Avalanche na Copa: o torcedor do TikTok descobriu onde o futebol é decidido

Brasil 1×2 Noruega

Copa do Mundo – Nova York/Nova Jersey  EUA

Gol de Haaland
A foto que não estava na minha rede social

A semana inteira minhas redes sociais insistiam em reproduzir um clipe com cenas de Gabriel Magalhães e Haaland se digladiando nos campos do futebol inglês. O zagueiro brasileiro se agarrava no grandalhão norueguês. Os dois caíam no chão, trocavam sopapos e se empurravam mutuamente. Eram imagens extraídas dos diversos confrontos entre eles na Inglaterra. Na batalha travada no TikTok, o Brasil parecia vencer, a despeito da fama do atacante viking.

As redes sociais oferecem boas edições e, com elas, a ilusão da perfeição. A moça tem o corpo ideal. O abdômen marcado do rapaz é fruto apenas de disciplina. As viagens nunca têm perrengues. Os pratos servidos à mesa são sempre irresistíveis.

O futebol pautado pelo algoritmo segue a mesma lógica. Também é uma ilusão. Assim como a nossa vida, o jogo é às veras. Não cabe em um clipe de poucos segundos. O resultado se constrói com organização, eficiência, talento colocado a serviço da equipe e bola rede de nylon, não na digital.

Na partida de hoje, Haaland subiu sozinho dentro da área brasileira para marcar de cabeça o primeiro gol. Ninguém estava agarrado no norueguês para, ao menos, dificultar sua subida, como eu havia visto tantas vezes na tela do celular. Em seguida, recebeu um passe na entrada da área e chutou fora do alcance do nosso goleiro. E a imagem da televisão revelava a distância fatal entre ele e seus marcadores — uma distância que não existia no meu Instagram.

Os dribles de Vini Jr, as escapadas de Endrick, as tentativas de Rayan e as firulas de Neymar talvez fizessem sucesso diante de milhões de seguidores. Nas redes, não é preciso mostrar a conclusão da jogada. Basta o risco na grama desenhado pelo pé do craque, o movimento em direção ao gol ou um passe de três dedos. Na vida real, a bola saiu pela linha de fundo, o chute desviou para fora e o drible se acabou nele mesmo. 

O pênalti cobrado com perfeição por Neymar provavelmente fará partedo vídeo de despedida do atacante — que espero seja em breve. Ele corre, ginga, deixa o goleiro sem ação. Uma imagem bonita embora fugaz. Nas redes basta o instante. O restante desaparece.

Alguém mais antenado lembrará que aquele gol foi apenas o último suspiro de uma seleção que vive do passado, sustentada por uma fama que já não intimida os adversários.  A Noruega nos eliminou das oitavas-de-final com a tranquilidade de quem acreditava na própria força e conhecia as fragilidades brasileiras. Quem disse isso talvez seja chamado de pessimista ou antipatriótico. Sim, porque até a camisa canarinho que simbolizava aquele futebol campeão foi politicamente desvirtuada.

O Brasil cai pela sexta vez Copa do Mundo consecutiva antes da final. É a pior campanha desde 1990 quando fomos elimiandos pela Argentina na mesma fase da competição. Antes do apito final, as redes sociais eram tomadas por pedidos de demissão, caça aos culpados e diagnósticos definitivos.

O problema é que nenhuma dessas manifestações mudará os rumos da CBF nem devolverá identidade ao futebol brasileiro.

Passamos a semana olhando para uma rede que nos fazia acreditar na vitória. Bastaram 90 minutos para outra rede — a de naylon — nos lembrar onde o futebol continua sendo decidido. O algoritmo pode fabricar favoritos, heróis e lances inesquecíveis. As partidas, porme, continuam sendo vencidas por quem marca melhor, ocupa os espaços, joga coletivamente e transforma talento em resultado.

A rede social distribui ilusões. A rede do gol distribui vitórias e derrotas.

Daqui para frente, menos algoritmo, mais futebol, Brasil!

Sistema de saúde em estado crítico

 


Por Milton Ferretti Jung

 

O Sistema Único de Saúde,conforme imagino, não goza da simpatia da maioria dos brasileiros que dele precisam, não só para se tratar de pequenos males,mas até dos capazes de pôr em risco a sobrevivência dos doentes. Nós,jornalistas,estamos mais acostumados a criticar o SUS do que a o elogiar. Aliás,chego a duvidar se poderíamos achar alguma coisa partida dele merecedora de louvor. Nesta semana,os jornais de Porto Alegre,com repique nos noticiários televisivos e radiofônicos,informaram que,em protesto,hospitais que atendem pelo famigerado Sistema,cancelaram esse tipo de serviço. Pensei, de imediato,nos inúmeros brasileiros que seriam prejudicados em consequência da interrupção.

 

Apenas aqui no Rio Grande do Sul,a previsão era de que 5 mil procedimentos, no mínimo,deixariam de ser efetuados. Terão sido todos os pacientes avisados com antecedência acerca da remarcação das consultas,exames e cirurgias já agendados? Talvez sim,talvez não. Só no RS, a Federação das Santas Casas e hospitais Beneficentes,Filantrópicos, afetadas pela desmobilização pontual, reúne 245 estabelecimentos. O “consolo” é que as pessoas necessitadas de auxílio emergencial serão atendidas.

 

Desta vez,porém,não há como colocar a culpa pela ausência de atendimento nos hospitais. A paralisação faz sentido. Como sobreviver atuando em defesa da saúde pública se,para cada R$100 gastos por esses estabelecimentos,o repasse recebido do SUS,leia-se Governo,é de R$65? Estados e municípios,com R$35,cobrem o restante,de acordo com as instituições. Convém não esquecer que os médicos são mal pagos,tanto os que servem ao SUS quanto os que trabalham para os planos de saúde. A propósito,recomendo aos leitores do blog do Mílton (os que não leram a edição de terça-feira),que deem uma olhada no texto em que ele escreve sobre um médico cardiologista que conheceu em Nova Iorque,o Dr.Evan Levine. Os doutores americanos,segundo Levine,também se queixam dos planos de saúde. Mas leiam a história contada pelo Dr.Levine ao meu filho. Eu fico por aqui.

 

Clique aqui para ler o artigo “Nos EUA, seu cão rende mais ao médico do que o ser humano”

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

O sistema é único, a saúde é lamentável

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Nós, brasileiros, já nos acostumamos a ler, ver na televisão e ouvir nas emissoras de rádio, com indesejável frequência, críticas aos mal afamados serviços do SUS. Muitas pessoas, embora necessitem deles às vezes com urgência, nem sequer sabem o significado da sigla. Permitam-me reproduzir o que a Wikipedia, a enciclopédia livre, postou sobre o meu assunto desta quinta-feira:

 

O Sistema Único de Saúde (SUS) é a denominação do sistema público de saúde brasileiro, considerado um dos maiores sistemas público de saúde do mundo, segundo informações do Conselho Nacional de Saúde. Foi instituído pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 196, como forma de efetivar o mandamento constitucional do direito à saúde como “um direito de todos” e “dever do Estado” e está regulado pela Lei nº8.080/1990, a qual operacionaliza o atendimento público da saúde.

 

O SUS, porém, não é bem o que está escrito acima. Quem se obriga a aguardar até por mais de ano por uma consulta, quem precisa ser internado, mas depende para tal da existência de vaga, quem frequentemente precisa de cirurgia, quem, afinal, não dispõe de planos de saúde particulares,que são caríssimo, necessita contar com a sorte para atingir o objetivo que deveria estar, de fato e de direito, ao alcance de todos.

 

Nesta semana, um cidadão idoso, cardiopata, buscou atendimento do SUS. E morreu na fila de um hospital. Outro exemplo de péssimo atendimento foi o de Alex Gabriel Labres, 23 anos, internado desde 3 de janeiro no Hospital Bruno Born, em Lajeado, no Rio Grande do Sul. Espera por cirurgia porque, em acidente de moto, perdeu parte do osso do joelho da perna direita. O hospital lajeadense não possui traumatologista e Labres teve de aguardar por decisão judicial que possibilitará sua internação em estabelecimento capaz de realizar a operação, sem a qual o jovem pode perder a perna.

 

Episódios lamentáveis como os relatados demonstram que a lei, em se tratando do SUS, é descumprida descaradamente. É, pelo jeito, mais fácil fazer demagogia com bolsas disso e daquilo do que cuidar da saúde dos pobres.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)