“Por que estou sonhando com a(o) ex?”

 

Por Simone Domingues

 

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Imagem Pixabay

 

A internet tornou-se uma das ferramentas mais rápidas para se fazer pesquisas sobre diversos assuntos, e não seria diferente durante a pandemia que vivemos. Uma das informações mais procuradas durante o isolamento social tem chamado à atenção de pesquisadores: “por que estou sonhando com o ex”? ou “por que estou pensando no ex”? —- essa busca cresceu 2.450% na comparação com o mesmo período no passado, segundo a empresa de marketing digital AGY47.

 

 

Ivan Izquierdo, em seu livro Memória (2018), destaca que os sonhos são evocações desorganizadas de memórias, em combinações variadas e diferentes, numa interação entre memórias antigas, recentes e os estados emocionais. E se tem algo que estamos vivenciando intensamente neste momento são as nossas emoções!

De que modo a memória participa desse processo?

 

Vemos o mundo parado, seja no comércio, seja nas artes, seja na nossa capacidade de ir e vir. Na incapacidade de projeções futuras, tendemos a nos resgatar no passado. Até mesmo a televisão tem exibido reprises de novelas, filmes e jogos de futebol. Nesse cenário de saudades, nossa memória entra em ação, associando essas vivências atuais a contextos antigos, possivelmente resgatando onde estávamos, com quem estávamos…

 

Nossa memória trabalha com associações. Não memorizamos um item isolado, ou seja, não memorizamos o movimento da bola entrando no gol, mas, sim, o gol que deu o título, a fala do narrador evidenciando que éramos campeões e as companhias daquele momento.

 

Imagine a seguinte situação: todos os dias quando seguia para o trabalho, um rapaz passava na cafeteria e comprava um café. Um dia deparou com a cafeteria fechada. No dia seguinte insistiu e ela permanecia fechada. Assim se seguiram os demais dias até o rapaz mudar seu comportamento e não ir mais à cafeteira. Porém, em um determinado dia, ao passar em frente a cafeteria, ele se deu conta de que estava aberta. O que ele fez? Foi lá comprar o seu café.

 

Com a memória acontece algo semelhante: esquecemos ou extinguimos uma informação, porque esta se torna desnecessária num determinado momento. Entretanto, a presença de fatores que estejam, de certo modo, associados à uma lembrança, podem trazê-la à tona.

Agora, cuidado!

 

Antes de sair por aí confiando demais na sua memória é preciso saber que a memória tende a incorporar fatos irreais, distorcendo as situações. Nelson Rodrigues dizia: “não há nada mais relapso do que a memória”.

Então, se nesse momento de isolamento social você estiver pensando muito no seu ex (relacionamento), talvez seja a hora de colocar a memória para trabalhar e buscar na lembrança —- e não no Google — quais os motivos dele ter adquirido a condição de ex.

 

Simone Domingues (@simonedominguespsicologa) é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: poema da cidade

 


Por Dryca Lys
Ouvinte-internauta da rádio CBN
(reprodução de texto publicado em abril de 2014, neste blog)

 

 

Eu nasci e cresci nesta cidade maravilhosa chamada São Paulo. E com seus mistérios e sua fantástica frieza aconchegante. São Paulo é uma experiência de vida, é uma chance única de encontrar vários países em um único lugar.

 

Você pode conhecer a cultura alemã, entrar em contato com a cultura indígena, se sentir no Japão, conhecer a cultura coreana, judaica entre várias e várias culturas sem sair de São Paulo. Graças a magia que existe aqui, você pode se inspirar e difundir arte. Para o aniversário da minha São Paulo, envio este poema. É o que sinto e o que vejo nesta metrópole que chamo de lar

 


Este poema é parte integrante do livro Clube de Autores

 

São Paulo

 

Existem lugares que te fazem sonhar
outros fazem você se sentir mal
mas existe um lugar que te enfeitiça
um lugar que acende seus desejos, atiça
sua vontade de estar ali presente
um lugar único que te faz voar…

 

Mesmo caminhando nos becos escuros
as ruas brilhando como diamante
a música se espalhando e de repente
as estrelas caem e você anda pela poeira sideral
todos os cantos desse lugar parecem seguros
nem sempre… Mas um tapete brilhante

 

se estende aos seus pés, você chora
sozinho, canta em meio a multidão
nos dias de chuva, a brisa aquece
seus anseios, a noite vem, incandesce
seus desejos, a noite se esconde, vai embora
nos dias de sol você vê a sua solidão…

 

Você pode estar em vários lugares, sem sair
de dentro dela, mas não há nada
melhor do que estar lá, faça
o que for, corra, vá e volte, você pode ir
mas ela esta dentro de você, a saudade
te queimará inteiro, você sempre volta para esta cidade.

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às dez e meia da manhã, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar deste quadro enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@cbn.com.br.

De oponente

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De saudade

 


Por Maria Lucia Solla



Ouça “De Saudade” na voz e sonorizado pela autora

Minha comadre me escreveu. A gente se gosta muito, mas dá para contar nos dedos as vezes que nos vimos nos últimos muitos anos. Moramos a mais de mil quilômetros uma da outra, e temos nossas vidas. Ela queria saber mais sobre mim. Tem saudade. Eu também.

então foquei
olhei para mim com mais atenção
no embalo da energia forte
que está por toda parte
da esperança e vontade de ser melhor
que dá para sentir no ar

em menos de um segundo
encontrei em mim o mundo
você ele ela eles elas

tateando meu rosto
longe do espelho
reconheci pai mãe filho irmão
parente amigo
o que sonhei viver
os sonhos que vivi
e nos meandros da lembrança
me perdi

Vi meus erros que brotavam, acredite!, da mesma fonte de onde jorram os erros de todos; de afetos e desafetos, de povos de todas as terras. Cheguei o mais perto que pude da fonte de onde jorravam alegrias. A multidão se apinhava de tal modo que morria por um punhado, no afã de viver delas. Em volta dos meus acertos havia poucos; matavam a sede e o calor lá, onde apodreciam erros velhos, decadentes, que eu já descartara, e os que ainda estão estampados na minha cara.

chorar
escolhi sorrir
dizer
preferi calar

foi quando senti que as fontes eram interligadas
a que te faz chorar e a que te deixa contente
a que te faz olhar para trás
e aquela que ilumina o caminho à frente

senti impulso de gritar, bradar, alardear
quando percebi o brilho brincalhão de uma estrela
que me mostrava um caminho
confiante e curiosa segui
e foi então que vi
claramente
que a água de todas as fontes tem uma só origem

saí então da terra da lembrança
e voltei ao presente
de onde
por muito tempo
eu estive ausente

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung.

De céu e inferno


Por Maria Lucia Solla

Ouça “De céu e inferno” na voz da autora

Angustia

há dois modos apenas
de curar a vida
lamber a ferida
ou roer
as
penas

há dois modos da boca sorrir
arrastar a cara com ela
ou com a cara amarela

rir

há dois modos de ser amada
dançar ao som do amor
driblar aqui ali a dor
ou partir para o jogo do tudo
ou
nada

há dois modos de ser
ser na vida ser com ela
ou assistir da janela
e de inveja
pa
de
ser

há dois modos de chegar ao céu
reconhecer o inferno
partilhar com ele o denso véu
ou negar o demo e vagar
ao
léu

há dois modos de dizer a que veio
pular na frente
vim
gritar de trás olha eu aqui
enfim
ou estagnar na fileira
do
meio

há dois modos de sonhar
assistir ao sonho do outro
esticar o pescoço torto
ou sonho a sonho
or
ques
trar

há dois modos de beijar
a alma nos lábios do outro entregar
ou sonegar
sonegar

negar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza cursos de Comunicação e Expressão, aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung provocando nossos sentimentos de todos os modos.

De real e irreal

Por Maria Lucia Solla

Galeria de h.koppdelaney, no Flickr

Ouça “De real e irreal” na voz da autora e com “Raymonde” cantando e composto por Maxime Le Forestier

Olá,

Cresci ouvindo dizer que é preciso parar de sonhar, e continuo a ouvir versões  modernas da mesma canção. Põe os pés no chão do mundo real, menina ! Aterrissa !

Um dia, desobedecendo, tirei os dois pés do chão e aterrissei de cabeça, na quina da pia. Tinha quatro ou cinco anos. Peguei meu banquinho de madeira, arrastei até a pia da cozinha e subi para pegar água no filtro de barro que morava ali. Não deu nem tempo de abrir o berreiro, e eu já estava aninhada nos braços do meu pai, enauanto a mamãe enrolava minha cabeça com uma toalha felpuda. Segundo ato, hospital. Homens e mulheres de branco, agitados, costurando a minha testa.

Para de sonhar e cria juízo, menina !

Ah, aí a coisa foi ficando braba ! Eu crescia e não conseguia parar de sonhar. Além disso, não tinha a mínima ideia de como criar juízo. Só sei que a vida foi se revelando, foi me deixando cada vez mais encantada e mais curiosa, e continuei a me esticar e a escalar montanhas, viajando entre os mundos, real e irreal, para  matar a minha sede.

Mergulhei nos livros. Eu ia tão bem na escola ! Será que meus pais acreditavam  que eu tinha desistido do mundo dos sonhos ? Doce ilusão. Os livros, o teatro e a música eram meu meio de transporte. Eu vivia era lá.

Só muito tempo depois, consegui entender que tinha passe livre, e que não era pecado ter a cabeça nas estrelas. Tem vezes que estou nos dois ao mesmo tempo.

René Descartes, pai do pensamento cartesiano, entre os dois mundos deu as costas ao irreal. Pensou, pensou, e não conseguiu isolar nem mesmo uma característica que diferenciasse um do outro. Chegou à conclusão de que só tinha certeza de que não tinha nenhuma certeza.

O sábio chinês Chuang-Tsu sonhou que era uma borboleta. Vivenciou no sonho a realidade de ser a borboleta. Provavelmente pousou nas flores, voou, encantou alguns humanos e fugiu de outros. Ao acordar, vendo-se no corpo de homem, chegou à conclusão de que jamais saberia se de fato era um homem que havia sonhado ser borboleta, ou se era uma borboleta sonhando ser um homem.

E você, já pensou nisso ?

Pense, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, com sua escrita, nos dá a certeza de que vale a pena sonhar.