identificação dos primeiros sinais da doença, permitindo o diagnóstico precoce e o tratamento adequado. 

Falar sobre transtornos mentais não aumenta a sua incidência e tende a reduzir significativamente os números supracitados associados à falta de tratamento. Buscar ajuda pode mudar o curso da doença, reduzindo a sua cronicidade, além de promover uma vida mais equilibrada e saudável, com menos sofrimento para os pacientes e seus familiares.

Demoramos muitos séculos para compreender que a saúde mental não é prêmio nem privilégio, não é escolha nem castigo. A união dos avanços terapêuticos às políticas públicas adotadas não nos permite mudar a história já construída, mas escrevê-la daqui por diante, com ações planejadas que mudem não apenas os números, mas a vida de tantas pessoas.  

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

The Social Dilemma: 14 dicas para reduzir o impacto de redes sociais e internet na sua vida

A mensagem é forte e provocadora: nós criamos o sistema e sabemos o mal que ele pode lhe causar; então, saia do sistema. É o que alertam os protagonistas do documentário The Social Dilemma, dirigido por Jeff Orlowski, que, certamente, está entre as sugestões que o Netflix lhe oferece sempre que você acessa o serviço —- e o faz baseado nos mesmos algoritmos manipuladores que são parte do sistema criticado por Tristam Harris, ex-designer ético do Google e co-fundador do Center for Humane Tecnhology e mais 20 professores, cientistas, pesquisadores, executivos, engenheiros e criadores que trabalharam nas maiores empresas de tecnologia do Vale do Silício. 

O documentário se presta a que veio: colocar uma dúvida na cabeça de cada um de nós sempre que olharmos para a tela de nosso celular. Faço por vontade própria ou estou sendo impulsionado a tomar essa decisão? Geralmente é a segunda opção, porque a engrenagem digital que está por trás dessas máquinas nos ensina a não pensar por vontade própria, nos conduz pelo caminho que lhe convier ou pelo qual seu patrocinador pagou. Causa distorções de comportamento, põe em risco sua saúde mental e o equilíbrio político que deve haver nas democracias.

Vale dedicar uma hora e meia de um só dia para assistir ao documentário e refletir sobre a manipulação que sofremos todas as vezes que acessamos o celular ou entramos na internet. É muito pouco perto das oito horas e meia, em média, que você despende clicando, arrastando, escorregando seu dedo para cima e para baixo na tela do celular em busca de imagens, vídeos, informações, comentários e da aceitação social representada por likes, corações e emojis. 

Oito horas e meia? Não acredita? Dá uma conferida no seu celular e procure “tempo de uso”. Fiz isso e tomei um susto.

Os 21 entrevistados do documentário fazem alertas, ensinam como funcionam as máquinas e sugerem caminhos para escarpamos das armadilhas digitais. Listei 14 dessas dicas:

  1. Desinstale todos os APP do celular que apenas tomam seu tempo
  2. Desligue ou reduza o número de notificações 
  3. Elimine qualquer notificação que gere vibração no seu celular
  4. Substitua o Google pelo Qwant que não armazena o histórico de busca
  5. Nunca clique em um vídeo recomendado para você no YouTube — sempre escolha você mesmo
  6. Use extensões do Chrome que removem recomendações
  7. Antes de compartilhar, cruze informações, veja outras fontes, pesquise
  8. Obtenha diferentes informações por conta própria
  9. Siga pessoas no Twitter das quais discorda para ser exposta a outros pontos de vista
  10. Se algo parece ter sido criado para lhe desestabilizar emocionalmente, provavelmente é
  11. Não deixe nenhum dispositivo nos seu quarto depois de um determinado horário da noite
  12. Permita redes sociais apenas na adolescência — a pré-adolescência já é difícil, deixe isso para depois
  13. Decida com seu filho uma quantidade de tempo para usar os dispositvos eletrônicos. Pergunte “quantas horas por dia você quer passar no seu dispositivo?” Eles costumam dizer um bom número.
  14. Saia do sistema

Depois dessas 14 dicas, duas perguntas minha:

Você tem coragem de adotar uma das sugestões acima?

O que você faz para reduzir o impacto das redes sociais na sua vida?

Voo de fênix: estratégias resilientes

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Foto: Pixabay

 

Vários povos da antiguidade utilizavam os mitos para explicar diferentes questões da vida humana. Um desses mitos refere-se à fênix, um pássaro lendário que, após morrer, ressurge das próprias cinzas. Não bastasse o seu renascimento, a fênix ainda tem como característica uma força extraordinária, capaz de carregar cargas muito pesadas durante o voo.

 

Devido a esse caráter simbólico, envolvendo renascimento, superação e esperança no futuro, a fênix tem sido frequentemente associada à resiliência, termo usado em Psicologia para explicar a capacidade de enfrentar e superar situações desafiadoras ou dramáticas, mantendo-se física e psicologicamente saudável.

 

Se houve um momento em que buscávamos compreender os fatores que levavam ao adoecimento, hoje há um interesse crescente em compreender os mecanismos pelos quais uma pessoa mantém a saúde mental, apesar das adversidades. Vários fatores estão associados à capacidade de resiliência, como autoestima, autoconfiança, criatividade, relacionamentos com familiares e amigos, habilidades sociais e espiritualidade.

 

Diversos estudos têm sido conduzidos, com o rigor científico e metodológico, e apontam que o envolvimento espiritual – capacidade de ter um sentido para a vida, independentemente de estar ou não relacionado com religião – está associado ao bem estar psicológico, como satisfação com a vida, felicidade e afetos positivos (o que não significa que pessoas que não têm atividades espirituais não sejam resilientes).

A capacidade de enfrentar as dificuldades e superá-las não é uma característica que temos determinada em nós, mas um conjunto de estratégias que vamos treinando e desenvolvendo desde a infância. Envolve aceitação, altruísmo e autorrealização: aceitar o que não se pode mudar; fazer algo para ajudar outras pessoas; realizar coisas importantes para nós. Em geral, as pessoas lidam melhor com as dificuldades e têm mais esperança quando a vida tem um significado, um propósito.

 

Para os que acham que pode ser tarde demais acreditar na capacidade de superação ou ter projetos para o futuro, cito aqui um trecho da poetisa Cora Coralina, considerada uma das maiores expressões da poesia moderna, cujo primeiro livro foi publicado quando ela tinha 75 anos:

“Nasci em tempos rudes. Aceitei contradições, lutas e pedras como lições de vida e delas me sirvo. Aprendi a viver”.

A resiliência não diminui as durezas da vida, não extingue as dores, mas minimiza o sofrimento e nos permite seguir em frente, com esperança em dias melhores. Otimismo? Pode ser, mas prefiro chamar de coragem. Como no mito da fênix, ainda que a carga seja pesada, que o renascimento (ou a resiliência) nos encoraje e nos habilite a buscar voos mais altos.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Da Nau dos Loucos ao tanque de roupa suja: “soluções” para os transtornos mentais

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Foto: Pixabay

 

Na obra o Alienista, de Machado de Assis, o médico Simão Bacamarte retorna à sua terra natal e constrói um manicômio, chamado Casa Verde, para abrigar os loucos da cidade e região. No início, as internações eram apoiadas pela sociedade, mas com os avanços de sua teoria, o médico chega a internar 75% da população, que se revolta. Então, Bacamarte revê seus estudos, liberta essas pessoas que estavam internadas e confina a outra parcela da população, invertendo seu conceito sobre a loucura: louco seria quem se mantinha estável em suas ações.

 

A busca por explicações sobre comportamentos estranhos ou anormais sempre esteve presente na história da humanidade. Documentos mostram que em 3.500 a.C., na Babilônia, já havia relatos do que hoje chamamos de transtornos mentais. Para os povos primitivos, a “loucura” não era vista como doença, mas como espíritos do mal que dominavam a pessoa e deveriam ser expulsos em rituais espirituais. Na cultura greco-romana, a loucura era decorrente do desequilíbrio de fluídos corporais. Na Idade Média, a ideia de que a doença mental era algo místico e religioso é retomada. Nessa época, a Igreja criou duas formas de controlar e isolar aqueles que apresentavam opiniões contrárias às doutrinas estabelecidas, chamados hereges: a inquisição, na qual o herege era cruelmente morto para que suas ideias não fossem difundidas; e a Nau dos Loucos, embarcações nas quais os loucos eram colocados, vagando pelos rios europeus.

 

No renascimento, a loucura passou a ser explicada de forma filosófica e o louco passa a ser visto como uma pessoa desadaptada e insignificante. Após a Revolução Industrial, o conceito de normalidade foi vinculado ao trabalho e a produtividade. O louco era visto como ocioso e improdutivo. Na tentativa de recuperação, o louco era internado, para aprender um ofício e torturado. No final do século XVIII, Pinel, médico francês, se deteve ao estudo da anormalidade, vinculando a loucura com cuidados médicos. A loucura passou a ser vista como doença mental, passível de tratamento, mas ainda reclusa aos manicômios. Após a II Guerra Mundial, o desenvolvimento da indústria farmacêutica e a descoberta de medicações permitiram o tratamento ambulatorial, ou seja, fora das instituições.

 

Se por um lado o interesse com a doença mental, especialmente na última metade do século passado, despertou o avanço de estudos científicos, como o desenvolvimento das neurociências; por outro lado, os estigmas associados aos doentes mentais sofreram mudanças menos acentuadas. Explicações reducionistas sobre as causas, mitos sobre a doença e soluções de tratamento pouco embasadas em métodos científicos, continuam a exigir das pessoas que sofrem com esses transtornos ter que lidar com o sofrimento e incapacidades decorrentes da própria condição e ainda ter que lidar com o preconceito e a discriminação.

 

Apesar dos transtornos mentais atingirem pessoas de diferentes idades, gênero ou nível socioeconômico, as representações sobre a doença e o doente ainda são permeadas de estigmas. Além das associações inadequadas às causas, o mesmo acontece em relação ao tratamento. Concepções sem embasamento científico ou mesmo preconceituosas, como aquelas que sugerem que ter uma doença mental é “falta de um tanque de roupa suja para lavar”, reforçam as crenças de que ter um transtorno mental é uma escolha e permanecer nele, uma decisão.

 

Ter um transtorno mental não é escolha, mas também não é punição ou castigo. Punição é não termos um sistema que permita o diagnóstico adequado e um tratamento eficaz que possa trazer menos sofrimento à vida de tantas pessoas. Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que, no mundo todo, menos de 10% das pessoas com transtorno mental têm acesso a tratamento.

 

Enquanto não mudamos esse cenário, compreender a doença mental pode nos aproximar do exercício da nossa humanidade, aceitando as diferenças, imperfeições, anormalidades de cada um de nós mesmos. Dr. Bacamarte tinha o propósito de encontrar, definitivamente, a diferença entre o normal e o patológico. Acabou descobrindo apenas em si características de perfeito equilíbrio mental e moral. Diante disso, liberou todo mundo do manicômio e lá se internou. “Fechando a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e a cura de si mesmo”. Dr Bacamarte deixou um legado: ensinou que de médico e louco, todos nós temos, de fato, nem que seja um pouco!

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: empresas estão preocupadas com a saúde mental de seus colaboradores, diz Gustavo Tavares

 

“Isso mostra também o caminho que as empresas estão levando agora no século XXI. Não é só o desempenho a qualquer custo, não é só o resultado e depois a gente vê o que acontece. É, também, garantir que essa jornada seja uma jornada caminhada com todo mundo da melhor maneira possível, o tempo todo” — Gustavo Tavares, Top Employers Institute

Com os riscos impostos pela pandemia, com as crises humanitária, sanitária e econômica, a pressão sobre os colaboradores das empresas aumenta. Muitos de nós estamos trabalhando em cenários diferentes, tivemos de migrar para o home office e nos adaptar muito rapidamente a novos modelos de trabalho e negócio. O impacto na saúde metal dos colaboradores foi intenso e as empresas precisam estar atentas a essas mudanças.

 

De acordo com Gustavo Tavares, gerente-geral do Top Employers Institute para as Américas, já é possível identificar situações de estresse, esgotamento mental, ansiedade e até mesmo consumo mais frequente de bebida e cigarro. Em alguns momentos até mesmo de aumento da violência doméstica. Diante disso, empresas têm adotado uma série de ações preocupadas com a saúde mental de seus colaboradores. Segundo Gustavo, 62% das empresas brasileiras certificadas pelo instituto disponibilizavam aos seus profissionais algum tipo de suporte psicoterapêutico com níveis crônicos de estresse, no início deste ano:

“O que mudou agora é que os modelos que tinham sido adotados (de home office) não eram para essa situação de hoje. As empresas tinham estruturas preparadas mas não para todo mundo ao mesmo tempo nem os cinco dias da semana. Sobre esgotamento mental tratavam muito mais da pressão do trabalho diferente desta que se soma a pressão social e familiar”

Em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN, Gustavo chamou atenção para o fato de que a produtividade no home office chega a ser 44% maior do que no escritório. Em casa, o profissional perde a interação com os outros colegas, reduz o tempo de almoço e esquece de fazer pausas durante o trabalho. Um conjunto de fatores que vai impactar na saúde do colaborador, com disparos de ansiedade e estresse.

 

Algumas empresas têm produzido manuais de conduta e alertas eletrônicos para lembrar o colaborador a parar a tarefa, beber água, caminhar um pouco e respeitar a hora do almoço. Além disso, têm investido na interação com seus profissionais:

“Não tenha medo de comunicar, garanta que todas as informações que precisam ser passadas para os seus colaboradores estejam sendo passadas. E é importante a gente garantir isso para que todo mundo esteja na mesma página, e todo mundo esteja absolutamente confortável na relação com a empresa neste momento tão específicos que estamos vivendo na nossa vida”

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. O programa tem a colaboração de Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Alan Martins.

Escrever e rezar

 

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foto: Pixabay

 

Na série de textos que publico desde a semana passada, resultado de capítulo escrito em livro que tem como tema a Expressividade, deparei com trecho dedicado ao silêncio e ao quanto devemos valorizá-lo no discurso. Silêncio é pausa e a pausa enfatiza o dito e o a ser dito; oferece espaço à reflexão, o que nos leva à aceitação, à indignação ou à depressão.

 

 

Verdade que no livro falava do silêncio em outra dimensão —- mas foi o suficiente para me despertar para o que experimentamos hoje. Nunca como agora, o silêncio tem sido tão freqüente em nosso cotidiano, mesmo que o confinamento imposto pelo vírus seja em família. É um choque diante do que vivenciávamos até então, em que a algaravia das redes sociais nos impedia de ouvir o outro e a nós mesmos.

 

O silêncio de agora, que está na rua com poucos carros que se atrevem a passar, e com a ausência das crianças no pátio da escola na esquina, nos permite tanto ouvir os passos do vizinho no corredor da casa ao lado quanto os passarinhos que se divertem com a calmaria urbana.

 

De todos os sons que se acentuam, nenhum é mais incômodo do que o da própria mente, onde nossos pensamentos percorrem o passado e o futuro, sem respeitar o presente. É como se o tempo todo, você estivesse dialogando com alguém que o conhece mais do que nenhum outro seria capaz de conhecê-lo. Sabe de seus segredos, seus medos e suas fragilidades. Uma ameaça constante, da qual não conseguimos nos afastar porque segue dentro da gente. Persegue a gente.

 

Imagino que refletir o silêncio dessa maneira é um sinal de alerta, que não devemos desdenhar. Desde os primeiros dias de isolamento, médicos, gaiatos e amigos nos chamam atenção para a necessidade de protegermos também nossa saúde mental. Porque do vírus, temos alguns instrumentos para nos defender: a reclusão, o distanciamento, a máscara e a sorte de não cruzar por alguém contaminado. Da mente, não há como fugir. Está ali o tempo todo. De cara lavada. Sem máscaras.

 

O medo que nos cerca pela doença que viraliza, que faz sofrer, infecta e mata, se estende a todas as outras ameaças que temos em pensamento. O que estava lá guardado em algum lugar qualquer da alma, renasce. O pecado redimido volta a ser pecado. O temor recluso retorna para nos apavorar. Um sentimento indescritível de que você seja a causa de um mal maior que vai contaminar pessoas inocentes.

 

Recomenda-se meditação. Fala-se em buscar alguma distração. Prefiro escrever, com todos os limites da minha escrita; e rezar, com todas as dúvidas da minha crença. São os únicos instrumentos que tenho em mãos para conter toda essa apreensão, após um mês em confinamento completado nesta terça-feira.

Mundo Corporativo: Luciana Coen, da SAP Brasil, fala de como as empresas podem ajudar na saúde mental dos colaboradores

 

“A única forma de você fazer com que as pessoas se sintam à vontade em mostrar suas próprias fragilidades é se os líderes mostram” — Luciana Coen, SAP Brasil

O painel sobre saúde mental em um evento de negócios foi o mais procurado pelos colaboradores, parceiros e convidados da empresa. E foi este interesse do público que sinalizou à SAP Brasil a necessidade de implantar políticas internas que incentivassem as pessoas a falarem do tema, criarem ações protetivas e buscarem ajuda de profissionais. Depois dessa experiência, em maio do ano passado, a SAP se impôs o desafio de se transformar em uma empresa sem estigma, na qual os funcionários se sintam à vontade para falar sobre problemas de saúde mental.

 

Em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo da CBN, Luciana Coen, diretora de comunicação e sustentabilidade da SAP Brasil, disse que apesar de os casos de doenças mentais estarem aumentando no mundo inteiro muitos profissionais temem tratar do assunto internamente, devido a tabus e preconceitos. Uma restrição que se vê, inclusive, entre aqueles que ocupam postos de liderança dentro da empresa:

“Eu acho que comunicar e falar já é muito no que diz respeito à saúde mental, porque as pessoas ainda estão num mundo em que a gente tem vergonha de falar; quem faz terapia ainda tem vergonha de falar que faz terapia; não é para todo mundo que você abre e fala: estou saindo daqui para ir para a terapia”

A Organização Mundial da Saúde estima que, globalmente, depressão e transtornos de ansiedade custem à economia US$ 1 trilhão ao ano, devido ao absenteísmo, baixa produtividade e perda de talentos, a medida que algumas pessoas abandonam o trabalho. O problema é ainda maior entre os jovens —- a OMS calcula que 93% dos Milleniuns sofram algum tipo de distúrbio mental, como depressão, ansiedade, crises de pânico e dificuldade para dormir.

 

Algumas das estratégias desenvolvidas internamente na SAP, que podem ser replicadas em outros ambientes corporativos, foi oferecer sessões de Mindfulness —- técnica de atenção plena que passa por treinamentos de meditação — e a criação de canais de comunicação, nos quais os profissionais podem, anonimamente, consultar psicólogos por telefone, seja para séries de sessão ou apenas para tirar alguma dúvida ou angústia momentânea.

 

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, às 11 horas, no Twitter @CBNoficial e na página da CBN no Facebook. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h10, no Jornal da CBN, e domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Colaboraram com o Mundo Corporativo: Gabriela Varella, Arthur Ferreira, Rafael Furugen, Izabela Ares e Débora Gonçalves.