Conte Sua História de São Paulo: descendo o Sumaré no rolimã

 

Nascido em 1957 em São Paulo capital, criado na zona oeste, Gilberto Franco lembra que o lugar onde hoje é a Avenida Sumaré era um grande brejo onde ele, os irmãos e os primos andavam de carrinho de rolimã.

 

Ouça o depoimento de Gilberto Franco, sonorizado pelo Cláudio Antonio, para o Conte Sua História de São Paulo

 

O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa. A sonorização é de Cláudio Antonio e a edição é de Juliana Paiva. Conte você, também, mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: meu mico paulistano

 

Por Carlos Santiago
Ouvinte-internauta

 

1958

 

Ouça este texto sonorizado pelo Cláudio Antonio no Jornal da CBN

 

Certa vez, meados de 1995, embarquei num ônibus que saía da Vila Mariana e percorria toda avenida Paulista e Doutor Arnaldo, seguindo pela Sumaré, que era meu destino. A viagem era para ser tranquila, sem transtorno. No entanto, quando o ônibus chegou ao Paraíso, o trânsito parou. O trânsito em São Paulo sempre para quando a gente precisa andar. E ficou alguns minutos sem sequer se mover. Eu que já estava com pressa para chegar ao compromisso marcado – a gente está sempre com pressa em São Paulo – não suportei aquela ansiedade. Logo percebi que estávamos em frente à estação Paraíso e tive uma ideia brilhante. Pago a passagem, peço para descer aqui mesmo, corro para o Metrô, embarco no trem e vou até a Estação Clínicas, desembarco, volto à Paulista, e pego o ônibus que vai para o Sumaré que esta mais à frente. Driblo o congestionamento e chega a tempo na reunião. Jogada de gênio. Rapidamente pus o plano em ação, desci do ônibus, entrei na estação do Metrô, peguei o trem, desci do trem e em poucos minutos estava na Clínicas. Logo cheguei no ponto a espera do próximo ônibus. Porém, com o passar do tempo percebi que havia sido muito otimista com relação a quantidade de ônibus disponíveis na linha. Imagine qual não foi a surpresa do motorista, do cobrador e de alguns passageiros, que me reconheceram, assim que entrei no mesmo ônibus pela segunda vez, em meia hora. Todos me olhavam com um enorme ponto de interrogação, sem entender minha estratégia. Eu mesmo não pude conter o riso diante do ridículo da situação, pois além de pagar três passagens em vez de uma, cheguei atrasado do mesmo jeito. Fora o mico paulistano.

 


Carlos Santiago é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Envie um texto para milton@cbn.com.br e vamos juntos comemorar os 459 anos de São Paulo.

Conte Sua Historia de SP: As crianças, a chuva e a ladeira

 

Débora Dias Carneiro
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “As crianças, a chuva e a ladeira” sonorizado por Cláudio Antonio

Ríamos, ríamos muito…. nem vovó Cecília escapou às nossas incontroláveis gargalhadas, vitimada que foi por um tombaço que, por sorte, só lhe quebrou os óculos de grau.

O motivo de tanta alegria era a incrivelmente íngreme e assustadora ladeira da Rua Caiowáa (chamada por muitos de Caiovas), ali entre as ruas Cajaíba e Capital Federal, rua essa muito conhecida lá pelas bandas do bairro do Sumaré por começar praticamente em frente à entrada principal do Palestra Itália. A única que conheci, até hoje, a contar, em um de seus lados, com um reforçado corrimão!

Tínhamos, eu e meus dois irmãos mais novos, Cláudio e Guto, aproximadamente nove, cinco e três anos, respectivamente, lá pelos idos de 1975. Morávamos com nossos pais e irmãs mais velhas, Fernanda e Cecília, de dezenove e dezessete anos, no primeiro sobrado de um dos topos da ladeira. Dois quartos, sala, copa/cozinha e banheiro e dependências de empregada. Obviamente, pouco espaço para brincar. Mas não importava. A nossa rua era a nossa maior diversão.

Nos dias de sol, despencávamos ladeira abaixo, a pé ou a bordo de carrinho de rolimã, tábua parafinada ou bicicleta (o que custou, num tombo tipo “beija-lona”, os dois dentes da frente do Cláudio), para nos reunirmos com os amigos na primeira transversal, conhecida como “Moitinho”. Travessinha pacata, poucas casas, muito mato e areia. Perfeita.

Mas bom mesmo eram os dias de chuva… acontece que a tal ladeira era toda revestida de paralelepípedos, que, molhados, transformavam-se em verdadeiras placas de sabão. E a calçada, do lado onde hoje está o corrimão, inexistente à época, era feita de cimento e pedrinhas lisas, arredondadas, que mesmo secas já escorregavam um bocado. Ou seja, quedas e acidentes eram inevitáveis naqueles dias.

Ao primeiro sinal de uma simples garoa, íamos, eu e os dois irmãos mais novos, para a sacada do quarto de nossos pais, Arlette e Narciso. E lá permanecíamos até que ocorresse o sinistro. E quantos houve! Kombi capotada, caminhão-baú tombado no topo da pirambeira, bloqueando a rua; motoqueiros em quedas cinematográficas; carros que queimavam os pneus, tentando subir; mulheres se equilibrando em sandálias-plataforma imensas; homens engravatados, deslizando feito sabonete em seus sapatos de sola de couro; bombeiros, ambulâncias, polícia… uma verdadeira festa para crianças de um tempo em que não havia video-game, computador ou TV a cabo!

Aí veio o progresso, a ladeira foi asfaltada – o Moitinho também –, crescemos e mudamos cada qual para o seu canto. Mas ficaram as lembranças.

E os dias de chuva em São Paulo, antes de me causarem a inevitável irritação com o trânsito ainda mais caótico do que de costume, me levam de volta àquelas tardes úmidas e felizes da minha infância… mas trazem, também uma pontinha de culpa por haver, mesmo criança, me divertido tanto com a desgraça alheia!

Conte Sua História de São Paulo vai ao ar sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. Conheça outros capítulos da nossa cidade aqui no Blog.