O universo que vibra em nós

Por Beatriz Breves

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Vamos imaginar que a espécie humana, ao longo de sua evolução, não tivesse desenvolvido o sentido da visão. Como perceberíamos o mundo? Como teria se desenrolado a história da humanidade se pudéssemos falar, ouvir, tocar, sentir o paladar e o cheiro, mas jamais enxergar?

Fica difícil imaginar esse cenário porque as pessoas com deficiência visual de hoje vivem em um mundo projetado por quem enxerga. Por isso, aprendem conceitos moldados pela experiência visual. Ainda assim, algumas desenvolvem técnicas próximas à ecolocalização — o mesmo mecanismo usado por morcegos para identificar objetos por meio do eco de sons de alta frequência. Esse fato revela que, mesmo sem a visão, a humanidade encontraria caminhos próprios de desenvolvimento, ainda que muito diferentes dos que conhecemos.

Ampliando esse exercício, no que diz respeito à audição, imaginemos que a espécie humana, que evoluiu percebendo sons entre 20 e 20 mil ciclos por segundo, tivesse adquirido a capacidade auditiva de um cachorro, capaz de alcançar até 50.mil ciclos por segundo. Ou de certas mariposas, sensíveis a frequências que ultrapassam 100 mil ciclos por segundo? Como teria evoluído nossa cultura, nossa linguagem, nosso conhecimento científico, enfim, a nossa percepção de mundo?

Os limites da percepção humana

Não é difícil concluir que cada ser vivo percebe o universo a partir de um campo sensorial próprio, moldado pela evolução. Assim, um cachorro vive na dimensão C; uma mariposa, na dimensão M; e o ser humano, na dimensão H. Essas dimensões não são lugares, mas modos de recortar o real, filtros que determinam o que existe para cada espécie.

A dimensão H, portanto, não é o universo em si, mas um fragmento do que conseguimos captar. A solidez da matéria, a estabilidade dos objetos, a separação entre o visível e o invisível, tudo isso é, em grande parte, uma construção da nossa forma de perceber.

Para tornar essa ideia ainda mais clara, imaginemos o inverso: e se tivéssemos evoluído para perceber diretamente o microcósmico — o domínio quântico, onde partículas, campos e interações fundamentais constituem a base de tudo? Nesse nível, a realidade não aparece como objetos sólidos, mas como oscilações, probabilidades, padrões vibratórios. O quântico não descreve “coisas”, mas processos vibracionais.

Se esse fosse o nosso campo perceptivo natural, a incerteza não estaria no subatômico, mas nas células, nos genes e nos processos internos do corpo. O que hoje chamamos de “material” seria somente uma manifestação ampliada, ou reduzida, de uma realidade vibracional mais profunda.

Assim, quando dizemos que cada espécie vive em sua própria dimensão, estamos reconhecendo que o universo é um só, mas a natureza que cada ser experimenta é profundamente diferente.

Como escrevi em O Homem Além do Homem (2001):

“A dimensão H é o ponto de origem da criação de todas as concepções humanas, ou seja, a matemática, as ciências, a filosofia, os mitos, tudo o que o ser humano concebeu e ainda irá conceber.” (p. 46, RJ: Mauad X)

Cabe ressaltar que, além da dimensão H, observa-se a dimensão h, aquela que, individualmente, cada ser humano, em sua subjetividade, com os recursos que a natureza lhe concedeu, concebe e interpreta a si e o mundo à sua volta.

Essa perspectiva nos leva a compreender que divisões como massa e energia, psíquico e corpo, início e fim, são efeitos da nossa percepção limitada. É a própria evolução humana que cria a fronteira entre o visível e o não visível, o material e o não material, o macro e o microcósmico. 

Do paradigma material ao paradigma vibracional

Frente a essa constatação, a crítica ao paradigma cartesiano‑materialista se torna inevitável. Ele descreve a realidade como composta por entidades separadas, sólidas e independentes, privilegiando aquilo que é mensurável e visível.

O paradigma vibracional, por outro lado, parte da premissa de que a vibração é o fundamento comum a todos os níveis da realidade — seja da ordem quântica, biológica, psíquica ou cosmológica. Enquanto o paradigma materialista fragmenta e reduz o real a objetos isolados, o paradigma vibracional compreende a realidade como um sistema — um conjunto de processos em constante interação — no qual nada existe isoladamente, mas somente em relação, movimento e ressonância.

Sob esse olhar, o ser humano, em seus níveis material e quântico, revela‑se como um complexo vibracional macromicro uno, inteiro e indivisível, uma totalidade à qual não temos acesso direto. Da mesma forma, soma e psique deixam de ser causa e efeito, sendo duas expressões distintas de uma mesma realidade vibratória.

Esse é justamente o princípio que fundamenta a Ciência do Sentir: compreender o sentir como a experiência vivenciada da vibração que somos e com a qual interagimos. Assim, ao acessarmos a totalidade da natureza, não o fazemos pela visão, pela audição ou por qualquer sentido isolado, mas pela capacidade do nosso sistema perceptivo de captar vibrações que se expressam, no sentir, como sensações, sentimentos e pensamentos.

Em última instância, a Ciência do Sentir reconhece que, para compreender a totalidade vibracional que somos, precisamos aprender a sentir o universo que vibra em nós. 

Leia, também, aqui no blog, “A ciência do sentir: uma nova compreensão vibracional do ser humano”

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

A ciência do sentir: uma nova compreensão vibracional do ser humano

Por Beatriz Breves

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Um equívoco recorrente consiste em imaginar que a transdisciplinaridade se resume a importar conceitos de uma área para outra. Esse procedimento ignora que cada campo do conhecimento possui objeto próprio e métodos específicos, o que pode gerar interpretações profundamente equivocadas. Em termos triviais, seria como afirmar que “a vida dá voltas” porque a Terra gira em torno do Sol. A física investiga matéria, energia e suas interações; a psique pertence a outro domínio de realidade, com dinâmicas e critérios próprios de investigação.

Foi justamente essa lacuna, somada à ausência de uma reflexão mais profunda sobre o sentir, que me levou, após três anos como psicóloga, a buscar, em 1986, a graduação em Física, para compreender a energia a partir daqueles que a têm como objeto formal de estudo.

Os sonhos no encontro entre psique e energia

A primeira articulação consistente entre essas duas áreas surgiu por volta de 1988, quando investigava a fenomenologia dos sonhos. Analisando relatos oníricos, especialmente os de pessoas com deficiência visual, foi possível estabelecer uma sequência de observações: se na natureza não existe cor sem ondas eletromagnéticas; se os sonhos apresentam cor em sua expressão fenomenológica; e se os olhos, receptores dessas ondas, durante os sonhos, apresentam o movimento REM; então os sonhos poderiam ser compreendidos como um fenômeno psíquico processado sob a forma de ondas eletromagnéticas, isto é, ondas que se propagam à velocidade da luz.

Em contrapartida, o estado de vigília se apresenta extremamente lento quando comparado à velocidade da luz, sugerindo que a psique humana poderia funcionar em duas velocidades distintas: uma próxima da luz e outra próxima de zero. E foi nesse contexto conceitual que o Inconsciente Relativístico ganhou forma.

Chamo de Inconsciente Relativístico porque se baseia na teoria da relatividade de Einstein quando propõe que, quando dois sistemas interagem, um estando próximo à velocidade da luz e outro próximo à velocidade zero, surgem os efeitos relativísticos como dilatação do tempo, contração do espaço e variação de massa. Assim, os sonhos, a psique em estado inconsciente, processados à velocidade da luz, ao interagir com a psique em vigília, processada à velocidade zero, produziriam efeitos relativísticos, o que ajudaria a compreender a lógica aparentemente absurda dos sonhos. Nesse sentido, o inconsciente possuiria tempo, mas um tempo dilatado em relação ao da consciência.

O ponto cego da neurociência tradicional

A neurociência tradicional, porém, questionaria essa hipótese, afirmando que os neurônios atuam por sinais eletroquímicos extremamente lentos quando comparados à velocidade da luz, o que inviabilizaria ondas eletromagnéticas como base do sonho. Contudo, posso questionar a neurociência ao descrever o que acontece no cérebro, mas não explicando por que isso gera uma experiência tão semelhante à percepção real, especialmente no que diz respeito à vivência da cor. E este seria, digamos, um ponto cego importante: a neurociência tende a confundir correlação com explicação. O fato de certas áreas cerebrais se ativarem durante o sonho não prova que essa ativação seja a causa da experiência, mas somente que ocorre simultaneamente.

A fenomenologia dos sonhos expõe uma lacuna entre o funcionamento neural e a experiência subjetiva. A vivência onírica possui qualidades luminosas, intensas e imediatas que não se encontram nos sinais lentos do cérebro, sugerindo que a experiência ocorre em um regime distinto daquele descrito pela neurociência. E, ainda, soma-se a essa questão o tempo subjetivo: nos sonhos, segundos podem parecer horas. O ritmo onírico não acompanha a temporalidade fisiológica, reforçando a hipótese de que a psique humana funciona em mais de um regime temporal.

Fato é que, se deixamos o paradigma estritamente materialista e migramos para o paradigma vibracional, no qual o universo quântico também se faz presente, uma nova interpretação se torna possível. No modelo materialista clássico, a psique é tratada como consequência do cérebro, e toda experiência subjetiva seria produto direto de interações eletroquímicas. Já no paradigma vibracional, a realidade não se limita à matéria densa, mas inclui padrões sutis de organização que interagem com princípios do universo quântico. Nessa visão, o “padrão quântico” deixa de ser metáfora e passa a se constituir como hipótese estrutural. Certos fenômenos subjetivos, especialmente os oníricos, parecem obedecer a dinâmicas temporais e qualitativas incompatíveis com o processamento neural.

O gato, a incerteza e a experiência psíquica

Foi dentro desse contexto que vivi uma experiência decisiva quando meu gato esteve gravemente doente e o veterinário avaliou que poderia sobreviver ou falecer naquela noite. Mesmo angustiada pela incerteza, acabei adormecendo e, quando acordei de madrugada, tomada por um receio profundo, não tive coragem imediata de verificar se ele estava vivo ou morto. Permaneci somente pensando e, quando imaginava que estava vivo, sentia alegria; quando imaginava que havia falecido, a tristeza me invadia. Continuei por alguns instantes entre esses dois sentimentos que, apesar de superpostos, eram completamente distintos, até finalmente criar coragem para ir vê-lo.

Essa vivência me remeteu imediatamente ao experimento mental do gato de Schröndinger. Enquanto não observava, a incerteza imperava. Foi quando percebi que o funcionamento da representação psíquica, enquanto não materializamos a experiência por meio da observação, se apresenta como um campo de possibilidades superpostas.

Não tenho elementos para afirmar que a representação psíquica em sua subjetividade seja literalmente um fenômeno quântico, mas posso afirmar que a dinâmica é análoga: antes da observação, coexistem estados possíveis; no instante em que interagimos diretamente, um deles se atualiza como a experiência. Essa analogia reforça a pertinência de incluir o padrão vibracional‑quântico como ferramenta conceitual para compreender modos de funcionamento da psique que escapam ao paradigma materialista estrito e apontam para a necessidade de modelos mais amplos, como o próprio Inconsciente Relativístico.

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O dilema do amor onipotente

Por Caio Luizetto

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Um dos questionamentos mais profundos da fé é a aparente inação de Deus frente ao sofrimento humano. Se Ele é todo-poderoso e bom, por que o mal persiste? As respostas comuns esbarram em limites de poder ou de vontade. Este texto propõe um caminho diferente: o limite supremo de Deus é o Seu próprio amor.

Se Deus não amasse, a solução seria simples. Basta um ato de vontade, um reset cósmico, o apagar puro e simples do que causa o problema. O poder, sozinho, não encontraria obstáculos.

Mas o amor não permite soluções simples. Ele cria um limite que não é de poder, mas de sentido. É por causa do amor que o sofrimento se torna também um problema para Deus. Porque é justamente o amor que O impede de eliminar o mal pela raiz — e a raiz do problema está no próprio humano, objeto desse amor.

O problema, portanto, não está fora de Deus, como algo que Ele apenas observa. Está no mesmo lugar onde Seu amor repousa. Destruir o problema significaria destruir o humano — e isso o amor não autoriza.

Por isso Deus não apenas vê o mal. Ele o suporta. Não porque o aceite, mas porque não pode abandonar aquilo que ama.

O amor, então, deixa de ser apenas virtude divina e passa a ser também o Seu impedimento. Não um impedimento de agir, mas de agir contra o próprio amor.

Assim, Deus não resolve o mundo. Ele permanece nele. E permanece sofrendo, porque amar é escolher não se retirar.

Eis, então, a natureza do dilema: a onipotência encontra seu único limite naquilo que a própria onipotência escolheu ser — o amor. Por isso, a solução simples permanece para sempre no reino da hipótese vazia. A realidade é esta, mais complexa e mais profunda: Deus não sofre apesar do amor. Deus sofre porque ama. E nesse sofrimento, paradoxalmente, reside a confirmação final de Seu amor. 

Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

A IA chega sem cerimônias: o que restará aos MCs? 

Por Christian Müller Jung

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Dizer que a chegada da Inteligência Artificial representa uma mudança no mercado de trabalho é chover no molhado. A essa altura, todos nós já fomos impactados, seja de maneira positiva ou negativa. De um lado, essa tecnologia é bem-vinda: facilita atividades e agiliza processos. De outro, transforma profissões, elimina algumas funções e cria novas.

Tenho me perguntado até onde a IA irá impactar a minha área: a de Mestre de Cerimônias. E, por consequência, o campo em que atuo em conjunto, o cerimonial e o protocolo.

Neste artigo, quero me concentrar apenas na figura do Mestre de Cerimônias.

Vamos lá.

A voz é um ponto crucial na atuação do MC. Ela funciona como uma identidade, quase como uma impressão digital. Lembro sempre daquele velho exemplo do lobo tentando se passar pela vovozinha para enganar a Chapeuzinho Vermelho. Não colou!

Acontece que a IA já consegue estudar nossas características e criar vozes muito convincentes. E aqui encontramos outra área impactada diretamente: locução e dublagem.

Ainda que a IA consiga replicar a voz com perfeição, falta-lhe entender as nuances humanas. As variações de tom estão diretamente ligadas ao que acontece no momento, ao ambiente, à emoção que surge ali, ao vivo, durante uma solenidade.

Além disso, a função de mestre de cerimônias exige percepção aguçada para ler o público. Na relação humana, conseguimos captar se um conteúdo agrada ou não, se a forma como atuamos está de acordo com o que o público espera. Muitas vezes, basta um olhar rápido para perceber. Claro que, pensando em tecnologia e no potencial de aprendizado da IA, é possível imaginar que, num futuro próximo, ela também consiga fazer essa leitura. Mas ainda não.

Outro ponto dessa tecnologia que poderia ser vantajoso — se é que podemos dizer assim — é que a IA não se cansa. É constante, não lida com exaustão, problemas pessoais ou variações de temperatura. Poderia ser utilizada em vários lugares ao mesmo tempo, eliminando conflitos de agenda. Além disso, seria uma opção interessante do ponto de vista de custo-benefício.

Porém, como toda tecnologia, está sujeita a falhas — assim como o microfone que não funciona, o vídeo que trava ou o gerador que falha bem na hora do evento. E isso é algo que já vivi algumas vezes.

Lembro do dia em que tivemos de conduzir uma solenidade sem equipamento de áudio, porque alguém teve a brilhante ideia de montar o palco ao lado de uma UTI do hospital. O evento aconteceu “a capela”.

Em eventos, especialmente no cerimonial público, a improvisação é constante. Falta de equipamento, mudanças de roteiro, alterações na ordem das falas. Coisas que fariam uma IA, mesmo na sua forma mais avançada, questionar em que ano realmente estamos. MC com Inteligência Artificial combina com ambientes totalmente programados, estruturados, preparados para o uso da tecnologia.

Tudo bem, vamos supor um universo perfeito. Ainda assim, acredito que existe algo que mantém os humanos em um patamar acima da IA: a nossa história de vida. Não somos escolhidos apenas por uma voz bonita ou pela clareza na dicção. Somos escolhidos também pelo que carregamos: experiências, memórias, sensibilidade. Moldados por nossos arquétipos.

Reagimos a partir do que vivenciamos. Sabemos, com precisão, o peso de uma perda, a alegria de um nascimento, a força silenciosa de um abraço ou o significado de olhos avermelhados prestes a deixar uma lágrima escorrer.

No meu ponto de vista, a IA não substituirá o Mestre de Cerimônias. Tornar-se-á, isso sim, um excelente assistente, sempre pronto a apoiar e aprender mais.

Existe algo poético no ser humano que nos torna insubstituíveis. Mesmo nossos defeitos e desvios nos fazem únicos. Por sermos falíveis, somos sensíveis, capazes de compreender algo fundamental na relação humana: a empatia.

A despeito de a tecnologia avançar, dar a impressão de que vai “comendo pelas beiradas”, como quem espera a sopa esfriar, nos cabe desenvolver o poder de adaptação e fortalecer as habilidades que nos diferenciam. Afinal, não é de hoje que novas tecnologias causam inquietação. O poeta Mário Quintana já nos alertava sobre um dispositivo essencial para a vida moderna:

“O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família.”

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung.

E eles só querem viver vivos

Padre Simone está à frente do trabalho do Arsenal da Esperança

Dona Janete escancarou a fome para os brasileiros em uma entrevista na televisão. Uma fala dolorida que deu transparência ao que os números, mesmo que gigantes, às vezes escondem. Não que 33 milhões de famintos vivendo no país que é o quarto maior produtor de alimentos deixem de ser um escândalo, mas quando um desses milhões de rostos surge diante de nós, é chocante. 

“Domingo a gente não tinha nada para comer. Eu estou desempregada, está muito difícil. Eu estou catando latinha, mas não dá”

Foi o desabafo da Dona Janete, ao responder a pergunta feita pela repórter do RJTV, na TV Globo, enquanto esperava por uma refeição na fila do programa da prefeitura do Rio que distribui alimentos. Todos choramos com ela. Exagero. Nem todos são suficientemente sensíveis para perceber o que significa ter fome.

Hoje cedo, em mais uma entrevista com candidatos à presidente da República, André Janones, do Avante, respondeu de bate-pronto à pergunta que escolhemos para abrir essa série no Jornal da CBN. “A desigualdade social” é o que ele elegeu como prioridade a ser enfrentada a partir de primeiro de janeiro de 2023. Faz sentido. 

Na pesquisa realizada para me preparar para essa série iniciada na terça-feira encontrei dois dados que mostram a dimensão da desigualdade de renda e de patrimônio, no Brasil: os 10% mais ricos no Brasil ganham quase 59% da renda nacional total; o 1% mais rico possui quase a metade da fortuna patrimonial brasileira.

Números e percentuais que se transformaram em corpo e alma na tarde desta quinta-feira quanto tive oportunidade de visitar a antiga Hospedaria dos Imigrantes, no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. O local que no passado recebia famílias europeias refugiadas de sua terra natal, atualmente abriga cerca de 1.200 pessoas que vivem em situação de rua — brasileiros e estrangeiros. Obra do Arsenal da Esperança, liderada pelo padre italiano Simone Bernardi, que assumiu a missão de levar em frente o projeto do Semig — Servizio Missionario Giovani, iniciado em 1996, por ação de Ernesto Olivero e Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida.

Meu carro de rodas altas e câmbio automático, minha calça com caimento elegante e os sapatos de grife italiana eram extravagantes diante da simplicidade das pessoas que encontrei em uma enorme fila na calçada da rua Doutor Almeida Lima, 900, portão de entrada da Hospedaria. Todos homens e a espera para retornar ao espaço onde estão cadastrados e recebem alimentação, roupa lavada, uma cama para dormir, acesso a cursos, atendimento médico e respeito —- sim, essa é a maior demanda de cada um daqueles que estavam ali: o respeito que qualquer ser humano tem direito a receber em vida.

O local é espaçoso, tem árvores e canteiros bem cuidados. Tem infraestrutura antiga e bem preservada. Mantém a mesma arquitetura que recebia os europeus, desde o fim do século 19 — uma história lembrada por fotos em preto e branco que estão em todas as dependências. Os locais para dormir se apresentam com fileiras de beliches, o restaurante tem longas mesas, capazes de servir 600 refeições por vez. A cozinha industrial é ampla assim como a lavandeira, onde um sistema organizado e sistemático é capaz de receber, lavar e devolver em mãos as roupas das milhares de pessoas que circulam no local. Tem salas de aula e para cursos. Tem bar e bazar. Tem biblioteca, também.

Especialmente, o que se vê nos rostos sofridos e passos pesados dessa gente que circula com seu fardo nas dependências da Hospedaria é a tentativa de revelar a esperança de uma vida melhor. Fui recepcionado por sorrisos e cumprimentos respeitosos. Havia olhares desconfiados, é claro. Afinal, eu era a figura estranha naquele cenário, com minha vida privilegiada e desigual, muito desigual. Distante da vida que eles vivem. 

O passeio por pouco mais de uma hora foi na companhia do Padre Simone, que chegou ao Brasil, em 1996, e diz ter aprendido português ouvindo a rádio CBN. Fico feliz em saber que uma das nossas missões foi cumprida — a de educar pela comunicação —, ao mesmo tempo que fico constrangido ao perceber quão pequeno ainda é nosso trabalho diante da messe que pessoas como o padre e sua equipe de missionários e voluntários  assumem.

Mais do que os políticos e agentes públicos, mais do que os doutores e os senhores, mais do que qualquer um dos que vivem em nosso entorno, mais do que nós mesmos, são eles os verdadeiros construtores das pontes que podem diminuir a desigualdade que impera no Brasil. Que nos fazem acreditar que é possível tornar realidade um dos lemas que os inspira no Arsenal: voglio vivere vivo (quero viver vivo).

Conheça aqui um pouco mais sobre o trabalho do Arsenal da Esperança

Observações de um sesamóide quebrado

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Um fratura nos minúsculos sesamóides, dois ossinhos tão ridículos quanto necessários do dedão, me proporcionou uma série de experiências baseadas em observações e agitou a semana que prometia ser de pasmaceira no noticiário e entediada no cotidiano. A começar pela prova de quanto o corpo humano pode ser frágil e o ser humano, dependente. 

Com a necessária imobilização do local fraturado, perde-se o movimento de uma das mãos e se restringe uma série de atividades para as quais damos pouca importância mas que podem se transformar em desafios que exigem malabarismo e súplicas de solidariedade. Tente amarrar o cadarço do sapato com uma só mão ou abotoar o punho da manga da camisa sem a mão do lado oposto – sim, eu sei, a humanidade tem coisas mais importantes com que se preocupar. 

Eu também, tenho. Trabalhar, por exemplo.

Por isso me espantaram dois dos profissionais de saúde que me atenderam nesses dias. O primeiro insistia que eu aceitasse o atestado médico me dispensando por uma semana. O outro, depois de saber que eu seguia dando expediente, concluiu: “então você é o dono”. Nem do meu nariz! Que, aliás, tentei coçar à noite e arranhei com a órtese de mão que estou “vestindo” em substituição ao gesso desproporcional que o hospital me obrigou a colocar por ser o procedimento mais barato.

Observei também a reação dos amigos e parentes diante do incidente. Foi reveladora de como temos dificuldades de encontrar a forma mais apropriada de solidariedade. Um, antes de eu terminar minha triste história – e eu só queria ter o direito de externalizar minha dor -, começou a falar dos acidentes que ele sofreu. Todos muito piores do que o meu. Sai da conversa arrasado: os casos dele eram insuperáveis. 

Teve o que exercitou a empatia, sempre recomendável nas relações humanas. Ao explicar que havia quebrado o sesamóide, ele logo se uniu a mim para dizer que é a “pior coisa que podia acontecer”. Ao deixar a conversa passei a cogitar a morte no próximo tombo que levar.

Um terceiro lamentou meu azar de ter caído quando faltavam apenas três degraus para chegar ao chão. Teria sido melhor que eu caísse da parte mais alta, então? 

Experiência pior foi o que os exames laboratoriais me proporcionaram. Nem tanto pelo exame em si, nem pelo atendimento recebido – todos os funcionários eram muito simpáticos. Enquanto esperava as imagens da tomografia computadorizada feita em equipamentos ultramodernos, me vi na posição de observador de um diálogo do período jurássico, protagonizado por dois clientes na sala de espera. 

Após a TV anunciar que o governo reduziria o tempo para a terceira dose da vacina contra Covid, o senhor, que parecia mais velho do que eu,  balbuciou algo para a moça, que parecia mais jovem do que eu. Foi a senha para o início de uma conversa que me faz saber que ambos tinham contraído a doença e tomado as duas doses da vacina. Daí pra frente foi uma sequência de absurdos. Ela reclamou que ninguém sabe o que está fazendo porque a orientação sobre número de doses e tempo de intervalo muda a todo momento: “eu vou esperar uns sete meses antes da terceira dose pra ver o que vai acontecer com quem tomou”. Ele contra-atacou: “conheço uma monte de gente que passou mal, eu não vou tomar o reforço. Até já peguei Covid!”.

No segundo episódio da conversa, os dois passaram a relatar sequelas deixadas pela doença. E o senhor, do alto de sua sabedoria, recomendou a ela um chá sei-lá-do-que que tem o mesmo “princípio ativo” de um remédio que está sendo desenvolvido na Alemanha para conter os males deixados pela Covid-19. A moça que havia revelado descrença na ciência que desenvolve vacinas, arregalou os olhos e, antes de se despedir, comentou: “se esse chá funciona mesmo, será uma revolução”. Pegou os exames, despediu-se e foi embora batendo firme os saltos no piso, levando a tiracolo a crença na sabedoria popular e o negacionismo à ciência.

Confesso meu desejo de ter intervindo na conversa ao menos para saber o nome do chá milagroso que resolve o que conhecemos por Covid longa. Preferi resguardar-me em minha própria ignorância. E resignei-me ao papel de observador, apesar de estar convencido de que se eu prestasse mais atenção na minha vida do que na dos outros, talvez tivesse percebido que havia um degrau no meio do caminho. E meus sesamóides estariam intactos.

Quem tem lado é quadrado!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

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A subjetividade humana, o jeito de ser e que nos torna singular, se constrói nas relações humanas, nas quais as pessoas se influenciam mutuamente. Entretanto, esse encontro enriquecedor tem sido cada vez mais ameaçado pela polarização, que ultrapassa os limites políticos, tornando os diálogos escassos.

No lugar da troca de ideias e opiniões, do treino de habilidades, como a empatia, surgem discussões acaloradas e até mesmo agressivas, facilitadas pelo escudo protetor das redes sociais.

Isso nos custa em termos de desenvolvimento pessoal, cultural e social.

Ao conviver apenas com pessoas que pensam da mesma forma, nos tornamos reclusos em nós mesmos, numa espécie de narcisismo ideológico que limita a realidade e nos engessa em atitudes e escolhas.

Na esfera social, a polarização torna-se um risco, ao justificar as desigualdades a partir de elementos pautados em análises pouco racionais, favorecer discursos populistas e gerar a ideia de que um grupo possui supremacia em relação ao outro.

Rotulamos as pessoas por algumas características de comportamento, como se isso as definisse. Por outro lado, personalizamos excessivamente as situações, acreditando que tudo o que é dito ou feito pelos outros, possua alguma relação conosco.

Além de menos interessados pelo universo que cada ser humano representa, perdemos a capacidade de avaliar os fatos pela lógica – o que poderia mudar nossa opinião – apegados excessivamente às nossas emoções, que nesse ponto indicam raiva e irritação, numa busca incessante por estarmos “certos”.

E será que existe uma saída para isso?

Relações harmoniosas e construtivas têm se mostrado possíveis através do diálogo, numa compreensão de que apesar de algumas diferenças, porque somos únicos, também somos genéricos, porque guardamos muitas semelhanças.

Que tal tentar?

Numa próxima conversa, por exemplo, ao invés de dizer “eu detesto isso”, quando alguém contar sobre sua preferência, procure saber quais as motivações desse gosto, o que levou essa pessoa à essa escolha ou o que vê de positivo nisso. Faça perguntas como alguém que tem curiosidade genuína pela experiência do outro, evite julgamentos ou adjetivos. Isso vale inclusive para as redes sociais.

Mantenha a mente aberta e prepare-se para se surpreender com um mundo que vai além do seu.

Afinal, a polarização só permite um lado. E quem tem lado é quadrado.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Nossos heróis de cada dia

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

A minha primeira ida ao cinema aconteceu no final da década de 70, para assistir a Superman: o filme, com Christopher Reeve no papel de Clark Kent, retrata um repórter que, ao deparar com uma situação que coloca em risco a vida de sua colega de trabalho, Lois Lane ( Margot Kidder), revela seus super poderes. Ao longo do enredo, torna-se responsável por desviar um ataque de míssil, minimizar os efeitos de uma explosão nuclear e, ainda, alterar a passagem do tempo para salvar sua amada.

Nos dias que se seguiram, era muito comum que eu e meus irmãos colocássemos toalhas de banho amarradas no pescoço, nossas capas, para exibirmos nossos superpoderes, que incluíam pular de um sofá para o outro.

Na atualidade, outros heróis fazem mais sucessos, especialmente aqueles criados pela Marvel, mas os ideais continuam os mesmos: combater os inimigos e criminosos, numa luta incansável para que o bem vença o mal.

Apesar de parecer uma criação da nossa sociedade moderna, heróis com superpoderes são descritos em diferentes culturas e desde tempos remotos, como aqueles retratados em histórias mitológicas da Grécia Antiga.

Na mitologia grega, os heróis eram personagens que estavam numa posição intermediária entre os homens e os deuses. Possuíam poderes especiais, superiores aos dos humanos, como inteligência e força, que os tornavam capazes de vencer inimigos ou atuar em missões impossíveis; por outro lado, como não eram deuses, apresentavam algumas fragilidades psicológicas ou corporais, semelhantes aos seres humanos.

Hércules, por exemplo, era conhecido por sua força física. Foi capaz de vencer doze tarefas difíceis que lhe foram propostas, mostrando-se poderoso contra seus inimigos. Matou diversos monstros, ganhou todas as categorias dos jogos olímpicos e venceu a própria morte.

Seja através da mitologia grega ou dos personagens da Marvel, as aventuras e fantasias criadas pelas ações dos super-heróis, de certo modo, resgatam um ideal coletivo: a esperança de que a justiça prevaleça e que o bem se perpetue.

Especialmente em momentos nos quais sobram desafios a serem superados, e na ausência de medidas eficazes que possam resgatar direitos básicos, como segurança, comida e vacina, o faz de conta parece invadir nossa imaginação.

Aguardamos pelo momento no qual um grande feito seja realizado e atinja a todos de maneira equitativa. Aguardamos pelo momento no qual atrocidades e injustiças não aconteçam mais.

Possivelmente, essa expectativa se desenvolve como um modo de proteção diante de noticias e realidades tão difíceis de serem assimiladas. Buscamos na fantasia um universo paralelo, capaz de resgatar a esperança,  apesar das durezas da vida.

 Talvez a nossa imaginação ou ideias prévias nos permitam pensar nos heróis como aqueles que são capazes de vencer monstros e ataques, exterminam inimigos e realizam feitos impossíveis a nós, seres humanos.

No entanto, provavelmente, um olhar mais cuidadoso nos revele a existência de pessoas que, apesar de não terem poderes especiais, realizam diariamente ações que modificam a vida alheia. Não apresentam forças sobrenaturais ou coragem extrema, mas agem na vida cotidiana atendendo aos interesses coletivos.

Imagino que você, assim como eu, consiga se recordar de algumas dessas pessoas, frequentemente anônimas, que nos ensinam que o verdadeiro heroísmo não é um dom ou algo além dos limites humanos. Pelo contrário. São pessoas comuns, talvez raras, mas comuns; nas quais poderíamos nos inspirar e descobrir que não são as capas ou os símbolos que as diferenciam.  Não é coragem excessiva. É determinação em fazer o que deve ser feito.

Duelam bravamente todos os dias e, muitas vezes, enfrentam lutas internas que quase as fazem fraquejar, porém, se levantam, não se intimidam com os obstáculos.

E, semelhantes ao heróis dos quadrinhos ou do cinema, passam por nós disfarçados de médicos, bombeiros, professores, vizinhos, amigos, desconhecidos. Heróis de uma vida real que reasseguram a esperança de que os vilões ainda serão derrotados e que poderemos viver seguros e felizes nesse nosso planeta.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: marketing de gentileza põe o ser humano no centro da relação, diz Laíze Dasmaceno

 

“Marketing não é sobre enganar as pessoas, ofender as pessoas, é simplesmente a gente criar estratégias para que a gente chegue ao objetivo” — Laize Damasceno, empreendedora

Levar a relação humana para o centro da discussão impulsiona empresas e pessoas a agirem com empatia e gentileza, e isso pode ser transformador nos negócios. Foi a partir dessa ideia, que a empreendedora Laíze Damasceno desenvolveu o conceito do que ela caracteriza como sendo o marketing humanizado, tema da entrevista que concedeu ao programa Mundo Corporativo da CBN:

“Ser gentil, ser bom e ser ético, vai me levar muito mais longe, vai me fazer muito mais sustentável do que eu ter picos de venda custe o que custar”.

Para Laíze, a pandemia fortaleceu ainda mais o conceito com o qual trabalha em cursos e consultorias, pois  demonstrou que empresas que tinham o respeito no relacionamento com o consumidor se saíram muito melhor diante da crise econômica. Ela destaca que marketing é entender a necessidade do público e atendê-lo com algo que seja útil, além de rentável a quem oferece.

“Em tempos de crise, aplicar a gentileza, a empatia e fazer o marketing genuíno e verdadeiro tem muito mais pontos positivos e isso não compete com a ideia de lucrar”.

A forma como a empresa se comunica ajuda na construção desse relacionamento, por isso a criadora da MDG Academy recomenda que se tenha atenção ao vocabulário usado nos diálogos com os diversos públicos:

“O vocabulário das marcas é um dos pontos que ensino no passo da humanização … por exemplo, como ter uma comunicação não-violenta; a gente pode falar a mesma coisa de diversas maneiras … podemos fazer críticas para construir, para somar, para chamar o outro para uma conversa”.

Um dos projetos lançados recentemente por Laíze Damasceno foi a comunidade digital Marketing de Gentileza, uma rede social colaborativa sobre marketing e negócios para conectar pessoas interessadas em troca de conhecimento, ideia e experiência.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo e em vídeo, às quartas-feiras, 11 horas, no canal da CBN no You Tube, no Facebook e site da rádio CBN. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e está disponível em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Izabela Ares, Guilherme Dogo, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubioti.

YouTube pedir ajuda aos ‘universitários’ é muito “The Social Dilemma”

Ilustração: Pixabay

 

“Isso é muito Black Mirror” foi a frase que ganhou o espaço público desde o sucesso da série de Charlie Brooker que levou à tela a distopia da sociedade contemporânea, com casos de um futuro que já convive entre nós e uma caricatura de nossas vidas com traços de realidade. Conversas por WhatsApp entre pessoas que estão na mesma sala era “Black Mirror”; gente cancelada e que desaparecia do convívio social era “Black Mirror”; coisas extraordinárias do mundo digital era “Black Mirror”.

“The Social Dilemma” chega para desbancar o “velho” jargão. O documentário de Jeff Orlowski, produzido a partir do depoimento de gente que montou a engrenagem que faz funcionar as redes sociais — e está arrependida –, logo se transformará em referência  do nosso vocabulário para quando depararmos com situações ainda estranhas à nossa mente, apesar de já fazermos parte deste cenário há algum tempo —- sem perceber.

Leia “The Social Dilemma: 14 dicas para reduzir o impacto de redes sociais e internet na sua vida”

Nesta semana mesmo, confesso que foi com estranheza que li informações publicada no Financial Times: “YouTube reverts to human moderators in fight against misinformation”. Em bom português: o YouTube voltou a usar seres humanos para moderar o que é veiculado nas redes para combater à desinformação. 

Durante a pandemia — que ainda não acabou, registre-se —-, o YouTube mandou sua turma para casa e deixou a moderação da rede nas mãos de seus robôs, que não são suscetíveis a COVID-19. Preservou a saúde de 10 mil pessoas com essa medida e deixou a rede sob controle das máquinas. Resultado: quase 11 milhões de vídeos foram retirados do ar, entre abril e junho, supostamente por transmitirem discursos de ódio, violência e outras formas de conteúdo prejudicial ou desinformação —- essa coisa infelizmente chamada de fake news. 

O YouTube não informa quantas vezes maior é esse número, mas executivo da empresa ouvido pelos jornalistas deixa claro que é uma quantidade de remoções muito, mas muito maior do que as que costumam ocorrer quando a moderação é feita por seres humanos.

“Embora os algoritmos sejam capazes de identificar vídeos que podem ser potencialmente prejudiciais, eles geralmente não são tão bons em decidir o que deve ser removido”, escreveram Alex Barker e Hannah Murphy após conversarem com Neal Mohan, diretor de produtos do YouTube. 

Na mão das máquinas, a remoção de vídeos é muito mais veloz: mais de 50% dos 11 milhões de vídeo foram tirados do ar sem que tenham tido nenhuma visualização. Em compensação, a intolerância às mensagens que supostamente ferem as regras da plataforma é significativamente maior do que quando passam pela avaliação de gente como nós, de carne, osso e alma. 

O jornal londrino diz que o reconhecimento de que o poder de censura das máquinas é maior do que o dos seres humanos lança luz sobre a relação crucial entre os moderadores — gente como a gente — e os sistemas de inteligência artificial, que analisam o material que é publicado no YouTube. Embora os algoritmos sejam capazes de identificar vídeos que podem ser potencialmente prejudiciais, eles geralmente não são tão bons em decidir o que deve ser removido —- declarou Mohan.

“É aí que entram nossos avaliadores humanos treinados … tomam decisões que tendem a ser mais matizadas, especialmente em áreas como discurso de ódio ou desinformação médica ou assédio”.

Uma especialista ouvida pelos repórteres disse que os sistemas automatizados fizeram progressos no combate a conteúdo prejudicial, como violência ou pornografia:

“…mas estamos muito longe de usar a inteligência artificial para dar sentido a um discurso problemático [como] um vídeo de conspiração de três horas de duração. Às vezes é um aceno de cabeça, uma piscadela e um apito de cachorro. [As máquinas] simplesmente não podem fazer isso. Não estamos nem perto de eles terem capacidade para lidar com isso. Até os humanos lutam. ” —- Claire Wardle, co-fundadora do First Draft.

Uma plataforma como o YouTube, com investimentos enormes em inteligência artificial, desenvolvimento de algoritmos e automatização recorrer aos ‘universitários’ — perdão, esse é um jargão muito anos 1990 — para controlar o controle sobre o mal e o bem que circulam na rede me pareceu “muito The Social Dilemma”.