Conte Sua História de SP: desde o meu cortiço no Tremembé

 

Osnir G. Santa Rosa
Ouvinte da rádio CBN

 


 

 

Em 1943, ano em que nasci, sem outra opção, meus pais mudaram para o distante, frio e bucólico bairro do Tremembé. Era um cortiço. Minha mãe, que era a caçula de sua grande família, sempre tratada com carinho, chorava todos os dias. Chorava por estar distante de seus pais, de seus irmãos e seus sobrinhos. E chorava pela situação degradante então vivida.

 

Por muitos anos se comentava nas reuniões dominicais das famílias que eu gostava de ficar pelado e assim comecei a engatinhar na Av Nova Cantareira, uns mil e duzentos metros antes de chegar na famosíssima Fazendinha. Não sei se você sabe, mas na Fazendinha, por décadas e décadas funcionou uma padaria.

 

Morar em cortiço é, simplesmente, horrível. Uma vez minha tia foi nos visitar levando seus filhos, meus primos-irmãos, como se diz. Moravam nas imediações, bem junto a um ribeirão fato que lhes trazia enormes transtornos.

 

Eu e meu irmão subimos nas costas dos primos; eu na do mais velho e ele na do mais novo e fomos circular em volta do cortiço. Pois ambos caíram dentro de um fétido córrego ao tentar pular sobre ele com a gente nas costas. Houve um pânico geral. Depois gargalhadas. Só não riam as duas mães ao verem seus rebentos negros de lama poluída e vermes brancos querendo penetrar na pele.

 

Felizmente, não demorou tanto para meu pai conseguir uma casa nas proximidades. Casa que ficava inserida no meio da mata-atlântica, do lado oposto e perto de onde hoje está o Hospital da Polícia Militar de São Paulo.

 

Ali nós conseguíamos pinhões e jabuticabas. Aqueles no inverno; e estas no começo dos verões. Às vezes, ouvíamos tiros de fuzis vindos do estande da Força Pública. Às vezes, víamos grupos de alunos oficiais fazendo treinamento físico pela Nova Cantareira.

 

Em 1953, portanto dez anos depois de ir para o Tremembé, meus país conseguiram comprar um imóvel no extremo oeste da capital e saímos daquela chácara, onde passei os melhores anos de minha vida.

 

Osnir Geraldo Santa Rosa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também sua história da cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP 463: O monstro da trilha do Tremembé

 

Por Ozair Lessa

 

 

O ano era 1961. Eu com cinco anos e meio morava na avenida Sezefredo Fagundes, antiga Vila Zilda, bairro do Tremembé, zona norte da cidade. Morava na parte de cima do sobrado. Embaixo, ficava a Pensão Fartura, nome do restaurante que minha mãe, meu irmão e minhas três irmãos administravam. Naquela altura, meu pai tinha saído pelo mundo em busca de uma situação financeira mais confortável para depois levar toda a família.

 

O restaurante era frequentado por motoristas de caminhões e ônibus que por ali acessavam a rodovia Fernão Dias, em direção a Minas Gerais. Com a família formada majoritariamente por mulheres, abaixo do letreiro com o nome do restaurante uma frase era sempre retocada para que nenhum freguês pudesse argumentar que não tinha notado: “AMBIENTE RIGOROSAMENTE FAMILIAR, RESPEITE PARA SER RESPEITADO”.

 

Para os mais distraídos ou que não sabiam ler, minha mãe deixava sempre bem visível um cassetete de borracha, presente de um primo integrante da antiga Força Pública. E quantas vezes vi aquele cassetete “cantar no lombo” de engraçadinhos que se enganavam com a aparência frágil da dona Benedita!

 

Eu era só uma criança muito feliz que, morando na entrada de uma grande reserva florestal, fazia dela meu quintal e passava o dia trepado em árvores dando asas à imaginação. Ali, eu e mais dois ou três amigos, cavalgávamos como o Roy Rogers, o garoto Rusty de Rin-Tin-Tin e o Zorro e Tonto. Às vezes, voávamos como o Nacional Kid.

 

Fui estudar no Grupo Escolar de Vila Bortolândia, hoje Escola Estadual Judith Guimarães dos Santos, distante uns dois quilômetros de nossa casa. Para me ensinar o caminho mais curto, meu irmão entrou por uma trilha batida dentro de um matagal. Na sua companhia até achei o caminho divertido.

 

Quando tive de ir sozinho, a história foi diferente: a trilha parecia interminável e cheia de ruídos estranhos. Foi que em um dia, um desse ruídos veio em minha direção e um “monstro” saiu de uma moita rangendo os dentes de forma ameaçadora. Quadrupliquei minha velocidade até ele desistir de correr atrás de mim.

 

No dia seguinte, o ritual para sair de casa foi mais lento: acordar, vestir o uniforme, preparar a lancheira com um sanduíche de pão com ovo e o frasco com suco ou água.

 

O que está esperando menino? Vai … se não você se atrasa!

 

Mas e o “monstro”? – pensei comigo. Não, não vou contar. Como explicar que eu, um homenzinho feito, que enfrentava os incas venusianos invasores da terra, estava com medo? E assim foram os dias: entrava na trilha, o monstro aparecia e eu chegava à escola suado e com taquicardia.

 

Numa das idas, já atrasado, esqueci de passar a alça da lancheira pela cabeça e quando o “monstro” apareceu corri e ela caiu no chão. O “monstro” parou de me seguir e foi direto na lancheira onde encontrou o pão com ovo preparado pela minha mãe. Entre uma mordida e outra, olhava para mim e parecia esboçar um sorriso de agradecimento.

 

Passei fome naquele dia, mas fiquei feliz e aliviado por descobrir o verdadeiro objetivo do “monstro” da trilha. Minha mãe também, pois a partir daquele momento pedi para que ela fizesse dois sanduíches.

 

“Tá crescendo este menino, tá com uma fome de leão!”

 

Mal sabia ela que o segundo sanduíche era o salvo-conduto, cobrado pela cachorrinha que vivia solta por ali, e de tão bem tratada ficou minha amiga.

 

Ozair Lessa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. E a narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP: uma vida centenária na capital paulista

 

Por Jacob Pomerancblum

 

 

Tenho 100 anos. Nasci no dia 12 de setembro de 1914, numa pequena aldeia na Polônia. Assim que completei 13 anos, eu e meu irmão de 10 fomos colocados num navio, sozinhos, a caminho do Brasil. Cheguei em São Paulo em 1927 e cada vez que ando pelas ruas da cidade que me recebeu e onde construí minha vida lembro como era nos anos da minha juventude.

 

Vivi no Bom Retiro a maior parte da minha vida. Caminhei pelas ruas iluminadas por lampiões de gás e lembro que nas ruas laterais do Colégio Santa Inês sempre eram quebrados para manter as ruas escurinhas. Assisti a muitos filmes mudos nos “poleiros” dos cinemas de bairro.

 

Estive na inauguração do Estádio do Pacaembu e do Jóquei Clube. A avenida Pacaembu nem estava asfaltada ainda e ia-se ao Jóquei de bonde. Não havia nenhuma construção no entorno.

 

Depois que casei fui morar por uns anos no bairro do Tremembé. A estação do trem Maria Fumaça ficava no centro do bairro e muitas vezes a família ia para o centro de trem.

 

São 87 anos vividos nesta cidade que se tornou “minha cidade”, onde tive muitos e bons amigos com quem vivi muitas aventuras e alegrias e onde criei minha família. Só lamento que todos amigos tenham decidido “ir embora” e me deixaram sozinho com minhas lembranças, guardadas e vívidas na minha memória.

 

Jacob Pomerancblum é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para milton@cbn.com.br

Leon Cakoff foi genial e pautou São Paulo

 

A morte de Leon Cakoff incomoda muito. Não era amigo nem parente. Nunca devo ter conversado com ele ao vivo e em cores. Fiz, porém, algumas entrevistas obrigatórias. Não impostas, como podem entender alguns ao ler a frase anterior. Mas por mérito. Impossível pensar e discutir São Paulo sem ser pautado por ele. Cakoff foi genial em seu propósito e fez da cidade um circuito internacional de cinema trazendo para cá criações que jamais teríamos oportunidade de assistir nas telas comerciais. Nos proporcionou parte dos prazeres que teve na época de menino em que morou no bairro do Tremembé, zona norte da capital. Foi lá que viu seus primeiros filmes projetados em 16 milímetros em um lençol esticado na rua por um dos vizinhos, na paróquia da Igreja de São Pedro em sessões organizadas pelo Padre Bruno ou nas poltronas do Cine Ipê, que visitava acompanhado pela mãe. Em depoimento ao Conte Sua História de São Paulo, que apresento na CBN, Leon Cakoff lembrou que o Tremembé era um bairro distante do centro onde respirava os ares do interior: “sentia-me um pequeno índio em uma aldeia sendo nutrido por esta curiosidade pelo cinema”.

Ouça o depoimento de Leon Cakoff ao Conte Sua História de São Paulo, em 2007

Leon Cakoff morreu nesta sexta-feira, aos 63 anos, vítima de câncer. Uma notícia que incomoda demais por revelar como somos frágeis e dependemos de homens como ele. São Paulo sentirá muita falta deste gênio.

Tremembé, pioneiro no transporte de São Paulo

 

O alemão Ewald Kruse ficou famoso por oferecer transporte alternativo à Maria Fumaça e foi proprietário de uma das primeiras linhas regulares de auto-ônibus da Capital

SANTANA TREMEMBÉ

Por Adamo Bazani
 
O que o antigo Tremembé, na zona norte de São Paulo, tem a ver com a história dos transportes na cidade? Lá rodavam jardineiras, responderão alguns. Tem razão, mas há um fato ainda mais marcante. O bairro abrigou uma das primeiras linhas regulares de ônibus da cidade.

E para falar da linha Santana-Tremembé, o “Ponto de Ônibus” conta com o apoio do colecionador e historiador Waldemar Correa Stiel, autor de vários livros sobre transporte, que cedeu a rara foto deste veículo que auxiliou no desenvolvimento viário da região norte da capital. O serviço de auto-ônibus no Tremembé foi iniciado e regularizado com este veículo Ford que pertencia a Ewald Kruse.

Nascido na Alemanha, em 1889, Kruse veio para o Brasil jovem. Foi parar no distrito de Tremembé que apesar de distante do centro, atraía imigrantes europeus, pela sua topografia, tranquilidade e o clima, próximo da Serra da Cantareira. Ao mesmo tempo, a região era um desafio para o transporte. Principalmente, para a Jardineira de Kruse.

Vendo o lento crescimento do bairro, mas um com uma visão de que a área seria populosa, o alemão inaugura o primeiro serviço de auto-ônibus da região, e um dos primeiros da cidade, no ano de 1926. Segundo contam familiares dele, as dificuldades para ligar Santana a Tremembé eram grandes e o velho Ford, na verdade um carro adaptado com carroceria artesanal de madeira, atolava quase todo o dia de chuva. O pequeno veículo tinha capacidade para transportar até 12 passageiros. Com as laterais abertas, os dias de chuva eram um martírio, mesmo com as cortininhas.

O serviço de Kruse complementava e, em alguns trechos, concorria com os trens da “Tramway da Cantareira”, conhecido comop “Trenzinho da Cantareira” que começou a operar logo no início do bairro. Sua linha foi inaugurada em 1894 para auxiliar na construção dos reservatórios de água da cidade. A estação de Tremembé era a penúltima antes da Cantareira, onde havia fontes naturais de água. Com a configuração da região em loteamentos, os trens começaram a transportar passageiros.

Vale lembrar que antes mesmo do Trenzinho da Cantareira e do ônibus de Kruse, uma tentativa primitiva de transportes já existia no bairro. Eram os bondes a cavalo de Antônio Pontes Júnior, que levavam passageiros da Ponte Grande, perto do Rio Tietê até Santana. O serviço, precário, não resistiu e seus dois veículos, dois cocheiros e 18 cavalos se aposentaram em maio de 1907.

O bairro do Tremembé, nome que em Tupi Guarani significa brejo, nasceu no fim do século 19 com o desmembramento da fazenda da família Vicente de Azevedo. O local foi divido em glebas de terra para a criação de chácaras. De acordo com levantamento histórico da Prefeitura de São Paulo, a sede da fazenda ficava na área que hoje corresponde a Avenida Nova Cantareira com a Rua Mara Amália Lopes Azevedo. A região era conhecida por Fazendinha.

No início do século 20, a procura por moradias no bairro crescia. Eram portugueses, espanhóis, italianos, mas principalmente alemães. O Tremembé sem dúvida foi um dos grandes núcleos alemães até meados do século 20.

Em 1910, vendo a procura por casas na região, os filhos de Pedro Vicente de Azevedo e Maria Amália Lopes de Azevedo criaram a Cia Villa Albertina de Terrenos, dando início ao loteamento em moldes urbanos. O distrito de Tremembé, constituído oficialmente, em 1890, começava a dar ares de que seria um bairro.

Por isso, Ewald Kruse não perdeu tempo. Ele via um crescimento de demanda de passageiros que não seria atendida pelo Trenzinho da Cantareira, pois este não ia loteamentos a dentro. Flexibilidade na época que só os ônibus poderiam ter, por isso que foram responsáveis pelo desenvolvimento de muitos bairros. A importância desta iniciativa pode ser medida pelo fato de que as primeiras ruas a serem pavimentadas na região foram aquelas pelas quais passavam o ônibus.

O desenvolvimento ao longo do Rio Tietê também fez crescer o bairro. A linha que ligava Santana a Tremembé se expandia e se tornava mais longa. O trenzinho não dava conta da demanda de passageiros e da necessidade de flexibilização dos trajetos. E operou até 1964.

A presença alemã no bairro ainda nos anos 60 era tão grande que, além dos jornais nacionais, circulava pela região o periódico “Notícias Alemãs”. Além de trazer informações do País de origem dos imigrantes, o jornal destacava em uma página dedicada a Memória, os alemães que marcavam o desenvolvimento de Tremembé.

E na edição de 24 de julho de 1966, guardada pelo historiador Waldemar Correa Stiel, o jornal lembrava a façanha pioneira de Ewaldo Kruse: “Naquele tempo, os seus modernos carros Ford eram transformados em veículos para o transporte coletivo e integrados à linha que ligava o bairro de Tremembé a Santana”.

O jornal ironizava o Trenzinho da Cantareira dizendo que ele não era concorrente do ônibus de Kruse, pois os passageiros da jardineira do alemão não precisavam se preocupar com as fagulhas pretas soltadas pela Maria Fumaça.

Nos anos 40, segundo estimativas da Prefeitura na época, a população do Tremembé mais que dobrava. Algumas pequenas fábricas apareciam na região e muitos moradores de Tremembé e loteamentos vizinhos precisavam se deslocar para a região central de São Paulo ou outros municípios para trabalhar. O bairro então foi inserido no programa de reorganização dos transportes municipais, criado pelo prefeito Abrahão Ribeiro, em 1946, ano em que instituiu a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos. Nesta época, pelo projeto, a CMTC, que havia herdado de Light & Power à operação dos transportes municipais de São Paulo, seria responsável pelos ônibus que ligassem os bairros ao centro e as empresas de ônibus particulares (muitas sucumbiram nesta época) fariam as ligações periféricas bairro a bairro.

Com o Tremembé não foi diferente. Entre os anos de 1948 e 1949 é inaugurada a linha 77 da CMTC, que ia até a região central de São Paulo, mas já passando por um cenário misto: meio rural ainda, com vegetação, chácaras e paisagens e meio urbano, com calçamento, pequenas fábricas e até um pouco de trânsito.

De acordo com o departamento histórico da Associação Nacional das empresas de Transportes Urbanos – NTU, o primeiro ônibus a rodar em São Paulo, foi uma jardineira Saurer, importada da França. Mas o veículo não tinha linhas e horários definidos. Já com Kruse foi diferente. Ele apresentou ao poder público uma solução compromissada, com itinerário fixo, preço e número de viagens.

Muitos outros pequenos investidores – na época não havia grandes empresários de ônibus – se inspiraram em Kruse e também elaboravam seus itinerários e horários.

Certamente, a este imigrante e ao bairro de Tremembé, a cidade de São Paulo deve muito quando se fala em história dos transportes. E Tremembé deve também aos transportes, pois foi a partir do Trenzinho da Cantareira, da jardineira de 1926, passando pela linha 77 da CMTC, que mais pessoas e empresas procuravam o bairro. Devido aos transportes, a infraestrutura, principalmente iluminação e calçamento, chegava mais rapidamente. Dos 96 distritos da cidade, atualmente a região do Tremembé é a quarta em tamanho e uma das maiores em área verde por causa da Serra da Cantareira, apesar de ter crescido e muitas construções terem se instalado no local.

Este texto nasceu de uma pesquisa feita a partir da descoberta da raríssima foto do acervo do historiador Waldemar Correa Stiel e prova que uma imagem vale mais que mil palavras: pode contar.

Adamo Bazani, busólogo, repórter da CBN, e que se ente descobridor de um tesouro quando lhe é entregue uma ligam como esta da jardineira de Kruse