O rádio ao vivo é uma paixão antiga, dessas que o tempo só faz crescer. Em quase 40 anos de jornalismo, já vivi de tudo: tensão, tragédia e êxtase. Cada transmissão é como uma corda bamba, e o equilíbrio depende do improviso, da escuta e da alma. Planejar? Quase sempre é apenas um desejo.
Foi assim na manhã desta terça-feira, 14 de janeiro de 2025 — guarde essa data. Enquanto apresentava o Jornal da CBN, algo especial aconteceu. Eu compartilhava com os ouvintes os momentos decisivos de uma partida de tênis. Mas não era uma partida qualquer. Era a estreia de João Fonseca, uma promessa de 18 anos, no Aberto da Austrália, um dos torneios mais importantes do circuito internacional.
João enfrentava Andrey Rublev, o número 9 do mundo. E, no instante do match point, bem no momento em que falávamos sobre economia e a fake news da taxação do PIX (não haverá taxação, que fique claro), pedi licença à Cássia Godoy e à Marcella Lourenzetto. Não dava para deixar aquele momento escapar.
Ali, com o microfone em mãos, vivi algo que só o rádio pode proporcionar. Era como se estivéssemos todos na beira da quadra, testemunhando um jovem brasileiro escrevendo sua primeira página em um Grand Slam. A vitória veio: 3 sets a 0. João Fonseca, que muitos já apontam como a grande revelação do tênis internacional, deu um passo gigante para cravar seu nome na história.
Em meio a tudo isso, chegou uma mensagem de Ribeirão Preto. Um ouvinte dizia que, ao ouvir sobre João, sentiu-se transportado para os tempos de Gustavo Kuerten, quando o Guga surgia como um furacão no tênis mundial. “Revivi a emoção de acompanhar a CBN nos anos 90”, escreveu ele.
Por sugestão do Paschoal Junior, nosso mestre das operações de áudio, decidi guardar no meu arquivo pessoal o anúncio dessa vitória. Não é sempre que temos o privilégio de contar, ao vivo, o começo de algo que pode se tornar histórico.
E, como bem sabe quem ama o rádio, o histórico começa sempre com uma voz.
Valentino é uma das marcas de expressão na moda italiana
A relação histórica entre Brasil e Itália vai além dos laços de sangue e cultura; ela também se reflete fortemente nas marcas que moldam os hábitos de consumo dos brasileiros. Esse foi o tema central do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo, no Jornal da CBN.
No comentário, Jaime e Cecília destacaram como as marcas italianas deixaram sua marca no Brasil, tanto no comércio quanto na identidade cultural. “A Itália tem um papel enorme nas marcas, nos nossos padrões de consumo e na nossa identidade de consumo”, afirmou Cecília. Jaime completou: “Algumas dessas marcas são tão próximas a nós que parece que já são brasileiras porque vivem aqui entre nós há muito tempo.”
O programa abordou segmentos como alimentação, automóveis, moda e bebidas, onde marcas italianas têm presença expressiva. Na alimentação, o destaque foi para a Barilla, empresa que não apenas exporta para o Brasil, mas também possui produção local. No setor automotivo, ícones como Ferrari e Fiat ilustram extremos de público e vocação, enquanto clubes de futebol como Palmeiras e Juventus reforçam a herança italiana nos campos brasileiros.
Na moda, nomes como Prada, Valentino e Armani surgem como símbolos de um design único e de atenção aos detalhes. “Essas marcas ensinam muito sobre cuidado com os ingredientes, a matéria-prima e o design”, pontuou Cecília. Jaime ainda lembrou de marcas clássicas como Ferrero Rocher, produtora da famosa Nutella e dos Kinder Ovos, e Pirelli, sinônimo de pneus no imaginário popular. “Você passa perto da Ferrero e sente o cheiro de avelã no ar”, comentou.
A Marca do Sua Marca
O comentário deixou como marca principal a lição que as marcas italianas transmitiram ao mercado brasileiro: a importância do cuidado com os detalhes, a seleção criteriosa de matérias-primas e a força de um design bem elaborado. Essa combinação é um dos legados culturais e comerciais da Itália no Brasil.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
No Conte Sua História de São Paulo, em homenagem aos 471 anos da cidade, a ouvinte da CBN Marina Zarvos destaca a os méritos do primeiro centro de formação de cientistas do estado:
“Café com pão, café com pão, café com pão… Virge Maria, que foi isto, maquinista?”
Manuel Bandeira
O trem de ferro que transportava minha família, no vaivém entre Lins e São Paulo, cortava os cafezais da Noroeste Paulista, memória que ecoa nos versos de Manuel Bandeira. Cresci brincando entre fileiras de cafezais, envolta em sacarias de café e repletas do perfume dos grãos torrados.
Certo dia, desembarcamos na capital. Sem passagem de volta.
Quanta saudade do cheiro de terra roxa molhada e do aroma do café coado. Garotinha de 10 anos, sentia a falta do verde e da florada do cafezal — como quem perde uma companheira de alegres brincadeiras.
Tive a sorte de morar nas imediações e fui acolhida pelas árvores do Parque Ibirapuera. Minhas raízes fincadas no interior deram ramos na Pauliceia Desvairada, onde cresci e amadureci.
Cinco décadas depois, um convite inesperado: participar da colheita de café no Instituto Biológico. Em plena Vila Mariana? Descobri ali o maior cafezal urbano do mundo, com 1.536 pés de café em 10 mil metros quadrados. Criado por demanda dos “barões do café”, em 1927, para combater pragas nos cafezais, o Instituto foi tombado no início deste século, por pressão dos moradores da região, os “barões” da preservação ambiental.
Fui levada por minha filha que lá estudava na pós-graduação. A mãe-menina perdeu-se nas fileiras, fez a colheita, ganhou um cesto e trouxe como prêmio os frutos que conseguira colher.
Visitem o Instituto Biológico e conheçam a beleza do cafezal paulistano. E que, a cada manhã, o café com pão continue nos conectando à nossa história.
Ouça o Conte Sua História de São paulo
Marina Zarvos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
((os textos originais, enviados pelos ouvintes, são adaptados para leitura no rádio sem que se perca a essência da história))
Acreditar é pensar que é possível, visualizar uma melhora, sentir esperança.
Quando acreditamos: tentamos estudar para evoluir na carreira; tentamos mudar a forma de trabalhar para conseguir mais retorno financeiro; tentamos desenvolver qualidades como disciplina e coragem para vencer nosso comodismo e nossos medos.
Para a vida ser construída, é necessário refletir, desejar algo, planejar o caminho até lá e executar. Percebe que é necessário muito movimento?
Então, escolhemos acreditar porque é isso que nos faz seguir em frente. Venhamos e convenhamos, não é nada fácil aguentar frustrações, fazer esforço, abrir mão de sombra, descanso, prazer… Se não temos um motivo pelo qual tolerar isso tudo, dia a dia, empacamos. E quando empacamos, vai só ladeira abaixo.
Então, diga para mim: você tem selecionado com cuidado e intenção aquilo em que você acredita? Em quem você se espelha como referência? Que tipos de planos você constrói? Quais são os sonhos que enchem seus olhos de brilho?
Você acredita no que TE importa ou você compra as crenças da família, dos amigos que parecem bem-sucedidos, da sociedade?
Perceba que escolher acreditar e selecionar em que e em quem acreditar é a força motriz dos seus passos pela vida. Você pode não perceber, mas isso está moldando seu presente e seu futuro.
Já que precisamos acreditar (por uma questão de sobrevivência, inclusive), reflita bem sobre o que tem te movido. Para muito além de escolher acreditar, escolha concretizar um legado que seja seu – e que seja agradável de vivenciar, no hoje e no amanhã.
Escolha acreditar em ser, genuinamente, você.
Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
Às vezes, são os sonhos que nos empurram adiante; outras, os pesadelos que nos puxam para longe. Pesadelos traduzidos em dificuldades financeiras que clamam por soluções urgentes.
Os problemas eram grandes demais para um chão tão pequeno, um céu tão curto, uma visão tão estreita. Era preciso buscar novos horizontes: criar asas e encher ainda mais o balão de gás para voar longe, deixar o pequeno lugarejo e seguir rumo à Cidade Grande.
São Paulo, a Cidade Grande.
Do nascer do sol ao cair da tarde, São Paulo pulsa sem descanso. As horas se gastam nos lares, nos bares, lojas, restaurantes, escritórios, fábricas, no metrô, no camelô, nas universidades. É uma cidade que vive na diversão, na labuta, nas batalhas do dia a dia. E as horas, por vezes, se perdem nas rodas de carros, ônibus e caminhões que entopem ruas e avenidas. Mesmo assim, São Paulo não foi feita para parar.
É uma cidade de contrastes e extremos: De vielas e ruas estreitas a grandes avenidas. De ônibus e metrôs lotados a carros ocupados por apenas uma pessoa. Do conforto das mansões nos Jardins ao sufoco de quem vive nas comunidades e periferias.
São Paulo, de tanta gente, de todos os estados brasileiros, de tantos ou todos os países do mundo. Sempre me perguntei: “O que passa pela cabeça dessa gente? São milhões de pés, braços e mentes… Sonhos, trabalho, sustento. Fugir da seca, do sertão, do sofrimento.”
Muitos vêm em busca de fama, outros apenas de uma vida digna. Mas quase todos procuram as oportunidades que só uma metrópole oferece. São Paulo é assim: uma Selva de Pedra, mas sempre de braços abertos, com um coração de mãe onde sempre cabe mais um.
Cheguei pela Estação da Luz, depois de mais de 10 horas de viagem de trem. Ainda atordoada, desembarquei nessa Cidade Grande. Era tudo novidade. Era de assustar! O ano era 1975. O Brasil era governado por Ernesto Geisel, e São Paulo já era imensa, mas tinha apenas um shopping: o Iguatemi. No ano seguinte, em 1976, seria inaugurado o Shopping Ibirapuera.
Na época, a cidade contava com uma única linha de metrô: a Norte-Sul, que mais tarde seria chamada de Linha Azul. O transporte público era básico, mas suficiente para conectar a cidade que começava a crescer vertiginosamente.
Lembro-me também do que fazia sucesso: na televisão, a novela “Pecado Capital” com Francisco Cuoco no papel de Carlão. A música tema não me sai da cabeça: “Dinheiro na mão é vendaval, é vendaval…”. Nos cinemas de rua, brilhavam filmes como “O Poderoso Chefão”, “Rocky, um Lutador” e “Um Estranho no Ninho”. E no rádio? Raul Seixas cantava sua “Metamorfose Ambulante” e “Maluco Beleza”. Também ouvíamos muito Rita Lee, Roberto Carlos e bandas de rock que dominavam a cena musical.
A cidade ainda tinha as lojas Mappin e Mesbla, que lotavam durante as liquidações. São memórias que me transportam no tempo.
Fui para São Paulo para trabalhar, como diz Caetano Veloso: “sem lenço e sem documento”. Comecei como bancária no Bradesco, com meu sotaque caipira, que arrancava risos e imitações dos colegas de trabalho. Sete anos depois, iniciei um novo emprego no centro da cidade, na Rua Conselheiro Crispiniano, pertinho do Mappin.
Lembro também de momentos difíceis. Era uma época marcada por protestos e saques nas lojas. Do prédio onde trabalhava, ouvíamos o som das portas se fechando às pressas. Corríamos para as janelas, movidos pela curiosidade e pelo medo. Era assustador.
Um ano depois, em 1984, passei em um concurso público e entrei na Prefeitura Municipal de São Paulo, onde permaneci até me aposentar.
Cheguei jovem a São Paulo e lá vivi anos maravilhosos. Estudei, trabalhei, me diverti. E posso dizer, sem dúvida: em São Paulo, eu vivi. Ali, eu fui feliz.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Leonice Jorge é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Hoje, 1º de janeiro, inauguramos um novo ciclo no calendário e, com ele, a oportunidade de refletir sobre o que esse marco realmente significa para cada um de nós. Aproveitando a chegada recente ao Jornal da CBN de Rossandro Klinjey, psicólogo e agora parceiro no quadro Refletir para Viver, o convidei para uma conversa mais profunda sobre como iniciar o ano com leveza e acolhimento, além da necessidade de termos um olhar mais atento para dentro de si. Como era de se esperar, Rossandro nos permitiu uma entrevista de altíssima qualidade e rica em ensinamentos.
Ao abrir o diálogo, perguntei a Rossandro sobre o que representa o começo de um novo ano. Ele destacou que, embora o “arquétipo do novo ciclo” seja poderoso, nem sempre nossas emoções acompanham a virada do calendário. Muitas vezes, carregamos pendências emocionais e práticas de anos anteriores, o que pode gerar uma sensação equivocada de incompetência.
“A concretização de certas metas exige tempo”, explicou ele, “assim como um projeto de vida, como se tornar jornalista ou psicólogo, é fruto de anos de dedicação. Plantamos em alguns anos para colher em outros.” Essa reflexão nos desafia a adotar uma postura mais acolhedora consigo mesmos, reconhecendo o valor das pequenas conquistas e não permitindo que metas não cumpridas minem nossa autoestima.
A pressão social e a busca por autenticidade
Lembrei durante a entrevista sobre a pressão social que nos impulsiona a entrar no ano com todas as metas definidas e resolvidas. Em um mundo saturado por “receitas prontas” — como as que vemos nas redes sociais —, Rossandro nos convidou a pausar e ouvir mais o nosso interior.
“Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro, acorda”, citou ele, parafraseando Carl Gustav Jung. Ao priorizarmos o que é relevante para nós, em vez de seguir a onda do que é “moda”, conseguimos criar metas mais autênticas e alcançáveis.
Embora o foco em si mesmo seja essencial, Rossandro destacou o papel vital das relações humanas no recomeço de um ano. Somos seres gregários, disse ele, e a conexão com os outros nos ajuda a construir uma vida mais equilibrada. No entanto, é crucial saber com quem nos conectamos. Ele sugeriu que, assim como deixávamos os sapatos na porta durante a pandemia, talvez seja hora de “deixar para fora” de casa relações tóxicas ou ideias que não fazem mais sentido.
“Reaproximar-se de pessoas que nos fazem bem é essencial”, afirmou ele. Seja nutrindo amizades antigas ou estabelecendo limites claros em relações desgastantes, cultivar boas conexões é um passo fundamental para o bem-estar mental.
A importância do autocuidado e da paz interior
“A paz do mundo começa em mim”, disse Rossandro, ecoando a letra de uma música de Nando Cordel. Ele nos lembrou que, em um cenário turbulento, onde temos pouco controle sobre as transformações externas, cuidar da nossa saúde mental e emocional é uma prioridade. Ao investir em nosso mundo interno, criamos uma base mais sólida para enfrentar os desafios inevitáveis que o ano trará.
Encerramos a conversa com um olhar otimista, e realista. Rossandro destacou que o desejo de um “Feliz Ano Novo” não significa a ausência de dificuldades, mas sim a capacidade de enfrentá-las com coragem e resiliência.
Que possamos, como ele disse, usar este começo de ano para refletir sobre nossas próprias metas, fortalecer nossas relações e acolher nossas emoções. Assim, estaremos mais preparados para aproveitar o que 2025 nos reserva — com serenidade, coragem e, acima de tudo, autenticidade.
Um lugar muito importante, muito especial na cidade, que está ligado à minha história inteira é o Parque do Ibirapuera. Acho esse lugar uma coisa impressionante.
Desde os dois, três anos de idade, eu já vivia no Ibirapuera. Meus pais me levavam para passear; nós morávamos relativamente perto – não tão perto quanto eu moro hoje. Agora, moro a 500 metros ali do portão da Quarto Centenário.
A minha ligação com esse Parque, por uma coincidência, sempre esteve presente, na maior parte da minha vida. Já morei perto do Parque duas vezes – uma agora e outra quando o Pedro, meu filho, nasceu.
Para mim o Ibirapuera é algo vital. Passo quase diariamente em frente; vou correr. Tenho uma ligação afetiva muito grande com o Ibirapuera.
Então, presenciei toda a evolução desse importante símbolo de São Paulo, que foi criado em 1954. Não tinha nascido, mas desde criança venho frequentando. o local. Faz parte da minha vida.
Outro ícone importante é o Aeroporto de Congonhas, que, juntamente com o parque, tenho documentado em várias fotos da infância, nas quais revejo meu pai me levando a esses lugares. O Aeroporto, quando eu era pequeno, era um passeio; todo aberto… Não era como é hoje, envidraçado e formal.
Ir para Congonhas era uma alegria, como ir num parque de diversões, e podíamos ver as decolagens, as chegadas. Você ficava muito próximo dos aviões. Os passageiros desciam na pista; tinha apenas uma gradezinha que separava o público dos passageiros. Era bem diferente do que é hoje.
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Fábio Caramuru é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
O trem partiu, e eu fiquei. Temendo a neve na estrada, dirigi com a lerdeza que a prudência me exigia e isso me impediu de embarcar na hora prevista. Sem escolha, fui ao café ao lado da estação, buscar abrigo do frio e da espera. Sentei, escutando o burburinho ao redor, mas sem competir com ele. Apenas deixei os sons ocuparem o espaço que não era meu.
Meu nome deve ser chamado pela atendente que prepara o café quente a qualquer momento. Ainda estou pensando se deveria cair na tentação dos pães expostos no balcão quando fui flagrado na foto que ilustra essa crônica. Minha mulher adora fotografar.
Alguém dirá que escrevo apenas para exibir essa imagem. Vaidade? Também. Mas as razões vão além. Não me movo apenas por esse sentimento assim como não costumo compartilhar fotos próprias que não estejam no contexto da profissão. Mas esta carrega verdades que transcendem o instante congelado pelo clique.
A mão que apoia o rosto oculta a boca — um gesto que pode ser tanto descanso quanto censura, impedindo-me de dizer em voz alta o que vagueia pela mente. As peneiras de Sócrates ainda filtram muito do que penso antes de transformar ideias em palavras. O olhar se destaca, aparentemente sem destino. Ou naquele instante eu mirava algo? Não lembro bem. Talvez estivesse apenas vagando, ofuscado pelos estímulos ao redor..
As marcas do tempo tão evidentes na imagem, também têm seu lugar aqui. Têm minha atenção, não assombração: as rugas que contornam os olhos e reforçam a olheira, a vermelhidão do rosto impactado pelo vento gelado, as manchas no dorso da mão que se acentuam com a idade e os fios brancos do cabelo que me orgulham, apesar de me surpreenderem quando se revelam nas fotografias — tudo isso fala de experiências.
Contemplar o nada deveria ser mérito. Mas há algo de desafiador nesta arte, especialmente diante do ritmo alucinado com que consumimos informação — e não me refiro apenas a essa que chega na forma de notícia ou pseudo-notícia. É pela tela do celular, fonte inesgotável de entretenimento pouco atrativo, tanto quanto no entorno de nosso cotidiano: vozes, luzes, anúncios, sirenes, alertas e uma sequência interminável de estímulos. O barulho é necessário. O silêncio agoniza. É bem raro. Às vezes, incômodo. Amigos já me convidaram a experimentar a meditação e todas práticas que se apresentam com o mesmo objetivo. Mas até na Igreja em que rezo aos domingos, o silêncio é apenas visitante. Quando aparece, é visto com estranheza: “Está triste?”, perguntam. Ou: “É depressão?”.
Naquela manhã, sentado à mesa da padaria da pequena cidade americana, creio que minha intenção era apenas ver o tempo passar. Distanciar-me da algaravia, do movimento frenético, e esperar o meu destino embarcar no próximo trem. Mas o clique congelou o instante, e, com ele, veio a inspiração para esta crônica.
Pode parecer contraditório — transformar silêncio em palavras, contemplação em texto. Talvez seja mesmo. Mas, no final, escrever também é encontrar sentido naquilo que não dissemos em voz alta. Afinal, até o silêncio tem sua maneira peculiar de fazer barulho.
Véspera de Natal. Na terra que deu vida ao Papai Noel, o cenário parece cuidadosamente montado, como os cenários de teatro que encantam o público no palco, enquanto escondem a complexidade dos bastidores: as tábuas expostas, os cabos elétricos, os caixotes e as cordas de sustentação. Há luzes demais piscando nas janelas, casas decoradas com um leve exagero e vitrines disputando a atenção das pessoas, que dividem o olhar entre o espetáculo e a tela do celular – pela quantidade de sacolas nas mãos, parece terem tido sucesso. A neve, que chegou há alguns dias em Ridgefield, dá o toque final a essa composição quase cinematográfica, que está no limite do real e do fantasioso.
No meio desse ritual, esbarrei em uma notícia publicada em jornal português: a vida na Terra, dizem os cientistas, pode ser 1,5 bilhão de anos mais antiga do que imaginávamos. Um bilhão e meio! Enquanto nos ocupamos em ajeitar os enfeites e garantir que os presentes estejam no lugar certo sob a árvore, a história do planeta, com sua vastidão quase infinita, parece debochar da nossa pressa de encontrar sentido em tudo.
Parei para pensar – pensando bem, parei mesmo foi para escrever, porque a escrita me apazigua. Que lugar ocupamos nessa linha do tempo que parece não ter fim? Diante da memória impressa nas camadas da Terra, nossa existência soa breve, quase imperceptível. E, mesmo assim, corremos, planejamos e insistimos em deixar marcas, como se pudéssemos desafiar a própria transitoriedade.
Será que é isso? Estamos aqui só de passagem? Ou carregamos, na essência, o desejo de sermos lembrados, de atendermos as expectativas e não decepcionarmos os outros, apesar de sabermos que o planeta seguirá adiante, imutável às nossas tentativas de gravar nossa presença na sua imensidão?
O Natal, com sua carga simbólica, tende a ser o momento certo para refletir sobre essas perguntas. É quando tentamos, entre uma compra e outra, nos reconectar ao que realmente importa: relações, afeto, pertencimento. Porém, questiono se conseguimos enxergar além da superfície. Não falo das listas de metas ou dos presentes acumulados sob o pinheiro, mas daquilo que nos amarra à própria Terra — algo que nos precede e também nos sucederá.
Vivemos em busca de algo que nem sempre conseguimos definir. Talvez seja isso que nos faz humanos: a necessidade de criar, imaginar, deixar rastros, mesmo cientes de que somos passageiros num trem que nunca estaciona. E, ainda assim, cada um de nós carrega um fragmento da história do universo.
Talvez o sentido não esteja em brigar contra o tempo, mas em aprender a andar ao seu lado. Reconhecer nossa finitude não como derrota, mas como chance de aproveitar cada passo. Aqui e agora, sobre um planeta que é ao mesmo tempo tão permanente e tão indiferente às nossas pressões.
E, já que estou só de passagem, resolvi deixar no bagageiro minhas implicâncias com os exageros natalinos e aproveitar o que há de melhor nesse momento: os abraços sinceros, as risadas que não cabem em embalagens e aquele irresistível cheiro de comida que parece aquecer até a alma. Afinal, a viagem é curta, mas ainda pode ser cheia de bons encontros.
Decoração natalina na av. Paulista (Foto: Luis F. Gallo)
“Será que a troca de presentes, o amigo secreto, ocultam as relações de amor, de integração humana, de carinho que são o sentimento mais poderoso nessa época do ano?”
Jaime Troiano
O Natal é mais do que uma oportunidade de consumo; ele é um momento de encontro, afeto e tradição. Essa foi a mensagem central do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN. A dupla destacou que, apesar da força comercial da data, as marcas têm a responsabilidade de ir além da lógica mercadológica para resgatar os valores humanos e sociais desse período tão simbólico.
Troiano refletiu sobre o tom promocional das campanhas natalinas e o impacto emocional que elas podem gerar: “O que eu, como consumidor, gostaria de ver e ouvir neste Natal é um tom de voz muito menos promocional, muito menos agressivo e muito mais humano.” Ele apontou que a troca de presentes e as relações afetivas podem coexistir, mas o foco deveria estar nos laços que fortalecem a sociedade.
Cecília Russo complementou a discussão ao destacar um movimento crescente entre famílias, que buscam reduzir o consumo em nome de causas mais significativas: “Ano que vem, as pessoas vão se lembrar muito mais do conteúdo humano que as mensagens de Natal das marcas trouxeram do que apenas dos presentes.” Ela também ressaltou o poder dos jingles natalinos como símbolos de uma comunicação autêntica e emocional.
A marca do Sua Marca
A principal marca do comentário foi o convite para que empresas sejam mais humanas e empáticas em suas mensagens de Natal. A autenticidade, como ressaltado por Cecília, é o elemento que fará as marcas permanecerem na memória dos consumidores, enquanto os produtos serão apenas souvenirs de um momento mais significativo.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.