Por Abigail Costa
Vira e mexe esse assunto entra em pauta. Falo da minha aposentadoria. Não como um fim de linha profissional, daqueles de calçar os chinelos, de começar a pensar em curso de ponto cruz.
A aposentadoria que espero tem que ser uma mudança de estilo de vida. Compromissos sim, mas de forma mais relaxada.
Estava na academia na hora marcada para começar e terminar os exercícios físicos e esbarrei com uma mulher, já não tão menina. O que me chamou a atenção foi a maneira pausada de se exercitar. A troca de aparelhos era feita sem pressa. Imaginei: ela certamente não tem hora marcada para chegar ao trabalho, depois entrevistas já agendadas uma seguida da outra – nunca levam em consideração a distância e o trânsito -, e a necessidade de entregar tudo pronto antes de o sol de pôr.
Tudo absolutamente cronometrado.
Fiquei curiosa e perguntei para a moça de roupa preta colada ao corpo que delicadamente ainda dispensava bons momentos se ajeitando no espelho:
– Oi! Por curiosidade, quantas horas você fica aqui?
– Eu? Umas três, quatro. Chego por volta das sete da manhã, quando saio vou direto para o almoço.
A minha resposta foi um NOSSA! meio desconsertante. Estava na cara – na minha cara – a mistura de sentimentos.
Primeiro, será que ela não tem o que fazer? Em seguida, hum, gostaria de estar no lugar dela!
Tudo sem pressa. É assim que penso no meu descanso pós-30 e alguns anos de trabalho.
Quero tempo para pensar e fazer sem hora, minuto ou segundo me perseguindo. Sem ter que ouvir o telefone tocar perguntando se já estou pronta. Quero ir e voltar quando terminar. Não porque tenho que voltar.
Quero um curso, sem ter a necessidade de ler o livro correndo porque dele depende uma boa nota. Quero conversar até tarde, sem a obrigação de acordar cedo.
E no dia seguinte um banho demorado, um café da manhã preguiçoso, depois pensar: o que fazer?
Quando digo isso a alguém, tem sempre o estraga prazer:
– Imagina, você não vai conseguir levar uma vida tranquila.
Como se longe do cronômetro diário eu deixasse de produzir.
Para esses afirmo: Quero, sim, minha aposentadoria daqui um tempo. Sabe por quê ?
Quero mais tempo pra mim! E nunca ouvi dizer que alguém ficou doente por NÃO se sentir estressado !
Abigail Costa é jornalista e espero que jamais abra mão de escrever todas as quintas no Blog do Milton Jung, mesmo quando se aposentar