Temos pressa de viver

Por Abigail Costa

Aprendo sempre. Independentemente do professor. Neste caso, ele só tem nove anos.

– Estou pensando em trabalhar!
– Como?
– É, trabalho. Tenho que começar agora, ou você acha que o Bill Gates não começou cedo?

O diálogo é com uma criança que se prepara para ir pra cama. A preocupação não é com a prova de matemática do dia seguinte. Mas com o futuro.

Na maioria das vezes somos assim:

Aos dez anos, imaginamos o namoro dos 15, torcendo pelos 18 e com este a carteira de motorista. Depois a pressa em sair da faculdade, de atropelar o estágio, ter a carteira de trabalho assinada. E depois ?

RG, CPF, cheque especial, compromisso, responsabilidade. E não muito raro, parar e contar para todos como o tempo passou rápido.  Como quase tudo aconteceu de repente. O quase, é um pedido de desculpa pela pressa de virar a página da vida.

Quando percebo nos outros essa vontade de pensar lá adiante, me lembro das palavras da minha mãe.

– Espera, você ainda terá muito tempo para pensar nisso, aproveita agora. A chegada é inevitável, não precisa apressá-la.

Mas temos sonhos, planos e se puder antecipar parte deles, por que não?

Enquanto me preparava para repetir os conselhos da vovó, meu futuro trabalhador pega no sono.

Sou capaz de imaginar  seus pensamentos decolando, um atrás do outro.  Viagens com roteiros conhecidos e percorridos por mim, por você, por eles.

Somos normais e iguais.  Temos pressa de viver.

Abigail Costa é jornalista e toda quinta-feira escreve sem pressa e aproveitando cada palavra, no Blog do Mílton Jung