Avalanche Tricolor: Kannemann voltou!

Grêmio 1×1 Inter
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFPBA

Seis meses após ser submetido a uma nova cirurgia no quadril, Kannemann voltou. E voltou em grande estilo: no Gre-Nal deste Sábado de Aleluia, substituiu Wagner Leonardo aos 29 minutos do primeiro tempo. Foi ovacionado pelo torcedor e aplaudido a cada bola interceptada na defesa.

De verdade, Kannemann já estava em campo antes mesmo de ele entrar. O zagueiro, que é símbolo maior de raça e determinação, lembrança dos maiores títulos que conquistamos nos últimos anos, esteve presente no espírito do time que entrou na Arena para o seu quarto clássico regional do ano.

Desde os primeiros minutos, era possível perceber uma postura diferente por parte dos jogadores escalados pelo interino James Freitas. De novidade, apenas Marlon na lateral esquerda e mais duas mudanças na escalação dos últimos jogos: Dodi e Monsalve entraram como  titulares. Todos os demais vinham jogando nas partidas anteriores, mas o comportamento em campo era completamente outro.

Jamais saberei explicar que fenômeno é esse que a demissão de um treinador provoca nos brios dos atletas. O fato é que o time apático das rodadas anteriores se transformou: impôs marcação forte na saída do adversário, soube jogar de maneira mais compacta e ofereceu menos espaço para o toque de bola. Não havia dividida perdida nem jogada desperdiçada. Quando partia para o ataque, colocava a bola no chão e explorava especialmente o talento de Cristian Oliveira. Houve até troca de passes no meio-campo como alternativa aos lançamentos longos.

Era como se o espírito de Kannemann tivesse sido incorporado pelos onze titulares antes mesmo de ele entrar em campo. Por isso, não surpreendeu a ninguém (a não ser alguns repórteres de campo) o fato de, ainda ao lado do gramado, enquanto esperava a autorização para substituição, Villasanti já haver passado a braçadeira de capitão ao nosso maior zagueiro. O time sabe o que ele representa e o poder de sua liderança.

Em campo, Kannemann voltou a brilhar com a nossa camisa e encheu de esperança o torcedor que, justificadamente, estava acabrunhado com o que vinha assistindo nestes primeiros meses da temporada. Infelizmente, o retorno não foi ainda mais marcante porque, mais uma vez, fomos claramente prejudicados pelo árbitro da partida (alguém sabe me dizer se, nas mudanças das regras, existe alguma proibição de marcar pênalti a favor do Grêmio?). Mas até nesse momento, foi Kannemann quem nos representou, reclamando da injustiça cometida.

Sim, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, Kannemann está de volta. Que o Grêmio e a sua história voltem aos gramados também neste ano de 2025.

Avalanche Tricolor: devolvam o meu Grêmio!

Mirassol 4×1 Grêmio
Brasileiro – Campos Maia, Mirassol (SP)

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Uma vergonha! Uma vergonha atrás da outra.

Despindo-me de qualquer romantismo, a campanha do Grêmio na atual temporada é medíocre — a despeito de tudo que, apaixonadamente, já escrevi até aqui.

Fui logrado pela ilusão, levado pela história de superação que sempre foi motivo de orgulho do nosso torcedor. Enxerguei heroísmo e bravura em resultados que deveriam ter sido alcançados com facilidade — como nos dois primeiros jogos da Copa do Brasil, contra equipes sem nenhuma expressão.

No Gaúcho, fechei os olhos para o fato de que nossos melhores desempenhos foram contra times de categorias inferiores. Diante dos dois clubes da Série A, primeiro quase perdemos a classificação à final e, depois, fomos superados com extrema facilidade — especialmente diante da nossa torcida.

Na Sul-Americana, onde sustentamos uma campanha invicta e com duas vitórias, minhas alegrias esconderam a fragilidade dos adversários que enfrentamos. O principal teste ainda está por vir, na próxima semana.

No Brasileiro, após uma vitória improvável na estreia — considerando as falhas cometidas no início da partida — acumulamos uma sequência de derrotas. A mais vexaminosa aconteceu na noite desta quarta-feira, no interior paulista: uma goleada sofrida contra um time estreante na Série A, que ainda não havia vencido nenhum jogo na competição.

Minha paixão cega pelo Grêmio não me permitiu entender o que estava acontecendo na (des)construção do time. Bastavam alguns rompantes individuais de jogadores mais comprometidos com o clube para que eu acreditasse que, a partir dali, viria uma reação. Entusiasmo fugaz!

Hoje, os erros do Grêmio foram escancarados. A marcação é frouxa, feita à distância. O posicionamento defensivo é frágil. Bastam alguns toques de bola para o adversário aparecer na frente do gol. No instante em que recuperamos a bola, a desarticulação se manifesta em passes errados e movimentos sem sintonia. A impressão é de que cada jogador busca uma solução por conta própria. Até nas bolas paradas, como nos escanteios, percebe-se que não há uma ideia a ser executada: cruza-se na área e torce-se para que algo dê certo. Nada dá certo!

O Grêmio que estamos vendo nesta temporada não merece a presença do seu torcedor no estádio — o que explica muito do que falamos na edição dominical desta Avalanche. Parece um time qualquer, irreconhecível, que sequestrou o manto tricolor para entrar em campo. Veste nossa camisa tradicional, mas se despiu da nossa história.

Por favor, devolvam o meu Grêmio!
Antes que a torcida esqueça como é vestir a alma junto com a camisa.
Antes que a paixão silencie.
Antes que a imortalidade vire apenas uma lenda esquecida nos muros da Arena.

O decreto que ameaça milhões de ítalo-descendentes

A colônia italiana está em polvorosa — ou, como diria a Zia Olga lá dos altos de Caxias do Sul, in subbuglio. Ela sempre me recebia com fartura: abraço apertado, comida farta, vinho à mesa (mesmo que pela idade não me coubesse tal prazer) e aquele sotaque carregado de afeto e história. Hoje, se estivesse viva, certamente estaria indignada com o que se desenha no horizonte dos ítalo-descendentes.

Não faltam motivos. O recente decreto-lei nº 36, proposto pelo governo da Itália, pretende restringir o direito à cidadania por sangue (jus sanguinis) apenas a filhos e netos de italianos nascidos em solo italiano. Se aprovado como está, esse novo critério cortará o vínculo jurídico direto de milhões de descendentes, incluindo grande parte dos brasileiros que herdaram a italianidade com afeto, não com carimbo de cartório. Afinal, o grande fluxo migratório aconteceu ainda no século 19. Somos, na maioria, bisnetos, trineto, tataranetos — descendentes de um tempo de esperança e travessia.

Tomo a liberdade de compartilhar a origem do Ferretti que carrego no sobrenome — honestidade que permitirá a você, caro e cada vez mais raro leitor de blog, julgar esse texto considerando os vieses que influenciam minha escrita. Veio de Ferrara, na Emília-Romagna, e desembarcou no Brasil em 1897. Vitaliano Ferretti — meu bisnonno — passou por Minas Gerais, antes de chegar ao Rio Grande do Sul onde casou-se com Elvira e teve onze filhos. Entre eles, minha avó Ione. Essa linhagem me basta para afirmar: sou italiano, mesmo sem passaporte europeu. Nunca entrei com pedido de cidadania. Minha relação com a Itália se alimenta das viagens que faço, das lembranças de família, da música, do idioma que tento aprender e da honra de ter recebido, no ano passado, o título de Cavaliere Dell’Ordine Della Stella D’Italia, concedido pelo presidente Sergio Mattarella.

Entendo, por isso, a frustração de milhares de famílias brasileiras que vivem há anos no limbo consular, à espera de exercer um direito historicamente reconhecido. É uma legião. Un sacco di persone que preserva, em suas casas, as festas, os sabores, as orações e a língua herdada dos antepassados. Gente que se sente italiana — não como pose, mas como identidade.

O governo italiano, por meio do ministro Antonio Tajani, líder do Forza Italia, afirma que o objetivo do decreto é combater fraudes que teriam transformado o processo de cidadania em um negócio lucrativo. Mas há uma visão distorcida nesse argumento: punir coletivamente, por causa de irregularidades pontuais, é caminho curto para a injustiça. Críticos apontam que a medida é discriminatória, desrespeita a Constituição italiana e rompe um elo cultural construído por gerações.

Em vez de encurtar o fio da história, seria mais eficaz aprimorar os mecanismos de controle e punir os que burlam as regras — sem penalizar quem apenas quer reatar os laços com suas raízes. O decreto, na prática, exclui milhões da possibilidade de reconexão com a cultura que os formou. É como fechar a porta da casa onde ainda vivem as vozes dos bisavós, suas receitas, sua fé, sua língua, sua memória.

O texto ainda será debatido no parlamento italiano e já encontra resistência, inclusive dentro da própria base governista. Do lado de cá do oceano, a comunidade ítalo-descendente segue em vigília. Porque o que está em jogo não é apenas um documento — é o direito de seguir pertencendo à história de onde nossas famílias vieram.

Participe: encontro discute efeito do decreto Tajani

Inscreva-se (de graça) e participe do encontro que discutirá o efeito do decreto que limita a cidadania italiana e prejudicará milhões de ítalo-descendentes, no Brasil. O jurista Walter Fanganiello Maierovitch, o Conselheiro do CGIE (Consiglio Generale degli Italiani all’Estero) Daniel Taddone e Giuliana Patriarca Callia, tradutora juramentada e diretora da AEDA, estarão reunidos no dia 29 de abril, a partir das 19hs, no auditório do Colégio Dante Alighieiri, em São Paulo.

Faça a inscrição aqui

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: a força da cultura brasileira na construção de marcas

Durante décadas, marcas brasileiras se moldaram pela lógica da cópia — de filmes publicitários a estratégias de posicionamento — numa tentativa de reproduzir modelos estrangeiros como se a receita funcionasse universalmente. Mas esse cenário começa a mudar. A apropriação legítima da cultura nacional tem ganhado espaço no universo do branding. É o que apontam Jaime Troiano e Cecília Russo no comentário desta semana do quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN.

Jaime Troiano relembra um tempo em que era comum replicar campanhas internacionais, sob a falsa premissa de que o sucesso em um lugar lá fora garantiria o mesmo resultado no Brasil. “A sensação era de que tudo serve para tudo, e não é verdade”, afirma. Ele cita o economista Eduardo Giannetti para explicar a tensão entre o comportamento mimético — o que copia — e o profético — o que nasce das raízes culturais. E vê sinais de reequilíbrio: “Quando eu entro numa loja da Farm ou penso na Embraer, no Itaú, no Boticário, sinto um forte sopro de brasilidade”.

Cecília Russo acrescenta exemplos da valorização da identidade nacional no varejo, na gastronomia e nas expressões culturais. Menciona a marca Misci, que traduz no vestuário o ‘suco do Brasil’, e o caso do chocolate Dengo, que transforma o cacau brasileiro em símbolo de identidade e sofisticação. “A nossa cultura está invadindo o espaço do branding”, diz ela, reforçando que “as marcas se alimentam dessa mesma raiz e do sentido de orgulho que elas inspiram”.

A força dessa mudança está também nas figuras públicas que atuam como marcas vivas da cultura nacional — como Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Raíssa Leal, Rebeca Andrade, Isaquias Queiroz e Bia Haddad. “Essas pessoas são hoje expressões do Brasil que impactam o mundo e inspiram o fortalecimento de marcas com alma brasileira”, afirma Cecília.

A marca do Sua Marca

Marcas que mergulham na cultura brasileira e a celebram genuinamente constroem identidade sólida e alimentam o orgulho coletivo de ser brasileiro.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: com esforço, vitória e liderança

Grêmio 2×0 Atlético Grau

Sul-Americana – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Foto: Lucas Uebel/ GrêmioFBPA

Copa é para ganhar. O Grêmio e os gremistas sabem bem disso. Já conquistamos muitas copas superando todo tipo de obstáculo, às vezes, até nossas próprias limitações. Portanto, antes que alguém queira discutir aspectos técnicos, posicionamento tático, esquemas de jogo ou desempenhos individuais, o que realmente importa nesta Copa Sul-Americana, hoje, é que o Grêmio venceu as duas partidas disputadas até aqui.

Na partida desta noite, diante de poucos torcedores na Arena e muitos desconfiados em frente à televisão, o time entrou em campo decidido a mostrar que esforço não faltará. Mesmo os jogadores mais contestados lutaram muito para acertar e corrigir erros anteriores. Por isso, atrevo-me a dizer que boa parte das vaias direcionadas a Cristian Pavón foi injusta, decorrente mais do conjunto de sua temporada do que propriamente da atuação nesta partida. Foi dele a assistência para o gol de cabeça marcado por Arezo, o primeiro e providencial gol, em um momento em que a impaciência da torcida já era evidente.

A defesa, que recentemente tem sofrido muitos gols, desta vez evitou problemas maiores aos trancos e barrancos. Ficou claro que a dupla formada por Rodrigo Ely e Wagner Leonardo é, atualmente, nossa melhor opção para o miolo da zaga – ainda que sem criar grandes ilusões. Villasanti, que vinha irregular nos últimos jogos, finalmente assumiu o controle do meio de campo. Cristaldo, por sua vez, mostrou claramente que o time necessita, sim, de um articulador criativo. Foram dele os dribles em meio à marcação acirrada do adversário, iniciando a jogada que resultou no primeiro gol.

No ataque, Arezo é uma peça importante como substituto de Braithwaite, mas o destaque principal vai mesmo para Cristian Olivera, provavelmente a melhor contratação feita pelo Grêmio nesta temporada. O segundo gol, que confirmou a vitória sobre os peruanos, nasceu justamente do talento e precisão de Olivera no drible e na finalização. Ele já havia sido decisivo em outros momentos complicados do ano e voltou a marcar quando o time mais precisava.

Ninguém saiu da Arena empolgado com a atuação apresentada, é verdade. Mas o Grêmio conquistou a vitória e a liderança de seu grupo – e, no fim das contas, isso é o mais importante neste momento. Até que Gustavo Quinteros consiga encontrar o equilíbrio e a formação ideal, vencer partidas como a de hoje é fundamental para o nosso objetivo maior: ganhar a Copa.

O encontro de Alois Alzheimer e Karl Popper

Dr Renan Domingues

@renandominguesneurologia

“Várias vezes ao dia, ela diz:

Eu perdi a mim mesma’.”

Alois Alzheimer, sobre sua paciente Auguste Deter,

o primeiro caso descrito da Doença de Alzheimer

“Se uma teoria lhe parece ser a única possível,

tome isso como um sinal de que você não entendeu

nem a teoria nem o problema que ela pretendia resolver”

Karl Popper, filósofo da ciência

Alois Alzheimer (1864–1915) foi um médico psiquiatra e neurologista alemão que contribuiu decisivamente para os primórdios da neurociência moderna. Em 1906, durante uma conferência, apresentou o caso de Auguste Deter, uma paciente com perda progressiva de memória, desorientação, dificuldades de linguagem e comportamento, além de um declínio cognitivo que avançava sem trégua. Após o falecimento de Auguste, Alzheimer analisou seu cérebro e descobriu três alterações patológicas inéditas até então: placas fora das células, denominadas amiloides; depósitos dentro dos neurônios, conhecidos como emaranhados neurofibrilares; e uma perda neuronal generalizada. As alterações descritas por ele foram consideradas responsáveis pelo quadro de demência observado e, posteriormente, a doença passou a levar seu nome.

Mais tarde, descobriu-se que as placas amiloides são compostas por uma proteína anormal, a beta amiloide 42, que parece ter um papel central nos estágios iniciais da Doença de Alzheimer. O acúmulo dessa substância no cérebro parece iniciar uma sequência de eventos patológicos, a chamada cascata amiloide, que inclui a formação dos emaranhados neurofibrilares, levando à morte neuronal e, com o tempo, à atrofia cerebral. Esse acúmulo da beta amiloide 42 pode ocorrer em função de mutações genéticas que aumentam sua produção, ou por falhas nos seus mecanismos naturais de eliminação.

Com base na teoria da cascata amiloide, recentemente desenvolveram-se anticorpos monoclonais capazes de remover a beta amiloide 42 acumulada. E de fato, os estudos mostraram uma redução eficaz das placas amiloide com estes medicamentos. A lógica parecia infalível: remover a causa, deter a doença. Mas a clínica frustrou a expectativa e os benefícios cognitivos para os pacientes foram modestos, quase sempre abaixo do impacto esperado.

É nesse ponto que o conhecimento iniciado por Alois Alzheimer se encontra com a filosofia de Karl Popper (1902–1994). Um dos maiores pensadores da ciência no século XX, Popper argumentava que o conhecimento científico não avança por confirmações, mas sim por tentativas de refutação. Uma teoria só é científica se ela é testável. Se ela resiste a esses testes, ela é provisoriamente aceita, mas jamais considerada definitiva. A ciência, para Popper, é feita de hipóteses ousadas que precisam ser colocadas à prova, sempre com a consciência de que toda explicação é temporária.

Aplicando esse olhar à teoria da cascata amiloide, a constatação de que os pacientes não melhoram, mesmo após a remoção da proteína anormal, poderia ser interpretada como uma refutação da hipótese. Mas Popper adverte: “A ciência será sempre uma busca e jamais uma descoberta. É uma viagem, nunca uma chegada. O conhecimento é uma aventura em aberto.” Em outras palavras: calma! A ausência de melhora clínica não encerra a questão, pode apenas indicar que chegamos tarde demais. Talvez o acúmulo de beta amiloide 42 ocorra décadas antes dos primeiros sintomas, e sua remoção, uma vez iniciada a cascata degenerativa, seja insuficiente para reverter os danos. Ou talvez existam outros processos igualmente importantes em ação, como a inflamação, o papel de outras proteínas e fatores ainda desconhecidos.

A lição de Popper permanece atual: a certeza é inimiga do pensamento científico. A verdade não é algo que se possui, mas algo que se persegue com humildade e abertura ao erro. Se estamos convencidos de que a teoria da cascata amiloide é a única explicação possível, talvez já tenhamos caído na armadilha. E como sair, diante dos dados que agora desafiam aquilo em que acreditamos com convicção?

É justamente quando temos certeza demais que, como Auguste Deter, corremos o risco de nos perder. Porque lucidez, no fim das contas, não é saber exatamente onde estamos, mas é reconhecer o que não sabemos e, ao mesmo tempo, formular as perguntas certas para mais adiante estarmos um pouco menos perdidos.

Renan Domingues é neurologista e doutor pela Universidade de São Paulo (USP), doutorado pela Universidade do Alabama em Birmingham, EUA, e pós-doutorado pela Universidade de Lille, França. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: à espera de um roteiro melhor

Ceará 2×0 Grêmio

Brasileiro – Castelão, Fortaleza, CE

Foto: Lucas Uebel

Na noite deste sábado, o amor era o personagem principal no palco do teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. Sentado na plateia, assisti ao musical “Território do Amor”, escrito por Gabriel Chalita. Sob as luzes cuidadosamente ensaiadas, nove atrizes brilhantes interpretavam cantoras que desnudavam suas histórias de paixão, glória e desencanto, tudo ambientado em um navio conduzido por Caronte, o mítico barqueiro encarregado de transportar almas recém-partidas.

Poucos minutos antes, meu olhar dividia-se entre o encantamento artístico e a expectativa futebolística no palco do Castelão. Lá, longe das perfeições das coxias, o Grêmio tentava encenar seu roteiro diante do Ceará. Era uma peça de improvisos constantes e falas esquecidas, com jogadores buscando o texto que talvez não tivesse sido suficientemente ensaiado.

Sei bem que o futebol não desfruta dos mesmos luxos do teatro. No palco teatral, cada passo é coreografado, cada fala decorada à exaustão, cada gesto antecipadamente combinado. Já nos gramados, o roteiro muda a cada minuto e as marcações são rabiscos rápidos no intervalo. Contudo, mesmo assim, quando “abrem-se as cortinas e começa o espetáculo” — como ouviamos na voz do saudoso Fiori Giglioti — esperamos ao menos reconhecer o enredo da peça, perceber coerência na trama e notar que houve algum ensaio durante a semana.

É evidente – e você, caro e raro leitor desta Avalanche, sabe bem disso – que o calendário caótico do futebol brasileiro desafia qualquer preparação mais minuciosa. Treinadores precisam criar soluções rápidas, jogadores lesionados são substituídos às pressas por atores coadjuvantes, e o espetáculo continua, mesmo que o desempenho não esteja à altura dos grandes musicais.

Ainda assim, como espectadores exigentes que somos, pedimos ao menos que alguns atos sejam mais bem planejados, que o sistema defensivo não esqueça suas falas, que o ataque entenda as deixas e conclua com precisão suas cenas finais. É curioso notar que, mesmo com tantas falhas recorrentes, no segundo tempo contra o Ceará, o Grêmio conseguiu ensaiar breves diálogos promissores entre seus personagens. Houve momentos em que quase vi algo semelhante à sintonia dos grandes palcos — mera ilusão. Talvez tenham jogado até melhor do que em outros espetáculos anteriores, quando aplaudimos o Grêmio muito mais pelo esforço que levou à vitória do que pelo talento. Desta vez, porém, deixamos a cena com um péssimo resultado.

Agora, o “diretor” Gustavo Quinteros precisa correr contra o relógio para garantir que o elenco esteja bem afinado nas próximas apresentações – a próxima já é na terça-feira. Caso contrário, arrisca-se a ser confundido com Caronte, levando o time a navegar por águas turbulentas, sem roteiro e, pior, sem destino claro.

Mundo Corporativo: Vetusa Pereira, da Heineken, afirma que diversidade não é moda, é negócio

Foto: divulgação

“Diversidade e inclusão não são custo nem moda; são estratégia de negócio que traz resultado financeiro para as empresas.”

Vetusa Pereira, Heineken

O Brasil avança com estratégias efetivas de diversidade e inclusão no ambiente corporativo, enquanto assistimos a movimentos contrários ganhando espaço internacionalmente, como mostram os recuos nos Estados Unidos de Donald Trump. No entanto, para que o país se proteja dessa onda de retrocesso é preciso entender como essas iniciativas afirmativas podem ser transformadas em resultados práticos. Nesse sentido, o Mundo Corporativo entrevistou Vetusa Pereira, gerente de Diversidade, Equidade e Inclusão do Grupo Heineken.

Segundo Vetusa, é fundamental desmistificar a ideia de que diversidade é um gasto sem retorno ou apenas um modismo passageiro. “Se as pessoas realmente se debruçarem sobre os estudos, esse mito cai rapidamente”, afirmou.

Inclusão com resultado

A experiência do Grupo Heineken no Brasil ilustra bem a possibilidade de crescimento por meio de políticas claras de diversidade. Vetusa destaca que, nos últimos anos, a representatividade feminina na liderança da empresa saltou de pouco mais de 20% para 44%, com meta de alcançar 50% até 2026. Já na questão racial, a companhia atingiu quase 37% de lideranças negras, com um objetivo declarado de chegar a 40% até 2030.

Esses resultados, segundo ela, só foram possíveis graças a uma análise detalhada da realidade interna e externa da empresa, estabelecendo ações específicas como programas de aceleração de carreira, treinamentos corporativos e apoio no desenvolvimento profissional e pessoal dos colaboradores.

Vetusa enfatiza que diversidade e inclusão geram uma conexão real com os consumidores, contribuindo diretamente para os resultados financeiros das empresas. “Se queremos chegar ao coração e ao copo de todos os brasileiros, precisamos falar uma linguagem diversa e inclusiva”, destacou.

Meritocracia e equidade

Sobre o debate envolvendo meritocracia e ações afirmativas, Vetusa esclarece que ambas são compatíveis desde que aplicadas corretamente. Ela explica que as políticas internas são desenhadas para oferecer ferramentas adequadas de desenvolvimento, garantindo que todos possam competir em igualdade de condições. “Ninguém vai promover alguém só por ser mulher ou pessoa negra. Precisa haver repertório de conhecimento”, pontuou.

Outro aspecto abordado por Vetusa foi o papel da comunicação, descrita por ela como fundamental no avanço das iniciativas de diversidade. A Heineken investe em treinamentos específicos que ensinam lideranças e colaboradores a comunicarem suas demandas e necessidades sem cair em extremismos ou receio de “cancelamento”. Segundo ela, “o objetivo não é policiar, mas letrar e educar com empatia e diálogo”.

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir também em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Avalanche Tricolor: vitória fora de casa, mas …

Defensores del Chaco 1×2 Grêmio

Sul-Americana – Assunção, Paraguai

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Sou do tempo em que empate fora de casa é vitória. Mas isso faz muito tempo. Hoje, mesmo em competições sul-americanas, é de se esperar que o Grêmio se imponha diante dos adversários considerados mais frágeis. Na estreia da Copa, na noite dessa quarta-feira, contra o lanterna do campeonato paraguaio, a expectativa era dos três pontos — três pontos que vieram, mas de maneira muito mais sofrida do que se imaginava.

A fragilidade do Grêmio em marcar qualquer que seja o adversário quando atacado — a ponto de tomar um “gol de gandula” — tanto quanto a de articular a bola pelo meio de campo com pouca aproximação de seus jogadores tornaram muito mais difícil uma tarefa que deveria ter sido resolvida logo cedo. Em um dos poucos lances em que a troca de passe funcionou, conseguimos um pênalti que nos colocou à frente no placar, em precisa cobrança de Arezo.

Vale um parênteses: se tem uma notícia positiva deste Grêmio em construção é que temos bons cobradores de pênalti; aliás, temos também um grande defensor de pênaltis. 

Destaque-se, ainda, que assistimos ontem ao retorno de Braithwaite. O atacante não apenas encurtou o tempo de recuperação da lesão que havia sofrido como entrou no segundo tempo e resolveu a partida com um cabeceio de dentro da área.

A vitória conquistada longe de casa, o pênalti bem executado e o retorno decisivo de Braithwaite podem parecer especialmente valiosos. Porém, o torcedor — ao menos este torcedor, caro e raro leitor desta Avalanche — esperava ver em campo um futebol mais seguro e organizado, porque precisamos pensar na sequência da temporada. Definitivamente, foi-se o tempo em que empate fora de casa era vitória.

Avalanche Tricolor: com coração e Volpi gigante, Grêmio vence na estreia

Grêmio 2 x 1 Atlético-MG
Brasileirão – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Edenílson comemora 2º gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Havia algo diferente no time que entrou em campo no início da noite deste sábado. Não me refiro à escalação nem ao posicionamento da defesa – que, nos primeiros 20 minutos, quase nos levou ao desastre. Não foi um toque mais refinado na bola nem uma movimentação mais bem organizada dos jogadores. Nada disso apareceu de forma evidente na estreia do Grêmio no Campeonato Brasileiro de 2025. Temos muito a melhorar.

Apesar das falhas, das carências, da dificuldade em conter o ataque adversário e da pouca articulação no meio-campo, o atual elenco gremista mostrou-me ter entendido que, antes mesmo de o talento aparecer, o torcedor espera que o time se entregue em cada jogada como se fosse a última. E essa foi uma mudança crucial.

Mesmo quando nossa marcação acumulava erros e repetia as falhas de partidas anteriores, os jogadores se esforçavam ao máximo para impedir a saída de bola do adversário. Nossos atacantes tentavam fechar espaços nem sempre com sucesso, mas com uma entrega que era perceptível. Esse comportamento também estava presente nos três volantes escalados para congestionar o meio-campo e apareceu nos jogadores de defesa à medida que eles se reposicionaram e entenderam melhor a movimentação adversária.

Sem vergonha de admitir a inferioridade técnica, o time não renunciou às faltas – recurso necessário para conter a pressão sobre nossa área. Mais de uma vez, vimos nossos ponteiros – Cristian Oliveira e Amuzu – roubando a bola na defesa. Camilo, mesmo cometendo erros ofensivos, transformava-se em um leão na marcação, ao lado de Villasanti e Edenílson. Wagner Leonardo destacou-se dentro da área.

Quando conseguimos equilibrar a partida e, minimamente, colocar a bola no chão, o Grêmio foi mais eficiente do que seu adversário. Em uma das primeiras jogadas realmente perigosas, Arezo abriu o placar. Logo depois, com um pouco de sorte, ampliamos com Edenílson.

É evidente que tudo isso só se tornou viável porque Tiago Volpi foi um gigante quando mais precisamos dele. No começo do jogo, quando parecia que tudo daria errado, nosso goleiro defendeu o possível e o impossível. Após equilibrarmos a partida, Volpi voltou a fazer defesas decisivas que garantiram a vitória. Não o incluo entre as novidades positivas deste sábado apenas porque, desde que chegou, Volpi tem sido excepcional. Seu talento não é mais uma novidade.

Para disputar o título do Campeonato Brasileiro, precisaremos de mais do que Volpi e da entrega vista em campo. Enquanto o ajuste fino não acontece pelas mãos do técnico Gustavo Quinteros, porém, que os jogadores continuem a nos fazer acreditar que merecem vestir a camisa que nos tornou Imortais.