Setembro amarelo: a natureza nos possibilita a esperança que, ausente, ofusca a amplitude da vida

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Priscila Gubiotti

Nas últimas semanas, ao andar pelas ruas de São Paulo, nossos olhares eram capturados para a beleza das flores amarelas dos ipês, que se destacavam em meio ao cinza da cidade. Uma rápida associação de cores me conduziu ao Setembro Amarelo, uma campanha criada, em 2014, pela Associação Brasileira de Psiquiatria e pelo Conselho Federal de Medicina, com o objetivo de conscientizar a população sobre os fatores de risco para o suicídio e alertar sobre a importância do tratamento adequado para os transtornos mentais, como estratégias de prevenção.


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), anualmente, cerca de 1 milhão de pessoas perdem a vida em decorrência do suicídio. No Brasil, os números apontam para 30 mortes diárias, sendo que para cada uma, aproximadamente outras 6 pessoas serão afetadas pelas consequências econômicas, sociais e emocionais provocadas por essa perda.


Os transtornos mentais, como a depressão ou transtorno afetivo bipolar, representam cerca de 96% dos casos de morte por suicídio, reforçando a tese de que o diagnóstico e o tratamento adequado são fundamentais como medidas preventivas eficazes.


Infelizmente, alguns estigmas ainda persistem quando o assunto é saúde mental, dificultando a identificação dos fatores de risco e perpetuando ideias distorcidas sobre essa condição.

É preciso falar sobre saúde mental.


É preciso levar informação capaz de promover a identificação dos transtornos mentais, tornar os tratamentos conhecidos, criar apoio emocional e possibilitar a esperança, a mesma que em sua ausência ofusca a percepção da realidade, tornando-a estreita diante da amplitude da vida.


As causas para o suicídio são multifatoriais, e alguns fatores podem agravar os riscos, como uso do álcool e drogas, que aumentam a impulsividade e a agressividade, a falta de amigos e pessoas mais próximas, e o acesso a meios letais, como armas de fogo.


Por outro lado, algumas atitudes podem ajudar as pessoas a superarem as ideias suicidas, como uma conversa sem rodeios sobre suas intenções e uma sinalização genuína de interesse pelo que ela está passando. Há a necessidade, nesses casos, de procurar ajuda psicológica ou psiquiátrica e, em situações mais urgentes, conduzir a pessoa a um Pronto Atendimento ou chamar o SAMU (192).


A intenção sobre suicídio não deve ser mantida em segredo, em hipótese alguma, devendo-se buscar ajuda profissional especializada. Muitas vezes, essas ideias aparecem em forma de frases, que soam como brincadeiras de mau gosto ou mesmo em atos mais impulsivos e inconsequentes, como atravessar uma rua sem olhar e contar com a sorte.


Por vezes, viver se torna doloroso e até mesmo muito difícil, mas a natureza, com a sua magia, nos ensina que é possível superar as adversidades: mesmo em tempos áridos e secos, o ipê precisa perder todas as suas folhas; sobram seus galhos; e isso é necessário para abrir espaço para o que vem a seguir. E, assim, ele surge, exuberante com suas flores amarelas, possibilitando que a vida se renove.


O suicídio não é um ato individual. É coletivo! Porque atinge a toda sociedade, quer sejam pais, filhos ou amigos.


Sejamos envolvidos na luta pela vida, de modo que nossas ações contribuam para que outras pessoas possam florescer.

Setembro amarelo de 2021: é preciso agir! O suicídio pode ser evitado.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

O desafio de alinhavar retalhos de coração e mente rasgados por traumas

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto: Pixabay

 

“Não me deixe implorar pelo alívio da dor, mas pela coragem de vencê-la”

Rabindranath Tagore

 

O filme “Reine sobre mim” (2007) conta as dificuldades de Charlie Fineman para lidar com a dor após a morte da mulher, filhas e cachorro no atentando de 11 de setembro de 2001. Charlie abandona a carreira de dentista, se torna recluso e apavorado com a possibilidade de encontrar qualquer pessoa que o faça lembrar de sua família. Com um quadro grave de depressão, Charlie tenta se matar e como não encontra as balas do revólver, vai para a rua para criar uma confusão com policiais, na esperança que eles o matem e acabem com sua dor. 

Diversos filmes abordam situações de intenso sofrimento, semelhantes às de Charlie Fineman, com experiências traumáticas envolvendo violência sexual, desastres naturais, acidentes ou guerras.

Se a obra cinematográfica é capaz de representar a dimensão do sofrimento humano, a realidade, infelizmente, não é diferente e reflete o que acontece com inúmeras pessoas que sofrem por terem sido vítimas, terem presenciado ou tido conhecimento de situações traumáticas que colocaram em risco a vida ou a integridade física de si ou de outros.

O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é uma condição psiquiátrica caracterizada pelo surgimento de alguns sintomas após a exposição a um evento traumático que cause medo intenso, impotência ou terror, envolvendo ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual.

Nessa condição, a pessoa apresenta uma tendência a reviver constantemente o trauma, na forma de lembranças persistentes, involuntárias, intrusivas e pesadelos; e a se sentir ou agir como se o trauma estivesse acontecendo novamente. Em geral, a pessoa evita atividades, pessoas e lugares que lembrem o acontecimento traumático, mantendo-se mais isolada. Dificuldades para dormir, irritabilidade, inquietude, hipervigilância e dificuldades de concentração também são frequentes.

A prevalência do TEPT está estimada entre 1% e 3% na população geral, podendo atingir níveis mais elevados em populações de risco, como combatentes de guerra.

Em alguns países, o TEPT está mais associado a desastres naturais — terremotos ou furacões, guerras ou atentados terroristas. No Brasil, no entanto, a violência urbana — agressões e estupro — tem sido apontada como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos mentais, incluindo o transtorno de estresse pós-traumático.

Segundo dados do Ministério Público do Paraná, em 2018, o Brasil registrou pelo menos 32 mil casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes. Além das consequências, físicas, emocionais e comportamentais, crianças e adolescentes que sofrem abuso sexual podem apresentar diversos quadros psicopatológicos, sendo o TEPT o transtorno mais prevalente nessas situações.

Em decorrência da pandemia de COVID-19 e dos agentes estressores envolvidos nessa situação, tais como risco de morte e isolamento social, diversos estudos têm sido desenvolvidos para avaliar um possível aumento na prevalência do TEPT.

Uma pesquisa realizada na Itália apontou que 1 em cada 5 pessoas tem apresentado sintomas de TEPT associada à pandemia. Na China, um estudo comparou crianças mantidas em quarentena com outras que não foram colocadas em quarentena e identificou 4 vezes mais sintomas de TEPT nas que ficaram em quarentena. O aumento dos sintomas de TEPT também tem sido verificado em profissionais de saúde, possivelmente pelos riscos de contaminação, medo de contaminar familiares, perdas de colegas e o número elevado de óbitos.

Ainda não se sabe exatamente por que um evento traumático pode desencadear o TEPT em uma pessoa e não causar nenhum sintoma em outra, mas alguns fatores de risco para essa condição envolvem características individuais: transtorno mental prévio, fatores genéticos, personalidade; bem como características do evento em si e características ambientais, como apoio familiar e social.

Dentre os fatores de proteção para a saúde mental, a resiliência —  capacidade de reagir ao estresse de maneira saudável — tem sido apontada como uma condição capaz de minimizar o impacto de eventos traumáticos e, portanto, reduzir os sintomas de TEPT. 

Situações traumáticas causam sofrimento e dor que de tão imensos parecem não caber em uma vida. E muitas vezes não cabem. Adoecem.

Penso nos meus colegas psicólogos e nos psiquiatras… escolhemos profissões que permitem o atendimento de quem sofre com TEPT. Desejamos aliviar as dores, construir novas possibilidades, auxiliar a superação de um trauma.

Penso nos pacientes… vidas impactadas, com rumos tão duramente modificados e o desejo de ter sua dor abrandada.

Penso nos versos de Cora Coralina…

“Às vezes o coração rasgado pela dor vira retalho”.

Permito-me parafrasear e finalizo: tomara a gente possa ser a linha capaz de costurá-lo, juntando pedacinhos, suficientes para superar a dor e permitir o recomeço.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung