Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: como Bad Bunny transformou a latinidade em um ativo cultural de massa

A latinidade ganhou escala global, entrou no centro do entretenimento e passou a funcionar também como marca cultural. O tema foi discutido por Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a partir do impacto provocado pelo cantor porto-riquenho Bad Bunny no mercado da música e no imaginário do público.

O caso chama atenção porque rompe uma barreira antiga no Brasil. Durante muito tempo, artistas latino-americanos de língua espanhola tiveram dificuldade de ocupar espaço amplo por aqui. Cecília observa que esse cenário mudou de patamar. “A latinidade deixa de ser algo marginal e passa a ser algo de massa, de apelo mais democrático, furando todas as bolhas”, disse. A frase ajuda a entender por que o debate vai além da música. Não se trata apenas de um artista popular, mas de um fenômeno que desloca referências culturais e reposiciona símbolos latinos no consumo global.

No comentário, Cecília lembra que os números reforçam essa mudança. O crescimento de ouvintes brasileiros de Bad Bunny e a disparada de execuções após o Super Bowl mostram como uma presença artística pode ampliar seu alcance quando reúne identidade, repertório visual e conexão geracional. Na leitura dela, o artista “reforça várias lentes do que é o latino”, combinando marca-país, vínculo com a geração Z e os millennials e até um traço político em sua forma de se apresentar.

Essa análise ajuda a entender um ponto importante do universo das marcas: elas não são feitas só de produto, nome ou logotipo. Também são construídas por símbolos, linguagem, comportamento e contexto. No caso de Bad Bunny, entram nessa conta a defesa explícita de sua origem porto-riquenha, o uso do espanhol, a estética vibrante, a dança, as gírias e a sensação de pertencimento que ele oferece ao público.

Jaime acrescenta uma camada que torna o debate mais interessante. Para ele, o sucesso da marca latina de Bad Bunny no Brasil também passou por uma espécie de chancela cultural dos Estados Unidos. “Foram os americanos, ou foi a cultura americana e mais especificamente o maior evento mundial americano, o Super Bowl, quem catapultou o Bad Bunny”, afirmou. A observação traz certa ironia: parte do público brasileiro pode ter se aproximado da latinidade depois de vê-la validada no palco mais poderoso da indústria cultural americana.

A provocação de Jaime toca num traço histórico do Brasil. Muitas vezes, o país se relaciona com a América Latina de maneira ambígua: geograficamente inserido, culturalmente próximo em vários aspectos, mas nem sempre disposto a se reconhecer plenamente como parte desse conjunto. Quando ele diz que é “como se nós tivéssemos de costas para a América Latina”, aponta para uma resistência antiga, agora tensionada pelo sucesso de um artista que transformou sua identidade em força de mercado.

A marca do Sua Marca

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso ensisna que fenômenos culturais não se explicam por uma única causa. A força de uma marca nasce do encontro entre identidade, contexto, linguagem, visibilidade e circulação social. A latinidade, hoje, parece ter deixado de ser apenas uma referência periférica para disputar espaço no centro da cultura de massa. Resta saber se esse movimento é passageiro ou se veio para ficar.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário

Inter 1×1 Grêmio
Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre (RS)

Final Gauchão Volta - Internacional x Grêmio - 08/03/2026
Festa do Imortal no Beira Rio Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário. Não há o que discutir!”. A frase de um dos maiores dirigentes que tivemos, Nelson Olmedo, sacramentou a conquista gaúcha mais marcante da história gremista: o título de campeão de 1977. Havia dirigentes e torcedores adversários questionando a vitória devido à confusão no minuto final da partida, que levou à invasão de torcedores tricolores ansiosos por um troféu que estava longe do Olímpico havia oito anos.

Desde aqueles tempos em que eu era um guri de calça curta e camisa tricolor, levado pela mão do pai até as arquibancadas do Monumental, o choro de perdedor é livre. Até aquele 25 de setembro de 1977, eu já havia chorado muito. O fato é que, digam o que disserem, reclamem o que reclamarem, o resultado em campo fala mais alto. E neste 2026, quando já sou um guri de 62 anos, o Grêmio foi maior.

O Imortal teve uma vitória contundente na primeira partida na Arena (3×0) e administrou o resultado na segunda (1×1), na casa do adversário. Para ter dimensão desta conquista: é apenas a terceira vez que fizemos a festa no Beira-Rio — a última havia sido há 20 anos. Foi a primeira desde que o estádio foi reformulado. Claro que isso também tem a ver com o fato de que muitos dos títulos dos últimos anos nós decidimos em nossa casa porque tínhamos campanhas superiores.

O jogo desta noite em Porto Alegre e a postura que o Grêmio adotou estão diretamente ligados ao que aconteceu aos 31 minutos do primeiro tempo do Gre-Nal na Arena. Não pelo que o adversário alega, mas por aquilo que o Grêmio construiu. A expulsão em pouco mais de meia hora de jogo foi resultado de uma marcação precisa e de um contra-ataque veloz. Aquela escapada de Amuzu, que se repetiria no segundo gol, foi mérito do Grêmio. Assim como foram a pressão na bola, a qualidade na troca de passes, os ataques velozes e a precisão nos chutes que permitiram que o Grêmio chegasse com larga vantagem à partida final.

No jogo deste início de noite em Porto Alegre, o Grêmio teve maturidade e personalidade para encarar o desequilíbrio emocional do adversário. Amuzu foi agredido na primeira tentativa de drible. Arthur, mais uma vez, foi caçado em campo. Monsalve sofreu falta em quase toda jogada. Havia ainda a esperada pressão sobre nosso setor defensivo, com o adversário empurrado pela torcida local. Nesses momentos, Weverton foi gigante em suas defesas — especialmente aquela com o braço direito, aos 12 minutos de partida, impedindo o que seria um gol praticamente feito pelo adversário, que poderia ter mudado a história do jogo.

Além de nosso goleiro, que calou críticos e descrentes, tivemos uma defesa muito segura na marcação, seja pelo sistema armado por Luis Castro, seja pelo ímpeto de nossos jovens zagueiros. Viery (21 anos), com o perdão pelo risco que correu de ser expulso em um lance desnecessário, e Gustavo Martins (23 anos) me fizeram lembrar os tempos de Geromel e Kannemann, guardadas as devidas proporções. Espantaram os perigos que rondaram nossa goleira, deram pouquíssimo espaço para os atacantes dentro da área e ainda contaram com a sorte que acompanha os virtuosos.

Destaque maior, claro, para Gustavo Martins, que mais uma vez foi decisivo não apenas na defesa. Apareceu na frente e marcou o gol nos acréscimos do segundo tempo ao aproveitar uma bola que veio da cobrança de escanteio. Nosso zagueiro já havia sido fundamental em vitórias passadas. Quem não lembra o gol de bicicleta que ele marcou na semifinal do Gaúcho do ano passado, que nos proporcionou disputar o título? O jovem da base entra também para a história do Gre-Nal por ter marcado o 1.200º gol do clássico gaúcho.

Quis o destino que ainda tivéssemos o prazer de lembrar o passado recente de vitórias gremistas quando Kannemann foi sacado do banco para cobrir o buraco deixado por Wagner Leonardo, que havia substituído Viery e acabou expulso no segundo tempo. O argentino, no pouco tempo em que esteve em campo, mostrou sua bravura ao dar um peixinho no pé do adversário na entrada da área. Mesmo ferido, seguiu em campo e foi premiado com a faixa de capitão e o direito de erguer a taça de Campeão Gaúcho de 2026. Nada mais simbólico do que retomar o título estadual com Kannemann em campo.

O Grêmio de Luis Castro ainda tem muitos acertos a fazer e ninguém deve se iludir com o título neste início de ano. A temporada será longa e dura. Precisamos voltar a ser protagonistas no futebol nacional e sul-americano. Missão difícil, considerando o poder econômico dos principais adversários.

Hoje, porém, era noite de lembrar o velho Olmedo. Porque, no fim das contas, o futebol costuma ser simples: o jogo termina, o resultado está no placar e a taça encontra o seu lugar. Desta vez, novamente, no armário tricolor. Como disse o cartola em 1977: “Bicho no bolso, faixa no peito e taça no armário. Não há o que discutir!”.

Avalanche Tricolor: coragem para seguir

Juventude 1 (1) x (4) 1 Grêmio
Gaúcho – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul (RS)

Gremio x Juventude
Weverton defendeu uma das cobranças de pênalti Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio está na final do Campeonato Gaúcho. Para muitos, não fez mais do que a obrigação. Eu comemoro. Especialmente diante das circunstâncias. Estar fora da decisão seria um desastre logo no início da temporada. O time está em reconstrução. Busca nova identidade. Testa jogadores recém-chegados. Investe em talentos muito jovens. E tenta superar carências que ainda existem no elenco.

O trabalho realizado por Luis Castro, a quem foi entregue a responsabilidade de refazer o Grêmio, corria riscos caso caíssemos diante do Juventude. E tudo o que o treinador português necessita, consideradas as condições, é tempo, paciência e equilíbrio para promover as mudanças.

A classificação, da forma como veio, ainda não oferece a tranquilidade desejada. Foram dois empates. O primeiro, em casa, quando não conseguimos sustentar a vantagem e fomos incapazes de superar um adversário que terminou com um jogador a menos. O segundo, saindo atrás no placar e escapando, no primeiro tempo e no início da etapa final, de sofrer mais gols. O time tem fragilidades evidentes e carece de definições em algumas posições.

O resultado, ainda assim, pode ser transformador. Oferece ao técnico e aos seus comandados um sinal de confiança. Mostra que a luta insistente e a resiliência diante dos reveses podem ser recompensadas. A coragem de alguns jogadores se sobressaiu.

Na partida desta noite, em Caxias do Sul, houve momentos de superação. Caso de Viery, zagueiro de apenas 21 anos. Em um lance estabanado na área, cometeu pênalti que deixou o Grêmio em desvantagem. Não se abateu. Avançou ao ataque e, sem medo de errar, acertou um chute de virada, de fora da área, para marcar o gol de empate.

Houve lances de revelação. Gabriel Mec, com apenas 17 anos, soltou o talento e deu novo ritmo ao ataque gremista, atuando como um meio-campista mais avançado. Com dribles, finalizações e valentia para enfrentar marcação dura, assumiu protagonismo — como lhe pediu o treinador pouco depois de sua entrada no segundo tempo, recado revelado pela repórter da transmissão do canal Premier. O guri ainda teve personalidade para converter um dos pênaltis na série decisiva.

Houve instantes de confirmação. Weverton, goleiro recém-empossado, sobressaiu-se. Defendeu a primeira cobrança e impôs pressão imediata ao adversário. A bola no travessão, na segunda penalidade, carrega a marca do temor que um goleiro multicampeão costuma provocar.

Houve cenas que só os atentos perceberam. Quando Luis Castro escolhia os batedores, o volante Noriega, posicionado logo atrás, pediu para cobrar. Ao ouvir a confirmação do técnico, respirou fundo, soltou o ar, relaxou os ombros — ritual de quem se prepara para decidir. E decidiu, convertendo a segunda cobrança.

O Grêmio precisará de coragem para atravessar essa longa reconstrução. Mostrou, ao menos nesta noite, que está disposto a merecer a confiança de seus torcedores — inclusive dos que ainda observam com desconfiança.

Avalanche Tricolor: fé e paciência

Grêmio 1×1 Juventude

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Juventude
Tetê comemora seu gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Reencontrei o padre José Bortolini na missa desta manhã de domingo. Havia algum tempo que eu não voltava à Capela da Imaculada Conceição, construída na esquina da rua onde morei boa parte da minha vida, em São Paulo. Nos últimos meses, tenho dado preferência às celebrações na comunidade de Nossa Senhora das Graças, ao pé do prédio onde moro atualmente. A fé, como o futebol, também se reorganiza conforme o endereço.

Padre José já foi personagem em outras edições desta mal-traçada crônica esportiva. Estudioso da Palavra, mestre em Sagrada Escritura e autor de dezenas de livros, ele segue, aos 74 anos, ministrando missas com uma dinâmica própria. Convive com uma doença que insiste em testá-lo, mas não lhe reduz a presença. Bortolini reaparece nesta Avalanche por outro motivo: é gremista de Bento Gonçalves.

Em muitas ocasiões, ao fim da cerimônia, trocamos impressões rápidas sobre o “nosso time”. Já houve domingos em que o sorriso antecipava a confiança para o jogo da tarde. Em outros, bastava um olhar para revelar a apreensão diante da fase da equipe. Nunca faltou fé. Nem ironia.

Neste domingo, porém, algo mudou. Assim que a missa terminou, aproximei-me disposto a decifrar quais sinais ele me transmitiria sobre o Grêmio, às vésperas da disputa por uma vaga na final do Campeonato Gaúcho. Cumprimentamo-nos. Desejamos um bom domingo. E paramos ali. Nenhuma análise tática. Nenhum palpite. Preferimos o silêncio.

Talvez seja isso que o Grêmio e Luis Castro estejam precisando: silêncio.

Silêncio para trabalhar. Silêncio para ajustar. Silêncio para reconstruir.

O time vem de temporadas marcadas por instabilidade. Sofreu gols em excesso, flertou com riscos desnecessários e alternou momentos de lucidez ofensiva com apagões defensivos. A troca de comando técnico e as mudanças no elenco indicam que há diagnóstico. Ainda falta continuidade.

Há sinais positivos. A equipe mostrou, no primeiro tempo da partida deste fim de tarde, organização na saída de bola e ocupação mais racional dos espaços pelos lados do campo. Houve triangulações interessantes e aproximação entre meio e ataque. Faltou transformar volume em finalização qualificada. No segundo tempo, o ritmo caiu. A linha defensiva voltou a apresentar desajustes no balanço, especialmente nas transições rápidas do adversário. E, diante da pressão, alguns jogadores optaram pelo passe lateral em vez do enfrentamento individual que poderia romper a marcação.

Não se trata de falta de capacidade. O elenco tem nomes capazes de entregar desempenho mais consistente. A incorporação de reforços, a saída de profissionais e a tentativa de estabelecer novo padrão de jogo exigem tempo — palavra que raramente encontra abrigo nas arquibancadas e nas redes sociais.

Enquanto a engrenagem não encaixa, convivemos com oscilações que frustram expectativas. Ainda assim, há diferença entre instabilidade e ausência de rumo. O que se percebe hoje é um processo em curso. Incompleto, irregular, mas identificável.

Ao deixar a capela, fiquei pensando que reconstruções não se fazem aos gritos. Nem no altar, nem no vestiário.

Às vezes, a fé também trabalha em silêncio.

Conheça o Orçamentômetro e saiba para onde vai o seu dinheiro em São Paulo

Foto de Jean depocas on Pexels.com

Você sabe quanto do dinheiro prometido para o seu bairro realmente foi gasto ou investido?

Em São Paulo, essa resposta está ao alcance de qualquer cidadão. O Orçamentômetro permite consultar, a partir do CEP, o orçamento da subprefeitura responsável pela sua região e acompanhar três informações centrais: quanto foi previsto, quanto foi ajustado ao longo do ano e quanto, de fato, já foi executado.

É um caminho direto para acompanhar serviços que interferem na vida cotidiana, como operação tapa-buraco, iluminação pública, manutenção de ruas e zeladoria urbana. O tipo de ação que não aparece em grandes anúncios, mas faz diferença na rotina de quem vive a cidade.

O projeto foi criado pela Agência Mural, com apoio do Pulitzer Center, “para ajudar moradores a acompanharem se o que foi prometido durante o ano foi cumprido em cada uma das subprefeituras de São Paulo e também nas secretarias municipais”. Os dados são oficiais, extraídos do portal da Prefeitura de São Paulo e atualizados diariamente. Eles ajudam a transformar números abstratos em elementos concretos de acompanhamento e cobrança. A ferramenta não avalia a qualidade do gasto. Mostra algo mais básico e igualmente relevante: se o dinheiro saiu do papel.

Acompanhar o orçamento da subprefeitura é acompanhar o trabalho que chega — ou não — à porta de casa.

São Paulo tem 32 subprefeituras. De acordo com os dados mais recentes do Orçamentômetro, sete delas executaram mais de 100% do orçamento inicialmente previsto. Oito delas chegaram a pelo menos 90% de execução.

No outro extremo, quatro subprefeituras não conseguiram investir nem 70% do que estava planejado: Sapopemba, Campo Limpo, São Mateus e Perus. No caso de Perus, a execução ficou em apenas 43% do orçamento previsto.

Quando o leitor entra nos detalhes, os números ganham ainda mais significado. Não houve execução de recursos em áreas como reforma e acessibilidade em passeios públicos, operação tapa-buraco, atividades culturais, desenvolvimento de espaços participativos e manutenção da Operação Descomplica.

Em um dos principais eixos de investimento local — Intervenção, Urbanização e Melhoria de Bairros, que concentra o plano de obras das subprefeituras — a execução em Perus ficou em apenas 11%.

O Orçamentômetro oferece mais do que respostas prontas. Ele entrega dados bem organizados que ampliam a capacidade de acompanhamento, fiscalização e participação do cidadão na gestão da cidade.

Avalanche Tricolor: mais confiança, menos certezas

Grêmio 1×0 Novo Hamburgo
Campeonato Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Novo Hamburgo
Carlos Vinícius, de novo Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Uma das últimas vezes em que estive no Estádio Olímpico foi ao lado do meu pai. Repetimos um ritual que nasceu na minha infância, quando ele fazia questão de me levar pela mão para assistir aos treinos coletivos do Grêmio. Eram atividades abertas à imprensa e, vez ou outra, também aos sócios. Eu tinha o privilégio de acompanhar o trabalho à beira do gramado, dividindo espaço com os repórteres que cobriam o dia a dia do clube.

Naquela visita derradeira, eu já morava em São Paulo e estava apenas de passagem por Porto Alegre. Não lembro quem era o técnico do Grêmio naquele momento. Um detalhe, porém, ficou guardado na memória. Mesmo com uma liberalidade que hoje parece improvável — os treinos agora são fechados —, os clubes já começavam a restringir o acesso aos jogadores. Um repórter setorista reclamava do assessor de imprensa porque determinado atleta não havia sido escalado para conceder entrevista na sala de conferências.

A cena me marcou porque eu também fui setorista de clube, nos anos 1980, tanto no Grêmio quanto no tradicional adversário. Naquele tempo, os jogadores circulavam entre os jornalistas sem cerimônia. Falavam ao fim do treino, ainda suados, antes mesmo de trocar de roupa. Das conversas informais surgiam confiança, fontes e uma cobertura esportiva mais rica. O jornalismo se fazia com presença, escuta e convivência.

Ao ouvir a queixa do colega, entendi que a relação entre jornalismo e futebol havia mudado — e não para melhor. Em outros tempos, estaríamos rondando os bastidores do clube. Agora, passávamos a depender da autorização de um intermediário cuja função é, por definição, filtrar o que pode ou não ser dito.

Não demorou muito para que os repórteres também perdessem o acesso aos treinos. Antes, até o placar do coletivo final virava notícia. Hoje, quase tudo se apoia em suposições. Em nome da estratégia e do sigilo tático, deixamos de contar quem foi testado, quem rendeu melhor, quem ganhou espaço. O futebol ficou mais hermético; a informação, mais rarefeita.

Lembrei de tudo isso ao acompanhar as reações de gremistas nas redes sociais após a vitória mirrada — e ainda assim decisiva — sobre o Novo Hamburgo. O 1 a 0 garantiu a classificação à semifinal do Campeonato Gaúcho, cumpriu o objetivo, mas ficou aquém da expectativa em relação ao desempenho do time. Vieram as críticas às escolhas de Luis Castro, tanto na escalação inicial quanto nas alterações do segundo tempo.

É provável que a maioria de nós não saiba o que acontece dentro do clube. Não temos acesso ao ambiente entre os jogadores, às condições físicas individuais, às respostas dadas no treino que antecede o jogo. Ainda assim, nos sentimos autorizados a julgar com convicção, oferecendo soluções simples e evidentes — aquelas que, curiosamente, só os profissionais que trabalham ali parecem incapazes de enxergar.

Não se trata de dizer que o técnico está sempre certo. Há erros de avaliação. Há insistências que custam caro. Há apostas que não se confirmam. Isso faz parte do futebol. O incômodo surge quando a crítica abandona a dúvida e se apresenta como certeza absoluta, adornada por adjetivos agressivos e ataques pessoais. O achismo ocupa o meio de campo. A verdade tem dono. Não há espaço para a hipótese, para o contexto, para o outro.

Imagino que muitas decisões da comissão técnica tenham fundamentos legítimos, ainda que não possam ser expostos publicamente. Às vezes, por proteção ao elenco. Em outras, pela tentativa de recuperar um jogador ou preservar o ambiente interno. Nem tudo cabe numa entrevista pós-jogo. Nem tudo pode ser dito em voz alta.

Que fique claro: o torcedor tem direito à passionalidade. Na arquibancada — ou diante da TV — migramos do aplauso à crítica na velocidade de um contra-ataque. Sempre foi assim. No Olímpico era assim. Hoje continua sendo. O problema é quando trocamos o espaço lúdico do estádio pelo território permanente das redes sociais e esquecemos que a palavra escrita permanece, fere e carrega responsabilidade. Julgamos apenas com base na emoção, sem informação e sem freio.

O Grêmio está na semifinal do Campeonato Gaúcho cumprindo sua obrigação. Fez um jogo no limite do esforço, considerando um calendário atípico e exigente. Luis Castro aprende a cada partida com quem poderá contar ao longo da temporada. Mescla o time porque precisará do elenco inteiro nos momentos decisivos. Às vezes se expõe, estendendo a permanência de um jogador em campo além do ideal — como ocorreu, novamente, com Carlos Vinícius. Em outras, administra riscos e aceita uma performance menos vistosa. Há razões para isso.

Desconsiderá-las por completo é comprometer um projeto que ainda está em construção.

Talvez o maior exercício exigido de nós, hoje, seja confiar no trabalho feito longe dos nossos olhos — mesmo que já não possamos acompanhar os treinos à beira do gramado, como eu fazia, tantos anos atrás, ao lado do meu pai.

Avalanche Tricolor: só me deixa ser feliz

Grêmio 5×3 Botafogo
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Botafogo
Carlos Vinícius comemora seu terceiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O que vier depois pode esperar. Nesta noite, eu só quero ser feliz. Dúvidas e tropeços existirão — outras dúvidas e tropeços ainda virão. Para o gremista, porém, é dia de comemorar. Queríamos ao menos uma vitória. O Grêmio de Luis Castro entregou mais do que se podia esperar.

Antes da bola rolar, me agradou a decisão do treinador. Foi a campo com o que havia funcionado melhor até aqui. Evitou insistir no que não rendia. Colocou Noriega como volante, Monsalve mais adiantado. No ataque, voltou a apostar em Pavón pela esquerda, coerente com o que ele havia mostrado na partida anterior.

Curiosamente, o caminho da vitória apareceu nas mudanças do segundo tempo. William entrou no lugar de Monsalve, que saiu lesionado ainda no fim da primeira etapa. A virada de chave veio, sobretudo, com Amuzu pela esquerda. O belga soltou a perna, partiu para o drible, incomodou os marcadores e encontrou Carlos Vinícius dentro da área — o seu habitat.

Vini da Pose fez um, fez dois, fez três. Gols que colocaram o Grêmio em vantagem. A bola procura Carlos Vinícius. Ele responde com faro e presença. Forte no corpo a corpo, cria espaço onde parece não existir. Diante do gol, decide. Neste início de temporada, é o atacante que mais balançou a rede no Brasil.

Carlos Vinícius faz gols, faz pose e contagia. O sorriso largo denuncia a alegria de quem ama o que faz. E nos faz felizes também. Tetê, com o primeiro gol com a camisa tricolor, e Edmílson, incansável, completaram uma vitória importante no Campeonato Brasileiro. Daquelas que dão confiança e personalidade. Daquelas que ajudam a afirmar um time ainda em construção.

Há ajustes a fazer. Reforços seguem necessários. Luis Castro precisa de tempo para implantar sua estratégia. Tropeços e dúvidas nos esperam. Hoje, porém, só me deixa ser feliz. Com Grêmio vencendo o Botafogo.

Avalanche Tricolor: as poucas boas notícias no empate

Grêmio 1×1 Juventude

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Juventude
Monsalve comemora o gol no retorno ao time Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foi apenas a sétima partida de Luis Castro como técnico do Grêmio, e essa realidade não pode ser ignorada. Ele ainda merece paciência, virtude cada vez menos presente na Arena. Para iniciar o jogo, o treinador português recorreu a um time alternativo, com poucos jogadores considerados titulares. A escolha fazia sentido: a classificação à próxima fase estava garantida, a manutenção do primeiro lugar na chave parecia tranquila e o jogo vinha espremido entre dois compromissos importantes do Campeonato Brasileiro.

Ainda assim, esperava-se mais do Grêmio, sobretudo por jogar em casa. Faltou pressão na saída de bola do Juventude e sobrou lentidão quando a posse era nossa. O primeiro tempo foi pobre. Quase não se criaram jogadas de ataque. Nada daquilo a que se assistiu animou o torcedor que foi à Arena.

A entrada do trio titular — Arthur, Amuzu e Carlos Vinícius — ao lado de Monsalve, que retornava de um longo período de lesão, abriu outra perspectiva, no segundo tempo. O time ganhou presença ofensiva e passou a ocupar melhor o campo adversário. A expulsão precoce de Arthur, porém, voltou a desorganizar o Grêmio. Mais do que o prejuízo imediato, a ausência do volante pesa na disputa pela vaga na semifinal, no próximo fim de semana. Com ele, o meio de campo ganha equilíbrio. Sem ele, o sistema entra em colapso.

Entre as poucas boas notícias, Miguel Monsalve foi a principal. Há tempos o torcedor aposta no colombiano como o jogador capaz de assumir o papel do camisa 10. Em dois ou três lances — especialmente no golaço que marcou — o jovem de 21 anos reacendeu a esperança de que esse protagonismo, enfim, possa se consolidar.

A outra rara boa notícia foi Noriega como volante. Forte na marcação e seguro no domínio da bola, mostrou credenciais que merecem atenção. Com o retorno de Balbuena — toc, toc, toc — talvez o nipo-peruano de 24 anos possa se firmar como parceiro de Arthur, oferecendo ao meio de campo uma alternativa mais consistente.

Aos trancos e barrancos, o Grêmio segue no Campeonato Gaúcho. No meio da semana, o compromisso pelo Campeonato Brasileiro exigirá entrega máxima. Com pouco tempo de trabalho e quase nenhum espaço para treinar, Luis Castro precisa ajustar o time sob a pressão de uma torcida ainda marcada pelos fracassos do ano passado e pelos tropeços deste início de temporada. O relógio corre mais rápido do que o calendário.

Avalanche Tricolor: correndo contra o tempo — de novo

Fluminense 2×1 Grêmio
Brasileiro – Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)

Gremio x Fluminense
Pavón foi destaque positivo. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O mais longo Campeonato Brasileiro da história já começou. Janeiro ainda nem fechou as malas e os times que sequer definiram seus destinos nos estaduais já são chamados a disputar pontos no torneio nacional. O calendário esticado do futebol brasileiro cobra seu preço desde a largada. E os três pontos de hoje valem exatamente o mesmo que aqueles que estarão em jogo na última rodada de dezembro.

Essa constatação torna a derrota do Grêmio na estreia algo ainda mais incômodo, mesmo fora de casa. O revés maltrata um torcedor que ainda digeria a frustração do clássico do fim de semana, no Gaúcho. Não pela dimensão do resultado, mas pela sensação de reincidência.

Sem transformar o episódio em crise, cabe a Luís Castro e à sua comissão técnica entender — e enfrentar — as falhas defensivas que têm acompanhado o Grêmio nas últimas temporadas. Fui buscar os números desde o retorno à Série A: 56 gols sofridos em 2023, 50 em 2024 e outros 50 no ano passado. São 156 gols em 114 partidas. É muito. Exige um poder ofensivo quase sobre-humano para compensar tamanha fragilidade atrás.

Às vezes penso que esse seja o preço pago aos deuses do futebol por termos assistido, durante oito temporadas, à maior dupla de zaga que já vestiu a camisa gremista: Geromel e Kannemann. Misticismo à parte, a realidade é objetiva e urgente. A defesa precisa ser corrigida, seja com reposicionamento de peças, seja com mudança no sistema de marcação. O problema não é novo e tampouco invisível.

Apesar disso, seria um erro iniciar uma caça às bruxas desenfreada em tão poucos dias de jornada. Luís Castro precisa de tempo — e o torcedor, de paciência — para ajustar o modelo de jogo que pretende implantar. Há caminhos claros a explorar: a qualidade de Arthur na saída de bola, a força dos atacantes pelos lados e a presença física e finalizadora de Carlos Vinícius dentro da área. O centroavante voltou a marcar num jogo em que recebeu poucas bolas em condição real de conclusão. Um sintoma, não um detalhe.

Faz falta, também, um camisa 10 que organize o meio-campo e dê fluidez às transições. William, que tem entrado no segundo tempo, além de não ser especialista na função, ainda é um esboço do que pode oferecer ao time. A engrenagem funciona, mas gira com dificuldade.

Um mérito de Luís Castro na partida foi apostar em Pavón, apesar das ressalvas e críticas da torcida. Provavelmente respaldado pelo que observa nos treinos, lançou o atacante argentino no segundo tempo. A entrada mudou a forma de o Grêmio atacar. O gol marcado por Carlos Vinícius nasceu de uma jogada construída por Pavón. O empate, que Gustavo Martins desperdiçou dentro da área, também passou por ele. Mais atitude do que brilho, talvez. Mas atitude faz diferença.

No fim de semana, o Grêmio volta a campo já com a cabeça dividida entre o Campeonato Gaúcho e o Brasileiro. A tendência é de uma equipe bastante modificada, até porque, na próxima semana, o calendário volta a apertar. Os três pontos desperdiçados agora precisarão ser recuperados em casa, independentemente do adversário.

O campeonato é longo. O tempo para errar, não.

Avalanche Tricolor: é preciso ouvir os sinais

Inter 4×2 Grêmio
Gaúcho – Beira-Rio, Porto Alegre (RS)

Grenal 449
Luis Castro comanda o time no primeiro Gre-Nal. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Os sinais estão por aí. Espalhados, discretos, insistentes. Falta-nos, quase sempre, atenção para percebê-los e alguma habilidade para traduzir o que tentam nos antecipar. Não é preciso ser vidente. Basta menos ilusão e um pouco mais de perspicácia.

Conto isso porque os sinais falaram comigo. E eu, como costuma acontecer, preferi não escutar.

Quando marquei o retorno da viagem de férias — que se encerra hoje — o Gre-Nal estava previsto para o dia anterior. Plano perfeito: assistir ao clássico com tranquilidade, direto do hotel. Um ajuste no calendário mudou tudo. A bola rolaria exatamente no horário em que eu estaria em voo para São Paulo. Lamentei. Perderia o primeiro clássico da temporada.

Havia saída? Até havia. Bastaria trocar a passagem. O problema é que as companhias aéreas cobram caro por mudanças repentinas. Pensei melhor. Gre-Nal fora de hora não valia tanto assim. Ainda que, como ensina a sabedoria popular, Gre-Nal é Gre-Nal.

Ali estava o primeiro aviso. Ignorei.

Logo após a decolagem, a comissária anunciou que o avião tinha internet. Um sopro de esperança. O processo parecia simples: baixar o aplicativo da companhia, fazer cadastro, aceitar termos, oferecer dados pessoais e, se possível, lembrar a senha criada em algum passado remoto. Nada funciona de maneira simples — o que já deveria ter sido entendido como mais um sinal.

Entre aplicativos, senhas esquecidas e dados inseridos de forma errada, consegui conexão. Fui direto ao site do GE. Quem sabe assistir ao jogo em vídeo, lá do alto. Ingenuidade. A internet não dava conta disso. Qualquer pessoa razoável teria parado ali. O gremista, não.

“Estão tentando me boicotar, mas não vão me afastar do Grêmio”, pensei, já desconfiando da própria teimosia. Se não dava em vídeo, iria no áudio. O rádio pela internet sempre salva. Lembrei da GZH. Um clique no play e pronto: a voz de Pedro Ernesto Denardin preenchia a cabine. Vitória parcial.

Ah, se eu tivesse ouvido os sinais do destino…

Resta torcer para que o técnico gremista tenha mais sensibilidade do que eu. Que saiba ler as mensagens deixadas por esta derrota no Gre-Nal, traduzi-las com clareza e transformá-las em aprendizado. O futebol, assim como a vida, vive nos avisando. Ignorar custa caro.