Já que não fez a lição quando devia, aprenda na crise como será o pós-Covid

 

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

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Resultados comprovam acerto de quem investiu no varejo digital (Foto:Pixabay)

 

 

A entrevista com o CEO da Nestlé, Marcelo Melchior, no programa Mundo Corporativo, da CBN, espelha bem o ambiente da pandemia com suas oportunidades e ameaças. A Nestlé, com seu amplo portfólio de produtos e serviços e suas marcas integradas há anos no mercado nacional, é um laboratório potencial com paradigmas que podem ajudar a compor um quadro pós-Covid.

 

 

A previsão do cenário pós-Covid é um dos temas mais recorrentes do momento, tal a importância da adaptação às necessárias mudanças que pessoas, empresas e Estado terão que realizar.

 

 

Nesse contexto aproveitamos para extrair a questão da cadeia de lojas Nexpresso. Elas foram fechadas e, embora desempenhassem um papel importante na jornada essencial de experiência do consumidor, da marca e para a marca, foram substituídas pela solução digital.

 

 

Marcelo informou que a venda digital, enquanto as lojas estavam abertas, equivalia a 30%, e passou a representar 120% quando ficou sem o mundo físico. Consequentemente, evitou o prejuízo causado pelo fechamento das lojas para a empresa, e preservou o abastecimento aos consumidores, certamente mais ávidos pela peculiaridade do enclausuramento compulsório a que foram submetidos.

 

 

Não é difícil imaginar a enorme quantidade de segmentos empresariais que não implantaram sistemas digitais e tiveram que fechar os canais de venda físicos.

 

 


Particularmente, o que mais me afronta é o setor de Shopping Centers, com quase 600 empreendimentos em todo o Brasil, e que amargaram nesse episódio da Covid-19 um gigantesco prejuízo, por não terem criados seus Market Places. Inclusive arrastando consigo um enorme contingente de lojistas, que também não se prepararam para a digitalização.

 

 

A data de ontem foi memorável para o fato, pois os resultados das empresas digitais de varejo, ao lado das que tiveram a visão da omnicanalidade comprovaram o acerto de apostarem no digital, através dos balanços publicados.

 

 

Destaque para Magalu cuja principal estrela da operação digital foi o Marketplace, responsável pela venda de produtos de 32.000 sellers, que cresceu 214% no trimestre. Entre abril e junho vendeu R$ 8,6 bilhões e se tornou o maior varejista de bens duráveis do país, com a maior parte das lojas físicas fechadas.

 

 

É difícil acreditar que ainda há muitos que não conseguem entender a função digital como alternativa e complementaridade do sistema de distribuição de produtos e serviços.

 

 

Convite do editor do Blog: para aprender um pouco mais com Carlos Magno Gibrail sobre transformação digital, varejo, moda, economia e sustentabilidade assista à conversa dele com Angela Garcia, da ALSHOP

 

 

 

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

Mundo Corporativo: se capotar é preciso, aprenda como com Amyr Klink e Armando Oliveira

 

“…. nos projetos que a gente faz não tem espaço para desorganização, a gente morre, então quando eu estou montando um projeto, eu mudo completamente”, Amyr Klink

 

“… é justamente neste momento de crise que a gente começa a perceber o quão vulnerável é o seu projeto”, Armando Oliveira

Prática e teoria. Jornadas e processos. Experiência e conhecimento. Um pouco de cada um e tudo isso reunido, resultou em um encontro que até então parecia impossível: o mestre em projetos de TI Armando Oliveira, que na sala de aula motiva seus alunos ilustrando os ensinamentos de sua área com situações do cotidiano, e o navegador Amyr Klink, que não esconde o constrangimento em usar sua história como referência para a vida dos outros —- não que não tenha noção da dimensão de seus feitos, mas a timidez o impede de pensar que possa ser um guia para quem pretende superar desafios nas mais diversas áreas.

 

Armando e Amyr foram os convidados do programa Mundo Corporativo para falar, entre outros temas, de como enfrentar este momento no qual as restrições impostas pela pandemia têm deixado muitas pessoas isoladas e negócios paralisados. Recentemente, Armando lançou o livro “Capotar é preciso” (Companhia das Letras), escrito a partir de longas conversar que manteve com o navegador. Eles não se conheciam, e quando Amyr foi procurado pelo professor de projetos de TI, imaginava que seria um bate-papo rápido com alguém curioso por suas histórias. Surpreendeu-se com o que ouviu e também aprendeu.

“Eu acho engraçado ser convidado para palestras sobre, por exemplo, planejamento, organização e gestão de negócios, porque eu sou muito desorganizado, mas nos projetos que a gente faz não tem espaço para desorganização, a gente morre, então quando eu estou montando um projeto, eu mudo completamente. Eu vou as raias da loucura pra tentar cercar todos os problemas, mitigar falhas, essas coisas” Amyr Klink

Curiosidade pelas histórias do navegador, é claro que Armando Oliveira tinha, mas com um objetivo bem claro: conhecer a experiência de Amyr Klink era a oportunidade de ganhar mais repertório para as aulas de projeto, na faculdade:

“Eu usava exemplos e analogias de como seria o mundo dos projetos a partir de cases acadêmicos, e passava a impressão de que estivesse querendo ensinar a profissão aos alunos: não vou ensinar o engenheiro a erguer um prédio ou o Amyr Klink a navegar. Quando busquei o exemplo dele, os alunos ficavam muito mais abertos de ouvir essas experiências E isso começou a facilitar os ensinamentos que a gente queria que eles entendessem: a parte de gestão dos projetos e não a parte técnica. E quando a gente conversa sobre os projetos do Amyr, que lida com as emoções extremas, isso facilita o aprendizado”.

O título do livro, Capotar é preciso, é baseado no conhecimento que Amyr Klink obteve no primeiro projeto de travessia do Atlântico Sul, em 1984, quando estudava formas de superar o desafio em um barco a remo e acreditava que a chave do sucesso seria criar uma embarcação que não capotasse. Graças a intervenção do engenheiro José Carlos Belfort Furia, da USP, descobriu que sua visão estava errada. O professor  recomendou que “ele abraçasse esse problema, dormisse com esse problema, em busca de uma solução”.  Mudou o projeto e o restante da história se conhecesse muito bem.

“Eu nunca esqueci esta historia de abraçar os problemas: Tem gente que acha uma espécie de pessimismo ficar estudando as razões do fracasso. Em vez de acreditar que o universo conspira a seu favor, essas coisas, eu penso totalmente diferente. Eu penso que o universo conspira contra, e eu gosto de descobrir os problemas e construir uma solução”.

Uma das preocupações de Amyr Klink durante essa pandemia é que devido as restrições para navegação, teve de deixar o “paratiizinho” — como chama carinhosamente a embarcação  que já realizou 25 travessia em 30 anos, atracado nas Ilhas Falkland —- ele teme encontrar dificuldades para negociar a retirada do barco do território que está sob domínio britânico, já que “o Brasil não está bem na foto”.

 

Sobre a travessia que enfrentamos com as crises provocadas pela pandemia, Amyr diz que o mais difícil neste momento é a falta de rumo. Lembra que nas suas jornadas em alto mar, ele tem noção de quando será a partida e qual é o seu destino. Tem um ponto chegada. Nesta pandemia, diz, ninguém sabe qual é.

 

Já Armando busca forças para superar as dificuldades do momento com uma lição que aprendeu com o próprio navegador:

“O Amyr em uma conversa até recente, comentou que o tempo que ele cometeu as maiores burradas de projeto foi o tempo em que ele tinha excesso de patrocínio, condições propícia à vontade. Foi o tempo que eles mais desperdiçaram os recursos e acharam as soluções piores possíveis. E, ao contrário, quando ele foi forçado a passar por algumas situações em que ele tinha poucos recursos e poucos apoios foi quando ele tinha as soluções mais interessantes. Eu fui pego em cheio por essa questão da pandemia e é justamente quando temos de ter equilíbrio emocional para saber como sair disso aí. Nesse momento é preciso se planejar rápido, e a gente começa a perceber o quão vulnerável é o seu projeto. Não vejo fórmula mágica: só muito trabalho e pensando em alternativas”

PS: em virtude de problemas de áudio na gravação em vídeo pela internet, algumas respostas de Amyr Klink foram regravadas, portanto, é possível que ao assistir ao vídeo você encontra respostas diferentes daqueles que foram reproduzidas no programa em áudio. O conteúdo é bom das duas maneiras, portanto minha recomendação: ouça os dois e aprenda duplamente.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e tem a colaboração de Juliana Prado, Guilherme Dogo, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Da Nau dos Loucos ao tanque de roupa suja: “soluções” para os transtornos mentais

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Foto: Pixabay

 

Na obra o Alienista, de Machado de Assis, o médico Simão Bacamarte retorna à sua terra natal e constrói um manicômio, chamado Casa Verde, para abrigar os loucos da cidade e região. No início, as internações eram apoiadas pela sociedade, mas com os avanços de sua teoria, o médico chega a internar 75% da população, que se revolta. Então, Bacamarte revê seus estudos, liberta essas pessoas que estavam internadas e confina a outra parcela da população, invertendo seu conceito sobre a loucura: louco seria quem se mantinha estável em suas ações.

 

A busca por explicações sobre comportamentos estranhos ou anormais sempre esteve presente na história da humanidade. Documentos mostram que em 3.500 a.C., na Babilônia, já havia relatos do que hoje chamamos de transtornos mentais. Para os povos primitivos, a “loucura” não era vista como doença, mas como espíritos do mal que dominavam a pessoa e deveriam ser expulsos em rituais espirituais. Na cultura greco-romana, a loucura era decorrente do desequilíbrio de fluídos corporais. Na Idade Média, a ideia de que a doença mental era algo místico e religioso é retomada. Nessa época, a Igreja criou duas formas de controlar e isolar aqueles que apresentavam opiniões contrárias às doutrinas estabelecidas, chamados hereges: a inquisição, na qual o herege era cruelmente morto para que suas ideias não fossem difundidas; e a Nau dos Loucos, embarcações nas quais os loucos eram colocados, vagando pelos rios europeus.

 

No renascimento, a loucura passou a ser explicada de forma filosófica e o louco passa a ser visto como uma pessoa desadaptada e insignificante. Após a Revolução Industrial, o conceito de normalidade foi vinculado ao trabalho e a produtividade. O louco era visto como ocioso e improdutivo. Na tentativa de recuperação, o louco era internado, para aprender um ofício e torturado. No final do século XVIII, Pinel, médico francês, se deteve ao estudo da anormalidade, vinculando a loucura com cuidados médicos. A loucura passou a ser vista como doença mental, passível de tratamento, mas ainda reclusa aos manicômios. Após a II Guerra Mundial, o desenvolvimento da indústria farmacêutica e a descoberta de medicações permitiram o tratamento ambulatorial, ou seja, fora das instituições.

 

Se por um lado o interesse com a doença mental, especialmente na última metade do século passado, despertou o avanço de estudos científicos, como o desenvolvimento das neurociências; por outro lado, os estigmas associados aos doentes mentais sofreram mudanças menos acentuadas. Explicações reducionistas sobre as causas, mitos sobre a doença e soluções de tratamento pouco embasadas em métodos científicos, continuam a exigir das pessoas que sofrem com esses transtornos ter que lidar com o sofrimento e incapacidades decorrentes da própria condição e ainda ter que lidar com o preconceito e a discriminação.

 

Apesar dos transtornos mentais atingirem pessoas de diferentes idades, gênero ou nível socioeconômico, as representações sobre a doença e o doente ainda são permeadas de estigmas. Além das associações inadequadas às causas, o mesmo acontece em relação ao tratamento. Concepções sem embasamento científico ou mesmo preconceituosas, como aquelas que sugerem que ter uma doença mental é “falta de um tanque de roupa suja para lavar”, reforçam as crenças de que ter um transtorno mental é uma escolha e permanecer nele, uma decisão.

 

Ter um transtorno mental não é escolha, mas também não é punição ou castigo. Punição é não termos um sistema que permita o diagnóstico adequado e um tratamento eficaz que possa trazer menos sofrimento à vida de tantas pessoas. Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que, no mundo todo, menos de 10% das pessoas com transtorno mental têm acesso a tratamento.

 

Enquanto não mudamos esse cenário, compreender a doença mental pode nos aproximar do exercício da nossa humanidade, aceitando as diferenças, imperfeições, anormalidades de cada um de nós mesmos. Dr. Bacamarte tinha o propósito de encontrar, definitivamente, a diferença entre o normal e o patológico. Acabou descobrindo apenas em si características de perfeito equilíbrio mental e moral. Diante disso, liberou todo mundo do manicômio e lá se internou. “Fechando a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e a cura de si mesmo”. Dr Bacamarte deixou um legado: ensinou que de médico e louco, todos nós temos, de fato, nem que seja um pouco!

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Pena de morte nivela o Estado ao criminoso, diz filósofo Renato Janine Ribeiro

 

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O Brasil é pioneiro na abolição da pena de morte, apesar de a Constituição Federal ainda prever essa punição em caso de crimes cometidos em tempo de guerra. A mesma Constituição impede a pena capital em qualquer outra situação ao tratá-la como cláusula pétrea – e aí virá o constituinte a discutir se estas têm sentido. Quem sou eu para me meter com os especialistas? Deixo a discussão jurídica aos estudiosos da lei.

 

Dos tempos em que vigorou no Brasil, a pena morte cabia apenas aos escravos. Gente rica, por mais bárbaro que fossem os crimes cometidos, jamais seria enforcada. Exceção feita ao fazendeiro Manoel da Motta Coqueiro, acusado de matar família de colonos, na metade do século 19. Foi condenado e morto. Justiça? Não, vingança. Em entrevista à BBC Brasil, o jornalista Carlos Marchi, autor do livro “A Fera de Macabu”, disse que Coqueiro tinha inimigos políticos na região, que exerciam influência na política, no judiciário e também na imprensa. Mais tarde surgiram indícios de sua inocência. Como escrevi: era tarde.

 

Com a Proclamação da República – e sem escravos para punir – veio o fim da pena de morte, que voltaria a ser prevista no Regime Militar, no código escrito pelos milicos em 1969. Ainda bem, jamais levada a cabo.

 

O fuzilamento do traficante brasileiro Marco Archer na Indonesia trouxe a discussão de volta e as diferenças ficaram evidentes nos debates públicos proporcionados pela internet. Texto que escrevi no fim de semana, originalmente no Blog do Milton Jung, me aproximou de muitas opiniões e revelou personalidades. Nem todas com argumentos muito firmes, mas sempre determinadas: a favor ou contra. No que escrevi, parece-me, não ficou dúvida: sou contra a pena de morte. Quanto aos argumentos que usei, julgue você mesmo.

 

Volto ao assunto, hoje, porque entrevistei, sobre o tema, no Jornal da CBN, o filósofo Renato Janine Ribeiro que definiu a defesa da pena de morte como “a solução para os ignorantes”. Para ele, boa parte da argumentação dos que se dizem a favor da punição está construída sobre o ódio e não se sustenta. Não que o pensamento do respeitado filósofo precise do meu respaldo, mas sempre disse que toda sociedade que age com ódio, erra. Não devemos ser movidos pela vingança, apenas pelo desejo de justiça.

 

“A ideia de matar pessoas quais quer que sejam os crimes é uma ideia fácil de vender para um público assustado pelo aumento da criminalidade”, disse Janine, ao comentar a política de combate ao tráfico de drogas, promessa de campanha eleitoral, do presidente da Indonésia, que fez até um plano de metas: cinco execuções por mês. Está cumprindo. Janine mostra que a pena de morte não tem qualquer influência nos índices de violência. Nem para o bem nem para o mal. Além disso, impõe duas situações dramáticas: a impossibilidade de corrigir um erro judiciário e o nivelamento do Estado ao criminoso. Considera ser esta uma saída simplista com a qual se deixa de discutir a violência e a criminalidade dos pontos de vista da miséria social, da ética e da moral:”para problemas difíceis sempre se tem uma solução fácil e errada”.

 

Ouça aqui a entrevista completa do filósofo Roberto Janine Ribeiro, ao Jornal da CBN

"Falta uma visão global da cidade", diz Lerner

 

Protesto no M'Boi Mirim

 

“Falta uma visão global da cidade” disse o urbanista e arquiteto Jaime Lerner em entrevista nesta segunda-feira ao Jornal da CBN. Com a experiência de quem ofereceu soluções para Curitiba e se transformou em referência internacional Lerner ensina que a cidade é uma estrutura de vida, trabalho e lazer e para se enfrentar os desafios impostos aos governantes é preciso soluções conjuntas. Ele entende que além das questões básicas como educação, saúde e segurança, é preciso estar preparado para encarar três pontos fundamentais, hoje em dia: mobilidade, sustentabilidade e tolerância.

 

Uma das coisas que o incomoda é o fato de a maioria das pessoas insistir na manipulação da tragédia, sempre apresentando os dados negativos da cidade, reclamando do seu tamanho e da falta de dinheiro no Orçamento. Defende que se resolva os problemas com o que se tem e se use a nossa energia para mudar tendências: “se você projeta a tragédia, aumenta a tragédia”.

 

Jaime Lerner diz que é um falso dilema que se coloca à população quando se discute investimento em carro ou em metrô. Alargar ruas e avenidas para melhorar a fluidez é transferir o congestionamento de um ponto para outro, e as cidades não têm dinheiro suficiente para ampliar as linhas de metrô. O que fazer então? Como mais de 80% das pessoas andam na superfície deve-se “metronizar o ônibus” colocando-os a circular em corredores inteligentes que aumentem a velocidade do transporte. Usa como exemplo o projeto de mobilidade do Rio de Janeiro para a Copa do Mundo e Olimpíadas, onde se estende apenas uma linha de metrô e se coloca o restante do dinheiro na modernização do sistema de ônibus.

 

“A cidade tem de ser como uma tartaruga, exemplo de habitação, trabalho e movimento, tudo junto”, compara Lerner que enxerga o casco da tartaruga como uma tecitura urbana que se for dividida mata o animal. “Está se separando a cidade por funções, separando as pessoas por guetos de gente rica e guetos de gente pobre.” Para Lerner é preciso resolver melhor a convivência das pessoas, aproximando o trabalho da casa e a casa do trabalho, o que reduziria a necessidade de investimento em transporte.

 

O que será que o seu candidato a prefeito e a vereador pensam sobre isto? Pergunte a ele e cobre soluções para os problemas que fazem parte do nosso cotidiano, antes de definir o seu voto.

 

<a href="”>Ouça a entrevista completa de Jaime Lerner ao Jornal da CBN

As cidades: problema ou solução

 

Artigo do venezuelano Moisés Naím, publicado no jornal Folha de São Paulo, na sexta-feira, 26/08, fala das maiores cidades latino-americanas que perdem a oportunidade de se transformar em motor de desenvolvimento. A foto é do Marcos Paulo Dias e faz parte do álbum digital do Blog do Mílton Jung:

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Dentro de alguns meses vai nascer um bebê histórico. Será o 7.000.000.000º habitante do planeta. E provavelmente nascerá em uma cidade, já que hoje mais de metade da população mundial vive em cidades, algo que também é novo.

Em 2008 o número de habitantes urbanos superou a população rural pela primeira vez.

Esse processo de urbanização vem sendo muito rápido. De acordo com a ONU, a população urbana passou de 13% do total mundial em 1900 (220 milhões de pessoas) para 29% (732 milhões) em 1950, saltando em seguida para 49% (3,2 bilhões) em 2005. Até 2030, estima-se que alcance 60% (4,9 bilhões).

A América Latina é campeã do mundo nesse quesito: com 80% de sua população vivendo em cidades, é a região mais urbanizada do planeta. Esta realidade tem implicações econômicas e políticas enormes. O Instituto Global McKinsey (MGI) acaba de publicar um excelente estudo sobre esse tema. Sua conclusão principal é que as maiores cidades da América Latina poderiam ser um potente motor de desenvolvimento e prosperidade.

Poderiam. Mas não o são, e seu desempenho econômico e social está abaixo do de seus países e de outras cidades do mundo. As cifras do relatório do MGI são impressionantes. Na América Latina há 198 cidades com mais de 200 mil habitantes, em que vivem 260 milhões de pessoas e nas quais se geram 60% de toda a atividade econômica da região, o que equivale ao PIB de Índia e Polônia juntos. Estima-se que em 2025 essas 198 urbes vão gerar um PIB igual ao da Espanha hoje.

Como sabemos, contudo, as grandes cidades latino-americanas estão repletas de problemas: tráfico, criminalidade, deficits, corrupção e o eterno atraso da oferta de serviços públicos, em relação às necessidades de transportes, água, saúde, eletricidade, habitação, etc.

Esses problemas crônicos explicam por que o índice de crescimento econômico das dez cidades maiores vem sendo menor que o de seus países. De acordo com o MGI, desde 1970 os índices de crescimento econômico de São Paulo e Rio de Janeiro vêm caindo, estando hoje inferiores ao crescimento do Brasil.

A Cidade do México também vem apresentando desempenho pior que o das 45 cidades mais populosas do país. Das dez maiores cidades da América Latina, apenas Lima e Monterrey vêm tendo desempenho melhor que seu país.

Em vista da velocidade com que se movem as variáveis associadas à urbanização, é urgente agir para que as grandes cidades não se transformem em uma carga pesada que afunde seus países.

Os desafios são muitos, e o MGI agrupa as soluções em quatro grandes categorias: elevar o desempenho econômico das grandes cidades, melhorar a qualidade de vida de seus habitantes, utilizar recursos naturais de maneira sustentável e melhorar suas finanças e a maneira como são governadas.
É fácil sorrir cinicamente e pensar que nada disso será possível. Quem sabe. Mas, se não tentarmos, a catástrofe urbana da América Latina poderá anular a possibilidade de os latino-americanos terem um futuro melhor que seu passado.