E eles só querem viver vivos

Padre Simone está à frente do trabalho do Arsenal da Esperança

Dona Janete escancarou a fome para os brasileiros em uma entrevista na televisão. Uma fala dolorida que deu transparência ao que os números, mesmo que gigantes, às vezes escondem. Não que 33 milhões de famintos vivendo no país que é o quarto maior produtor de alimentos deixem de ser um escândalo, mas quando um desses milhões de rostos surge diante de nós, é chocante. 

“Domingo a gente não tinha nada para comer. Eu estou desempregada, está muito difícil. Eu estou catando latinha, mas não dá”

Foi o desabafo da Dona Janete, ao responder a pergunta feita pela repórter do RJTV, na TV Globo, enquanto esperava por uma refeição na fila do programa da prefeitura do Rio que distribui alimentos. Todos choramos com ela. Exagero. Nem todos são suficientemente sensíveis para perceber o que significa ter fome.

Hoje cedo, em mais uma entrevista com candidatos à presidente da República, André Janones, do Avante, respondeu de bate-pronto à pergunta que escolhemos para abrir essa série no Jornal da CBN. “A desigualdade social” é o que ele elegeu como prioridade a ser enfrentada a partir de primeiro de janeiro de 2023. Faz sentido. 

Na pesquisa realizada para me preparar para essa série iniciada na terça-feira encontrei dois dados que mostram a dimensão da desigualdade de renda e de patrimônio, no Brasil: os 10% mais ricos no Brasil ganham quase 59% da renda nacional total; o 1% mais rico possui quase a metade da fortuna patrimonial brasileira.

Números e percentuais que se transformaram em corpo e alma na tarde desta quinta-feira quanto tive oportunidade de visitar a antiga Hospedaria dos Imigrantes, no bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. O local que no passado recebia famílias europeias refugiadas de sua terra natal, atualmente abriga cerca de 1.200 pessoas que vivem em situação de rua — brasileiros e estrangeiros. Obra do Arsenal da Esperança, liderada pelo padre italiano Simone Bernardi, que assumiu a missão de levar em frente o projeto do Semig — Servizio Missionario Giovani, iniciado em 1996, por ação de Ernesto Olivero e Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida.

Meu carro de rodas altas e câmbio automático, minha calça com caimento elegante e os sapatos de grife italiana eram extravagantes diante da simplicidade das pessoas que encontrei em uma enorme fila na calçada da rua Doutor Almeida Lima, 900, portão de entrada da Hospedaria. Todos homens e a espera para retornar ao espaço onde estão cadastrados e recebem alimentação, roupa lavada, uma cama para dormir, acesso a cursos, atendimento médico e respeito —- sim, essa é a maior demanda de cada um daqueles que estavam ali: o respeito que qualquer ser humano tem direito a receber em vida.

O local é espaçoso, tem árvores e canteiros bem cuidados. Tem infraestrutura antiga e bem preservada. Mantém a mesma arquitetura que recebia os europeus, desde o fim do século 19 — uma história lembrada por fotos em preto e branco que estão em todas as dependências. Os locais para dormir se apresentam com fileiras de beliches, o restaurante tem longas mesas, capazes de servir 600 refeições por vez. A cozinha industrial é ampla assim como a lavandeira, onde um sistema organizado e sistemático é capaz de receber, lavar e devolver em mãos as roupas das milhares de pessoas que circulam no local. Tem salas de aula e para cursos. Tem bar e bazar. Tem biblioteca, também.

Especialmente, o que se vê nos rostos sofridos e passos pesados dessa gente que circula com seu fardo nas dependências da Hospedaria é a tentativa de revelar a esperança de uma vida melhor. Fui recepcionado por sorrisos e cumprimentos respeitosos. Havia olhares desconfiados, é claro. Afinal, eu era a figura estranha naquele cenário, com minha vida privilegiada e desigual, muito desigual. Distante da vida que eles vivem. 

O passeio por pouco mais de uma hora foi na companhia do Padre Simone, que chegou ao Brasil, em 1996, e diz ter aprendido português ouvindo a rádio CBN. Fico feliz em saber que uma das nossas missões foi cumprida — a de educar pela comunicação —, ao mesmo tempo que fico constrangido ao perceber quão pequeno ainda é nosso trabalho diante da messe que pessoas como o padre e sua equipe de missionários e voluntários  assumem.

Mais do que os políticos e agentes públicos, mais do que os doutores e os senhores, mais do que qualquer um dos que vivem em nosso entorno, mais do que nós mesmos, são eles os verdadeiros construtores das pontes que podem diminuir a desigualdade que impera no Brasil. Que nos fazem acreditar que é possível tornar realidade um dos lemas que os inspira no Arsenal: voglio vivere vivo (quero viver vivo).

Conheça aqui um pouco mais sobre o trabalho do Arsenal da Esperança

Observações de um sesamóide quebrado

Foto: Pexels

Um fratura nos minúsculos sesamóides, dois ossinhos tão ridículos quanto necessários do dedão, me proporcionou uma série de experiências baseadas em observações e agitou a semana que prometia ser de pasmaceira no noticiário e entediada no cotidiano. A começar pela prova de quanto o corpo humano pode ser frágil e o ser humano, dependente. 

Com a necessária imobilização do local fraturado, perde-se o movimento de uma das mãos e se restringe uma série de atividades para as quais damos pouca importância mas que podem se transformar em desafios que exigem malabarismo e súplicas de solidariedade. Tente amarrar o cadarço do sapato com uma só mão ou abotoar o punho da manga da camisa sem a mão do lado oposto – sim, eu sei, a humanidade tem coisas mais importantes com que se preocupar. 

Eu também, tenho. Trabalhar, por exemplo.

Por isso me espantaram dois dos profissionais de saúde que me atenderam nesses dias. O primeiro insistia que eu aceitasse o atestado médico me dispensando por uma semana. O outro, depois de saber que eu seguia dando expediente, concluiu: “então você é o dono”. Nem do meu nariz! Que, aliás, tentei coçar à noite e arranhei com a órtese de mão que estou “vestindo” em substituição ao gesso desproporcional que o hospital me obrigou a colocar por ser o procedimento mais barato.

Observei também a reação dos amigos e parentes diante do incidente. Foi reveladora de como temos dificuldades de encontrar a forma mais apropriada de solidariedade. Um, antes de eu terminar minha triste história – e eu só queria ter o direito de externalizar minha dor -, começou a falar dos acidentes que ele sofreu. Todos muito piores do que o meu. Sai da conversa arrasado: os casos dele eram insuperáveis. 

Teve o que exercitou a empatia, sempre recomendável nas relações humanas. Ao explicar que havia quebrado o sesamóide, ele logo se uniu a mim para dizer que é a “pior coisa que podia acontecer”. Ao deixar a conversa passei a cogitar a morte no próximo tombo que levar.

Um terceiro lamentou meu azar de ter caído quando faltavam apenas três degraus para chegar ao chão. Teria sido melhor que eu caísse da parte mais alta, então? 

Experiência pior foi o que os exames laboratoriais me proporcionaram. Nem tanto pelo exame em si, nem pelo atendimento recebido – todos os funcionários eram muito simpáticos. Enquanto esperava as imagens da tomografia computadorizada feita em equipamentos ultramodernos, me vi na posição de observador de um diálogo do período jurássico, protagonizado por dois clientes na sala de espera. 

Após a TV anunciar que o governo reduziria o tempo para a terceira dose da vacina contra Covid, o senhor, que parecia mais velho do que eu,  balbuciou algo para a moça, que parecia mais jovem do que eu. Foi a senha para o início de uma conversa que me faz saber que ambos tinham contraído a doença e tomado as duas doses da vacina. Daí pra frente foi uma sequência de absurdos. Ela reclamou que ninguém sabe o que está fazendo porque a orientação sobre número de doses e tempo de intervalo muda a todo momento: “eu vou esperar uns sete meses antes da terceira dose pra ver o que vai acontecer com quem tomou”. Ele contra-atacou: “conheço uma monte de gente que passou mal, eu não vou tomar o reforço. Até já peguei Covid!”.

No segundo episódio da conversa, os dois passaram a relatar sequelas deixadas pela doença. E o senhor, do alto de sua sabedoria, recomendou a ela um chá sei-lá-do-que que tem o mesmo “princípio ativo” de um remédio que está sendo desenvolvido na Alemanha para conter os males deixados pela Covid-19. A moça que havia revelado descrença na ciência que desenvolve vacinas, arregalou os olhos e, antes de se despedir, comentou: “se esse chá funciona mesmo, será uma revolução”. Pegou os exames, despediu-se e foi embora batendo firme os saltos no piso, levando a tiracolo a crença na sabedoria popular e o negacionismo à ciência.

Confesso meu desejo de ter intervindo na conversa ao menos para saber o nome do chá milagroso que resolve o que conhecemos por Covid longa. Preferi resguardar-me em minha própria ignorância. E resignei-me ao papel de observador, apesar de estar convencido de que se eu prestasse mais atenção na minha vida do que na dos outros, talvez tivesse percebido que havia um degrau no meio do caminho. E meus sesamóides estariam intactos.

Quem tem lado é quadrado!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de mentatdgt no Pexels

A subjetividade humana, o jeito de ser e que nos torna singular, se constrói nas relações humanas, nas quais as pessoas se influenciam mutuamente. Entretanto, esse encontro enriquecedor tem sido cada vez mais ameaçado pela polarização, que ultrapassa os limites políticos, tornando os diálogos escassos.

No lugar da troca de ideias e opiniões, do treino de habilidades, como a empatia, surgem discussões acaloradas e até mesmo agressivas, facilitadas pelo escudo protetor das redes sociais.

Isso nos custa em termos de desenvolvimento pessoal, cultural e social.

Ao conviver apenas com pessoas que pensam da mesma forma, nos tornamos reclusos em nós mesmos, numa espécie de narcisismo ideológico que limita a realidade e nos engessa em atitudes e escolhas.

Na esfera social, a polarização torna-se um risco, ao justificar as desigualdades a partir de elementos pautados em análises pouco racionais, favorecer discursos populistas e gerar a ideia de que um grupo possui supremacia em relação ao outro.

Rotulamos as pessoas por algumas características de comportamento, como se isso as definisse. Por outro lado, personalizamos excessivamente as situações, acreditando que tudo o que é dito ou feito pelos outros, possua alguma relação conosco.

Além de menos interessados pelo universo que cada ser humano representa, perdemos a capacidade de avaliar os fatos pela lógica – o que poderia mudar nossa opinião – apegados excessivamente às nossas emoções, que nesse ponto indicam raiva e irritação, numa busca incessante por estarmos “certos”.

E será que existe uma saída para isso?

Relações harmoniosas e construtivas têm se mostrado possíveis através do diálogo, numa compreensão de que apesar de algumas diferenças, porque somos únicos, também somos genéricos, porque guardamos muitas semelhanças.

Que tal tentar?

Numa próxima conversa, por exemplo, ao invés de dizer “eu detesto isso”, quando alguém contar sobre sua preferência, procure saber quais as motivações desse gosto, o que levou essa pessoa à essa escolha ou o que vê de positivo nisso. Faça perguntas como alguém que tem curiosidade genuína pela experiência do outro, evite julgamentos ou adjetivos. Isso vale inclusive para as redes sociais.

Mantenha a mente aberta e prepare-se para se surpreender com um mundo que vai além do seu.

Afinal, a polarização só permite um lado. E quem tem lado é quadrado.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Nossos heróis de cada dia

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

A minha primeira ida ao cinema aconteceu no final da década de 70, para assistir a Superman: o filme, com Christopher Reeve no papel de Clark Kent, retrata um repórter que, ao deparar com uma situação que coloca em risco a vida de sua colega de trabalho, Lois Lane ( Margot Kidder), revela seus super poderes. Ao longo do enredo, torna-se responsável por desviar um ataque de míssil, minimizar os efeitos de uma explosão nuclear e, ainda, alterar a passagem do tempo para salvar sua amada.

Nos dias que se seguiram, era muito comum que eu e meus irmãos colocássemos toalhas de banho amarradas no pescoço, nossas capas, para exibirmos nossos superpoderes, que incluíam pular de um sofá para o outro.

Na atualidade, outros heróis fazem mais sucessos, especialmente aqueles criados pela Marvel, mas os ideais continuam os mesmos: combater os inimigos e criminosos, numa luta incansável para que o bem vença o mal.

Apesar de parecer uma criação da nossa sociedade moderna, heróis com superpoderes são descritos em diferentes culturas e desde tempos remotos, como aqueles retratados em histórias mitológicas da Grécia Antiga.

Na mitologia grega, os heróis eram personagens que estavam numa posição intermediária entre os homens e os deuses. Possuíam poderes especiais, superiores aos dos humanos, como inteligência e força, que os tornavam capazes de vencer inimigos ou atuar em missões impossíveis; por outro lado, como não eram deuses, apresentavam algumas fragilidades psicológicas ou corporais, semelhantes aos seres humanos.

Hércules, por exemplo, era conhecido por sua força física. Foi capaz de vencer doze tarefas difíceis que lhe foram propostas, mostrando-se poderoso contra seus inimigos. Matou diversos monstros, ganhou todas as categorias dos jogos olímpicos e venceu a própria morte.

Seja através da mitologia grega ou dos personagens da Marvel, as aventuras e fantasias criadas pelas ações dos super-heróis, de certo modo, resgatam um ideal coletivo: a esperança de que a justiça prevaleça e que o bem se perpetue.

Especialmente em momentos nos quais sobram desafios a serem superados, e na ausência de medidas eficazes que possam resgatar direitos básicos, como segurança, comida e vacina, o faz de conta parece invadir nossa imaginação.

Aguardamos pelo momento no qual um grande feito seja realizado e atinja a todos de maneira equitativa. Aguardamos pelo momento no qual atrocidades e injustiças não aconteçam mais.

Possivelmente, essa expectativa se desenvolve como um modo de proteção diante de noticias e realidades tão difíceis de serem assimiladas. Buscamos na fantasia um universo paralelo, capaz de resgatar a esperança,  apesar das durezas da vida.

 Talvez a nossa imaginação ou ideias prévias nos permitam pensar nos heróis como aqueles que são capazes de vencer monstros e ataques, exterminam inimigos e realizam feitos impossíveis a nós, seres humanos.

No entanto, provavelmente, um olhar mais cuidadoso nos revele a existência de pessoas que, apesar de não terem poderes especiais, realizam diariamente ações que modificam a vida alheia. Não apresentam forças sobrenaturais ou coragem extrema, mas agem na vida cotidiana atendendo aos interesses coletivos.

Imagino que você, assim como eu, consiga se recordar de algumas dessas pessoas, frequentemente anônimas, que nos ensinam que o verdadeiro heroísmo não é um dom ou algo além dos limites humanos. Pelo contrário. São pessoas comuns, talvez raras, mas comuns; nas quais poderíamos nos inspirar e descobrir que não são as capas ou os símbolos que as diferenciam.  Não é coragem excessiva. É determinação em fazer o que deve ser feito.

Duelam bravamente todos os dias e, muitas vezes, enfrentam lutas internas que quase as fazem fraquejar, porém, se levantam, não se intimidam com os obstáculos.

E, semelhantes ao heróis dos quadrinhos ou do cinema, passam por nós disfarçados de médicos, bombeiros, professores, vizinhos, amigos, desconhecidos. Heróis de uma vida real que reasseguram a esperança de que os vilões ainda serão derrotados e que poderemos viver seguros e felizes nesse nosso planeta.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: marketing de gentileza põe o ser humano no centro da relação, diz Laíze Dasmaceno

 

“Marketing não é sobre enganar as pessoas, ofender as pessoas, é simplesmente a gente criar estratégias para que a gente chegue ao objetivo” — Laize Damasceno, empreendedora

Levar a relação humana para o centro da discussão impulsiona empresas e pessoas a agirem com empatia e gentileza, e isso pode ser transformador nos negócios. Foi a partir dessa ideia, que a empreendedora Laíze Damasceno desenvolveu o conceito do que ela caracteriza como sendo o marketing humanizado, tema da entrevista que concedeu ao programa Mundo Corporativo da CBN:

“Ser gentil, ser bom e ser ético, vai me levar muito mais longe, vai me fazer muito mais sustentável do que eu ter picos de venda custe o que custar”.

Para Laíze, a pandemia fortaleceu ainda mais o conceito com o qual trabalha em cursos e consultorias, pois  demonstrou que empresas que tinham o respeito no relacionamento com o consumidor se saíram muito melhor diante da crise econômica. Ela destaca que marketing é entender a necessidade do público e atendê-lo com algo que seja útil, além de rentável a quem oferece.

“Em tempos de crise, aplicar a gentileza, a empatia e fazer o marketing genuíno e verdadeiro tem muito mais pontos positivos e isso não compete com a ideia de lucrar”.

A forma como a empresa se comunica ajuda na construção desse relacionamento, por isso a criadora da MDG Academy recomenda que se tenha atenção ao vocabulário usado nos diálogos com os diversos públicos:

“O vocabulário das marcas é um dos pontos que ensino no passo da humanização … por exemplo, como ter uma comunicação não-violenta; a gente pode falar a mesma coisa de diversas maneiras … podemos fazer críticas para construir, para somar, para chamar o outro para uma conversa”.

Um dos projetos lançados recentemente por Laíze Damasceno foi a comunidade digital Marketing de Gentileza, uma rede social colaborativa sobre marketing e negócios para conectar pessoas interessadas em troca de conhecimento, ideia e experiência.

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo e em vídeo, às quartas-feiras, 11 horas, no canal da CBN no You Tube, no Facebook e site da rádio CBN. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e está disponível em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Izabela Ares, Guilherme Dogo, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubioti.

YouTube pedir ajuda aos ‘universitários’ é muito “The Social Dilemma”

Ilustração: Pixabay

 

“Isso é muito Black Mirror” foi a frase que ganhou o espaço público desde o sucesso da série de Charlie Brooker que levou à tela a distopia da sociedade contemporânea, com casos de um futuro que já convive entre nós e uma caricatura de nossas vidas com traços de realidade. Conversas por WhatsApp entre pessoas que estão na mesma sala era “Black Mirror”; gente cancelada e que desaparecia do convívio social era “Black Mirror”; coisas extraordinárias do mundo digital era “Black Mirror”.

“The Social Dilemma” chega para desbancar o “velho” jargão. O documentário de Jeff Orlowski, produzido a partir do depoimento de gente que montou a engrenagem que faz funcionar as redes sociais — e está arrependida –, logo se transformará em referência  do nosso vocabulário para quando depararmos com situações ainda estranhas à nossa mente, apesar de já fazermos parte deste cenário há algum tempo —- sem perceber.

Leia “The Social Dilemma: 14 dicas para reduzir o impacto de redes sociais e internet na sua vida”

Nesta semana mesmo, confesso que foi com estranheza que li informações publicada no Financial Times: “YouTube reverts to human moderators in fight against misinformation”. Em bom português: o YouTube voltou a usar seres humanos para moderar o que é veiculado nas redes para combater à desinformação. 

Durante a pandemia — que ainda não acabou, registre-se —-, o YouTube mandou sua turma para casa e deixou a moderação da rede nas mãos de seus robôs, que não são suscetíveis a COVID-19. Preservou a saúde de 10 mil pessoas com essa medida e deixou a rede sob controle das máquinas. Resultado: quase 11 milhões de vídeos foram retirados do ar, entre abril e junho, supostamente por transmitirem discursos de ódio, violência e outras formas de conteúdo prejudicial ou desinformação —- essa coisa infelizmente chamada de fake news. 

O YouTube não informa quantas vezes maior é esse número, mas executivo da empresa ouvido pelos jornalistas deixa claro que é uma quantidade de remoções muito, mas muito maior do que as que costumam ocorrer quando a moderação é feita por seres humanos.

“Embora os algoritmos sejam capazes de identificar vídeos que podem ser potencialmente prejudiciais, eles geralmente não são tão bons em decidir o que deve ser removido”, escreveram Alex Barker e Hannah Murphy após conversarem com Neal Mohan, diretor de produtos do YouTube. 

Na mão das máquinas, a remoção de vídeos é muito mais veloz: mais de 50% dos 11 milhões de vídeo foram tirados do ar sem que tenham tido nenhuma visualização. Em compensação, a intolerância às mensagens que supostamente ferem as regras da plataforma é significativamente maior do que quando passam pela avaliação de gente como nós, de carne, osso e alma. 

O jornal londrino diz que o reconhecimento de que o poder de censura das máquinas é maior do que o dos seres humanos lança luz sobre a relação crucial entre os moderadores — gente como a gente — e os sistemas de inteligência artificial, que analisam o material que é publicado no YouTube. Embora os algoritmos sejam capazes de identificar vídeos que podem ser potencialmente prejudiciais, eles geralmente não são tão bons em decidir o que deve ser removido —- declarou Mohan.

“É aí que entram nossos avaliadores humanos treinados … tomam decisões que tendem a ser mais matizadas, especialmente em áreas como discurso de ódio ou desinformação médica ou assédio”.

Uma especialista ouvida pelos repórteres disse que os sistemas automatizados fizeram progressos no combate a conteúdo prejudicial, como violência ou pornografia:

“…mas estamos muito longe de usar a inteligência artificial para dar sentido a um discurso problemático [como] um vídeo de conspiração de três horas de duração. Às vezes é um aceno de cabeça, uma piscadela e um apito de cachorro. [As máquinas] simplesmente não podem fazer isso. Não estamos nem perto de eles terem capacidade para lidar com isso. Até os humanos lutam. ” —- Claire Wardle, co-fundadora do First Draft.

Uma plataforma como o YouTube, com investimentos enormes em inteligência artificial, desenvolvimento de algoritmos e automatização recorrer aos ‘universitários’ — perdão, esse é um jargão muito anos 1990 — para controlar o controle sobre o mal e o bem que circulam na rede me pareceu “muito The Social Dilemma”.

Psicologia: sua construção histórica e as histórias construídas

 

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

 

“Há mais na superfície do que o nosso olhar alcança”.

 Aaron Beck

 

A busca pela compreensão sobre o ser humano parece tão antiga quanto a própria história da humanidade. Por que uma pessoa age de um jeito e não de outro? Quais os impactos que um evento pode produzir no psiquismo? Por que diante de uma situação semelhante as pessoas agem de maneiras tão diferentes?

 

Mesmo sem ser psicólogo, todos arriscam respostas para tais perguntas, indicando uma apropriação dos conhecimentos da Psicologia Científica, ainda que superficiais, para explicar e compreender os fenômenos e problemas da vida cotidiana. Por outro lado, tais explicações não podem ser confundidas com a Psicologia, uma área da ciência que envolve estudos acadêmicos e sistemáticos sobre o processamento mental e o comportamento, cuja origem remete à filosofia da Grécia antiga

 

Os filósofos gregos procuravam compreender a relação do homem com o mundo, valorizando o papel da razão na sobreposição aos instintos. Na Idade Média, o conhecimento psicológico ficou associado à religiosidade, tendo como principais expoentes Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, cujos estudos procuravam explicar a diferença entre essência e existência.

 

No renascimento ocorreu uma valorização do ser humano e um grande avanço da ciência. O corpo passou a ser visto como uma máquina e os estudos em fisiologia e anatomia permitiram novos conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro.

 

No século XIX, estudos em psicofísica permitiram a mensuração de comportamentos, especialmente os reflexos, favorecendo a realização de estudos que atendiam aos critérios metodológicos e científicos vigentes. A psicologia foi se afastando da Filosofia e novos estudos começaram a ser estruturados na área da psicofísica, com o objetivo de compreender os fenômenos mentais.

 

Em 1879, Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório para experimentos em psicofisiologia, na Universidade de Leipzig, Alemanha. Inaugurava-se a era científica da Psicologia.

 

Desde a fundação do laboratório de Wundt, muitos conhecimentos foram sendo desenvolvidos e aprimorados sobre o funcionamento mental e comportamental, admitindo-se, atualmente, que estes sejam influenciados por três grupos de fatores: biológicos, psicológicos e socioculturais.

 

Essa perspectiva biopsicossocial do ser humano exigiu que a construção teórica do saber psicológico se amparasse em outras áreas científicas, com estudos em fisiologia, sociologia, neurociências, dentre outros. Se o embasamento teórico exigiu multidisciplinaridade, não seria diferente com a prática psicológica. Na maioria das áreas de atuação, o psicólogo trabalha em equipes ou com diferentes profissionais, de maneira interdisciplinar.

 

No Brasil, a Psicologia passou a ser reconhecida como profissão apenas em 27 de agosto de 1962, data atualmente instituída como o Dia Nacional do Psicólogo.

 

Apesar de ser uma profissão relativamente nova, segundo dados do Conselho Federal de Psicologia, nosso país tem atualmente mais de 370 mil psicólogos, atuando nas diversas áreas: psicologia clínica, social, escolar/educacional, organizacional e do trabalho, hospitalar, do esporte, do trânsito, psicologia jurídica e neuropsicologia.

 

Faço parte desses 370mil profissionais e nessa breve retomada da história da psicologia, fui relembrando um pouco da minha história também…

 

Ainda na adolescência, a minha curiosidade sobre o ser humano e meu gosto em trabalhar com pessoas acabaram definindo a minha escolha profissional. Recordo o dia da matrícula, quando vi na ficha de disciplinas a cursar que no primeiro semestre teria aula de anatomia. Estudar cadáveres? Não! Eu tinha escolhido a psicologia para trabalhar com gente viva!

 

Ali fui descobrindo que para ser psicóloga teria um longo caminho a percorrer, com muitos estudos, mais completos e complexos do que imaginara. Além da graduação e da especialização, como optei por uma carreira acadêmica, fiz mestrado e doutorado, atuando no ensino da psicologia, uma das minhas atuações favoritas e tão importante para o desenvolvimento da profissão em nosso país.

 

Quando olho para a história da psicologia e para minha trajetória profissional compreendo que talvez uma das maiores dificuldades que enfrentamos hoje seja a conscientização de que a prática psicológica não pode ser confundida com práticas indiscriminadas, muitas vezes denominadas terapias alternativas, que se afastam significativamente das teorias científicas, seguindo métodos duvidosos e muitas vezes beirando ao charlatanismo.

 

Pegam carona na Psicologia, se revestem de psicologismos, mas não são Psicologia. Psicologia é exercida por psicólogos!

 

Ser psicólogo é conviver com os dilemas, dores e sofrimentos alheios. É muitas vezes se perguntar quanta dor cabe numa vida.  Mas também é participar da construção de vidas mais adaptadas, realizadas e felizes. É saber que as mudanças são possíveis. É contribuir para que as transformações aconteçam tanto de forma individual como coletiva.

 

Não apontamos o caminho a ser seguido, mas percorremos esse caminho junto com o paciente, com uma lanterna na mão. Essa lanterna é a luz do conhecimento científico e da experiência, acumulados com muito estudo, dedicação e prática, que permite a nós e aos pacientes enxergarmos aquilo que num primeiro momento, como sugere Aaron Beck, talvez nossos olhos não pudessem alcançar.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

A metamorfose e a subjetividade humana

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

Borboleta

 

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”
Raul Seixas

 

A palavra metamorfose tem sua origem no grego antigo e significa, como bem representada na música de Raul Seixas, um processo de transformação ou de mudança. Apesar de os seres humanos não passarem pelo processo de metamorfose, como compreendido na Biologia, as mudanças ocorrerão em todo o ciclo de desenvolvimento da vida humana, extrapolando as transformações físicas e, sobretudo, contribuindo para a construção da subjetividade: o jeito de ser de cada um.

A subjetividade pode ser compreendida como a singularidade de cada pessoa, construída a partir das experiências vividas, reunindo o conjunto de características, ideias, opiniões e comportamentos. Esse conjunto de características engloba aspectos biológicos, como a nossa herança genética, mas também aquilo que nos representa, como as preferências musicais, alimentares, amorosas, o jeito de lidar com as situações difíceis ou de comemorar as conquistas, as opiniões políticas, a preferência por exatas ou humanas… ou seja, tudo aquilo que expressa quem somos.

Algumas pessoas acreditam que a nossa subjetividade é imutável ou inata. Quem nunca ouviu aquela frase: “eu nasci assim e vou morrer assim”? De fato, as nossas transformações não são abruptas, acontecem pouco a pouco, a medida que participamos do mundo social, da coletividade e do encontro com o outro. Somos influenciados e influenciamos. É no espaço coletivo que manifestamos a nossa individualidade, mudando o mundo e recriando a nós mesmos. A cada dia já não somos mais exatamente como éramos no dia anterior, pois tivemos vivências diferentes, ouvimos coisas diferentes, tivemos novas experiências. Isso permite reflexões e conduz a renovações.

 

Em tempos nos quais prevalecem opiniões acirradas e extremistas, há uma exigência por atitudes do tipo tudo ou nada, ser isso ou aquilo, estar de um lado ou de outro. Mudar de ideia ou descobrir que não há um jeito único para fazer as coisas pode ser visto, nessas circunstâncias até mesmo como uma fraqueza. Valorizam-se os rótulos, sufocando a criatividade, a espontaneidade e a capacidade de adaptação. Essa rigidez ou apego exagerado às próprias ideias e atitudes aprisiona, indicando que existe apenas um caminho e uma única maneira de percorrê-lo.

 

A vida admite tantas definições e possibilidades para termos uma única versão, pronta, acabada ou definitiva de nós mesmos. Da mesma forma que a lagarta se transforma em borboleta, somos seres em constante mudança. Essa é a nossa natureza: podemos mudar de gosto, de ideias, de amigos, de atividades, de opiniões formadas sobre tudo!

 

Disse Luís de Camões:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”.

É justamente isso que vai possibilitar sermos quem somos!

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Perguntei ao Siri: “você já se apaixonou?” E ele respondeu

 

Por Biba Mello

 

 

FILME DA SEMANA:
“Ela”
Um filme de Spike Zonze.
Gênero: Drama ou Romance
País:USA

 

Theodore é um escritor que, evidentemente, tem muitos problemas para se relacionar. Então, se apaixona por um sistema operacional chamado Samantha! Realmente, não sei se é drama ou romance.

 

Resenha:
Desta vez vou abandonar minha forma costumeira de escrever, para abrirmos uma discussão maior a respeito deste filme.

 

Assisti-o junto com meu marido e um casal de amigos, que ficaram bastante impressionados com as questões levantadas após seu término. O personagem se apaixona por um sistema operacional chamado Samantha. É um sistema extremamente evoluído, capaz de sentir. Ele é um mini celular que fica ligado por bluetooth a um fone de ouvido. Como uma namorada, o sistema faz ligações para Theodore no meio da noite, viajam juntos, saem com amigos… Tudo exatamente como em um namoro normal só que sem a presença física. Essa é uma das questões…

 

Que triste nosso destino, não? Nos relacionar com máquinas!?? Se você pensar bem, já estamos a meio passo disto, pois não nos relacionamos com as máquinas, mas através delas… Cadê aquela despedida de telefonema onde um fala “desliga você primeiro…”, “não, tudo bem desligo eu…”. “você…”, “eu…”. Ou, então, a espera por uma ligação desejada?

 

Hoje, você consegue ver se alguém leu ou não sua mensagem/email… Rastreia as pessoas por redes sociais…Aplicativos… Nossa privacidade e mistério são zero, sem falar na frieza e superficialidade que nossos relacionamentos estão se moldando a ponto de nos tornarmos seres não sociáveis, travados de uma maneira que realmente só conseguiremos nos relacionar com sistemas…Fim do mundo!

 

Fora isto, no filme o sistema tem vontade própria e acaba mandando uma compilação das cartas de Teodore para uma editora… Ah que legal! O sistema ajudou o seu dono! Mas pensem comigo, se conseguiram codificar o amor, podem muito bem codificar o ódio e o sistema se virar contra seu dono e/ou criador! E aí?? Tudo é sistema, certo? E se o sistema ficar amigo de outro sistema e resolverem juntos começar uma guerra? Da maneira como pensam os sistemas no filme, isto é perfeitamente possivel…

 

Faça uma brincadeira:

 

Quem tiver Iphone, pergunte ao Siri se ele te ama. Resposta que obtivemos: “a cada dia que passa gosto mais de você”. Outra: “Siri, você já se apaixonou?”. Resposta: “acho improvável já que sou incapaz de amar”. Humm, será?… MEDA!

 

Não é para pensar? Onde vai parar a evolução das máquinas? E a nossa involução?

 


Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Toda semana, sugere e escreve sobre filmes aqui no Blog do Mílton Jung

A Violência do Mundo

 

Por Julio Tannus

 

 

Escrevi aqui, há pouco tempo, sobre a questão da segurança em nossa cidade. Volto ao tema, mas com um foco ampliado e direcionado para a violência no nosso planeta. Após sobrevoo em alguns autores, suas reflexões apontam para uma realidade nada confortadora. Tomo como exemplo o filósofo francês Jean Baudrillard, que tem visão bastante pessimista de nosso coletivo humano. Para ele, “se os progressos científicos, técnicos, médicos e sociais são admiráveis, não se deve subestimar o terrível poder destrutivo e manipulador da ciência e da técnica. Pela primeira vez na história do homem, graças à ciência e à técnica, pode-se aniquilar irremediavelmente toda a humanidade. A biosfera também está ameaçada de degradação: os perigos são o fruto de nosso progresso. O desenvolvimento, cujo modelo é ocidental, ignora que ele comporta também grandes inconvenientes. Seu bem-estar gera mal-estar, seu individualismo comporta egocentrismo e solidão, seus desenvolvimentos urbanos geram estresse e danos, e suas forças irreprimíveis conduzem à morte nuclear. O que isso quer dizer? Não se deve continuar nessa estrada nem indicar o caminho que percorremos: é preciso mudar de estrada”.

 

E tem uma visão pessimista de nosso coletivo. Para ele, o coletivo humano acumula tensões com o passar do tempo. Essas tensões só são aliviadas com guerras, distúrbios sociais, e outras violências. Faz uma associação com nossa atmosfera: as nuvens vão acumulando tensões que só são dissipadas a partir de descargas atmosféricas.

 

Segundo relatório divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a violência mata mais de 1,6 milhão de pessoas no mundo a cada ano. Afirma também que outros milhões de pessoas são mutiladas por ataques. A violência é hoje a principal causa das mortes de pessoas com idades entre 15 e 44 anos. Ao divulgar o relatório, a OMS pediu aos governos em todo o mundo que adotem medidas urgentes para diminuir índices de assassinatos, violência doméstica e conflitos armados. 

Ainda segundo o relatório, a violência responde por 14% das mortes de homens e 7% das mortes de mulheres. Isso quer dizer que uma pessoa morre em algum lugar do mundo a cada minuto. Outras estatísticas publicadas dizem que uma pessoa comete suicídio a cada 40 segundos e 35 pessoas morrem a cada hora em conflitos envolvendo armas. Metade das mulheres mortas em crimes violentos é assassinada pelo marido, ex-marido ou namorado. Em alguns países, o índice sobe para 70%. Uma em cada quatro mulheres no planeta vai sofrer violência sexual por parte do parceiro. A violência contra os idosos também é um problema crescente com 6% de idosos tendo se declarado vítimas de abuso.



 

E aqui uma esperança, onde uma frase de Heidegger ganha toda a sua dimensão (“a origem não está atrás de nós, mas sim diante de nós”). O diretor da OMS, Gro Harlem Brundtland, disse que o relatório representa um desafio. “Ele nos força a ir além das noções do que é aceitável e confortável, a questionar a crença de que a violência é uma questão de privacidade da família, escolha individual ou um fato inevitável da vida.” 

O diretor do departamento de prevenção de ferimentos e violência da OMS, Etienne Krug, disse que as mortes podem ser evitadas com uma mudança de atitude. “No mundo inteiro, há evidências de que a violência pode ser evitada por uma série de medidas envolvendo indivíduos, famílias e comunidades.” O relatório reivindica programas educacionais para crianças nas escolas, treinamento para os pais e esquemas para diminuir o uso de armas de fogo, além de melhor suporte para as vítimas da violência.

 

Esperemos que isso aconteça!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve às terças-feiras no Blog do Mílton Jung