Avalanche Tricolor: é preciso ouvir os sinais

Inter 4×2 Grêmio
Gaúcho – Beira-Rio, Porto Alegre (RS)

Grenal 449
Luis Castro comanda o time no primeiro Gre-Nal. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Os sinais estão por aí. Espalhados, discretos, insistentes. Falta-nos, quase sempre, atenção para percebê-los e alguma habilidade para traduzir o que tentam nos antecipar. Não é preciso ser vidente. Basta menos ilusão e um pouco mais de perspicácia.

Conto isso porque os sinais falaram comigo. E eu, como costuma acontecer, preferi não escutar.

Quando marquei o retorno da viagem de férias — que se encerra hoje — o Gre-Nal estava previsto para o dia anterior. Plano perfeito: assistir ao clássico com tranquilidade, direto do hotel. Um ajuste no calendário mudou tudo. A bola rolaria exatamente no horário em que eu estaria em voo para São Paulo. Lamentei. Perderia o primeiro clássico da temporada.

Havia saída? Até havia. Bastaria trocar a passagem. O problema é que as companhias aéreas cobram caro por mudanças repentinas. Pensei melhor. Gre-Nal fora de hora não valia tanto assim. Ainda que, como ensina a sabedoria popular, Gre-Nal é Gre-Nal.

Ali estava o primeiro aviso. Ignorei.

Logo após a decolagem, a comissária anunciou que o avião tinha internet. Um sopro de esperança. O processo parecia simples: baixar o aplicativo da companhia, fazer cadastro, aceitar termos, oferecer dados pessoais e, se possível, lembrar a senha criada em algum passado remoto. Nada funciona de maneira simples — o que já deveria ter sido entendido como mais um sinal.

Entre aplicativos, senhas esquecidas e dados inseridos de forma errada, consegui conexão. Fui direto ao site do GE. Quem sabe assistir ao jogo em vídeo, lá do alto. Ingenuidade. A internet não dava conta disso. Qualquer pessoa razoável teria parado ali. O gremista, não.

“Estão tentando me boicotar, mas não vão me afastar do Grêmio”, pensei, já desconfiando da própria teimosia. Se não dava em vídeo, iria no áudio. O rádio pela internet sempre salva. Lembrei da GZH. Um clique no play e pronto: a voz de Pedro Ernesto Denardin preenchia a cabine. Vitória parcial.

Ah, se eu tivesse ouvido os sinais do destino…

Resta torcer para que o técnico gremista tenha mais sensibilidade do que eu. Que saiba ler as mensagens deixadas por esta derrota no Gre-Nal, traduzi-las com clareza e transformá-las em aprendizado. O futebol, assim como a vida, vive nos avisando. Ignorar custa caro.

Avalanche Tricolor: tão longe e tão perto de ti

Guarany 0x2 Grêmio

Gaúcho – Estrela D’Alva, Bagé RS

Gremio x Guarany
Carlos Vinícius comeora quarto gol no Gaúcho Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Comecei a Avalanche passada falando da minha distância em relação ao Grêmio. Distância física, claro, porque de alma e coração estamos sempre próximos. Estava, como ainda estou, em João Pessoa, na Paraíba, enquanto o Grêmio disputava uma partida em Porto Alegre. A distância volta à nossa crônica, porque na noite de quarta-feira o Grêmio foi para mais distante ainda ao jogar em Bagé, cidade gaúcha tradicional de muitas histórias e personagens.

Na fronteira com o Uruguai, o futebol gremista também esteve tecnicamente distante do que havíamos assistido na rodada anterior, na Arena. É preciso considerar que o time não era aquele que entendemos ser o titular. Ressalvas ainda para  palco da partida: estádio acanhado, vestiários precários, gramado ruim e, como se viu, infraestrutura frágil. O jogo começou com 40 minutos de atraso por problemas no fornecimento de energia na subestação do Estrela D’Alva, segundo informou a companhia elétrica. 

Apesar de a falta de criatividade e coletividade, três nomes se destacaram no primeiro tempo: os jovens Luis Eduardo, na zaga, e Roger e Enamorado, no ataque. No segundo tempo, o time voltou a ter dificuldades para chegar ao gol. O cenário mudou pouco mesmo com a expulsão justa de um dos adversários, aos cinco minutos — pô, Serginho, esperava que ao menos você gritasse na hora que era caso de expulsão (desculpa aí, caro e raro leitor, foi só recado para um dos amigos que mais admiro na crônica esportiva).

Cansado de esperar um desempenho melhor, Luis Castro fez as mudanças necessárias para o time chegar ao gol. Gabriel Meck entrou bem na direita e foi dele o cruzamento para que Carlos Vinícius marcasse o gol que abriu o placar. Vini da Pose precisou de poucos minutos para mostrar a André Henrique como se posicionar corretamente entre os zagueiros e cabecear de maneira certeira no gol. Em lance parecido, no primeiro tempo, André havia desperdiçado uma das poucas oportunidades que tivemos.

O jogo ficou mais fácil com a necessidade de o adversário sair para o ataque e a presença no meio de campo de outro guri da base, Jefferson. O time ganhou em intensidade e criatividade, chegando ao segundo gol em lance que também teve participação de Carlos Vinícius e foi concluído por Edenílson. Uma nota positiva ainda para o goleiro Weverton que fez uma estreia segura nas poucas vezes que foi acionado. 

Domingo tem Gre-Nal. É o dia em que retorno das férias. Estarei um pouquinho mais próximo do Grêmio. E, espero, que o Grêmio esteja muito próximo de mais uma vitória no clássico.

Avalanche Tricolor: vida mansa!

Grêmio 5×0 São Luiz
Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Sao Luiz
Carlos Viniciu marcou 3 vezes. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Vim longe para assistir ao Grêmio neste início de noite de sábado. Estou em João Pessoa, na Paraíba, onde passo meus dias de férias. Cheguei pouco depois do meio-dia e me hospedei de frente para o mar, na praia de Cabo Branco. Vida mansa! — deve estar pensando o caro, e cada vez mais raro, leitor desta Avalanche. Não há como discordar. É aqui que o sol nasce primeiro, as praias são mais limpas e as falésias desenham parte da costa. Um cenário convidativo para começar o ano com outro ritmo.

Justiça seja feita, porém. Para chegar até aqui, fizemos por merecer. Um ano de trabalho intenso, enfrentando o corre da redação e os desafios de quem insiste em fazer jornalismo com equilíbrio. Uma jornada árdua em muitos momentos, recompensada, de vez em quando, com pequenos privilégios. Foi nesse cenário generoso que acompanhei a goleada do Grêmio lá em Porto Alegre.

A partida começou fácil e terminou antes mesmo da hora. O Grêmio resolveu o placar no primeiro tempo e, no segundo, apenas completou a goleada. A vida do gremista foi mansa, sem dúvida. Mas o time também fez por merecer. Alguém poderá desdenhar o gol de abertura, surgido da infelicidade de um defensor adversário. Convém lembrar que o erro foi provocado pelo dinamismo imposto pelo Grêmio, bem diferente do que se viu no meio de semana.

A equipe que iniciou a partida se aproxima daquela que Luis Castro deve consolidar como titular, especialmente do meio de campo para frente. A começar por Arthur. Com ele, o Grêmio muda de patamar. A bola é tratada com respeito, circula mais rápido e chega melhor ao ataque.

A estreia de Tetê pela direita trouxe boas notícias. O atacante aposta em jogadas individuais, combina força e talento, participou diretamente de dois gols e quase deixou o seu. Cristaldo foi outro destaque. Iniciou a jogada que resultou no gol contra, deu assistência no segundo e marcou um golaço já na etapa final. Carlos Vinicius, autor de três gols, sinaliza que pode ocupar o espaço deixado por Luis Suárez, algo que o Grêmio procura desde então. Tiago e Roger seguem cavando espaço entre os titulares. Amuzu aparece cada vez mais solto e atrevido pela esquerda, agora com a concorrência de Enamorado, o colombiano que estreou no segundo tempo

Entre o sol que nasce primeiro em João Pessoa e a goleada construída com autoridade na Arena, ficou a sensação de que descanso e merecimento também fazem parte do futebol. O Grêmio venceu com tranquilidade, apresentou sinais de evolução coletiva e ofereceu ao torcedor uma noite sem sobressaltos — dessas que ajudam a organizar ideias, alimentar expectativas e lembrar que, quando o time joga bem, até a vida do gremista pode ser mansa.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: fui estafeta do Dr. Waldemar

José Luiz da Silva

Ouvinte da CBN

Foto do bonde reproduzida do site São Paulo Antiga

Quando eu tinha oito anos, por volta de 1940, morávamos na Rua Octavio Nébias com a Rua Maria de Figueiredo, entre o Ibirapuera e a Avenida Paulista. Minha mãe era governanta e cozinheira da família do Dr. Waldemar Mercadante, famoso médico da cidade. Meu pai era funcionário da RAE, Repartição de Água e Esgoto, atual Sabesp. 

O sobrado que habitávamos era enorme, com grandes varandas, porão, sótão com vista para o Ibirapuera, seus lagos, campos de futebol, muito verde no qual cavalos, vacas e cabras pastavam. Não tinha a estrutura de hoje, mas era lindo e despoluído.

O Dr. Waldemar tinha a rotina de solicitar que eu fosse buscar um carro de aluguel na Av. Paulista e também pegar soro no Instituto Pasteur.

Certa vez, após muitas explicações, principalmente sobre disciplina ambiental, fui incumbido de levar uma carta para um colega dele de medicina. Deu-me duas moedas para pegar o bonde. 

Lembro-me bem do bonde camarão com almofadas em vinil e lustres; motorneiro e condutores impecavelmente vestidos. Peguei o bonde na confluência da Av. Paulista com Brig. Luiz Antonio, onde erguia a estátua do índio Caçador. O bonde deslizava sobre os trilhos e dividia a rua estreita com alguns automóveis. 

Enfim, cheguei ao destino; desci perto do Trianon; localizei a mansão cuja frente era igual as demais: os portões eram enormes, feitos de bronze com bocas de onça e carrancas talhadas em ferro batido; a sinaleta era muito alta para o meu um metro de altura; subi colocando os pés entre os vãos e puxei a corrente; ouvi o badalar do sino ao fundo. Adiante, um verdadeiro bosque com árvores, matas, plantas e flores, hoje só vista na região do Parque Trianon.  E assim seguiam os meus dias de menino — fazendo as vezes de estafeta.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

José Luiz da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Avalanche Tricolor: a teimosia de ficar acordado

Grêmio 0x1 São José
Campeonato Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Algre RS

Gremio x Sao Jose
Gabriel Mec tenta um ataque Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O dia havia começado sob o impacto de uma manchete curiosa: por que sabemos cada vez mais sobre como dormir bem e, ainda assim, dormimos cada vez pior? A reportagem reunia especialistas, dados e recomendações. Para mim, a resposta era menos sofisticada: porque não exercitamos o conhecimento que já dominamos. Sabemos muito e fazemos pouco — uma equação que não fecha.

Dou-me como exemplo. Sei que durmo bem menos do que deveria. Costumo culpar o horário de trabalho, que me obriga a acordar às 4h15 da madrugada. A conta seria simples. Dormir mais cedo garantiria descanso, melhoraria a qualidade do sono e o corpo agradeceria. Bastaria antecipar o jantar, reduzir a bebida alcoólica, especialmente à noite, e eliminar estímulos que nos mantêm em estado de alerta. Sei disso tudo. Não faço.

Foi exatamente o que aconteceu ontem. Apesar de precisar estar cedo no estúdio da rádio, onde apresento meu programa matinal de jornalismo, insisti em acompanhar o Grêmio no fim da noite. Jogo apenas da segunda rodada do Campeonato Gaúcho, sem qualquer ingrediente que o tornasse memorável. Arena sem torcida. Time em estágio de aprendizado. Nada convidativo.

Os sinais estavam todos no primeiro tempo. Equipe lenta, marcação distante, pouca criatividade e poder ofensivo inexistente. Um desânimo proporcional às arquibancadas vazias. Para completar, o adversário chegava com mais perigo e foi premiado no lance final, quando acertou um chute indefensável no ângulo. Em condições normais, o intervalo seria um convite irrecusável para a cama.

Claro que não fui. Permaneci diante da TV, à espera de alguma mudança. Ela não veio, nem na escalação nem na postura. Apenas com as substituições do segundo tempo surgiu uma réstia de esperança de que a vigília tivesse valido a pena. Ledo engano. A bola passou a circular um pouco mais rápido, houve mais movimentação, mas nada realmente novo aconteceu.

Para não dizer que só foi desperdício ontem à noite, fiquei entusiasmado ao ver Roger em campo com um futebol atrevido que já havia se destacado na partida de estreia. Gabriel Mec, por sua vez, ainda terá de aproveitar melhor as oportunidades que surgirão neste início de ano.

Sei que não é momento de cobrança. O time vive um período que deveria ser de pré-temporada, antecipado pela necessidade de acomodar os jogos no calendário de 2026. O Grêmio passa por reformulações dentro e fora de campo. O técnico Luís Castro chegou há pouco e mal teve tempo para treinar a equipe. A expectativa recai sobre contratações e o retorno de jogadores lesionados, na esperança de um elenco mais competitivo ao longo da temporada.

Tudo isso eu sabia antes da bola rolar. Ainda assim, ignorei os sinais e fiquei acordado. Agora estou aqui, explicando — e tentando justificar — a minha cara de sono.

Há 20 anos, o Conte Sua História e os ouvintes da CBN ajudam a preservar a memória de São Paulo

No estúdio de podcast da CBN gravando o Conte Sua História de SP

O Conte Sua História de São Paulo completa 20 anos neste mês de janeiro. O projeto nasceu quando a CBN preparava uma programação especial pelos 452 anos de fundação da cidade, em 2006 — à época, sob sugestão da diretora de jornalismo Mariza Tavares. Eu apresentava o CBN São Paulo, programa que ajudou a moldar minha identidade como âncora de rádio e que se tornou o berço natural dessa ideia.

A proposta inicial era simples: selecionar textos enviados pelos ouvintes para serem lidos no ar durante as duas semanas que antecediam o aniversário da cidade. A resposta foi tão intensa e surpreendente que decidimos manter o quadro depois das comemorações. Nas primeiras edições, tudo era feito ao vivo — leitura e sonorização —, o que exigia habilidade extra do colega Paschoal Júnior no estúdio, sempre atento aos detalhes que davam vida às histórias.

Com o passar do tempo, adotamos a gravação antecipada das narrativas para depois colocá-las no ar. Foi nesse momento que o maestro Claudio Antonio entrou para o projeto, responsável pela construção musical que acompanha cada texto. Ele segue ao meu lado até hoje. O Conte Sua História é exibido atualmente aos sábados, no CBN São Paulo. Ainda em seu primeiro ano, ganhou forma de livro: 110 histórias de ouvintes reunidas pela Editora Globo.

A cada janeiro, propomos um tema especial para inspirar os ouvintes a escrever. Em 2026, o convite foi para que compartilhassem lembranças e experiências ligadas ao trabalho — afinal, São Paulo é constantemente identificada como a cidade das oportunidades e das jornadas que moldam trajetórias.

A caixa de e-mails rapidamente revelou uma riqueza de memórias. Profissões que desapareceram, modos de trabalhar que já não existem, situações inesperadas, cenas que dizem muito sobre o tempo em que foram vividas. Histórias que valorizam profissionais, colegas, empresas e atividades diversas. 

Assim como acontece desde a primeira edição, cada texto me exige presença total: procuro incorporar o personagem, traduzir na voz a intenção de cada palavra e captar o espírito que move o autor a dividir aquele momento. Talvez seja isso que explica o gestual e a expressão flagrados na foto registrada por Priscila Gubiotti, técnica de áudio e vídeo da CBN, que compartilho com vocês.

Onze textos foram selecionados para estas duas semanas. Todos os demais estão organizados nos meus arquivos e irão ao ar nas próximas edições de sábado do CBN SP. Se ao ouvir uma dessas lembranças você sentir vontade de revisitar sua relação com a cidade, escreva. A história de São Paulo só existe porque alguém a viveu — e a contou.

Para participar, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Que o último orelhão não silencie as lições do jornalismo de rádio

Orelhão depredado
Foto: CBNSP/Flickr

A notícia da retirada definitiva dos orelhões das ruas me alcançou num daqueles momentos em que o passado resolve puxar uma cadeira e se sentar ao meu lado. Não foi a Anatel quem provocou essa viagem, e sim Edgar Lisboa, que transformou a extinção dos telefones públicos em narrativa. No texto publicado no Portal Repórter Brasília, ele recuperou episódios da vida de repórter nos tempos da rádio Guaíba, de Porto Alegre, citou o Correspondente Renner, lembrou do meu pai — Milton Ferretti Jung — e, com um detalhe que me fez sorrir, mencionou aquele adolescente de bermuda que circulava curioso pela redação: eu.

A leitura me tocou porque Edgar não apenas trouxe meu pai de volta à cena; ele resgatou um modo de fazer rádio que me formou antes mesmo de eu ter carteira de trabalho. A Guaíba, como ele escreveu, era uma escola. E foi ali que aprendi a caminhar entre pautas, microfones e silêncios. A voz firme do Renner no ar, sempre no horário, era lição diária de responsabilidade. E, antes de virar apresentador, eu era o menino que observava tudo — tentando entender como fatos viravam notícia e notícia virava confiança do ouvinte.

Edgar descreveu essa rotina com a precisão de quem esteve no front. Para quem viveu a época, o orelhão era mais que telefone: era redação improvisada. Na rua, toda entrada ao vivo começava pela busca do aparelho mais próximo. Ficha no bolso, papel na mão, o texto organizado na cabeça. Não existia botão de enviar nem de corrigir. A urgência dependia da paciência que a tecnologia impunha. Era fazer jornalismo no limite do que estava disponível.

A lembrança do Correspondente Renner reforça a dimensão desse compromisso. O programa era um marco de pontualidade e rigor. Se algo relevante acontecia no meio da edição, a última notícia entrava no ar com meu pai lendo o texto recém-redigido. Não havia atalhos. Havia trabalho sério, construído sem internet, sem redes sociais e sem a avalanche de ruídos que hoje tentam se passar por informação.

A tecnologia avançou, os orelhões desapareceram e isso é natural. O que não se perde — e Edgar captou bem — é o valor simbólico de uma época em que a rua era extensão da redação. O telefone público era o fio que ligava o repórter ao ouvinte e, muitas vezes, ao próprio entendimento da notícia.

Termino com a sensação familiar que me acompanhava quando descia do carro para procurar um orelhão: certas histórias precisam ser contadas do jeito certo. Edgar contou a dele e, no meio dela, revivi meu pai, o Renner e aquele guri de bermudas que começava a aprender o ofício observando quem sabia fazer.

E, claro, também vivi a experiência de correr para o orelhão, fichas na mão, texto na cabeça e a redação esperando do outro lado da linha. Era o que tínhamos. Era tudo de que precisávamos.

Leia “A importância dos orelhões no jornalismo”, de Edgar Lisboa, no Portal Repórter Brasília

Avalanche Tricolor: foi muito bom reencontrar os amigos

Avenida 0x4 Grêmio
Gaúcho – Estádio dos Eucaliptos, Santa Cruz do Sul (RS)

Gremio x Avenida
Roger comemora o terceiro gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Aproveitei o primeiro fim de semana “útil” do ano para visitar amigos no interior de São Paulo. Não nos víamos havia alguns meses. No Natal, eles estavam fora do país, enquanto eu cumpria plantão. No Ano Novo, fui à minha cidade natal, justo quando retornavam ao Brasil. E durante o ano… bem, você sabe como a vida corre, atropela e afasta.

Ao longo do tempo, trocamos mensagens esporádicas. Reencontros, porém, servem para outra coisa: saber das novidades e recontar histórias antigas. Muitas já conhecidas. Mesmo assim, irresistíveis. Falamos também do que acreditamos que pode acontecer em 2026 — projetos de vida, viagens, possibilidades. E lamentamos a insanidade daqueles que insistem em atrasar nossas vidas.

Voltar é reencontrar. Não foi o poeta quem disse. Foi uma frase que me veio à cabeça quando estive em Porto Alegre. Em pastas antigas, usadas como guarda-arquivo, encontrei dezenas de papéis datilografados. Eram crônicas escritas por meu pai, Milton Ferretti Jung, lidas nos primeiros programas de rádio que apresentou, ainda na Rádio Canoas. Assinava como diretor de jornalismo — ao que sei, diretor dele mesmo. Havia poucos profissionais na emissora e menos ainda no departamento.

Entre os papéis guardados por meu irmão, dentro de um baú, descobri também uma coleção de cartas trocadas entre meu pai e o vô Romualdo, quando ele estudava em um internato, na cidade de Farroupilha. Chamou atenção a formalidade da escrita do meu avô. Mais ainda: referências ao futebol. Não me lembro de tê-lo ouvido falar de esporte com os netos, tampouco com meu pai. Ainda assim, lá estava o registro de uma partida do Grêmio a que assistiu no estádio — o que, pela época, deve ter sido no saudoso Fortim da Baixada, no Moinhos de Vento.

Caro e cada vez mais raro leitor, jamais imaginei que esta Avalanche, escrita desde janeiro de 2008, pudesse ser resultado de uma paixão e de um hábito passados de pai para filho desde os anos 1950.

Mas eu falava de reencontros. E, no sábado à noite, havia mais um marcado.

O Grêmio voltava aos gramados pouco tempo depois da despedida de dezembro. Reencontrá-lo, agora sob nova direção, foi uma surpresa agradável. Mesmo levando em conta o curto período de treinos e a fragilidade do adversário, a goleada na estreia fez bem. Aliás, placar semelhante ao da partida que encerrou o ano passado.

Assim como na conversa com os amigos, o Grêmio também apresentou novidades e reacendeu esperanças para 2026.

A presença de Roger e Tiaguinho, ambos com 17 anos, foi a principal delas. Os dois participaram de gols, mostraram personalidade forte, e Roger ainda fechou sua atuação com o terceiro gol. Mais do que o desempenho, o gesto de Luís Castro ao escalá-los como titulares alimenta uma expectativa antiga: investir, de fato, nos talentos da base. Confesso que já não suporto ver nossos protótipos de craques serem vendidos antes mesmo de estrearem no profissional.

É cedo para qualquer projeção. Uma partida não define uma temporada. Ainda assim, reencontrar o Grêmio com uma goleada e algumas boas notícias é muito melhor do que começar o ano apenas relembrando velhas glórias do passado — como aquelas que meu avô contava ao meu pai, nas cartas encardidas que pretendo ler com calma nos próximos dias.

Talvez a Avalanche nunca tenha sido só futebol. Talvez sempre tenha sido, antes de tudo, uma forma de reencontro. Com a família, com os amigos, com você, caro e cada vez mais raro leitor.

Stanford mandou avisar que ainda não sou velho; alguém pode contar para o plano de saúde?

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Acordei nesta manhã um pouco mais jovem. E não foi a sequência de exercícios, com musculação e bicicleta, a que tenho me dedicado nos últimos anos, que me concedeu esse prêmio. Nem a alimentação, que ainda precisa de um controle maior — desde que a Dra. Márcia não se atreva a mexer na minha taça de vinho. A juventude fora de hora me foi oferecida em formato de notícia.

Quando o dia está amanhecendo e estou à mesa de café da manhã, a Letícia Valente, produtora do Jornal da CBN, me envia pelo WhatsApp sugestões de assuntos para o bate-papo que faço na passagem do programa Primeiras Notícias para o Jornal da CBN. Uma das mensagens que chegaram hoje, publicada em O Globo, se destacava pela manchete: “Quando começa a velhice? Estudo indica marco biológico aos 78 anos”.

Sério? Faz uns dois anos que dizem que sou velho porque passei a marca dos 60. Agora vem essa novidade: velho mesmo só aos 78.

A reportagem fala de um estudo da Universidade de Stanford sobre o desenvolvimento biológico do envelhecimento. A conclusão dos pesquisadores veio da observação de mudanças bruscas nas proteínas plasmáticas, moléculas que circulam no sangue e indicam o estado geral de saúde do organismo. Essas proteínas são como ajudantes de bastidor: mantêm o equilíbrio de líquidos, carregam nutrientes, defendem o corpo de infecções. Quando mudam de comportamento — aos 34, 60 e 78 anos — sinalizam que o corpo virou a página e entrou em outra fase.

Se, do ponto de vista biológico, eu ainda não sou velho, do ponto de vista burocrático o sistema já me carimbou faz tempo. Ser 60+ nos oferece algumas vantagens: prioridade no recebimento da restituição do Imposto de Renda, gratuidade no transporte coletivo, meia-entrada em espetáculos, vaga privilegiada no estacionamento e fila preferencial nos serviços de atendimento (e no embarque do avião, também). Quem não gosta? Por outro lado, com o aumento dessa população — já somos milhões de pessoas acima dos 60 — tudo isso gera mais custos para quem concede essas vantagens.

Já assistimos a movimentos para que os direitos concedidos a idosos sejam limitados a pessoas um pouco mais velhas, tipo 65+. O estudo talvez possa ser usado para radicalizar ainda mais e convencer legisladores a adiar os benefícios apenas para aqueles que tiverem atingido os 78 anos.

A depender de mim, sem problema. Posso abrir mão de furar fila no embarque e no caixa — desde que os planos de saúde também abram mão de tratar quem tem 60 como se estivesse à beira do fim. Se biologicamente a velhice começa aos 78, a tabela de preços bem que podia acompanhar.

Os empregos em alta em 2026 e a habilidade silenciosa que conecta todos eles

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A lista de “Empregos em Alta” do LinkedIn para 2026 confirma algo que já percebíamos nas conversas com executivos e gestores: nenhuma carreira avança sozinha. Tecnologia, finanças, saúde e relações humanas dividem o mesmo palco e a comunicação atravessa todas elas.

As funções ligadas à Inteligência Artificial ocupam o topo da lista. Engenheiros, cientistas de dados e especialistas em modelos generativos passaram de promessa a necessidade diária das empresas. No outro extremo, profissões tradicionais seguem firmes: planejamento financeiro, enfermagem, engenharia de processos e segurança industrial continuam essenciais. A economia muda, mas não abandona suas bases.

Outro destaque é o crescimento dos cargos voltados ao relacionamento. Especialistas em contas e gestores de relações corporativas viraram peças-chave. São eles que evitam ruídos, alinham expectativas e protegem reputações em ambientes mais sensíveis.

Essas três frentes — tecnologia, finanças/saúde e relações humanas — revelam o mesmo padrão: as empresas precisam de profissionais capazes de transformar complexidade em clareza.

E é aqui que a comunicação volta ao centro da conversa.

O engenheiro de IA precisa explicar riscos e limites dos modelos que cria. O planejador financeiro deve traduzir jargões em orientações compreensíveis. O técnico de enfermagem lida diariamente com situações que exigem escuta atenta e empatia. O gestor de relações corporativas sabe que uma frase mal colocada abre conflitos desnecessários.

Comunicação é habilidade transversal. Defendo isso há anos nas palestras e nos livros que escrevo.  Essa lista só reforça a tese. Não importa se você programa máquinas, trata pacientes, conduz investimentos ou negocia contratos: todos estamos sendo convocados a falar melhor, ouvir melhor e traduzir melhor.

O profissional de 2026 precisará unir técnica e clareza; análise e empatia; dados e narrativas. Vence quem conecta. Vence quem simplifica. Vence quem entende que comunicar não é só transmitir informações, mas criar sentido em meio ao barulho constante que nos atravessa.

Comunicar bem é estratégico para crescer na carreira, liderar equipes, tomar decisões inteligentes e navegar num ambiente em que a tecnologia corre à frente e nós tentamos acompanhá-la sem perder o rumo.