Stanford mandou avisar que ainda não sou velho; alguém pode contar para o plano de saúde?

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Acordei nesta manhã um pouco mais jovem. E não foi a sequência de exercícios, com musculação e bicicleta, a que tenho me dedicado nos últimos anos, que me concedeu esse prêmio. Nem a alimentação, que ainda precisa de um controle maior — desde que a Dra. Márcia não se atreva a mexer na minha taça de vinho. A juventude fora de hora me foi oferecida em formato de notícia.

Quando o dia está amanhecendo e estou à mesa de café da manhã, a Letícia Valente, produtora do Jornal da CBN, me envia pelo WhatsApp sugestões de assuntos para o bate-papo que faço na passagem do programa Primeiras Notícias para o Jornal da CBN. Uma das mensagens que chegaram hoje, publicada em O Globo, se destacava pela manchete: “Quando começa a velhice? Estudo indica marco biológico aos 78 anos”.

Sério? Faz uns dois anos que dizem que sou velho porque passei a marca dos 60. Agora vem essa novidade: velho mesmo só aos 78.

A reportagem fala de um estudo da Universidade de Stanford sobre o desenvolvimento biológico do envelhecimento. A conclusão dos pesquisadores veio da observação de mudanças bruscas nas proteínas plasmáticas, moléculas que circulam no sangue e indicam o estado geral de saúde do organismo. Essas proteínas são como ajudantes de bastidor: mantêm o equilíbrio de líquidos, carregam nutrientes, defendem o corpo de infecções. Quando mudam de comportamento — aos 34, 60 e 78 anos — sinalizam que o corpo virou a página e entrou em outra fase.

Se, do ponto de vista biológico, eu ainda não sou velho, do ponto de vista burocrático o sistema já me carimbou faz tempo. Ser 60+ nos oferece algumas vantagens: prioridade no recebimento da restituição do Imposto de Renda, gratuidade no transporte coletivo, meia-entrada em espetáculos, vaga privilegiada no estacionamento e fila preferencial nos serviços de atendimento (e no embarque do avião, também). Quem não gosta? Por outro lado, com o aumento dessa população — já somos milhões de pessoas acima dos 60 — tudo isso gera mais custos para quem concede essas vantagens.

Já assistimos a movimentos para que os direitos concedidos a idosos sejam limitados a pessoas um pouco mais velhas, tipo 65+. O estudo talvez possa ser usado para radicalizar ainda mais e convencer legisladores a adiar os benefícios apenas para aqueles que tiverem atingido os 78 anos.

A depender de mim, sem problema. Posso abrir mão de furar fila no embarque e no caixa — desde que os planos de saúde também abram mão de tratar quem tem 60 como se estivesse à beira do fim. Se biologicamente a velhice começa aos 78, a tabela de preços bem que podia acompanhar.

Os empregos em alta em 2026 e a habilidade silenciosa que conecta todos eles

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A lista de “Empregos em Alta” do LinkedIn para 2026 confirma algo que já percebíamos nas conversas com executivos e gestores: nenhuma carreira avança sozinha. Tecnologia, finanças, saúde e relações humanas dividem o mesmo palco e a comunicação atravessa todas elas.

As funções ligadas à Inteligência Artificial ocupam o topo da lista. Engenheiros, cientistas de dados e especialistas em modelos generativos passaram de promessa a necessidade diária das empresas. No outro extremo, profissões tradicionais seguem firmes: planejamento financeiro, enfermagem, engenharia de processos e segurança industrial continuam essenciais. A economia muda, mas não abandona suas bases.

Outro destaque é o crescimento dos cargos voltados ao relacionamento. Especialistas em contas e gestores de relações corporativas viraram peças-chave. São eles que evitam ruídos, alinham expectativas e protegem reputações em ambientes mais sensíveis.

Essas três frentes — tecnologia, finanças/saúde e relações humanas — revelam o mesmo padrão: as empresas precisam de profissionais capazes de transformar complexidade em clareza.

E é aqui que a comunicação volta ao centro da conversa.

O engenheiro de IA precisa explicar riscos e limites dos modelos que cria. O planejador financeiro deve traduzir jargões em orientações compreensíveis. O técnico de enfermagem lida diariamente com situações que exigem escuta atenta e empatia. O gestor de relações corporativas sabe que uma frase mal colocada abre conflitos desnecessários.

Comunicação é habilidade transversal. Defendo isso há anos nas palestras e nos livros que escrevo.  Essa lista só reforça a tese. Não importa se você programa máquinas, trata pacientes, conduz investimentos ou negocia contratos: todos estamos sendo convocados a falar melhor, ouvir melhor e traduzir melhor.

O profissional de 2026 precisará unir técnica e clareza; análise e empatia; dados e narrativas. Vence quem conecta. Vence quem simplifica. Vence quem entende que comunicar não é só transmitir informações, mas criar sentido em meio ao barulho constante que nos atravessa.

Comunicar bem é estratégico para crescer na carreira, liderar equipes, tomar decisões inteligentes e navegar num ambiente em que a tecnologia corre à frente e nós tentamos acompanhá-la sem perder o rumo.

Feliz Ano Velho: das guerras às vacinas

Ataque dos EUA contra a Venezuela — Foto: STR / AFP

As luzes da árvore de Natal ainda piscavam quando as explosões iluminaram o céu da Venezuela. O brilho artificial da guerra ofuscou, mais uma vez, o olhar de esperança que a humanidade insiste em exercitar neste período de festas. Dias antes, fogos de artifício tinham marcado o que imaginávamos ser a passagem do velho para o novo ano — aquele instante em que nos convencemos de que somos capazes de fazer melhor, rever atitudes, nos reinventar se necessário. Ilusão. Pura ilusão. Foi o que revelou a ordem do presidente Donald Trump para atacar alvos venezuelanos.

A ação americana, que resultou na morte de dezenas de pessoas e na prisão de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, nos empurra para um tempo que julgávamos superado. Um tempo anterior às grandes guerras do século XX. Um mundo em que Estados fortes usavam a força militar como instrumento rotineiro de política externa, sem freios jurídicos ou diplomáticos. Um século XIX reciclado, agora embalado por discursos contemporâneos.

Convém registrar desde já: nada disso transforma Nicolás Maduro em vítima histórica. Seu governo é expressão do mesmo atraso que este texto denuncia. Uma ditadura que sufocou instituições, perseguiu opositores, produziu êxodo, pobreza e violência. Ao impor ao próprio povo um regime anacrônico e sanguinário, Maduro também desrespeitou valores que o mundo diz defender desde o pós-guerra. Criticar a violação da soberania venezuelana não significa ignorar, muito menos minimizar, a tragédia política e humanitária construída dentro do país ao longo de anos. O atraso, neste caso, opera em duas direções.

Depois de 1918, e sobretudo após 1945, o planeta tentou impor limites à barbárie. Criou regras, tratados, organismos multilaterais. Não para abolir conflitos — ilusão maior ainda —, mas para contê-los. Para reduzir danos. Para lembrar que soberania nacional não é detalhe negociável. Quando um país decide agir sozinho, à margem dessas regras, não está apenas violando o direito internacional. Está ensinando o mundo a ignorá-lo.

Em entrevista ao Jornal da CBN, a ex-juíza do Tribunal Penal Internacional Sylvia Steiner ofereceu a imagem mais precisa desse momento histórico. Disse que o direito internacional não está falido, mas constantemente abalado. Um paciente em estado grave, que ainda respira. A metáfora é poderosa porque desloca o debate: o problema não é a inexistência das normas, mas a reincidência de quem insiste em testá-las.

O caso venezuelano expõe também a fragilidade do Conselho de Segurança da ONU. Criado para preservar a paz, tornou-se refém de uma composição congelada no pós-guerra. Cinco países com poder de veto. Pouca renovação. Menos ainda capacidade de reação quando um desses atores decide romper as regras. A própria Steiner admite ter poucas esperanças de que dali surja alguma sanção efetiva. A lei existe, mas tropeça no desequilíbrio de poder.

O alerta do secretário-geral da ONU, António Guterres, de que a operação americana cria um “precedente perigoso”, soa quase como nota de rodapé em meio ao barulho das bombas. Precedentes são perigosos porque ensinam. Hoje é a Venezuela. Amanhã, outro país. O método é antigo; só mudam os alvos.

Enquanto lia a cobertura sobre a prisão de Maduro e as reações internacionais, meus olhos cruzaram outra manchete no The New York Times (leitura disponível apenas para assinantes). À primeira vista, distante da guerra. Na essência, parte do mesmo enredo. Nos Estados Unidos, o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. decidiu reduzir drasticamente o número de vacinas recomendadas para crianças. De 17 para 11. Uma guinada que ignora décadas de evidências científicas e o processo técnico conduzido por especialistas do Centers for Disease Control and Prevention.

Vacinas são uma das maiores conquistas civilizatórias da humanidade. Salvam vidas silenciosamente. Não produzem imagens espetaculares. Talvez por isso sejam alvos fáceis do negacionismo político. Quando a ciência preventiva passa a ser tratada como opinião, e não como evidência, o retrocesso deixa de ser abstrato. Ele ganha corpo. E rosto. Muitas vezes, infantil.

O elo entre essas duas notícias — guerra e vacina — é mais forte do que parece. Em ambos os casos, instituições incomodam. No direito internacional, porque impõem limites à força. Na saúde pública, porque exigem rigor, método e responsabilidade coletiva. Quando a política atropela essas instâncias, o que se perde não é apenas eficácia. É civilidade.

Wálter Fanganiello Maierovitch, em O Mercado da Morte, lembra que a primeira vítima da guerra é o próprio direito internacional. Talvez possamos ampliar a frase: a primeira vítima do poder sem freios é sempre o conhecimento acumulado. Seja jurídico, seja científico.

Mudamos o ano no calendário. Mas seguimos resolvendo conflitos com ferramentas gastas. Questionamos vacinas. Relativizamos soberanias. Desconfiamos das regras que nós mesmos criamos para nos proteger de nós mesmos. A essa altura, talvez o brinde mais honesto não seja ao novo, mas ao passado que insiste em governar o presente.

Seguimos celebrando a virada com práticas antigas.
O ano muda.
O mundo, nem tanto.

Feliz ano velho — expressão emprestada, com respeito, para descrever um tempo que se recusa a amadurecer.

O que acontece quando você deixa seu Iphone em preto e branco

Li o texto da jornalista Julia Angwin, no The New York Times, com aquela sensação incômoda de quem começa a prestar atenção em algo que sempre esteve ali, à vista, mas convenientemente ignorado. O ponto de partida dela foi simples: testar o iPhone em preto e branco. Sim, isso é possível. O efeito, segundo o relato, foi tudo menos trivial.

Confesso: eu desconhecia completamente a possibilidade de deixar o iPhone sem cor. Mais do que isso, jamais imaginei que uma mudança tão banal pudesse provocar algum tipo de alívio, ainda que acompanhada de estranhamento. A jornalista também não parecia acreditar muito na ideia. Ela mesma se dizia cética em relação ao discurso alarmista sobre celulares viciantes. Até perceber que passava horas demais mergulhada em comentários políticos e vídeos de maquiagem no TikTok. Quando desligou as cores, algo se rompeu. Um fio invisível, como ela descreve.

O celular perdeu o poder de convocação. A urgência evaporou. O gesto automático de checar a tela deixou de ser automático. O uso diário caiu cerca de 40%. Não virou abstinência nem redenção. Virou consciência. O preto e branco transformou o telefone em ferramenta, não mais em vitrine.

O texto me chamou atenção justamente por isso: não há moralismo, nem cruzada antitecnológica. Há observação. Há desconforto. Há ganhos. E há perdas também. Fotos menos encantadoras, botões confusos, jogos desinteressantes. Um pôr do sol que chega sem cor. Uma fantasia de joaninha que parece gótica. A vida continua, só que sem filtro vibrante.

Talvez o ponto mais honesto do relato esteja na explicação psicológica citada por pesquisadores: muita gente não usa o celular em busca de prazer, mas de alívio. Alívio da ansiedade. Do medo de perder algo. Da sensação de que pode haver uma crise esperando por nós. Nesse sentido, desligar as cores não resolve tudo. Mas ajuda a baixar o volume.

Para quem ficou curioso — como eu fiquei — segue o caminho das pedras.

Como deixar o iPhone em preto e branco

  1. Abra Ajustes
  2. Vá em Acessibilidade
  3. Toque em Filtros de Cor
  4. Ative a opção e selecione Escala de Cinza

Acione o botão salvador

Ainda em Acessibilidade, entre em Atalho de Acessibilidade e marque Filtros de Cor. A partir daí, três cliques no botão lateral ligam ou desligam as cores. Pense nele como um botão de primeiros socorros. Serve tanto quando o tédio da falta de cor bater, quanto quando você sentir necessidade de mais cor na vida — nem que seja por alguns segundos.

Por ora, ainda não tive coragem de atravessar definitivamente para esse mundo sem cores. Prefiro ouvir antes o que você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog, acha dessa experiência. Teste. Observe. Conte depois.

Prometo que só então decidirei se desligo ou não as cores do meu próprio telefone.

Uma redação, muitas décadas e mais um Natal

Edmilson, Claudinho, Paschoal e eu na redação da CBN

Começou o plantão de fim de ano nas redações. É aquele período em que as equipes de jornalismo se dividem em duas para trabalhar em dobro e garantir alguns dias de folga no meio das festas. Em 2025, coube-me o Natal, enquanto Cássia Godoy descansa. Na semana seguinte será a minha vez de calçar as sandálias e relaxar — se é que calçar sandálias ainda é possível sem que se transforme em ato político também.

Logo na chegada à redação, na segunda-feira, tive uma feliz surpresa. Entre os poucos colegas escalados, encontrei três das antigas. Jornalistas e radialistas que me acompanham há algumas décadas: Paschoal Júnior, Edmilson Fernandes e Cláudio Antonio.

Paschoal, para quem ouve o Jornal da CBN, já foi apresentado. É o responsável pela mesa de som do programa — o que não diz tudo sobre ele. Tem participação ativa na edição do jornal, interfere nas pautas, ilustra entrevistas e reportagens, provoca à reflexão e está sempre disposto a oferecer pérolas filosóficas.

Edmilson e Claudinho respondem pela crônica política mais bem-humorada do rádio brasileiro: a Rádio Sucupira, que fecha as edições de sexta-feira do Jornal da CBN. Ed também é o chefe da madrugada e responsável pela edição e redação da abertura do Jornal. Claudinho é um maestro. As melhores sonorizações da rádio passam pelo talento dele. Em particular, destaco a parceria que mantemos há anos na edição do Conte Sua História de São Paulo.

Somos colegas desde o século passado. A expressão pode parecer exagerada, considerando que estamos apenas concluindo o ano 25 do século 21. Ainda assim, ela diz muito. As relações — e as redações — tornaram-se cada vez mais efêmeras. A troca de emprego é frequente. No jornalismo — e percebo que nos escritórios das empresas também — a turma chega novinha, motivada, mas, se em três ou quatro meses não surge um novo desafio, uma atividade diferente ou uma promoção, já pensa em cair fora, buscar novos horizontes, como costumam dizer no linguajar corporativo. Ninguém mais tem paciência.

Eu, Paschoal, Ed e Claudinho tivemos. Muita paciência. Tanto quanto a empresa teve com a gente.

Neste mês de dezembro, completei 27 anos de rádio CBN. Cheguei praticamente junto com o Ed. Paschoal e Claudinho vieram um pouco antes. Estão completando 30 anos. Somados, a foto que ilustra este texto reúne 114 anos de CBN. Tempo de muita história, reportagem, coberturas, graças e falhas. Há frustrações, também — elas existem em todos os aspectos da vida. Aprender com os defeitos, nossos e dos outros, nos tornou mais resilientes. A soma de tudo isso nos forjou e nos trouxe até este Natal.

O tempo, esse mesmo que apavora quem tem pressa demais, nunca me constrangeu. Ao contrário, me orgulha. Orgulha porque ficou. Porque sedimentou relações, ensinou limites, expôs falhas e permitiu correções. Orgulha porque mostrou que permanecer também é um gesto de coragem. Num período em que tudo parece descartável, seguir junto por décadas não é atraso. É escolha. E, olhando para essa redação quase vazia, cheia de histórias, percebo que o tempo não nos envelheceu. Deu-nos lastro.

Dez Por Cento Mais: psicóloga Beatriz Breves diz que não ter medo de sentir ajuda a chegar ao fim do ano

Detalhe da capa do livro “Falando de Sentimentos”

Dezembro tem um jeito próprio de cobrar a conta do ano. O corpo segue, a agenda insiste, as festas aparecem no calendário, e a cabeça começa a fazer balanços que ninguém pediu. Na conversa com a psicóloga e escritora Beatriz Breves, uma pergunta atravessa o período: como cuidar da saúde mental ao longo dos meses para não chegar ao fim do ano esgotado? O tema foi discutido no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela psicóloga e jornalista Abigail Costa.

Autora do livro “Falando de Sentimentos” (Mauad X), Betriz propõe um critério direto para perceber quando o desgaste passou do ponto: “Sofrimento. Excesso de sofrimento”. Ela faz uma distinção importante: sofrer faz parte do caminho. O problema começa quando a dor “atrapalha” o cotidiano, o trabalho e os afazeres. Nesse caso, a orientação é clara: buscar ajuda. “A medida é o quanto a pessoa aguenta… quanto você aguenta o peso”, resume.

A conversa também vira o espelho para o outro lado da balança: o que seria um ano emocionalmente bem vivido? Para Beatriz, não é um inventário de metas cumpridas para agradar os outros. É mais íntimo e menos exibível: “um ano que você tá satisfeito com o que você é e fez”. Ela reforça que não existe régua única. “Cada ser humano é único”, diz, ao criticar a mania de enquadrar pessoas em modelos de sucesso e produtividade.

Metas, comparações e o cansaço de viver a vida do outro

Ao falar de metas, Beatriz usa uma imagem simples: saber tudo sobre bicicleta não ensina ninguém a pedalar. “Para realizar, a gente tem que viver”, afirma. A crítica dela mira o excesso de teoria e a promessa repetida, ano após ano, sem experiência concreta no meio do caminho.

A pressão social aparece como motor desse cansaço. “A pessoa às vezes se exige… por uma exigência social”, observa, citando exemplos comuns: corpo, hábitos, fins de semana, padrões de vida. O ponto, segundo ela, não é abandonar a saúde ou desistir de melhorar. É calibrar o que cabe. “A gente tem que viver o que a gente é. Simples assim. A vida é muito simples. A gente é que o complica.”

Essa lógica se conecta a um tema recorrente no fim do ano: a ansiedade. Beatriz define de forma direta: “A ansiedade é você estar perdido em si mesmo”. A saída, para ela, começa num gesto pequeno: parar, reconhecer o tumulto interno e reconstruir um caminho possível. “Calma. Confia”, diz, como quem dá um comando simples para uma mente que está acelerada.

Sentimentos não andam sozinhos

Um dos pontos centrais da conversa é o que Beatriz chama de alfabetização emocional — a capacidade de nomear o que se sente. Ela afirma que muita gente trava quando é convidada a listar emoções: “Me dê 10 sentimentos. As pessoas não conseguem.” A partir daí, ela desmonta uma ideia comum: a de que um sentimento aparece isolado. “A tristeza é uma orquestra”, explica. Por trás do que está em primeiro plano, há outras emoções sustentando a pessoa, mesmo que discretas.

Ela dá outro exemplo, com o amor: “O amor constrói depende com quem ele tá andando.” Se caminha com posse, ciúme e inveja, vira destruição. Se anda com altruísmo e generosidade, pode virar construção. A chave está no conjunto e, principalmente, no que se faz com aquilo que se sente. “O problema não é sentir, o problema é o que você vai fazer com o que está sentindo.”

A inveja, um sentimento que costuma ser escondido, também surge na conversa. Beatriz defende o reconhecimento, não a celebração. “Se eu posso sentir inveja e devo sentir inveja”, diz, explicando que perceber o que está dentro ajuda a ler o que acontece fora. O trabalho, então, passa a ser de contenção da ação e transformação do estado emocional, não por apagamento, mas por mistura, como na metáfora do café com leite: “você pede um café e põe o leite, aí já não é mais café, nem leite”. 

Coragem para escolher o que é coerente

Quando a conversa chega ao tema das prioridades, Beatriz aponta para uma coragem pouco valorizada: escolher diferente da maioria. “É preciso coragem para você tomar uma decisão que a maioria não toma.” Ela conta uma história de início de carreira, em que decidiu seguir a própria intuição na inscrição de um concurso. O desfecho virou argumento: escolhas carregam risco, e a gente só conhece o caminho depois de andar. O termo que ela escolhe para amarrar esse raciocínio é “coerência”: “A gente tem que ser coerente com o que está sentindo, com o que está vivendo e com as nossas escolhas.”

No fim do ano, essa coerência costuma ser testada pela saudade, pela nostalgia e pelo balanço do que mudou. Beatriz descreve o período como uma “salada de frutas” de emoções: lembranças de quem se foi, comparações inevitáveis, uma sensação de que “várias vidas” cabem dentro de uma vida só. O cuidado, segundo ela, não é abafar o passado nem viver preso nele. É reconhecer o sentimento, “convidá-lo” e seguir sem ficar refém.

Ao falar de compaixão e cobrança, ela recorre a uma experiência antiga numa enfermaria com pacientes idosas. O aprendizado, segundo Beatriz, vinha do contraste: quem conseguia olhar para trás com algum grau de satisfação sofria menos. Ela sintetiza a lição num formato que serve para qualquer idade: não dá para fazer tudo, mas é possível buscar uma vida em que “o que eu fiz me satisfez”.

A dica final do episódio, com a marca do Dez Por Cento Mais, vira quase um bilhete de fim de ano sem frase feita: “Não tenha medo de sentir… se permita se conhecer.” Para Beatriz, a dificuldade maior não é a falta de informação. É a falta de contato consigo. “A gente tem um mundo interno tão grande quanto o externo”, diz, lembrando que o autoconhecimento não é luxo; é higiene emocional.

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Quando a inteligência artificial bate à porta do RH

Reprodução da palestra no Open Talent Summit 2025


A inteligência artificial deixou de ser um assunto restrito a engenheiros, laboratórios e áreas de tecnologia. Ela passou a disputar espaço na mesa onde se tomam decisões sobre gente, cultura e liderança. Esse deslocamento muda o jogo dentro das empresas — e reposiciona o RH no centro da estratégia..

Essa percepção ficou clara para mim ao ouvir Ryan Bulkoski, da Heidrick & Struggles, executivo global da área de dados e inteligência artificial, um dos convidados do Open Talent Summit 2025. O evento promovido pea Chiefs.Group,  uma plataforma de “executivos sob demanda”, foi realizado em São Paulo. 

Ryan lida há anos com a contratação de lideranças em inteligência artificial para grandes companhias. Segundo ele, até pouco tempo atrás, esse tema ficava restrito aos times técnicos. Hoje, quem puxa a conversa é o RH. Não por acaso. A inteligência artificial não é apenas uma nova ferramenta. Ela muda a forma como as pessoas trabalham, aprendem e se relacionam dentro das organizações.

Um ponto me chamou atenção: Ryan insiste que o maior desafio da IA não é técnico, é mental. A ideia de que alguém “é dono” da inteligência artificial perdeu sentido. Ela atravessa todas as áreas. Por isso, passou a aparecer até em descrições de cargos que nada têm de tecnológicos. Espera-se que líderes compreendam, estimulem e saibam conversar sobre o tema — mesmo sem dominar o funcionamento interno das ferramentas.

Nesse cenário, a humildade virou ativo. Executivos que dizem “ainda estou aprendendo” criam ambientes mais seguros. Especialmente para os mais jovens. A liderança, aqui, deixa de ser a do especialista que sabe tudo e passa a ser a de quem convida para o aprendizado coletivo.

Ryan evita discursos grandiosos sobre resultados. Prefere exemplos simples. Recrutadores que ganham tempo com triagens automatizadas. Gestores que usam IA para estruturar feedbacks difíceis. Conselheiros que trocam horas de preparação por minutos de leitura assistida. O ganho aparece quando sobra tempo, clareza e energia humana.

Outro dado revelador: hoje, praticamente todas as buscas por executivos já incluem alguma exigência relacionada à inteligência artificial. Não apenas para cargos técnicos, mas para conselheiros, CEOs e líderes de áreas tradicionais. Não se trata de saber programar. Trata-se de não ficar fora da conversa.

O medo, claro, acompanha a mudança. Ryan defende que a melhor resposta não é discurso, mas exemplo. Líderes que mostram como usam IA — inclusive expondo dúvidas e limitações — ajudam a criar confiança. Vulnerabilidade, nesse caso, não enfraquece. Aproxima.

No fim, ficou uma ideia difícil de ignorar. O maior risco de não avançar na agenda de inteligência artificial não é tecnológico. É humano. Talentos deixam empresas que parecem lentas, fechadas ou pouco dispostas a aprender. A cultura envelhece antes do negócio.

A inteligência artificial pode até assustar. Mas, como lembrou Ryan, outras grandes transformações também causaram receio. Estradas, ferrovias, energia. Ajustes vieram, mas a infraestrutura ficou. Com a IA, tudo indica que estamos apenas no começo.

Cabe à liderança decidir como atravessar esse caminho: espalhando medo ou convidando à curiosidade. A tecnologia, no fim das contas, não escolhe – ao menos não deveria. Quem escolhe somos nós.

Dez Por Cento Mais: geriatra Vitória Arbulu diz como chegar com boa funcionalidade aos 80

Image by Mabel Amber from Pixabay
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“A idade cada vez quer dizer menos; quem determina como a gente vive é a funcionalidade.”

O Brasil está envelhecendo rápido, e a pergunta deixou de ser apenas “até quando vamos viver” para se tornar “como vamos chegar lá”. A cena é conhecida em muitas famílias: alguém que ainda tem muitos anos pela frente, mas já perdeu autonomia para tarefas simples como subir um lance de escada, carregar a sacola do mercado ou brincar com os netos no chão. Foi sobre esse ponto – viver mais sem abrir mão da capacidade de fazer as coisas do dia a dia – que a médica geriatra Vitória Arbulu concentrou sua participação no Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube.

Funcionalidade no centro do envelhecimento

Na prática clínica, Vitória percebe que o foco deixou de ser apenas doença e passou a ser o jeito como a pessoa vive. Para ela, funcionalidade é a síntese do envelhecimento: “Se for pra gente ter foco em alguma coisa que a gente precisa prestar atenção, precisa trabalhar e precisa dedicar nosso tempo, é a funcionalidade”, afirma.

Funcionalidade, explica a geriatra, é a combinação das capacidades físicas e mentais em interação com o ambiente – casa, bairro, condições financeiras, contexto social e cultural. Não se trata só de exames “normais”, mas da pergunta concreta: essa pessoa consegue se movimentar, se vestir sozinha, lembrar compromissos, manter conversas, participar da vida social?

Aos olhos de Vitória, esse é um dos grandes marcadores de qualidade de vida na velhice: “É a funcionalidade que vai dizer se a gente vai conseguir se mover, interagir, ter nossas conversas, se lembrar e ter nossas memórias.”

O declínio começa antes do que se imagina

Quando se fala em envelhecimento, a imagem comum é a de alguém já idoso. Vitória puxa a linha do tempo para bem mais cedo. Ela lembra que sinais de problemas cardiovasculares podem aparecer ainda na infância e o auge da massa muscular e da força óssea costuma acontecer por volta dos 30 anos.

A partir dessa idade, se não houver atenção ao estilo de vida, o declínio funcional começa, mesmo que de forma silenciosa. E ganha novos “degraus” aos 60, 70 anos. Pequenas mudanças no humor, na irritabilidade, na paciência, na disposição para encontros em família, na perda de peso sem explicação, na dificuldade para ouvir ou se comunicar e, principalmente, nas quedas frequentes, são alertas que muitas famílias tratam como “coisa da idade”.

Vitória faz questão de corrigir essa percepção: “A gente acha que está associado ao envelhecimento normal e nada disso está considerado envelhecimento normal: nenhuma dessas condições é ‘normal’.

Entre os fatores que aceleram a perda de funcionalidade, ela lista as doenças crônicas mal controladas, como hipertensão e diabetes, o abandono do fortalecimento muscular, problemas sensoriais (visão e audição), além da redução da interação social.

O básico que muda tudo: sono, alimentação e força

Apesar da profusão de tecnologias e exames, a resposta de Vitória quando alguém pergunta “o que eu posso fazer?” volta sempre ao mesmo ponto: o básico.

A medicina está voltando para o básico: sono, alimentação e atividade física”, resume. A recomendação vale para todas as idades, inclusive para quem chega ao consultório aos 80 ou 90 anos.
“Não importa a idade, o paciente pode chegar para mim com 90 anos, eu vou tentar convencê-lo a começar uma prática de atividade física”, diz.

Vitória destaca que não basta “estar sempre em movimento” no dia a dia. Caminhar até o mercado ajuda, mas não substitui exercício estruturado. Há um componente de dose e de qualidade: número de passos, redução do tempo sentado, e, principalmente, fortalecimento muscular. “Musculação é essencial, inegociável e insubstituível”, afirma, ao falar do combate à sarcopenia – a perda de massa e força muscular que, quando avançada, vira doença e compromete até cuidados básicos, como levantar da cama ou ir ao banheiro.

Nesse pacote, a alimentação entra como aliada direta do músculo: “A sarcopenia tem tratamento. A base é atividade física resistida e alimentação, principalmente hiperproteica.

Histórias que mostram o que está em jogo

Ao falar de mudança de estilo de vida, Vitória recorre a histórias que ilustram o que está em disputa quando se fala em força, funcionalidade e autonomia. Uma delas é a da própria avó, hoje com 85 anos. Ela não tinha o hábito de fazer exercícios e foi convencida pela neta, aos 84 anos, a participar de uma atividade em grupo promovida pela prefeitura. Os números dos testes físicos melhoraram: mais velocidade para levantar, caminhar, melhor equilíbrio, menor risco de quedas. Só que, quando perguntada sobre o que mudou, a avó não menciona nada disso: “A única coisa que ela fala é que está conseguindo brincar com os bisnetos no chão e levantar sozinha”, conta Vitória.

Outra paciente, na casa dos 70 anos, chegou ao consultório com artrose avançada de quadril e resistência à atividade física. Depois de muita conversa, aceitou entrar em um grupo de exercício. Ganhou força, ampliou a rotina de movimento e, no meio do caminho, conheceu um parceiro na turma de atividade. “Ela começou a ter dor não mais por ficar parada em casa, mas porque estava fazendo trilha com o namorado”, relata a médica.

A partir dessa nova etapa de vida, Vitória encaminhou a paciente para prótese de quadril, confiando que, com reabilitação adequada, ela teria mais anos de vida ativa pela frente. Para a geriatra, essas histórias mostram que atividade física não se resume a “puxar ferro”, e sim a recuperar experiências: ir ao mercado sozinha, subir escadas, brincar com netos, encarar uma trilha.

Comparação, autonomia e saúde mental

A comparação com o outro aparece no consultório em todas as idades. E na velhice não é diferente.
A comparação faz mal em qualquer cenário”, diz Vitória, que desestimula frases como “os pacientes da minha idade”. Para ela, envelhecer é um processo profundamente individual: há pessoas acamadas aos 60 anos e outras escalando montanhas na mesma idade.

“Muito mais do que o número da idade, o que determina como a gente vive são o estilo de vida, as escolhas e a atenção com a própria saúde”, reforça.

Ela lembra que questões emocionais pesam. O Brasil figura entre os países com mais casos de ansiedade e depressão, e a população idosa não está fora desse quadro. Mudanças rápidas na sociedade, dificuldade de adaptação ao próprio corpo, distanciamento de filhos e netos, sensação de perda de utilidade após a aposentadoria e isolamento social compõem um cenário que exige cuidado com saúde mental, e não apenas com exames físicos.

O recado para quem ainda é jovem

Ao final da conversa, Vitória volta o olhar para quem ainda se considera “longe da velhice”. A mensagem é direta: o futuro do corpo está sendo construído agora. “Não importa se você tem cinco, 10, 50 ou 100 anos, a atenção à própria saúde o quanto antes é melhor”, afirma.

Ela defende que atividade física deve ter o mesmo peso de hábitos óbvios como escovar os dentes e beber água: “O nosso corpo precisa de atividade física e isso não está no nível de querer ou não querer, de gostar ou não gostar”, diz.

Além do movimento, Vitória destaca o cuidado com a alimentação em um ambiente de alta industrialização, agrotóxicos e microplásticos, e propõe um compromisso mais gentil consigo mesmo: priorizar a própria saúde física e mental como condição para cuidar dos outros.

Na síntese que deixa para o público, Vitória resume o “mínimo essencial” para chegar aos 80 anos com boa funcionalidade em três pilares:

Se eu tivesse que escolher uma só coisa, seria a musculação. Mas não tem como deixar de lado o que a gente come e o jeito como a gente gerencia o estresse.”

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Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quando a brasilidade move o mercado

Brasil

Marcas brasileiras têm ocupado cada vez mais espaço ao adotar referências culturais do próprio país para se comunicar com o público. Uma transformação em relação ao mimetismo que, historicamente, nos fez reproduzir em terras tupuniquins o que se ensinava pelas bandas do Tio Sam. É esse o tema do comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, apresentado por Jaime Troiano e Cecília Russo.

Jaime observa que esse movimento “não se trata de um verde-amarelismo ingênuo”, nem de alinhamento político. Ele descreve um processo mais amplo, construído ao longo do tempo, em que as marcas passaram a reconhecer que durante décadas houve “uma assimetria cultural que povoou nosso marketing e comunicação”. Segundo ele, a influência de grandes multinacionais moldou estilos que não dialogavam com a realidade brasileira. Agora, sinais concretos mostram uma virada: “Quem entra numa loja da Farm sente que está no Brasil ou no Rio de Janeiro em particular”, afirma. Ele cita também a Hering, que incorporou traços da cultura nacional em suas lojas, como exemplo dessa reaproximação.

Cecília amplia a reflexão e lembra episódios recentes quando o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnic, disse que “é preciso consertar o Brasil”. Ela aponta que esse tipo de visão desconsidera caminhos próprios construídos aqui. Em contraste, lista marcas que transformaram identidade brasileira em valor estratégico. A Dengo, no chocolate, reforça vínculos com produtores de cacau. Melissa leva um estilo “urbano, com toques tropicalistas”. No segmento de bebidas, Guaraná Jesus e Cajuína preservam raízes regionais mesmo sob o guarda-chuva de empresas globais. Há ainda casos como a Ypê, que “dialoga de uma forma muito brasileira com as consumidoras”, em um mercado dominado por gigantes internacionais.

Essa escolha não rejeita influências externas; apenas equilibra paisagens culturais. Como resume Jaime, “estamos vendo uma redução da assimetria cultural”, movimento que valoriza o repertório local e amplia a autenticidade da comunicação.

A marca do Sua Marca

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso sustenta a ideia de que marcas brasileiras ganham força quando assumem a própria origem. Cultivar comunicação, produtos e experiências inspirados em referências nacionais cria vínculos mais sólidos com consumidores e reduz a dependência de modelos importados.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: pela volta às manchetes 

Sport 0x4 Grêmio
Brasileiro – Ilha do Retiro, Recife/PE

Foto de Rafael Vieira/GrêmioFBPA

Os jornais do dia, que insistem em sobreviver na banca do Vilela, na Vicente da Fontoura, ou na do Largo dos Medeiros, mais ao centro de Porto Alegre, vão estampar na manchete principal o livramento do co-irmão. Escapou do rebaixamento na rodada final e teve de contar com o revés dos adversários diretos. Ao Grêmio, com sua vaga garantida na Copa Sul-Americana, restará a segunda dobra da primeira página. Ao Juventude, quiçá uma linha fina. Ao descrever esse cenário, não faço crítica alguma à hierarquia construída pelos editores; fosse eu o responsável pelo jornal, faria o mesmo.

Muitos porto-alegrenses que ainda preservam o ritual da leitura do impresso talvez sigam ao trabalho, nesta segunda-feira, com a camisa do clube. Nós, gremistas, celebrando a goleada que encerrou a temporada — mesmo sabendo da fragilidade do adversário — e o fato de terminarmos o campeonato na primeira página da tabela, com um lugar assegurado em competição sul-americana.

Outros torcedores comemorando como se fosse épico escapar na rodada final, passando 90 minutos de ouvido colado no que acontecia nos estádios alheios. Devem ter chegado em casa aliviados e repetido a velha frase: “time grande não cai”. Esquecem que já caíram, assim como tantos outros.

Não critico editores, tampouco os excessos de paixão. O futebol nos empurra para um território em que todos os sentimentos sobem ao topo da tabela, enquanto a razão amarga uma vaga cativa no banco de reservas.

O fato é que aquilo que testemunhamos no fim desta temporada deveria preocupar quem acompanha o futebol do Rio Grande do Sul. A rivalidade que, durante décadas, nos impulsionou para cima perdeu o fôlego. Ganhar campeonatos estaduais deixou de ser medida de grandeza. Diante do tricampeonato brasileiro do adversário, o Grêmio apontou para horizontes maiores: tornou-se tricampeão da Libertadores, conquistou o mundo. A contratação de um craque de um lado exigia resposta imediata do outro. Um estádio mais moderno chamava outro ainda mais robusto. Era uma disputa que elevava o nível.

Nos últimos anos, e neste em particular, deixamos a ambição escorregar e adotamos a mediocridade como parâmetro. A tabela do Brasileiro e a ausência de clubes gaúchos nas decisões das competições relevantes dizem por si.

O futebol do Rio Grande do Sul não nasceu para ser nota de rodapé. Nesta última Avalanche do ano, deixo o desejo de que voltemos a ocupar a parte mais nobre das manchetes — não pelas circunstâncias, mas pelos feitos.