Bastidor da gravação com Aguiar, no estúdio da CBN. Foto: Priscila Gubiotti
“Então, não dá mais para fazer aqueles planejamentos que nós fazíamos de cinco, de 10 anos, porque eu não sei o que vai ser. Nem o mercado de trabalho a gente sabe mais o que é.”
Antonio Carlos Aguiar, advogado
A evolução tecnológica tem reformulado as bases tradicionais do trabalho, criando um novo paradigma onde as relações laborais precisam ser tão ágeis quanto as mudanças sociais e tecnológicas que as impulsionam. Neste contexto, o advogado Antônio Carlos Aguiar, especialista em direito do trabalho digital e disruptivo e autor do livro “Direito do Trabalho 2.0 – digital e disruptivo”, compartilhou suas perspectivas no programa Mundo Corporativo da CBN.
Transformação Digital no Ambiente de Trabalho
Durante a entrevista, Aguiar enfatiza que o cenário atual exige uma nova abordagem nas relações de trabalho, onde até mesmo a legislação existente, como a CLT, parece não mais atender completamente às necessidades atuais.
“O trabalhador tem um mindset digital na prestação do trabalho dele com visão de startup, do mundo do Século 21, do mundo com viés digital e não mais aquele mundo analógico, onde tinha para proteção do trabalhador uma CLT , alguma coisa mais formal”
O advogado pontua a importância de entender que estamos em um ecossistema trabalhista onde tem inclusive stakeholders que optam por sequer trabalhar e têm de ser respeitada essa opção” A flexibilidade e a informalidade, que antes poderiam ser vistas como precarização, hoje são entendidas como parte de um ambiente de trabalho que valoriza a autonomia e a contribuição individual de maneira não tradicional.
“Então, as relações de trabalho tem que acompanhar as mudanças das relações sociais e a visão de propósito que a nova geração tem”.
Antonio Carlos Aguiar também discute a interação entre diferentes plataformas digitais e o mercado de trabalho, admitindo que não se tem ainda uma resposta concreta sobre como essa relação deve se realizar porque é ainda algo muito novo. Entende, porém, que se deveria refletir sobre a maneira como as grandes empresas de tecnologia transformaram completamente seus modelos de negócio para atender às demandas do século 21. Um exemplo é a Amazon: se antes vendia livro, hoje entrega qualquer produto em qualquer lugar do mundo. Citou, também, o WeChat, que é a versão do Facebook na China, uma rede social pela qual também se faz pagamento sem usar cartão de crédito ou dinheiro. Ou seja, um espaço de entretenimento, pagamento e prestação de serviço que representa bem o modelo de negócio atual.
Ouça o Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.
Ao acionar o Waze para circular na cidade em que mora, você já deve ter percebido a existência de ícones no formato de cones, que alertam para a existência de buracos no meio do caminho. Há muito mais desses cones de sinalização entre ruas e avenidas do que sua vã percepção é capaz de enxergar na tela do celular. Os “laranjinhas” tem sido a solução para cruzamentos em que os semáforos estão queimados, crateras que crescem em velocidade superior a capacidade de conserto das prefeituras e desvios de obras inacabadas.
O caro e cada vez mais raro leitor deste blog, sabe do meu fascínio pela proliferação de cones nas cidades. São tantos que a impressão é de serem a única solução conhecida pelos gestores municipais. Ironia a parte, a inteligência artificial que, no caso do Waze, colabora no deslocamento dos motoristas, tem transformado o cenário urbano com inovações que simplificam a vida dos cidadãos e otimizam a administração das cidades.
Nesta semana, Aracaju (SE) sediará o evento Smart Gov NE 2024, reunindo representantes de 60 cidades brasileiras para debater o uso da IA na melhoria dos serviços públicos. Esta iniciativa, promovida pela Associação Nacional das Cidades Inteligentes Tecnológicas e Inovadoras (ANCITI), destaca a crescente compreensão de que a inovação tecnológica é fundamental para aumentar a eficiência da gestão pública e a qualidade dos serviços oferecidos à população.
Johann Dantas, presidente da ANCITI e CEO da Prodam SP, aponta que, apesar de o Brasil contar com algumas das cidades mais inteligentes do mundo, como São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Recife, a implementação de sistemas de IA ainda é incipiente na maioria dos municípios. Uma pesquisa da ANCITI revela que apenas 21,9% dos municípios brasileiros têm orçamento previsto para a implementação e desenvolvimento de sistemas de IA, dos quais somente 42,9% estão efetivamente destinando esses recursos para a tecnologia.
Os desafios são muitos, incluindo a falta de legislação específica, a escassez de pessoal especializado e a necessidade de conformidade com legislações como a LGPD. Ainda assim, os resultados positivos do uso da IA começam a surgir. Projetos como o diagnóstico de câncer de pele por análise de imagens, em desenvolvimento em Porto Alegre, e o planejamento de linhas de ônibus por IA em São Paulo, mostram o potencial dessa tecnologia para melhorar a eficiência dos serviços públicos e a qualidade de vida dos cidadãos.
Além disso, iniciativas como a assistente virtual Marisol, de Fortaleza, que auxilia na busca por serviços públicos, e as soluções de IA usadas pela prefeitura de São Paulo para identificar, validar, classificar e preencher documentos, exemplificam como a tecnologia pode agilizar processos e tornar a gestão pública mais eficiente.
Inovações internacionais em gestão urbana com IA
No exterior, há experiências ainda mais incríveis. Em Boston e Sacramento, por exemplo, a Verizon empregou tecnologia NVIDIA Jetson TX1 para analisar fluxos de tráfego, segurança de pedestres e otimização de estacionamentos, integrando a IA nas luzes de rua existentes. Isso ilustra como a infraestrutura urbana convencional pode ser transformada em uma plataforma inteligente, gerando eficiência e novos serviços para a população.
Helsinki destaca-se por seu compromisso com a construção de uma cidade inteligente, respondendo ao aumento previsto da população através do suporte a startups e à inovação em transporte público, gestão de resíduos e consumo de energia. A cidade visa reduzir o uso de carros particulares e promover uma rede de transporte público integrada e eficiente, acessível através de um aplicativo que planeja viagens combinando diferentes modos de transporte.
Singapura, por sua vez, está avançando para se tornar uma cidade-estado totalmente monitorada, com a instalação massiva de sensores e câmeras para controlar aspectos variados da vida urbana, desde a limpeza de espaços públicos até o monitoramento do fluxo de veículos.
Colaboração de cidades viabiliza investimento em IA
No Brasil, ainda há enormes desafios para a construção de cidades inteligentes. Um dos questionamentos levantados por Dantas é sobre o retorno financeiro do investimento público em tecnologia. Embora seja difícil mensurar em valores os benefícios proporcionados pela tecnologia, como a economia de tempo e o aumento da eficiência, é inegável que a adoção de soluções tecnológicas é um caminho sem volta para as cidades que desejam se tornar mais inteligentes e eficientes.
O compartilhamento de informações e o trabalho colaborativo entre as cidades é uma das soluções que podem viabilizar investimentos públicos. Por exemplo, a análise de crédito para empreendedores, criação de planos de negócio e confecção de currículos, que já são realidade no Recife graças ao uso de IA, logo serão adotadas, nos mesmos moldes, por Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Londrina. A aposta do Smart Gov NE 2024 é que parcerias como essas se reproduzam durante o evento, que será nos dias 10 e 11 de abril.
O certo é que a trajetória rumo a cidades mais inteligentes e tecnologicamente avançadas já começou. As iniciativas e projetos em andamento no Brasil mostram que, apesar dos desafios, há um comprometimento crescente com a inovação tecnológica na gestão pública. Compartilhar experiências e soluções, como promovido pela ANCITI, é crucial para acelerar esse processo e garantir que as cidades brasileiras não apenas acompanhem mas liderem a transformação digital global. Quem sabe, em um futuro próximo, os cones deixarão de integrar o cenário urbano.
Paula Bellizia em entrevista do Mundo Corporativo Foto de Priscila Gubiotti
“O pagamento digital é a espinha dorsal do comércio digital global.”
Paula Bellizia, EBANX
No atual cenário, onde a inovação tecnológica se destaca como força motriz na transformação dos mercados globais, o setor de pagamentos se revela como um terreno promissor para mudanças impactantes. No Brasil, o Pix se apresenta como o exemplo mais expressivo dessa transformação, democratizando o acesso aos meios de pagamentos digitais. Paula Bellizia, presidente de pagamentos globais do Ebanx, com base em pesquisa realizada pela empresa, previu que o Pix vai virar o método de pagamento preferido na economia digital brasileira em 2026, empatando com o cartão de crédito.
Durante entrevista o Mundo Corporativo, da CBN, Paula, que também lidera a força-tarefa “Mulheres, Diversidade e Inclusão em Negócios” do B20 (fórum empresarial cujo objetivo é propor políticas públicas para o G20), compartilhou perspectivas sobre o avanço dos pagamentos digitais e a influência vital da liderança feminina nessas mudanças.
Fundado no Brasil há 12 anos com uma visão global, o Ebanx atua hoje em 29 países, conectando empresas internacionais a consumidores locais por meio de soluções de pagamento inovadoras. Paula enfatizou que ao integrar os métodos de pagamento preferenciais dos consumidores, o Ebanx facilita a entrada de empresas estrangeiras em mercados emergentes, promovendo um impacto positivo tanto no comércio digital quanto na vida das pessoas ao tornar o acesso a bens e serviços mais democrático e inclusivo:
“Nós estamos gerando a inovação necessária para transformar o ecossistema de pagamentos no mundo. Então, a partir do Brasil, a gente está mostrando como realmente mudar e com toda a experiência para o consumidor e para pequena empresa, também”.
Dados do Ebanx indicam que 95% dos novos clientes de empresas optam pelo Pix em sua primeira compra, demonstrando a importância dessa modalidade no crescimento empresarial no país, o que justifica a recente incorporação do Pix por gigantes como Amazon e Google. Essa inovação, segundo Paula Bellizia, é um reflexo da capacidade do país de liderar mudanças significativas no cenário global de pagamentos.
Curiosamente, se as transações de pessoa para pessoa ou do cliente com a empresa ganharam essa agilidade, ainda existem muitos entraves nos pagamentos de empresa para empresa. Paula disse que cerca de 70% das transações B2B ainda são manuais e levam até 14 dias para serem concluídas, uma realidade que se transforma em oportunidade e tende a ser a próxima revolução dos pagamentos digitais:
“Tem muita inovação para acontecer ainda. Eu acho que a gente está no começo. Tem ainda a parte do comércio entre empresas. Tudo que a gente viu acontecer com os consumidores finais vai acontecer no mercado B2B. Aqui tem muita disrupção para acontecer, porque por curioso que seja esse é um mercado que parece ainda na era analógica”.
Liderança Feminina e Inclusão
Paula Bellizia refletiu sobre sua experiência em posições de destaque em grandes empresas tecnológicas e como isso moldou sua visão sobre inovação, diversidade e inclusão. Ela acredita que o sucesso feminino inspira novas gerações.
“Acho que histórias femininas que mostrem que é possível e é possível com todas as escolhas. É possível se você quer ter uma família. É possível se você não quer ter uma família. É possível se você quer morar no Brasil. É possível se você quer morar fora do Brasil. É possível em tech. É possível em negócios. É possível!”
Sua liderança no Ebanx e na força-tarefa do B20 destaca-se não apenas pelos resultados empresariais mas também pelo compromisso com a construção de um ambiente corporativo mais inclusivo e representativo. Paula consideraa diversidade uma alavanca para a inovação, argumentando que a pluralidade de ideias é essencial para criar soluções verdadeiramente disruptivas.
“Para mim como líder, a inovação só é possível a partir de perspectivas diferentes sendo trazidas pra mesa, a partir de uma cultura que incentive o diálogo e o desafio construtivo de ideias para que a gente tenha a ideia vencedora para companhia e não a ideia de pessoas individuais. Então, para mim, inovação e diversidade caminham lado a lado. Arrisco dizer que é impossível ter inovação sem diversidade”.
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, domingo, às 10 da noite, em horário alternativo, e também fica disponível em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.
A entrevista de Paula Bellizia ao Mundo Corporativo traz à tona reflexões essenciais sobre o papel da inovação e da liderança feminina nos negócios globais. Suas palavras não apenas iluminam o caminho para futuras disrupções no setor de pagamentos digitais mas também reforçam a importância da inclusão e da diversidade como pilares fundamentais para o sucesso empresarial no século XXI:
Fui surpreendido recentemente com a fala de alguns alunos de uma turma de psicologia que alegaram não conhecer o ChatGPT. Não é que nunca tenham usado. Não sabiam o que era! Menos ainda tinham ideia do potencial desta ferramenta de Inteligência Artificial. Fui rasteiro na minha “pesquisa” e, portanto, não sei com clareza os motivos que levam esses futuros profissionais a desdenhar esse conhecimento. Com o devido cuidado para não ser tomado pelo Efeito Bolha, me impressiona que pessoas que já estejam no ensino superior ainda não tenham tido contato com essa revolução tecnológica que estamos assistindo desde a popularização da IA, há pouco mais de um ano.
Se ainda temos uma camada considerável da população sem acesso ao acessível ChatGPT e seus primos-irmãos, imagino que boa parte de nós — os da Bolha — ainda use os recursos de IA de forma infantil. A quantidade de possibilidades que essas ferramentas nos oferecempara elaboração de texto, análise de pesquisa, desenvolvimento de projetos ou criação de produtos e procedimentos é inalcançável. Todo dia, você que tenha um pouco de interesse no assunto, encontrará uma nova solução de IA.
Dos riscos que corremos, assim como acontece com todas as demais tecnologias à disposição, um deles é o deslumbramento e a hiper-dependência. As IAs generativas facilitam uma série de atividades como a elaboração de um texto sobre qualquer assunto que você se propuser a escrever (ou copiar). Porém, se você, refém desse nosso cérebro que está sempre em busca de atalhos para facilitar a sua vida, entregar apenas à IA essa tarefa, sem interferência e referências, corre perigo enorme de ver sua criatividade definhar, com a perda da capacidade de refletir e desenvolver pensamento crítico, que são as habilidades que nos oferecem vantagens competitivas.
Colaboradores de quatro empresas, duas na Europa e duas nos Estados Unidos, foram divididos em equipes para enfrentar desafios empresariais específicos. Alguns grupos contaram com a assistência do ChatGPT, enquanto outros abordaram os problemas sem qualquer apoio da IA. O objetivo? Avaliar o impacto prático da IA generativa na geração de ideias e solução de problemas em equipe.
Os resultados, porém, foram modestos. Enquanto as equipes assistidas pela IA demonstraram um aumento significativo na confiança em suas habilidades de resolução de problemas – um salto de 21% –, as ideias geradas, em média, superaram apenas ligeiramente aquelas criadas pelos grupos de controle, com um modesto aumento de 8% no volume de ideias. Mais intrigante ainda foi o fato de que, embora as ideias geradas com a ajuda da IA tendessem a ser menos ruins, elas não eram necessariamente mais inovadoras ou criativas.
O foco aqui, segundo Gohar, não reside na capacidade da tecnologia, mas na abordagem e utilização desta tecnologia. A experiência demonstrou que a incorporação eficaz da IA em processos criativos requer uma redefinição do fluxo de trabalho e o desenvolvimento de novas competências. As equipes que se saíram melhor foram aquelas que trataram a IA não como um oráculo infalível, mas como um parceiro numa conversa contínua, explorando e aprofundando as ideias através de interações com a ferramenta.
Dentre as recomendações para maximizar o potencial da IA, destacam-se a necessidade de definir com precisão o problema a ser resolvido, dedicar tempo à discussão de ideias antes de consultar a IA, e treinar rigorosamente a ferramenta com informações detalhadas e específicas do contexto em questão. Além disso, a importância de manter um diálogo crítico e construtivo com a IA, desafiando-a e refinando as sugestões oferecidas, foi uma lição valiosa.
Joe Riesberg, vice-presidente sênior da EMC Insurance, uma das organizações participantes, reforça essa visão, destacando a importância de questionar e desafiar a IA para extrair respostas mais criativas e úteis. Sua experiência pessoal reflete um aprendizado crucial: a interação eficaz com a IA requer uma postura ativa, questionadora e, por vezes, crítica.
De volta a surpresa pelo desconhecimento de parcela dos estudantes de psicologia: volto a eles para lembrar que, enquanto muitos não se interessaram por essa tecnologia disruptiva, outros tantos engatinham ao explorá-la, e alguns se preocupam com a perda de autonomia ou criatividade, já temos profissionais bastante avançados nesse mercado.
Um dos usos frequentes entre os “vanguardistas do divã” é a combinação do ChatGPT com ferramentas de análise de linguagem. A partir de textos escritos por pacientes, revelam-se aspectos significativos do estado emocional ou de processos cognitivos do paciente, auxiliando na formulação de abordagens terapêuticas mais direcionadas.
É possível ainda criar cenários detalhados e realistas que podem ser utilizados em terapias baseadas em simulação. Isso é particularmente útil em abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), onde a exposição simulada a certas situações pode ajudar os pacientes a desenvolver estratégias de enfrentamento mais eficazes.
Entre riscos e possibilidades, minha sugestão: desdenhar das oportunidades em virtude dos perigos ou do medo do desconhecido é muito mais nocivo à sua formação profissional. Nessa encruzilhada entre a inovação tecnológica e o genuíno potencial humano, está a chave para uma nova era de descobertas e crescimento profissional: não é a ferramenta que define nosso futuro, mas a maneira como escolhemos usá-la. E a inteligência artificial será tão melhor quanto for a inteligência humana.
À medida que o avanço tecnológico redefine as fronteiras do emprego e do conhecimento, a capacitação dos jovens nesse setor se torna indispensável, não apenas como meio de inserção profissional, mas também como estratégia crucial de combate ao desemprego. No Brasil, a questão do desemprego juvenil é particularmente premente, com taxas que destacam a necessidade urgente de ação. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 15% dos jovens brasileiros estão desempregados, um número que, embora menor do que nos anos anteriores, ainda representa um desafio significativo para o país e sublinha a importância de iniciativas como o Programa de Aprendizagem Impulso Digital.
Lançado pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), nessa quarta-feira, em São Paulo, em parceria com Ada Tech, o Impulso Digital é um programa pioneiro com o objetivo de abrir até cinco mil vagas para jovens aprendizes no setor de tecnologia. Esse programa representa uma resposta concreta ao duplo desafio do desemprego juvenil e da demanda crescente por profissionais qualificados na economia digital.
Projetado dentro dos parâmetros da Lei da Aprendizagem, o Impulso Digital propõe uma formação integral que inclui desde competências básicas em língua inglesa até conhecimentos avançados em banco de dados e estatística, passando pela inclusão de aulas de português e matemática. Essa abordagem multifacetada não só atende às necessidades imediatas do mercado de trabalho, mas também fortalece as bases educacionais dos jovens, preparando-os para um futuro promissor no campo tecnológico.
O apoio do Movtech, uma coalizão de organizações dedicadas a fomentar investimentos sociais em educação e tecnologia, sublinha a importância de uma ação coletiva para abordar essas questões. Este grupo tem como meta mobilizar, capacitar e inserir um número cada vez maior de jovens no setor tecnológico até 2030, refletindo um compromisso com a sustentabilidade econômica e o progresso social.
Dessa forma, o Programa de Aprendizagem Impulso Digital, do CIEE, se estabelece como uma iniciativa fundamental não apenas para o enfrentamento do desemprego juvenil, mas também como um catalisador para o desenvolvimento de competências que são cruciais para o futuro do trabalho. Ao capacitar os jovens com as ferramentas necessárias para prosperar na economia digital, o programa joga uma luz de esperança sobre as estatísticas de desemprego e abre caminho para um futuro mais inclusivo e próspero para o Brasil.
O Sora escandalizou com suas imagens que extrapolam o limiar entre o real e o digital. A nova ferramenta de inteligência artificial, para criação de vídeos com até um minuto, da OpenAI, nem foi aberta ao público e tem causado alvoroço entre entusiasmados e céticos digitais. Independentemente de qual “torcida” você faça parte, o certo é que a velocidade com que os avanços da IA estão ocorrendo são de tirar o fôlego e prejudicam nossa capacidade de interpretação dos fatos. Sequer conseguimos perceber, menos ainda explorar, as potencialidades do ChatGPT, criado há menos de um ano e meio.
Na edição desta semana do Cartograma, newsletter criada por dois ex-colegas de redação, Leonardo Stamillo e Leandro Mota, ambos com passagem pelo Twitter, encontrei referência a artigo que discute a necessidade de os grupos de mídia – leia-se, aqui, nós jornalistas – trabalharem juntos para explorar a IA de maneira produtiva e criativa. Ainda que mal comparando: como se reproduzissemos o consórcio de veículos de mídia, criado, no Brasil, para a divulgação diária de número de mortes e casos de covid-19, mas agora para estudar e entender o avanço da IA . “A IA é uma grande oportunidade para a mídia noticiosa. Não vamos estragar tudo” (em tradução livre) foi escrito por Vivian Schiller e Trei Brindrett e publicado na Columbia Journalism Review.
Os autores demonstram a preocupação de os grupos de comunicação desperdiçarem as oportunidades oferecidas pela IA generativa com discussões tão improdutivas quanto já perdidas que visem barrar o desenvolvimento dessa tecnologia por temerem o fim do que ainda resta das mídias.
“Desta vez, a indústria noticiosa não tem tanto tempo para resistir à revolução da IA e ignorar a mudança nas expectativas dos consumidores. A tremenda velocidade das mudanças desde que o ChatGPT desencadeou uma corrida armamentista generativa de IA exige que avancemos agora. Não fazer isso pode significar ceder o futuro da descoberta e criação de notícias a novos players tecnológicos.”
Vivian Schiller e Trei Brindrett
Sete áreas em que as mídias devem discutir o uso da IA
Diante do fato que startups e grandes empresas da tecnologia já experimentam ferramentas que ‘mineram’ o noticiário, mixam reportagens e transformam em novos artigos, Vivian e Trei questionam se os grupos de mídia estão dispostos a se unirem em busca de soluções que preservem seu ecossistema – leia-se, aqui, os nossos empregos. Têm dúvidas se o nível de concorrência entre as organizações permitiria essa inédita união para a sobrevivência do negócio.
Intrigados com seus próprios questionamentos, os autores conversaram com editores e executivos de redações, elencaram sete áreas em que as empresas de comunicação devem pensar em agir, e apresentaram questões que precisam ser respondidas por quem busca uma saída honrosa da mídia em meio ao caos que as IAs provocam.
IA na redação: discute como a IA generativa pode mudar operações, funções e a criação de conteúdo nas redações.
Propriedade intelectual e grandes modelos de linguagem: reúne questões de direitos autorais e compensação pelo uso de conteúdo jornalístico no treinamento de modelos de IA.
Transformação do modelo de negócios: avalia o impacto da IA generativa nos modelos de negócios existentes e novas oportunidades de receita.
Protegendo contra preconceitos: enfatiza a importância de mitigar preconceitos nos resultados gerados por IA para garantir a equidade e precisão.
Tecnologia e produtos para o consumidor: considera novos produtos e serviços que as redações podem oferecer, aproveitando a IA para atender às expectativas dos consumidores.
Diretrizes editoriais para construir confiança: destaca a necessidade de diretrizes claras sobre o uso de IA para manter a confiança do público.
Políticas públicas: aborda a necessidade de envolvimento em discussões políticas sobre a regulação da IA generativa no jornalismo.
Vou ater meus palpites a apenas duas das sete áreas.
IA na redação
A integração da IA generativa nas redações pode transformar profundamente os métodos de trabalho, introduzindo eficiência na coleta e redação de notícias, além de criar possibilidades para a geração de imagens e conteúdo personalizado.
As funções atuais podem evoluir para incluir a curadoria e supervisão de conteúdo gerado por IA, enquanto novas funções podem surgir para gerenciar a interação entre IA e processos jornalísticos.
Os repórteres já têm à disposição ferramentas para automatizar tarefas rotineiras, permitindo mais tempo para o jornalismo investigativo e a análise profunda. Claro que aqui sempre cabe a pergunta: se usamos ferramentas que otimizam nosso tempo, saberemos como tornar produtivo o tempo conquistado?
Algumas tarefas que podem ser automatizadas por IA nas redações incluem a coleta e compilação de dados para reportagens, a geração de rascunhos de artigos sobre eventos rotineiros, a análise de tendências em grandes volumes de dados, a transcrição de entrevistas, a identificação do humor do seu público, a partir da avaliação dos comentários, e a criação de conteúdo visual básico.
Uma atividade a ser explorada é a criação de infográficos utilizando IA. Essas ferramentas podem analisar grandes volumes de dados para identificar tendências, padrões e ideias significativos, que depois podem ser transformados em infográficos visualmente atraentes. Além de automatizar a análise de dados, a IA também pode ajudar no design de infográficos, sugerindo layouts, cores e tipos de gráficos baseados em melhores práticas de design e na natureza dos dados. Isso permite aos repórteres e designers focar na narrativa e na precisão da informação, ao mesmo tempo em que aproveitam a eficiência e a criatividade impulsionada pela IA.
Tecnologia e produtos para o consumidor
As empresas de notícias podem explorar produtos inovadores baseados em IA, como newsletters personalizadas, assistentes virtuais para fornecer notícias e análises sob demanda, plataformas interativas para exploração de dados jornalísticos, e aplicativos que utilizam IA para adaptar conteúdo ao comportamento e preferências do usuário. Estas são áreas onde a IA já tem mostrado potencial significativo.
Referências como o “Digital News Report” do Reuters Institute fornecem ideias sobre tendências de consumo de notícias digitais e a aceitação de tecnologias baseadas em IA, transformando-se em excepcionais guias para a elaboração desses novos produtos.
Além disso, há casos como o The Washington Post que criou o AI Hub, uma equipe operacional que coleta ideias relacionadas à IA de toda a organização e cria provas de conceito para as ideias mais promissora. O tradicional jornal ilustra como a inteligência artificial pode ser empregada na produção de notícias automatizadas e personalizadas, demonstrando o equilíbrio entre inovação, proteção de dados e manutenção da confiança do usuário.
Estes exemplos sublinham a importância de complementar o trabalho humano com a IA, focando em nichos de mercado e na qualidade do jornalismo para competir efetivamente com empresas de tecnologia. Complementar e não substituir o trabalho humano – leia-se, aqui, o meu trabalho.
Vivian e Trei estão comprometidos em levar as questões emergentes da IA generativa para uma discussão ampla com acadêmicos, líderes de mídia e jornalistas, buscando soluções profundas e inovadoras. Eles, assim como toda a sociedade interessada no debate plural e público, que os meios de comunicação proporcionam, enfrentam o desafio urgente de encontrar respostas eficazes antes que as rápidas inovações em IA transformem ainda mais o cenário da mídia, levando-o para o que poderíamos chamar de ponto de não retorno.
Entrevista on line com Herman Bessler, foto: Priscila Gubiotti
“Se o ser humano passou as últimas décadas aprendendo a falar a linguagem das máquinas, aprendendo a desenvolver código, hoje as máquinas aprenderam a falar nossa linguagem, também”
Herman Bessler, Templo.cc
A Inteligência Artificial Generativa (IAR) está transformando o ambiente de trabalho, com sua capacidade de criar conteúdos, otimizar processos operacionais e até desenvolver estratégias de negócios em questão de minutos, uma tarefa que antes exigiria semanas de dedicação. Essa evolução, discutida com Herman Bessler, CEO e fundador do Templo.cc, no programa “Mundo Corporativo” da CBN, ilustra tanto os benefícios quanto os riscos associados à IA.
Como usar o ChatGPT
Durante a entrevista, Bessler abordou como a inteligência artificial, popularizada com o ChatGPT, está moldando o futuro das empresas e dos empregos. Ele ressaltou a importância de se adaptar a esta nova realidade, onde a IA não apenas aumenta a produtividade, mas também altera os modelos de negócios das empresas.
Bessler detalhou o uso eficaz do ChatGPT, destacando-se entre as atuais ferramentas de IA. Ele explicou que a eficácia do ChatGPT depende não apenas do que se pergunta, mas de como se pergunta. “Quanto melhor a minha pergunta, melhor será a resposta da Inteligência Artificial”, comentou Bessler, ressaltando a importância de formular perguntas claras e estruturadas para obter resultados mais precisos e úteis.
Criador da Templo.cc, uma consultoria e escola dedicada à transformação digital, Herman Bessler também enfatizou a relevância de entender os contextos e limitações do ChatGPT. Bessler aconselhou os usuários a se familiarizarem com as capacidades e os limites do ChatGPT, notando que, apesar de sua avançada inteligência artificial, a ferramenta tem suas limitações, especialmente no que se refere à verificação de fatos e à geração de informações baseadas em dados mais recentes que a sua última atualização. Ele recomendou a utilização do ChatGPT como um auxiliar no processo criativo e na solução de problemas, mas sempre com a consciência de que a supervisão e o discernimento humanos são indispensáveis para garantir a precisão e a relevância das informações geradas.
A extinção de empregos e a criação de oportunidades
Um dos principais desafios discutidos por Bessler é o impacto da IA no mercado de trabalho. Enquanto a IA gera novas oportunidades de emprego, também acelera a extinção de funções menos qualificadas, criando um desequilíbrio.
“Ela acaba com empregos muito mais rápido do que ela cria novas empregos e por outro lado os empregos que são criados são hiperqualificados, enquanto os empregos que são destruídos são sub qualificados”
Além disso, Bessler enfatizou a transformação cultural necessária nas organizações para a integração eficaz da IA. Segundo ele, cultura não é uma coisa etérea, na verdade é um conjunto de hábitos que as organizações operam no dia a dia. Esta mudança de hábitos é crucial para se adaptar e aproveitar os benefícios da IA.
A conversa igualmente ressaltou o papel crucial da supervisão humana na utilização da IA, considerando o risco de informações errôneas ou imprecisas, o que é conhecido por “alucinações”.
Ouça o Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo da CBN oferece um espaço para discussões profundas sobre as transformações no mundo dos negócios. As gravações acontecem às quartas-feiras, às 11 horas, com transmissão ao vivo no canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados no Jornal da CBN e aos domingos às dez da noite, em um horário alternativo. Para aqueles que preferem a flexibilidade, o Mundo Corporativo está em formato de podcast. A entrevista com Herman Bessler contou com a colaboração de Renato Barcellos, Priscila Gubiotti, Letícia Valente e Rafael Furugen.
“É a capacitação técnica que abre a porta para esse jovem entrar na empresa, mas é a responsabilidade comportamental, o engajamento, a responsabilidade dele, que o faz brilhar, que abre para ele as oportunidades de carreira — inclusive para as pessoas com deficiência”.
Kelly Lopres, Instituto de Oportunidade Social
A necessidade de educação digital se tornou evidente ao longo dos anos, à medida que a sociedade avançou tecnologicamente. Estar mais bem preparado para atender a essa demanda pode ser o grande diferencial para jovens e pessoas com deficiência que buscam espaço nas empresas. De olho nessa oportunidade foi que surgiu o Instituto de Oportunidade Social que tem como superintendente Kelly Lopes, entrevistada do Mundo Corporativo da CBN.
Instituto promove formação profissional
Kelly diz que o IOS tem desempenhado um papel fundamental na formação profissional e na empregabilidade de jovens entre 15 e 29 anos e pessoas com deficiência, a partir de 16 anos. Um aspecto que ela destaca é a ênfase na formação tecnológica. O Instituto aborda esse desafio fornecendo formação profissional extracurricular em tecnologia, que pode ser realizada simultaneamente ou após a conclusão do ensino médio. O objetivo é capacitar os jovens a conquistarem seu primeiro emprego ou obterem uma recolocação profissional no mercado de trabalho formal.
O Instituto, que completa 25 anos de existência, teve sua origem em uma iniciativa da empresa Totvs, que segue sendo sua principal mantenedora. No entanto, ao longo dos anos, o IOS estabeleceu parcerias com outras empresas, como Dell e 3M no Brasil, além de colaborar com órgãos governamentais municipais e estaduais em São Paulo e Minas Gerais, por meio de projetos de incentivo fiscal e fundos de defesa das crianças e adolescentes.
O desafio de jovens e pessoas com deficiência
Um dos principais desafios enfrentados pelos jovens na busca por emprego é a falta de preparação do ambiente escolar para o mercado de trabalho. A educação básica não costuma abordar as habilidades técnicas e comportamentais necessárias no mundo corporativo, avalia Kelly . Além disso, a maioria dos jovens não recebe orientação sobre suas opções de carreira ou mentoria. Por outro lado, as empresas enfrentam desafios relacionados à digitalização do processo seletivo, que pode tornar difícil identificar os verdadeiros talentos entre os candidatos.
“O nosso jovem brasileiro, ele é o jovem do corre, ele é o jovem que faz as coisas acontecer. Está faltando para ele referência, mentoria, cuidado e acolhimento. Principalmente, agora no pós-pandemia. No Instituto, a gente faz esse complemento, esse atendimento niversal do indivíduo. E aí é quase uma mágica”.
Taxa de desemprego entre jovens é enorme
Kelly enfatiza que o IOS se preocupa em promover a educação digital, preparando os jovens para lidar com as ferramentas tecnológicas usadas no ambiente corporativo. Muitos jovens estão conectados digitalmente, mas não possuem as habilidades necessárias para se destacarem no mercado de trabalho.
O público-alvo do IOS são jovens de 15 a 29 anos, com a maioria situada na faixa etária de 15 a 21 anos. Esses jovens frequentemente enfrentam altas taxas de desemprego, mesmo com incentivos existentes. Kelly destaca a importância de proporcionar oportunidades de capacitação e emprego para essa faixa etária.
Desafio é maior entre pessoas com deficiência
Quando se trata de pessoas com deficiência, a situação é ainda mais desafiadora. Muitas vezes, elas enfrentam dificuldades não apenas na educação formal, mas também no acesso à tecnologia e no entendimento do mundo corporativo. A falta de acesso à educação inclusiva e a falta de apoio adequado contribuem para a exclusão dessas pessoas do mercado de trabalho formal.
No entanto, o IOS está fazendo a diferença na vida dessas pessoas, oferecendo formação profissional e apoio psicossocial sob demanda, diz Kelly. Os resultados são impressionantes, com uma média de 65% de empregabilidade bem-sucedida para os jovens formados pelo Instituto e até 80% para pessoas com deficiência.
O IOS não se limita apenas à capacitação. Também trabalha com empresas para sensibilizá-las sobre a importância da diversidade e inclusão, ajudando a criar oportunidades para jovens e pessoas com deficiência. Além disso, o Instituto auxilia na preparação das empresas para receberem esses profissionais e promove a conscientização e o treinamento de lideranças sobre como apoiar e incluir esses colaboradores.
“É importante a gente também mostrar para as empresas que a gente pode apoiá-las na questão da diversidade, porque o nosso jovem é diverso. Estou atendendo jovem da escola pública, muitos em situação de vulnerabilidade, pessoas negras, pessoas com deficiência, o público LGBTQIA+. É um público diverso que a gente está atendendo e isso também traz valor para a empresa”.
Uma história inspiradora
Kelly compartilha uma história inspiradora de uma jovem chamada Beatriz, que superou desafios e encontrou sucesso profissional após participar dos cursos do IOS. Beatriz, uma jovem negra da periferia de Diadema, ingressou no Instituto, fez cursos de tecnologia e gestão empresarial e conseguiu se destacar em um processo seletivo em uma grande multinacional de tecnologia. Sua jornada de superação demonstra o potencial dos jovens quando recebem oportunidades adequadas.
No Brasil, a educação técnica de nível médio ainda é subutilizada, com apenas 11% dos jovens tendo acesso a esse tipo de formação. Kelly enfatiza a importância de levar a capacitação técnica para dentro das escolas, capacitando professores e promovendo o voluntariado corporativo para ampliar as oportunidades para os jovens.
Ao final da entrevista, Kelly destacou que a tecnologia não deve ser apenas uma ferramenta, mas também um meio para empoderar jovens e pessoas com deficiência. A capacitação e o desenvolvimento de habilidades comportamentais são essenciais para abrir portas para esses indivíduos no mercado de trabalho.
Assista à entrevista completa com Kelly Lopes no Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo da CBN pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no canal da CBN No You Tube. O programa tem a colaboração de Renato Barcellos, Larissa Machado, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.
“Em São Paulo, me encontrei. Eu pude entender o que significa carregar o peso de ser um homem gay e o peso de ser um homem preto no país empreendendo. Eu podia olhar para o lado e ver várias pessoas iguais a mim”.
Alder Lima, Metamazon Solutions
Que a vida do empreendedor é difícil no Brasil, todos sabemos. E muitas dessas histórias já foram contadas no próprio Mundo Corporativo, programa que apresento na CBN. O desafio de ser um empreendedor negro e gay, porém, torna tudo mais complicado e precisa ser superado com coragem e resiliência. É o que faz Alder Lima, fundador e CEO da Metamazon Solutions, uma startup que alia a tecnologia à construção e venda de imóveis. Conversei com ele na série de entrevistas sobre empreendedorismo quando contou de sua trajetória, das barreiras para montar o próprio negócio, do preconceito que se expressa cotidianamente no Brasil e de que como foi capaz de, a despeito de tudo isso, seguir em frente e servir de referência para outras pessoas negras e LGBTQIA+ dispostas a empreender.
Desafio: empreendedor negro e gay no setor de tecnologia
A jornada de Alder como empreendedor se inicia em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, onde começou vendendo cocada nas ruas para ajudar sua família. Passou por Minas, Acre e Fortaleza, onde mora atualmente. Foi em São Paulo, porém, que encontrou ambiente propício para desenvolver sua ideia inovadora no campo da tecnologia — um setor em que a diversidade ainda é limitada, principalmente em cargos de liderança.
A falta de negros à frente de empresas de tecnologia leva a situações que servem para reforçar ainda mais o preconceito estrutural que existe na sociedade. Os softwares, processos e algoritmos são criados a partir de vieses raciais. É esse mecanismo que, por exemplo, impede reconhecimento facial de pessoas negras em determinados serviços ou distorce o resultado nos programs de buscas de informação:
“Enquanto a gente não tiver pessoas pretas nesses cargos de liderança, o algoritmo não contribuirá para pessoas pretas. Então, pessoas pretas precisam também estar envolvidas em projetos como esses para que a gente tenha menos chance de ser impactado dessa forma. É muito profundo! É importante ocupar espaço!”
O empreendedorismo negro, de acordo com Alder, vai além de ideias de negócios; é um movimento para mudar realidades e quebrar paradigmas. Ele ressaltou a importância de estudar e se capacitar para se destacar em qualquer área, especialmente quando se trata de empreendedorismo. Alder também enfatizou o papel crucial da coragem na jornada empreendedora, lembrando a todos que enfrentar os medos é essencial para atingir os objetivos. Destacou projetos como o Afro Cubo, desenvolvido dentro do programa de incubadoras de startups do Itaú, que o apoiou na construção da Metamazon Solutions.
“A gente não consegue fazer nada sozinho e para você tirar uma ideia do papel, você precisa ter essas pessoas que já passaram por isso. E sabem como funciona esse sistema. Então, ninguém consegue fazer nada sozinho. Precisa realmente de ajuda de pessoas qualificadas”.
Diversidade nas empresas: da conscientização à ação
Alder abordou o tema da diversidade no ambiente corporativo, observando que a conscientização sobre sua importância tem crescido, mas ainda há muito a ser feito. Ele mencionou o papel de instituições como o Pacto de Promoção Equidade Racial, e ações afirmativas para impulsionar a inclusão de pessoas negras em posições de liderança. Alder também falou da necessidade de empresas desenvolverem governança e estratégias para tornar as equipes mais diversas e representativas da população do país.
A experiência dele mostra bem o impacto que a diversidade oferece na ambição das pessoas negras ou que sofrem pelos demais tipos de preconceito. Conta que foi criado por seus pais em um ambiente que naturalizava aquela condição de “vassalo”. Ainda hoje, percebe o estranhamento das pessoas pelo espaço que ocupa. Como se não fosse um direito oferecer soluções, por exemplo, para o público A e B no setor de construção de prédios e venda de imóveis:
“Causa impacto porque você costuma ver que a maioria das pessoas pretas nessas construtoras estão no papel braçal, não no papel de liderança. Ontem fizeram uma pergunta: quantos donos de construtoras incorporadoras pretas você conhece? Eu particularmente, Alder Lima, nunca vi uma pessoalmente”.
A jornada empreendedora: estudo, coragem e inovação
Alder enfatizou que a jornada empreendedora requer mais do que boas ideias: exige estudo, coragem e ação. Ele incentivou os aspirantes a empreendedores a buscar conhecimento, capacitar-se e enfrentar seus medos. Contando sua própria experiência, demonstrou a importância de ousar, fazer diferente e inovar. Alder também compartilhou os detalhes de sua startup, a Metamazon Solutions, que opera no setor da construção civil. Ele explicou que a empresa busca transformar a maneira como os empreendimentos imobiliários são apresentados aos clientes, usando realidade virtual e inteligência artificial para proporcionar experiências imersivas e econômicas para os construtores e compradores.
“Fazer diferente hoje é você olhar o mercado, ver o que ninguém tá fazendo e você ter ousadia de buscar lacunas dentro desse espaço para você pensar: poxa, aqui existe um nicho de trabalho que eu posso fazer a diferença”.
A entrevista com Alder Lima ofereceu uma visão valiosa sobre o empreendedorismo negro, a importância da diversidade nas empresas e os elementos essenciais para construir um negócio de sucesso. Sua história de resiliência e inovação serve como um lembrete inspirador de que o empreendedorismo é uma ferramenta poderosa para a mudança e o progresso.
Assista à entrevista completa com Alder Lima, da Metamazon Solutions, no Mundo Corporativo, que tem as colaborações de Renato Barcellos, Letícia Valente, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen:
“O que a gente não pode perder de vista é que catador, cooperativa, não fica rico com catação. A gente precisa mudar essas relações de trabalho para que a gente possa ter empreendimentos escaláveis, e que coloquem o Brasil numa ponta de índices de reciclagem”
Saville Alves, Solos
Um dos maiores desafios quando o tema é economia circular é a conscientização do cidadão sobre o descarte correto de resíduos recicláveis. No Brasil, a taxa de reciclagem é muito baixa, cerca de 3%; e 90% do material reciclado é coletado pelos catadores, muitas vezes em condições precárias. Saville Alves, CEO da Solos, identificou esse problema e contou ao Mundo Corporativo como a criação da startup gerou oportunidade para o desenvolvimento de soluções nessa área. Ela é a primeira entrevistada de mais uma série especial sobre ESG — que trata da governança ambiental, social e corporativa.
A Solos é uma startup que trabalha com o descarte correto de resíduos recicláveis e economia circular. Além de conscientizar os cidadãos sobre a importância do descarte correto, a Solos percebeu a necessidade de criar um sistema de inclusão socioeconômica para os catadores e estabelecer parcerias com grandes indústrias recicladoras. Essa abordagem visa costurar todas as pontas da cadeia de reciclagem, desde o cidadão que faz o descarte até o reciclador que transforma o material em novos produtos, utilizando matéria-prima reciclável em vez de matéria-prima virgem.
“O nosso negócio é um negócio B2B, ou seja, ele é uma empresa que vende uma solução para outras empresas, mas a gente parte sempre da premissa da geração do impacto. Seja ela através do aumento de volume de resíduos reciclados, da geração de renda para as populações historicamente excluídas dentro desse processo, e, também, pelo número de pessoas que a gente vai alcançando e vai convertendo para participar das nossas ações”.
A Solos atua em três frentes principais:
a primeira é por meio de experiências e conteúdos sustentáveis, que buscam sensibilizar e engajar o público de forma leve e lúdica.
A segunda frente é a gestão de resíduos em grandes eventos, oferecendo consultoria e operação logística para aumentar a quantidade de resíduos destinados à reciclagem.
A terceira frente é a implementação de operações de logística reversa e micrologística, garantindo o acesso ordenado e estruturado à coleta seletiva em diferentes regiões do país.
Saville Alves Alves é uma empreendedora que teve sua trajetória marcada por vivências significativas. Ela estudou comunicação na Universidade Federal da Bahia, onde teve contato com um ambiente de pensamento crítico e começou a questionar os paradigmas sociais. Sua participação em movimentos como o Movimento Empresa Júnior e organizações internacionais, como o TETO, despertaram o desejo de fundar um negócio de impacto. A Solos foi então concebida como resultado desse processo de amadurecimento pessoal e profissional.
O Papel da Tecnologia na Reciclagem
No contexto da reciclagem, a tecnologia desempenha um papel fundamental. O Brasil tem a oportunidade de usar algoritmos e sistemas de rastreamento para trazer mais transparência e informações para a população. O lastreamento da cadeia de reciclagem, identificando a origem e o destino dos materiais, pode ser realizado por meio da tecnologia. Além disso, a automação das estações de triagem e beneficiamento contribui para aumentar a eficiência e diminuir as taxas de erro no processo.
De acordo com Saville, a Solos está explorando formas de digitalizar o processo de conscientização da população, especialmente das crianças e adolescentes, para criar um hábito sustentável desde cedo. A empresa acredita que, ao mudar os hábitos das novas gerações, teremos adultos conscientes e engajados na reciclagem. A tecnologia também desempenhará um papel importante nesse processo, permitindo a conexão de informações e a automação de diversas etapas do ciclo de reciclagem.
Dicas para Empresas interessadas na Economia Circular
Para empresas que desejam adotar práticas de economia circular, é importante começar de maneira verdadeira e identificar o que é mais sensível para o negócio. Cada empresa tem suas peculiaridades, e é essencial escolher causas alinhadas aos seus valores e setor de atuação. Inicialmente, focar em questões como resíduos, inclusão socioeconômica ou qualquer outra área relevante pode ser um bom começo. É fundamental buscar parcerias e redes confiáveis, participar de programas de aceleração e capacitação, e aproveitar as oportunidades oferecidas pela digitalização para expandir o impacto positivo.
Saiba outras formas de colaborar e investir em economia ciruclar, assistindo à entrevista completa com Saville Alves, CEO da Solos, no Mundo Corporativo, especial ESG:
O Mundo Corporativo tem as participações de Priscilla Gubiotti, Rafael Furugen, Renato Barcellos e Letícia Valente.