Minha conversa com Dora: a história inspiradora de uma mulher idosa lésbica que quebrou barreiras

Por Diego Felix Miguel

Reprodução do Instagram

No dia em que recebi o convite para escrever para este blog, a primeira pessoa que me veio à cabeça foi a Dora, uma das mulheres idosas que me inspirou a refletir sobre a velhice muito além das perspectivas convencionais.

Dora é lésbica, uma das primeiras idosas lésbicas assumidas que conheci. Faz questão de mencionar sua condição em toda oportunidade que tem, porque segundo ela, pouco pensamos ou falamos sobre a sexualidade e a orientação sexual de pessoas idosas, principalmente das LGBTQIA+. Isso prejudica a visibilidade para questões sociais e de saúde estão presentes nessa realidade.

O afeto sem medo de discriminação

Conheci Dora em 2017, no “Café e Memórias LGBT50+”, um encontro destinado à socialização e à convivência de pessoas idosas LGBTQIA+. É um evento organizado mensalmente pela Associação EternamenteSou, uma organização social sem fins lucrativos que atua em prol das velhices LGBT.

Desde então, sempre que a encontro, lembro da sensação que tive quando a conheci. Sempre disposta a abraçar e expressar palavras de afeto, Dora exala carinho e acolhimento, que muito se igualam a um amor maternal. É sempre muito gostoso estar com ela e experimentar esse sentimento, visto que, sendo LGBTQIA+, nem sempre vivenciamos esse bom afeto sem o medo de discriminação.

Passados quase seis anos do dia em que a conheci, cá estava eu, aguardando Dora numa lanchonete escolhida por ela no centro antigo de São Paulo. Queria saber mais sobre sua história de pioneirismo e coragem. A tarde estava chuvosa e fria.

Cheguei cedo, bem antes da hora marcada. A lanchonete estava praticamente vazia, apenas o vai e vem de pessoas que paravam rapidamente para comer alguma coisa. Enquanto esperava e observava a chuva, busquei na memória algumas histórias que já havia compartilhado com Dora para me preparar para o encontro.

O desafio do LGBTQIA+ ao serviço de saúde

Entre as lembranças mais marcantes estava a Dora ativista, que não perdia oportunidades para relatar, de forma incisiva, as dificuldades para ser bem atendida nos serviços de saúde, alertando para o preconceito e discriminação que mulheres lésbicas sofrem durante o atendimento. Foi dela que ouvi pela primeira vez que era quase impossível alguém como ela conseguir fazer exames ginecológicos: primeiro, porque alguns profissionais médicos consideram desnecessário o exame para pessoas que não praticam sexo penetrativo; e segundo, porque esses mesmos profissionais presumem que a pessoa idosa não é ativa sexualmente, com base simplesmente em sua idade. Não bastassem esses empecilhos, Dora contava também que, quando insistia em solicitar o exame, a título de prevenção e autocuidado, enfrentava o despreparo dos profissionais que não sabiam lidar com seu corpo, muitas vezes a machucando.

A denúncia de Dora confirma dados de pesquisas internacionais que apontam essa desigualdade de acesso aos serviços de saúde por parte das pessoas idosas LGBTQIA+. No Brasil, o geriatra e professor Milton Crenitte, coordenador do ambulatório de sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, foi pioneiro em apresentar dados que demonstram a iniquidade sofrida por mulheres idosas lésbicas em exames preventivos. Essa iniquidade é atribuída principalmente ao desconhecimento de profissionais em relação às questões inerentes a sexualidade e gênero, portanto colocando essas mulheres numa condição de maior vulnerabilidade e exposição a doenças como o câncer de colo do útero.

Um outro fator também endossa esse despreparo: o idadismo, que nos faz acreditar numa velhice assexuada e distante de temas relacionados a práticas sexuais. Mesmo quando se consegue transpassar essa visão, o resultado é a elaboração de uma estratégia de prevenção estereotipada, que dissemina o medo de doenças, e um reforço conservador sobre práticas sexuais, distantes da realidade de muitas pessoas LGBTQIA+.

Compenetrado em meus pensamentos, quase não percebi Dora me procurando na lanchonete. Fiz um sinal com as mãos, e enquanto ela se aproximava, observei uma certa alegria em seus olhos, que a deixava ainda mais linda. A senhora de pele escura, cabelos raspados à maquina e tingidos, tão vermelhos quanto seus lábios sorridentes, vestia uma blusa preta de veludo macio e com bordados brilhantes na gola. Em sua gargantilha dourada, um pingente em formato de coração trazia as cores do arco-íris, que estampava  seu orgulho por ser a mulher que se tornou.

Depois de um demorado abraço de reencontro, tentei iniciar a conversa a partir do que estava refletindo ali, mas fui delicadamente interrompido.

Dora queria contar a sua própria história.

Ajuda para ser quem se é

Aos trinta e poucos anos, Dora rompeu seu casamento heterossexual e se permitiu viver uma nova relação, dessa vez com uma mulher. Disse que esse processo, que aconteceu na década de 1990, só foi possível com o suporte social de uma instituição que frequentava e com a ajuda de uma terapeuta. O serviço comunitário tinha como missão o empoderamento feminino, com atividades fundamentadas em estudiosas do feminismo e que contribuíam para um olhar crítico em relação às desigualdades da relação de poder e violência contra a mulher.

Dora mencionou em vários momentos como o acesso a um serviço como esse, com um importante suporte emocional, a ajudou a ser quem realmente era e permitiu que conquistasse a sua autonomia. Sua vivência reforça o que diz a Organização Mundial da Saúde a respeito de oportunidades assim, por meio do conceito de Envelhecimento Ativo: os aspectos relacionados a autonomia (de escolha) e a independência (de ação) ao longo da vida são fundamentais para se experimentar uma velhice ativa e saudável.

Sabe-se que não é fácil romper a barreira sociocultural baseada na heterossexualidade, nem driblar os estigmas que cerceiam pessoas LGBTQIA+, como a promiscuidade, doenças, solidão e abandono.

Mas por meio de sua trajetória, Dora mostrou que estamos muito além dos estereótipos que nos desqualificam como pessoas. Mais que isso: ela provou que a vida de pessoas LGBTQIA+ não é  nem precisa ser baseada na heteronormatividade – convenções sociais baseadas numa perspectiva heterossexual.

Ela fala com carinho sobre o acolhimento de sua família quando passou a se relacionar com mulheres, da vida que construiu em conjunto com sua esposa e das amizades que conquistou ao longo de sua história, tão preciosas e importantes para seu suporte social.

Porém, nem tudo “foram flores” em sua história, mesmo depois de “se assumir” lésbica. Dora sentiu na pele, por exemplo, o que é viver um relacionamento abusivo, inclusive com episódios de violência – viu, então, que o machismo é violento e perverso e, infelizmente, também pode ser reforçado por mulheres. Mais uma vez encontrou apoio para entender e superar essa situação no serviço comunitário que frequentava.

Dora também falou sobre o papel da religião em sua jornada – um ponto comum com a minha própria história. Num processo de autoconhecimento, conseguiu transpassar o ideário conservador de um Deus punitivo para um que ama a diversidade, num contexto em que o amor é um dos mais sublimes sentimentos, em todas as suas possibilidades. Para ela, era a sensação de validação da própria existência, não para os outros, mas para si mesma, onde pode se permitir ser feliz, sem medo ou culpa.

Uma vida em três horas

Aprendi com Dora que nossas histórias precisam ser compartilhadas. Muitas pessoas vivem em condições parecidas e, a partir das nossas vivências, podem encontrar o conforto e a motivação para romper com as estruturas sociais que ferem sua autonomia e independência. Esse reconhecimento pode evitar sofrimentos e situações de vulnerabilidade.

Hoje, Dora é vice-presidente da Associação EternamenteSou e exerce um papel essencial no fortalecimento da representatividade de mulheres idosas lésbicas na sociedade. Ela ocupa um lugar importante de participação social e resiste a uma cultura que muitas vezes, por conta do machismo, idadismo e tantos outros preconceitos, coloca mulheres idosas lésbicas em condições de discriminação, onde são submetidas a invisibilidade e silenciamento, sem a oportunidade de fala para apontar suas necessidades.

Dora, apesar de todas as dificuldades, se manteve fiel à sua essência e dia após dia abre caminhos para que outros consigam fazer o mesmo.

Conversamos por três horas. Nem vimos o tempo passar. Quando nos despedimos, a chuva finalmente havia dado uma trégua.

Diego Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e membro da Diretoria da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo.

Pais, onde estamos na vida de filhos com deficiência?

Christian Müller Jung

Foto de Dobromir Dobrev

Esses dias assistindo a um desses programas dominicais na televisão deparei com mais uma reportagem a respeito da criação de filhos com deficiência.

Sem surpresa na abordagem. Lá estavam, novamente, duas coisas que me incomodam quando o tema é tratado. Primeiro, a figura paterna não existe. Segundo, o amor pelos filhos com deficiência é colocado em uma escala acima daquele que se tem pelos filhos sem deficiência.

Vamos partir do princípio que todo filho é uma dadiva. O amor incondicional não passa a existir com a presença ou não de uma deficiência. Existe porque existe. Porque se ama. Se é que você me entende!

Evidentemente, o envolvimento com o filho deficiente tem maior intensidade em razão dos cuidados, físicos e psicológicos, que ele exige. Ter um filho deficiente mesmo que seja uma escolha, como no caso de adoção, não é tarefa fácil! Deixe-me, porém, voltar ao assunto dos pais.

Como sou pai de uma menina deficiente, eu sei e já vi muitas dessas histórias de pais que pulam fora quando o problema surge. Não suportam o tanto de dedicação e paciência que é preciso, porque a partir daquele momento, em muitos casos, não se terá um filho que será independente quando chegar na fase adulta. Teremos alguém que vai precisar da gente para o resto de nossas vidas. Tem-se ainda a real preocupação do que será deles e quem os cuidará, já que pela expectativa de vida nós iremos embora antes deles. Não é coisa pra gente fraca!

Porém, conheço muitos pais que são exemplo de dedicação. Pais que casam com mulheres que já tem um filho deficiente e foram deixadas de lado no primeiro casamento por este motivo.

Pais que assumem com o maior carinho esse filho como sendo seu de sangue. Superam qualquer problema futuro em nome de um amor e dedicação. Pais que dividem a tarefa pesada da criação de um filho deficiente com a mãe dando equilíbrio a um casamento que algumas vezes se abala com esse inesperado acontecimento e que ninguém saberá lhe dar apoio a não ser o próprio tempo.

Eu sei o que fiz pela minha filha e o que venho fazendo. Quando ficamos sabendo que teríamos uma menina, pintei todo o quarto, montamos tudo para recebê-la da melhor forma. Por quase dois meses, com ela em coma, tinha que passar pela porta e ver o berço vazio sem saber se algum dia ela iria deitar ali. Lembro de quantas noites, depois dela ter chegado em casa, dormi no chão ao lado da cama com medo que ela tivesse uma convulsão como tantas que já tivera no hospital. Medo que parasse de respirar ou qualquer coisa do tipo. 

Você se dedica, se envolve, compartilha funções com a mãe, o casal enfrenta todas as barras pesadas que surgem no seu caminho e quando chega ao médico – e fomos há muitos neste tempo todo – você é considerado apenas uma figuração. O pai participativo não existe para aquele especialista. É como se falássemos com as paredes.  Eles olham e prestam atenção na mãe. O pai não existe, mais ou menos assim como nas reportagens da TV.

Claro que nem todos os médicos agem desta maneira, mas é preciso que se saiba que nem todos os pais agem da mesma maneira, também. É necessário entender a realidade de cada família.

Agora, pense comigo, se até profissionais acostumados com o cotidiano das crianças com deficiência nos tratam assim, imagine na reportagem da televisão.

Como escrevi logo no início, o outro aspecto que me incomoda é maneira como os filhos com deficiência são descritos. Por favor, não me veja como alguém cruel. Mas essa áurea de algo especial é muito mais bonita nas reportagens do que no dia a dia de quem se dedica a buscar uma melhor qualidade de vida aos seus filhos. E de forma geral as abordagens referentes aos filhos com algum tipo de problema é que eles são muito especiais. Sim, é lógico que são! Como todos os filhos são especiais para nós! Todos exigem cuidado, atenção e dedicação. 

Sem dúvida, quem tem maiores limites exigirá mais do que os que caminham e pensam por conta própria. Aliás, um alerta: é preciso cuidar muito desses que caminham e pensam por conta própria, porque eles também correm o risco de serem esquecidos em detrimento dos filhos com deficiência. E sabemos como é importante e necessário a atenção dos pais nas diversas fases da vida, sabemos das carências que eles tem, das dúvidas, das contradições que a infância e a adolescência nos impõe.

Não quero com este texto que você pense que sou um pai revoltado ou desgostoso com o que a vida me preparou, mas quero sim que saiba que a vida que levamos com os filhos deficientes é muito diferente de uma propaganda de margarina. Muito diferente da maioria das reportagens que assistimos. É uma vida dura, sim. Por vezes, é triste. É de eterna adaptação, é de estado de alerta. Muitas vezes temos de nos levar a superação para tolerar até mesmo comportamentos intempestivos. Fazemos de cada limão uma limonada. Tentamos tornar os dias o mais próximo do que idealizamos para eles. E, claro, também, sorrimos, nos emocionamos e comemoramos. 

Porque somos pais presentes, existentes! 

Christian Müller Jung é publicitário de formação, mestre de cerimônia por profissão e pai da Vitória e do Fernando. Colabora com o blogo do Mílton Jung — o irmão dele, com muito orgulho.

Mundo Corporativo: José Marcelo de Oliveira, do Hospital Oswaldo Cruz, fala do desafio de ser inovador aos 125 anos

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“Essencial é trazer a visão do cliente para dentro. Essa visão de cliente é o que desempata os dilemas e as discussões e o que alinha os interesses de uma discussão que muitas vezes é interna e não está sendo endereçada na perspectiva do paciente”.  

Dr José Marcelo de Oliveira, Hospital Oswaldo Cruz

O corpo clínico que oferece qualidade no atendimento e a cultura aberta para que o conhecimento seja compartilhado e a inovação se expresse. São dois dos elementos que permitiram que o Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, chegasse aos 125 anos de fundação, a despeito de ter enfrentado duas grandes guerras mundiais e duas pandemias de alta periculosidade —- a última bem conhecida de todos nós, a da Covid-19. Essa é a opinião do Dr José Marcelo de Oliveira que assumiu o cargo de diretor-presidente da instituição, em junho do ano passado.

Em entrevista ao Mundo Corporativo, Jota, como costuma ser chamado pelos colegas,  explica que a cultura aberta se realiza a partir de ferramentas colaborativas que permitem a coleta de ideias de qualquer um dos 3.500 profissionais e cerca de 4 mil médicos diante de temas ou desafios que surgem na instituição. Os colaboradores oferecem soluções que são analisadas pelos gestores e classificadas pelo próprio grupo, que participou da elaboração das propostas, e selecionará aquelas que serão implementadas na prática

“A gente usa essas ferramentas no nosso dia a dia para manter, mesmo com essa tradição dos 125 anos, esse time conectado”

Uma dessas soluções surgiu na pandemia, quando no auge da demanda de respiradores criou-se uma forma de ampliar o número desses equipamentos, que foram inicialmente construídos em impressoras 3D até que se chegasse a versão final do produto. Foram desenvolvidos mais de 300 desses respiradores no hospital e o código que permitia sua construção foi aberto e compartilhado a todas as instituições, grupos ou pessoas interessadas em levar a ideia à frente.

A cultura da qualidade e segurança para o paciente também é fomentada na instituição e precisa ter o engajamento dos diversos grupos de profissionais que atuam dentro do hospital, não apenas do corpo clínico, destaca José Marcelo de Oliveira: 

“Todos os membros dessa organização são profissionais de saúde, mesmo sendo da área financeira, da área de TI, de suprimento, etc e tal. Porque isso coloca uma postura de serviço. Porque o nosso modelo é um serviço de alta complexidade em função da vida das pessoas”.

A crise sanitária que se iniciou em 2020 obrigou a aceleração de outras tantas soluções. Mais do que isso, exigiu adaptação e agilidade no aprendizado diante de uma situação nova para a comunidade médica. O setor que avalia as tecnologias em saúde e busca o conhecimento que vem sendo trabalhado em todo o mundo passou a estruturar dados para que as tomadas de decisão fossem em curto prazo e no dia a dia da pandemia. 

A saúde mental dos profissionais também foi impactada, o que levou o hospital Oswaldo Cruz a criar programas de cuidadores mentais, que passaram por treinamento para que os colaboradores de qualquer grupo de trabalho se capacitassem a fazer um diagnóstico e a ajudar o colaborador que emitisse algum sinal de sofrimento. 

Para José Marcelo de Oliveira, os avanços tecnológicos virão no sentido de colaborar com a gestão da jornada do paciente, a partir de plataformas que facilitarão o acesso para agendamento e consulta de resultados de exames até o monitoramento de sintomas em um quadro pós-operatório — neste caso, melhorando a relação custo-benefício do lado da sustentabilidade:

“Antecipar o cuidado quer dizer que você vai gastar menos, o paciente vai ficar menos tempo internado, vai sair com menos intervenção e com menos sequela, eventualmente. E vai estar pleno para sua vida no convívio das doenças crônicas. O futuro da medicina será cuidar de doenças crônicas”.

Assista à entrevista completa com o Dr José Marcelo de Oliveira, diretor-presidente do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, ao Mundo Corporativo, em que também falou de como a instituição está implantando medidas pautadas pela diretrizes ESG:

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: tenha prioridades e mantenha os “copinhos” cheios para crescer profissionalmente, recomenda Ligia Buonamici, da Liz Lingerie

foto divulgação

“A gente precisa, na nossa cabeça, determinar as prioridades. Aquilo que te faz bem. A gente precisa aprender a ter um autoconhecimento e saber, realmente, olhar para dentro de você”  

Ligia Buonamici, empresária

Entre os sonhos e as realizações existe um oceano —- parafraseando aqui dito italiano que busca revelar a distância que separa ações de intenções. Para a empresária Ligia Buonamici, CEO da Liz Lingerie, isso não era um problema, mesmo que, no início, a ideia fosse construir uma escola de línguas. O ramo da educação foi deixado de lado, mesmo após a busca de especialização nos Estados Unidos, quando decidiu morar em Fortaleza com um namorado. Lá a oportunidade que surgiu foi em uma fábrica de lingerie — setor que a conquistou e no qual atua há mais de 30 anos.

O conhecimento e o gosto por língua estrangeira não foram em vão. Na fábrica de lingerie, Ligia era responsável, entre outras atividades, a apresentar as coleções para comitivas de americanos, além de ter contato com negociadores de outros países — ela domina com fluência cinco línguas. Em seguida migrou para a área de desenvolvimento de produtos, o que a obrigou a retornar à sala de aula:

“Eu me apaixonei (pelo setor) e tive que estudar tudo de novo. Eu me aprofundei bastante em todos os assuntos que envolviam desde o desenvolvimento do produto até a entrega desse produto na mão da consumidora. Foi aí que me encantei pelo marketing, pelo comercial”

A escolha por uma empresa de médio porte, na época, foi consciente. Segundo Ligia, havia o desejo de buscar desafios intelectuais e, ao mesmo tempo, crescer rapidamente. Empresas desse tamanho, de acordo com a empresária, tendem a oferecer essas possibilidades:

“Eu poderia no momento criar o meu negócio ou ir para uma multinacional. Às vezes, em um negócio pequeno, sem muito capital, você acaba tendo uma realização, sim, mas uma um desafio intelectual menor — e isso era uma questão muito forte para mim. Em uma multinacional, você tem esse desafio intelectual, mas geralmente os planos de carreiras  são mais alongados”.

O tema do conhecimento aparece em vários momentos da nossa conversa no Mundo Corporativo. Ao ser convidada para dar sugestões aos profissionais que pensam em se desenvolver na carreira e estarem preparados para os diversos desafios que surgem, Ligia lembra da imagem que mantém em um quadro na sua empresa, onde estão três copinhos: o do conhecimento, o das atitudes e o dos valores. É preciso mantê-los cheios o tempo todo.

O conhecimento precisa ser atualizado a todo instante. Para ela, um bom sinal de que esse “copinho” está se esvaziando é quando passamos a repetir com muita frequência a expressão “no meu tempo”. Cuidado! Por mais que a maturidade seja uma referência importante, é preciso estar sintonizado com os tempos atuais. 

As atitudes devem ser lapidadas a todo momento. E Ligia usa sua própria experiência para mostrar que é possível fazer mudanças. Disse que era uma pessoa muito agressiva e intensa no trabalho e, atualmente, consegue ouvir mais, considerar os feedbacks e ser mais permeável. Uma transformação que a fez crescer como ser humano.

Os valores são intrínsecos. E quando fala em valores, se refere a responsabilidade, honestidade e ética. Para Ligia, esses são mais difíceis de serem moldados porque estão no seu âmago.

“Preste atenção nos copinhos. Faça a análise dos seus copinhos, diariamente ou semanalmente.  E procure sempre fazer o que você gosta, o que você ama. Porque levantar todo o dia, passar horas fazendo alguma coisa que não te traze um prazer, uma emoção, não é a melhor forma de você viver a sua vida”.

Assista à entrevista completa com Ligia Buonamici, CEO da Liz Lingerie, onde também falamos da importância de se investir em diversidade, da projeção que as mulheres estão conquistando no mercado de trabalho, do desfio de se sobreviver à intensa transformação digital, além de um alerta para que se tenha uma vida mais saudável no ambiente de trabalho:

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Como enfrentar o desafio da dengue

Por Augusto Licks

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Talvez algum dia nos livremos definitivamente do coronavírus da Covid-19. Talvez! Isso seria graças à gigantesca engenharia farmacêutica construída em velocidade sem precedentes desde o surgimento da pandemia. Para esse esforço pesaram decisivamente o contágio avassalador do SARS-Cov2 e a consequente ausência de fronteiras geográficas ou climáticas em sua disseminação. A vida em todo o planeta estava ameaçada. Empresarialmente, isso traduziu-se em uma demanda comercial por vacinas jamais vista, gerando uma verdadeira “corrida do ouro” entre os grandes laboratórios. 

Hoje, presenciamos o sucesso dessa vacinação, ainda que não inteiramente consolidado, e constatamos que ele se deve a um fator-chave, que era imprevisível no início das pesquisas com os imunizantes: a mutação relativamente lenta do vírus. Fosse como a AIDS, com mutações bem mais numerosas, não estaríamos com a mesma perspectiva otimista de agora, não haveria como o lento processo de vacinação dar conta de variantes bem mais frequentes. É o que torna muito difícil a produção de vacinas para a AIDS. Além disso, o vírus da AIDS não tem o mesmo poder de contágio do novo coronavírus, o que de certa forma relativiza a urgência por uma vacina. Nesse caso, a prevenção só é possível através de cuidados higiênicos, pessoais e médico-hospitalares. Sem isso, a AIDS seguirá existindo indefinidamente.

Outras doenças também seguem existindo, entre elas a dengue. Pergunta-se o porquê de não termos campanhas de vacinação para esse mal endêmico, afinal trata-se de um vírus com poucas mutações, existem somente 4 tipos, cada um com subvariantes.

Vacinas até existem, resultado de mais de duas décadas de pesquisas mas, apesar de avanços recentes, ainda paira incerteza sobre eficácia e efeitos colaterais. Empresarialmente, pesa o fato de que a dengue não tem contágio a não ser pela picada do Aedes aegypti, um mosquito que existe somente em algumas regiões do planeta, portanto longe de gerar uma demanda por vacinas como no caso da Covid-19. 

Outro complicador é o fato de que o Aedes aegypti não transmite apenas dengue mas também outras doenças como malária, zica, e chicungunha. Uma vacina que funcione apenas com uma das doenças e não com as outras certamente não é ideal, o que reforça a prioridade de combate ao mosquito que as transmite. 

Acontece que o país em que vivemos sofre imensamente com a recorrência dessas doenças, então qualquer vacina já ajudaria, por limitada que seja. Como agravante, a presença do Aedes não se restringe mais a regiões tradicionais, está se alastrando. Tenho acompanhado com preocupação a ocorrência recente de surtos na minha cidade natal, Montenegro RS, bem como Porto Alegre e outras localidades onde a dengue praticamente não existia.

Espera-se que as autoridades sanitárias estejam se empenhando ao máximo para combater a doença, valendo-se das informações científicas disponíveis e também da experiência das regiões que já convivem habitualmente com esse problema há décadas.

É o caso do Rio de Janeiro, estado e capital, onde o clima predominantemente quente oferece condições muito favoráveis à propagação do mosquito Aedes aegypti. Em consequência, a região sofre com epidemias todo ano, especialmente entre os meses de dezembro e abril. 

A partir de maio, a queda de temperatura proporciona uma trégua a cariocas e fluminenses, mas não é garantia contra a ocorrência de casos. Chama atenção, de forma ainda mais preocupante, que a dengue esteja se manifestando em regiões onde as temperaturas são inferiores às do litoral sudeste brasileiro. É um fator novo a ser considerado, como demonstram os surtos no sul do país.

No Rio de Janeiro, o sofrimento com surtos mais críticos ocorridos há já alguns anos serviu como aprendizado e levou as autoridades a adotarem uma série de medidas de combate à dengue. Ruas passaram a ser percorridas com “fumacê” (pulverização com inseticida) e alguns bairros receberam ação ambiental de reprodução de variantes estéreis do Aedes aegypti.  

Porém, logo ficou claro que apenas medidas do poder público não bastavam, era como cobrir o sol com peneira. O planejamento precisava evidentemente da ajuda da população.  Iniciou-se então uma campanha de conscientização sobre medidas domésticas de prevenção, usando-se linguagem comum, para que as pessoas tomassem conhecimento prático dos detalhes importantes.

É preciso que as pessoas entendam que se deve evitar qualquer tipo de formação de água parada, não deixar pneus expostos ao tempo e sacrificar algumas plantas cujas anatomias retenham água: o “copo-de-leite” por exemplo. Assim como pneus, também estas plantas precisam ficar protegidas da chuva, o  mesmo valendo para qualquer tipo de objeto que possa reter água.

Uma situação muito problemática é das piscinas particulares, que precisam receber tratamento com produto químico para evitar que o mosquito delas se utilize. Às vezes ocorre desleixo por parte do dono, mas o pior é quando a piscina, ou algum tanque, bacia e outros recipientes de água estão em uma residência não-habitada. Nesse caso, não conseguindo localizar o proprietário, as autoridades se vêem obrigadas a forçar entrada no imóvel para adotar as medidas necessárias.

Técnicos da Fiocruz me observaram a facilidade com que o Aedes aegypti se prolifera após uma chuva prolongada, e até mesmo durante a chuva. Ressaltaram também que este mosquito se reproduz em água limpa, o que me fez deduzir que o Rio de Janeiro tem sido grande exportador de dengue, via rodoviária : caminhões de carga pernoitam, a chuva forma poças d’água sobre suas lonas, e aí vem o Aedes depositar seus ovos, que partem país afora. Acho que caberia alguma orientação aos caminhoneiros, e alguma fiscalização: tarefa para o poder público.

Não apenas isso. Entrevistado pelo repórter Ari Peixoto para um telejornal da Globo, observei a ele a grande frequência de empoçamentos  de água nas ruas, consequência de vazamento de tubulações. São situações crônicas que exigem medidas rápidas tanto da população como das autoridades, para que se notifique imediatamente e para que uma equipe de manutenção se dirija com rapidez ao local. Na prática, porém, isso nem sempre acontece e poças ficam dias à feição para que o mosquito nelas se prolifere. 

Assim, no Brasil, seguimos diante desse grande e incessante desafio.

Augusto Licks é jornalista e músico

Mundo Corporativo: Cláudia Pombal, da DaVita, diz que diversidade tem de estar na cultura da empresa

Imagem reproduzida da @DavIta, no Twitter

“Cultura vai muito além do que a gente bota numa parede, do que a gente faz no discurso. Cultura são os hábitos, são os costumes do dia a dia que nos levam a ter essa realidade”

Cláudia Pombal, DaVita

A diversidade no ambiente corporativo tem de ser legítima e genuína. Mais mulheres entre os colaboradores não é suficiente para que se tornem reais os benefícios que a pluralidade de visões pode trazer. É preciso que isso faça parte da cultura organizacional e tenha o engajamento dos líderes da empresa. É o que Cláudia Pombal, diretora de Recursos Humanos da DaVita Tratamento Renal, defendeu em entrevista ao programa Mundo Corporativo:

“A empresa tem de estimular que a mulher tenha esse protagonismo no ambiente de trabalho, bem como a mulher também tem de entender o seu valor e se colocar, também, nesse lugar. É uma combinação do ambiente ser favorável e a atitude das mulheres”.

A DaVita tem cerca de seis mil colaboradores e 70% são mulheres, muitas em postos de liderança — um facilitador nessa conta é o fato de atuar no setor da saúde em que as funções de enfermagem e auxiliar de enfermagem tradicionalmente são exercidas por mulheres. O grupo nasceu nos Estados Unidos há 20 anos e chegou ao Brasil em 2015, onde mantém 91 operações com presença em clínicas de diálise e hospitais. Por aqui, há um processo de expansão que se acelerou nos dois últimos anos, com 43 aquisições, em 2020 e 2021.

Para enfrentar a pandemia, a empresa teve de conviver com experiências diferentes ao mesmo tempo, pois se funcionários de áreas administrativas migraram para o trabalho remoto, os que atendem os pacientes tiveram de se manter na linha de frente. Houve maior demanda de serviços, o que obrigou a  DaVita a contratar em ritmo acelerado. Cláudia conta que em um dos períodos da pandemia, foram contratados 150 funcionários em apenas 15 dias. Uma das ações desenvolvidas pelo grupo foi a criação de auxílio psicológico para colaboradores e familiares.  Houve, ainda, maior preocupação com o engajamento das equipes, aprofundamento do olhar sobre as particularidades de cada uma das operações e um aprendizado intenso quanto a exigência de todos serem mais flexíveis, diante das mudanças de cenários.

“A pandemia veio para falar: tudo que você tem como crença é muito legal, te trouxe até aqui, mas não te leva para o próximo passo. Então, repensa e repensa rápido, e reconstrói muitas coisas no caminho”.

Cláudia é economista de formação e apesar de gostar muito de números se apaixonou mesmo foi por cuidar de pessoas e, por isso, logo cedo buscou conhecimento no setor de RH e foi convidada para atuar nesta área:

“Eu sou muito feliz e muito realizada. É um caminho incrível. Você aprende muito todo dia, é desafiada a lidar com gente e é algo que não tem fórmula, não tem receita”.

Assista à entrevista de Cláudia Pombal, ao Mundo Corporativo:

Colaboram com o programa: Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo, 20 anos: o 5G será uma disrupção na internet das coisas médicas, diz Fernando Paiva

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“O 5g para o ecossistema de saúde, quando a gente pensa em monitoramento remoto, seja de paciente, vai ser totalmente transformador”. 

Fernando Paiva

Uma central de comando que monitora à distância a saúde dos moradores da cidade; que usa as câmeras em áreas públicas não apenas para alertar para riscos na segurança, mas que sejam capazes de identificar, através do reconhecimento facial, que os dados captados de uma pessoa demonstram desvios de padrão e enviem a ela a mensagem de que deve procurar atendimento médico. Ficção científica? No nosso imaginário, com certeza. No campo da tecnologia, nem tanto. Hoje, já existe inteligência suficiente para implantar um sistema semelhante a esse que foi descrito por Fernando Paiva, no programa Mundo Corporativo.

Como a tecnologia influenciará o atendimento aos pacientes e contribuirá com a qualidade de vida dos brasileiros foi o tema escolhido pelo Mundo Corporativo para a estreia desta temporada que marca os 20 anos do programa.

Fernando não é médico por formação. É engenheiro, estudou economia, e administração de empresas; é apaixonado pela tecnologia de informação — talvez resultado das aulas de programação que teve quando ainda estava com apenas 13 anos. Hoje, faz mestrado em internet das coisas na área médica (IoMT), na Faculdade de Medicina da USP:

“Cheguei a um momento da vida que eu gostaria de gerar mais impacto social, que traria realmente algum resultado na vida das pessoas. E a área da saúde é apaixonante porque você sabe que no final do dia, quando você vai dormir, aquele trabalho que você realizou, de maneira direta ou indireta, está salvando uma vida, contribuindo com a longevidade”.

Entusiasmado com a chegada da tecnologia 5G ao país, Fernando identifica uma série de oportunidades que devem surgir nesse mercado; e chama atenção dos empreendedores para a necessidade de se enxergar o ecossistema de saúde no Brasil para entender melhor a jornada do paciente, que se inicia muito antes dele passar por laboratórios, clínicas e hospitais:

“Essa jornada se inicia dentro e fora do ambiente da clínica hospitalar. Quando você está fazendo um tratamento preditivo ou um acompanhamento preventivo, você já está inserido no ecossistema de ‘health care’’.

Se a cidade que monitora a segurança da saúde das pessoas é realidade ainda distante dos nossos olhos, no Brasil – o que ainda exigirá um debate técnico e ético – , existem outras mudanças que logo poderão ser percebidas com a oferta do 5G. A começar pela velocidade e constância na transmissão de dados e informações que pode agilizar o atendimento do paciente ou otimizar a telemedicina, experiência que passou a fazer parte da vida dos pacientes durante a pandemia.  O ‘home care’ – que permite tratamento fora de uma unidade de saúde especializada e oferece ao paciente o conforto de estar em sua própria casa e ao lado da família – será um dos sistemas mais beneficiados. O paciente poderá ser monitorado em tempo real e intervenções poderão ser feitas muito mais rapidamente.

“O 5G será uma disrupção”

Para que empreendedores e investidores entendam melhor como a internet das coisas médicas pode se transformar em oportunidade, além de conhecer o ecossistema da saúde e a jornada do paciente, Fernando Paiva deixa as seguintes sugestões;

  • Faça um mergulho profundo em tecnologia, porque elas são muito dinâmicas e transformadoras. É preciso conhecer o hardware, o software e a infraestutura tecnológica; isso é fundamental para o empreendedor.
  • Se você tem uma base muito forte em tecnologia, busque um consultoria especializada em saúde, converse com médicos e profissionais de saúde; dialogue com o meio para ter um ‘banho de loja’;
  • O ecossistema de saúde brasileiro tem suas peculiaridades e é extremamente conservador; não basta ter bilhões de dólares na conta para convencer que a sua solução é a melhor: é preciso falar a linguagem do setor.

Assista à entrevista completa com Fernando Paiva no Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feira, às 11 horas da manhã, na canal da CBN no Youtube, no Facebook e no site http://www.cbn.com.br. O programa vai ao ar aos sábados, às 8h15, no Jornal da CBN. E tem a colaboração de Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Renato Barcellos.

Janeiro Branco: a importância dos cuidados com a saúde mental

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

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Ao longo da história da humanidade, diferentes conceitos sobre o adoecimento mental conduziram a práticas desumanas que em muito contribuíram para os estigmas e preconceitos sofridos pelas pessoas que têm transtornos mentais.

Doentes mentais já foram considerados hereges; foram colocados em embarcações que vagavam à deriva por rios europeus; foram considerados perigosos e levados à prisão; já foram trancafiados em hospícios, excluídos do convívio social.

O avanço científico, especialmente o desenvolvimento das neurociências, permitiu novas compreensões e tratamentos dos transtornos mentais. Além disso, fenômenos sociais têm alertado sobre a necessidade de prevenção e promoção da saúde mental, conduzindo a estudos científicos que compreendam seus fatores de risco e proteção. 

A saúde mental de uma pessoa está relacionada ao seu bem-estar, ao autoconhecimento e a maneira como reage às situações de adversidades e conflitos, com o menor impacto sobre o seu funcionamento.

Alguns fatores de risco à saúde mental são apontados por estudiosos, como a experiência individual do estresse, a vulnerabilidade genética e fatores de risco ambientais, dentre os quais destacam-se: condições socioeconômicas desfavoráveis, como pobreza e falta de habitação segura, desemprego, baixa remuneração e violência.

Diante de tantos desafios e adversidades, o que permite que alguém se mantenha mentalmente saudável?

Ter esperança, satisfação em vários domínios da vida, autoaceitação, bons relacionamentos, maior capacidade de resiliência, maior tolerância à frustração, empatia, criatividade e espiritualidade são apontados nos estudos, como recursos e estratégias de enfrentamento mais positivas para o desenvolvimento da saúde mental. Esses recursos podem ser compreendidos como habilidades individuais para o enfrentamento, percepção de rede de apoio e engajamento social e autoconceito positivo.

Algumas atividades também estão relacionadas à redução do estresse, dos níveis de ansiedade e de depressão, tais como alimentação saudável, prática regular de atividade física, sono adequado, atividades de lazer, de relaxamento e de autocuidado.

Como cultivar essas práticas, quando há escassez de emprego, moradias inadequadas e tantas outras desigualdades sociais?

Cuidar da saúde mental não pode ser um modismo ou privilégio de alguns grupos sociais. É uma necessidade urgente e para todos, exigindo que programas preventivos sejam implementados, como políticas de saúde pública, tendo em vista o sofrimento que os transtornos mentais geram em pacientes e seus familiares e o elevado custo dos tratamentos.

Promover a saúde mental não é sinônimo de excluir das experiências de vida alguns sentimentos mais desagradáveis, como tristeza, raiva ou ansiedade. É colocar em prática ações preventivas que possam criar estratégias para que tais sentimentos sejam vividos, validados e superados sem o adoecimento emocional.

Cuidar da saúde mental não é uma ação individual. É coletiva, cuja responsabilidade recai sobre pessoas e organizações, sobre famílias, escolas, empresas e governantes. 

Somente é possível cuidar daquilo que se valoriza.

Mas qual é a medida de valor da nossa sociedade? Sucesso profissional? Dinheiro? Produtividade?

Enquanto houver negligência do autocuidado, privação dos momentos de lazer e aprendizagens que não priorizam o desenvolvimento de habilidades sociais, seremos levados à exaustão e nos manteremos adoecidos.

Que possamos criar uma cultura de saúde mental, como proposto pela campanha ‘Janeiro Branco’, não apenas como uma meta para esse mês, mas como uma cultura de saúde para o ano todo. 

Por um ano mais saudável, por um ano mais feliz!

Assista ao programa Dez Por Cento Mais sobre saúde mental, ao vivo,

nesta quarta-feira, dia 19 de janeiro, às 20 horas

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Observações de um sesamóide quebrado

Foto: Pexels

Um fratura nos minúsculos sesamóides, dois ossinhos tão ridículos quanto necessários do dedão, me proporcionou uma série de experiências baseadas em observações e agitou a semana que prometia ser de pasmaceira no noticiário e entediada no cotidiano. A começar pela prova de quanto o corpo humano pode ser frágil e o ser humano, dependente. 

Com a necessária imobilização do local fraturado, perde-se o movimento de uma das mãos e se restringe uma série de atividades para as quais damos pouca importância mas que podem se transformar em desafios que exigem malabarismo e súplicas de solidariedade. Tente amarrar o cadarço do sapato com uma só mão ou abotoar o punho da manga da camisa sem a mão do lado oposto – sim, eu sei, a humanidade tem coisas mais importantes com que se preocupar. 

Eu também, tenho. Trabalhar, por exemplo.

Por isso me espantaram dois dos profissionais de saúde que me atenderam nesses dias. O primeiro insistia que eu aceitasse o atestado médico me dispensando por uma semana. O outro, depois de saber que eu seguia dando expediente, concluiu: “então você é o dono”. Nem do meu nariz! Que, aliás, tentei coçar à noite e arranhei com a órtese de mão que estou “vestindo” em substituição ao gesso desproporcional que o hospital me obrigou a colocar por ser o procedimento mais barato.

Observei também a reação dos amigos e parentes diante do incidente. Foi reveladora de como temos dificuldades de encontrar a forma mais apropriada de solidariedade. Um, antes de eu terminar minha triste história – e eu só queria ter o direito de externalizar minha dor -, começou a falar dos acidentes que ele sofreu. Todos muito piores do que o meu. Sai da conversa arrasado: os casos dele eram insuperáveis. 

Teve o que exercitou a empatia, sempre recomendável nas relações humanas. Ao explicar que havia quebrado o sesamóide, ele logo se uniu a mim para dizer que é a “pior coisa que podia acontecer”. Ao deixar a conversa passei a cogitar a morte no próximo tombo que levar.

Um terceiro lamentou meu azar de ter caído quando faltavam apenas três degraus para chegar ao chão. Teria sido melhor que eu caísse da parte mais alta, então? 

Experiência pior foi o que os exames laboratoriais me proporcionaram. Nem tanto pelo exame em si, nem pelo atendimento recebido – todos os funcionários eram muito simpáticos. Enquanto esperava as imagens da tomografia computadorizada feita em equipamentos ultramodernos, me vi na posição de observador de um diálogo do período jurássico, protagonizado por dois clientes na sala de espera. 

Após a TV anunciar que o governo reduziria o tempo para a terceira dose da vacina contra Covid, o senhor, que parecia mais velho do que eu,  balbuciou algo para a moça, que parecia mais jovem do que eu. Foi a senha para o início de uma conversa que me faz saber que ambos tinham contraído a doença e tomado as duas doses da vacina. Daí pra frente foi uma sequência de absurdos. Ela reclamou que ninguém sabe o que está fazendo porque a orientação sobre número de doses e tempo de intervalo muda a todo momento: “eu vou esperar uns sete meses antes da terceira dose pra ver o que vai acontecer com quem tomou”. Ele contra-atacou: “conheço uma monte de gente que passou mal, eu não vou tomar o reforço. Até já peguei Covid!”.

No segundo episódio da conversa, os dois passaram a relatar sequelas deixadas pela doença. E o senhor, do alto de sua sabedoria, recomendou a ela um chá sei-lá-do-que que tem o mesmo “princípio ativo” de um remédio que está sendo desenvolvido na Alemanha para conter os males deixados pela Covid-19. A moça que havia revelado descrença na ciência que desenvolve vacinas, arregalou os olhos e, antes de se despedir, comentou: “se esse chá funciona mesmo, será uma revolução”. Pegou os exames, despediu-se e foi embora batendo firme os saltos no piso, levando a tiracolo a crença na sabedoria popular e o negacionismo à ciência.

Confesso meu desejo de ter intervindo na conversa ao menos para saber o nome do chá milagroso que resolve o que conhecemos por Covid longa. Preferi resguardar-me em minha própria ignorância. E resignei-me ao papel de observador, apesar de estar convencido de que se eu prestasse mais atenção na minha vida do que na dos outros, talvez tivesse percebido que havia um degrau no meio do caminho. E meus sesamóides estariam intactos.

Psiquiatra defende o uso da expressão automorte em lugar de suicídio, palavra que remete a ideia de crime

Foto de Daniel Reche no Pexels

Gol contra em Portugal não é gol contra. É autogolo. Palavra bem mais apropriada para explicar o ato de colocar a bola dentro das próprias redes. Ato jamais intencional, —- ao menos não em condições normais de pressão, temperatura e caráter. — como a expressão usada no Brasil pode dar a entender Foi o que pensou Carlos Francisco, torcedor do Boa Vista, de Portugal, quando leu texto em jornal lusitano do erro cometido por um dos zagueiros do time da cidade do Porto. Registre-se: torcedor por linhas tortas, já que admira o time português apenas pela camisa preta e branca que se assemelha com a do Botafogo do Rio, esse sim uma paixão. 

Carlos Francisco, além de gostar de futebol, é médico, psiquiatra. Depara com uma série de transtornos, desequilíbrios e fragilidades do ser humano.  Nos casos mais dramáticos, assiste pacientes com tendências a cometerem violências contra si mesmo, dispostos a deixar a vida como solução para dificuldades e sofrimentos pessoais. 

Chamamos isso de suicídio. Não apenas nós. As certificações médicas usam a expressão que, consta, foi registrada inicialmente em obra do médico inglês Thomas Browne, Religio Medici (1643), publicada em Londres. Foi ele quem criou em grego o neologismo  αυτοθόηος — autofónos, que se mata a si mesmo. Quando a obra foi traduzida para o inglês registrou-se a palavra suicide. 

Hoje, psiquiatras e profissionais de outras especialidades médicas e comportamentais, têm refletido sobre essa nomenclatura que remete a um ato criminoso — da mesma forma que homicídio, feminicídio, parricídio ou infanticídio. Dr. Carlos faz parte desse grupo e se inspirou no futebol português para defender o uso de expressão que considera mais adequada para identificar a ação que leva uma pessoa a atentar contra a própria vida: automorte

Na entrevista que Dr Luis Fernando Correia, Cássia Godoy e eu fizemos nesta manhã no quadro “Saúde em Foco”, no Jornal da CBN, o médico Carlos Francisco, mestre e doutor em psiquiatria pela Unicamp, e integrante da Associação Brasileira de Neuropsiquiatria, explicou que a troca de nomenclatura se justifica mesmo se levarmos em consideração as definições de suicídio publicadas na Classificação Internacional de Doenças, da Organização Mundial da Saúde. A CID —- lembra de já ter visto esta sigla em uma receita médica? —- é a base para identificar tendências e estatísticas de saúde em todo o mundo que contém cerca de 55 mil códigos únicos para as diversas causas de lesões, doenças e mortes. 

De acordo com Carlos Francisco, nas doenças que são relacionadas ao suicídio já se usa expressões como automutilação e autolesão. Um sinal de que é possível avançar no caminho de, em algum momento, adotar-se automorte em detrimento de suicídio, palavra estigmatizada e com uma caráter de criminalização:

“A gente tem de pensar no estigma terrível que é usar essa palavra Imagine alguém na família que teve uma pessoa que cometeu o suicídio: “ele é de uma família de um suicida”. Ou o próprio paciente que tentou se matar e não conseguiu consumar o ato: ele é potencialmente suicida. O paciente se sente como se fosse um criminoso”.

O prefixo ‘auto’, defendido pelo doutor Carlos Francisco, tem origem na palavra grega autos e também exprime a noção de próprio, de si próprio, por si próprio. Mais fácil assim de compreender mesmo no senso comum. Além disso, colabora com outro aspecto no tratamento da doença. O fato de se entender que a causa pode ser única, própria, individual, como chamou atenção, o  Dr Luis Fernando:

“Da mesma forma que não se deve generalizar o termo, também não se deve generalizar uma causa. Infelizmente, existe uma generalização da doença mental por trás da tentativa do suicídio ou da automorte”.

A banalização de debates sobre saúde mental pode limitar o diagnóstico de pacientes que sejam identificados com tendências de se matar. Faz esquecer que cada pessoa que cometeu ou tentou cometer o suicídio tem suas particularidades. Carlos Francisco ressalta ainda que, a despeito da discussão sobre o nome mais apropriado a se dar para este comportamento, o foco tem que ser o tratamento. E a principal instância de diagnóstico é a família. Nem medicina, nem psicologia, nem religião substituem a confiança afetiva que se tem com aqueles que nos cercam, desde, é lógico, que você conviva em uma ambiente favorável. Se a família consegue diagnosticar o problema é mais fácil encaminhar o paciente para o tratamento. 

Mudar o nome de uma doença em busca de torná-lo mais apropriado para a situação costuma ser processo demorado, mas não inédito. Um dos exemplos mais conhecidos da história da medicina é o do uso da expressão histeria, que podemos encontrar em textos que falam de Hipócrates e estudos psicanalíticos de Sigmund Freud —- apenas para ficarmos em dois dos grandes nomes da humanidade. Por acreditar-se que sua causa é resultado de disfunção uterina deu-se o nome grego hysterá que significa útero. Somente nos anos de 1990, a comunicada médica e a Organização Mundial da Saúde passaram a identificar a doença como transtornos dissociativos, tirando-lhe o caráter puramente feminino.

Ouça o Saúde em Foco, da CBN