Uniban diz que estudante mostrou “partes íntimas”

A decisão de expulsar a aluna Geyse Villa Nova Arruda da universidade não foi por causa do tamanho do vestido, mas pelo conjunto da obra. Foi o que entendi da entrevista do advogado da Uniban Décio Lencioni Machado, ao CBN São Paulo, que acusou a estudante de ser exibicionista e ter provocado os colegas levantando o vestido e mostrando as partes íntimas.

Machado disse que houve reclamações anteriores contra a jovem pelo comportamento dela na universidade que teriam sido feitas por “fiscais de disciplina” – os seguranças – e outros funcionários. As queixas, porém, nunca foram registradas. Ele nega que a expulsão seja demonstração de apoio aos estudantes que ofenderam Geyse, mas voltou a lembrar que a reação de parte deles foi “em defesa da universidade”.

Ouça a entrevista completa do advogado da Uniban Décio Lencioni Machado, ao CBN SP

Reitor da Uniban cancela decisão do conselho que expulsou aluna na Uniban (publicado às 19h)

“O Reitor da Universidade Bandeirante – Uniban Brasil, de acordo com o artigo 17, incisos IX e XI, de seu Regimento Interno, revoga a decisão do Conselho Universitário (Consu) proferida no último dia 6 sobre o episódio do dia 22 de outubro, em seu campus em São Bernardo do Campo. Com isso, o reitor dará melhor encaminhamento à decisão”

Expulsão é incompatível com ambiente da universidade

A expulsão pela Uniban da estudande Geyse Villa Nova Arruda é a decisão apropriada para uma universidade que desde o início do incidente não soube se comportar de forma decente diante de um caso grave. Sua postura – com o perdão do plágio – “é incompatível com o ambiente da universidade” brasileira.

Logo que o caso se revelou na mídia, o esforço foi para retirar as imagens que estavam na internet temendo repercussão negativa à Uniban, gesto inútil e burro de censura. Quis conter o tsunami de informação gerado pelos próprios alunos a partir de seus telefones celulares.

Impossibilitada de tomar tal atitude, retira a menina da universidade. Além disso afasta temporariamente alguns alunos – não informa quantos nem quais -, e se contradiz pois sai em defesa dos agressores, aqueles que o reitor entende serem os “defensores do ambiente escolar”. Também eram assim tratados os que ofereciam suporte as ideias racistas que marcaram a sociedade americana no passado nos Estados favoráveis a segregação ou que atenderam o chamado de ditadores facínoras como Hitler e Mussolini.

Coube à mídia um capítulo especial na nota de explicações da Uniban. Teríamos perdido a oportunidade de contribuir para um debate sério e equilibrado sobre ética, juventude e universidade. Generaliza na crítica e não leva em consideração entrevistas com profissionais de educação, sociologia e comportamento humano que foram ao ar nas duas últimas semanas. Talvez porque os diretores da universidade se pautem apenas pelos programas sensacionalistas dos quais sejam parte da audiência.

Lendo os valores da Uniban, divulgados em seu site, descobrimos que a intenção é “propiciar tratamento justo a todos, valorizando o trabalho em equipe, o alto grau de sinergia e integração, estimulando um excelente ambiente humano de trabalho”. Devem ter interpretado que os estudantes que fizeram coro ofensivo contra a estudante trabalhavam em equipe, em um alto grau de sinergia e integração.

Uma nota sobre Geyse: mesmo vítima, dá sinais de deslumbramento com o assédio da mídia, seu discurso de constrangimento não combina com seu desejo de aparecer – seja em programas de televisão seja na primeira página dos jornais -, além de demonstrar satisfação no papel de fugaz celebridade.

Faz parte desta mesma moeda sem valor que circula na Uniban e na maioria das universidades brasileiras.

Leia “Saia Justa na Uniban” escrito por Carlos Magno Gibrail

A saia justa da Uniban

 

Por Carlos Magno Gibrail

“Pu-taaa! Pu-taaa! Pu-taaa!”

Cerca de 700 alunos da Uniban, Universidade Bandeirantes de São Paulo, campus de São Bernardo, pararam as aulas do noturno para perseguir, xingar, tocar, fotografar, e cuspir. Tudo isso contra uma aluna do primeiro ano do curso de Turismo, 20 anos, 1,70 metro, cabelos loiríssimos esticados, e olhos verdes, que compareceu à escola em um microvestido rosa-choque, pernas nuas com pelinhos oxigenados à vista, salto 15, maquiagem de balada, na quinta-feira da semana passada (22)”. FOLHA.

De lá para cá, todas as mídias abriram todos os tipos de espaço. Com razão, pois não é um fato pontual e ocasional. Há que estudá-lo, tal a complexidade da causa e a perplexidade do efeito. Não só momentâneo, mas também extemporâneo, pois Mary Quant, o pessoal de Woodstock e os estudantes revolucionários dos anos 60 jamais poderiam imaginar tal retrocesso social, político e comportamental. Nem mesmo as moças da foto de 37 publicada acima.

Mais do que o resultado do ENEM, que avalia apenas comparativamente o conhecimento, esta manifestação de massa certamente traz o reflexo de fatores primários inconsistentes diante de um ambiente universitário culturalmente acima daquele que os novos participantes não conseguem absorver, tal a diferença do meio que vieram.

O despreparo é gritante e deixa de ser intrigante a reação que se viu diante de um símbolo de moda colocado num ambiente não pertinente. Fato que se observa cotidianamente em todos os ambientes, sem que haja reações de massa e muito menos com a agressividade verificada.

Sociologia, psicologia, pedagogia e economia podem explicar setorialmente esta manifestação, mas a filosofia numa pegada freudiana, marxista e fascista, através da Escola de Frankfurt na passagem da predominância dos economistas para os filósofos, com os trabalhos de Theodor Adorno e Max Horkheimer na primeira metade do século 20, é que tem a resposta mais contundente. É o que confirma Paulo Ghiraldelli Jr. proeminente filósofo brasileiro, em sua análise “A moral por centímetros – o caso Uniban”:

“Adorno e Horkheimer apontaram o choque que as pessoas arcaicas, provincianas e vindas do meio rural tiveram ao chegar às cidades. Ficaram oprimidas pela organização que desconheciam e ficavam revoltadas ao perceber que existiam outros que se davam bem nesta estrutura.

No episódio Uniban, pessoas sem tradição familiar de frequentar faculdade, saem muito rápido de um ambiente que exige pouca capacidade intelectual para a Universidade. A Uniban ensina mal, paga mal, recruta mal. Absorve os alunos que não entraram ou não entrariam na USP, PUC, FGV, etc.

A menina de minissaia simboliza toda a Universidade com sua característica do diferente. O diferente simboliza todo o aparato novo que está oprimindo os que vieram de ambientes menos exigentes.

Se a Uniban tivesse obstáculo para entrar, obrigando a esforço de obtenção de conhecimento, se tivesse obrigado a estudar, a adaptação seria facilitada. Pois, por pior que seja é uma Universidade e apresenta enorme dificuldade de introdução dada a diferenciação de ambientes. Ainda há neste caso a questão do preconceito contra a mulher”. (Adaptado de Paulo Ghiraldelli Jr)

Definimos Moda como uma forma de comunicação, e Elegância como uma maneira pertinente ao ambiente de se vestir.

A Moda é o centro aparente da ocorrência e a não Elegância sua resultante, porém como quase tudo em nosso Universo, a causa do episódio não é aparente. É muito mais profunda.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, escreve às quartas no Blog do Milton Jung e nunca se constrangeu diante de uma saia justa.