Avalanche Tricolor: uma dose extra de paciência

Athletico 4×2 Grêmio

Brasileiro – Arena da Baixada, Curitiba-PR

Vanderson em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Nesta semana, a família concluiu seu segundo ciclo de vacinação contra a Covid-19. Mulher e filhos, além deste que lhe escreve: todos já estão com a segunda dose no braço. Dá um certo alívio, passado um ano e oito meses desde o início dessa desgraça que nos abateu. Lembro que no começo muitos imaginavam que tudo se resolveria rapidamente. Alguns falavam em duas semanas para voltarmos ao normal —- seja lá o que isso signifique. Apostei em ao menos dois meses, quando cheguei em casa no dia em que iniciamos a quarentena, em 20 de março do ano passado. Alertei a turma de que seria um período complicado, mas valeria a pena a reclusão.

Se o prazo final da pandemia estendeu-se muito mais do que a expectativa, a boa notícia foi saber que o prazo de conclusão das primeiras vacinas se encurtou bem mais do que todos acreditavam. No segundo semestre do ano passado, já surgiam os primeiros resultados. E no início de dezembro de 2020, havia países vacinando seus cidadãos —- o Brasil, lamentavelmente, demorou mais e permitiu que muita gente fosse embora antes da hora, apesar de a existência de uma vacina capaz de reduzir os riscos de contaminação grave, internação e morte.

Desde janeiro, quando a vacina começou a circular por aqui a ansiedade para que o processo se acelerasse foi enorme. Comemorava-se cada pessoa conhecida que tivesse sido imunizada. A agulha no braço era mais do que uma vitória individual. Era coletiva. Como se todos estivessem sendo protegidos. Aliás, todos estão sendo protegidos quando uma pessoa se vacina. Se aprendemos alguma coisa ao longo deste tempo, é que a busca da imunidade possível é uma responsabilidade ética que assumimos quando decidimos viver em comunidade —- lamento muito por aqueles que insistem no contrário e seguem com sua visão mesquinha e assassina.

Pela idade, minha mulher e eu tomamos a primeira dose antes dos filhos. No meio do caminho, o vírus me pegou, mas a proteção foi suficiente para não me abater. Viva a ciência! Os três meses de espera para a segunda dose foram intermináveis, mas chegaram com a devida celebração. Os meninos tiveram ainda mais sorte. Primeiro, porque foram contemplados com o que aqui em São Paulo chamados de xepa —- aquelas doses remanescentes que precisam ser aplicadas depois de abertas para evitar o desperdício. Segundo, porque em lugar de 12 semanas puderam tomar a segunda dose em apenas oito, graças a redução do tempo proposta pelo Governo de São Paulo.  

Este foi o primeiro fim de semana que passamos juntos com a certeza de que se a ciência cumpriu o seu papel, nós, como cidadãos, cumprimos o nosso. Não temos a ilusão de que estamos livres do vírus. Sabemos que é preciso seguir com as medidas de proteção, em especial com o uso da máscara. Não dá para baixar a guarda. Apesar disso, nos demos o direito de comemorar essa vitória.

O mesmo não posso dizer do meu Grêmio que no fim da tarde deste domingo desperdiçou mais uma oportunidade para sair da zona de … “você-sabe-qual”. Apostei que na primeira rodada do returno já estaríamos livre desse martírio futebolístico e percebo que estou sendo precipitado. Diante do que assisti em Curitiba talvez seja prudente tomar uma terceira, quem sabe, uma quarta dose da vacina da paciência.

Conte Sua História de São Paulo: a volta ao passado, no Beco do Batman

Maria de Lourdes M. Ferreira Martins 

Ouvinte da CBN

Foto Arquivo Pessoal

Fiquei muito tempo isolada e após tomar a segunda dose da Coronavac, do Instituto Butantã, meus filhos me levaram até a Vila Madalena para conhecer o Beco do Batman, na intenção de me distrair um pouco. Descobri que ficava bem próximo do cemitério São Paulo, onde meus pais estão sepultados. Após um breve pensamento em reverência a eles, adentrei pelo famoso beco. Fiquei admirada com as belezas dos grafites, sendo surpreendida por um que apresentava um grande jacaré com uma vacina na mão. Acima dele, o registro do autor da obra, que coincidentemente também era ligado ao bairro do Butantã. 

Naquele momento, os caminhos que percorri em meus 86 anos de vida confluíram para aquela pintura de tema bem humorado. Eu estava num beco que não é um beco, de um homem-morcego que nada tem de sinistro. Achei divertido: o local tem um colorido que retrata bem o espírito animado da Vila Madalena. E eu estava ali, no bairro em que nasci, imunizada com uma vacina feita no bairro em que cresci e onde frequentei a escola, na década de 1930. 

Na minha infância, caminhava mais de seis quilômetros para ir do bairro Ferreira, na zona oeste, até a escola que ficava no instituto Butantã —- era a única que existia na região. E nos ensinavam além de ler, escrever e calcular, a cultivar a terra para fazer hortas. Para chegar lá, subia e descia morros no Bonfiglioli. Passava pela igreja do Mercadinho, no Rio Pequeno, perto do terreno em que meu pai, João Martins, e minha mãe, Victória, criavam vacas. Mais tarde o local se tornou parte da Cidade Universitária. 

Em 11 de setembro de 1954, casei-me com Helio Ferreira, filho de Desidério Ferreira, que teve uma mercearia, conhecida como “Venda do Ferreira”, a qual deu origem ao nome do bairro em que vivi.

Nos conhecemos no Mercado Municipal, do Largo da Batata, já que trabalhávamos no comércio do bairro. Como filha mais velha de dez irmãos, mesmo adolescente, ajudava meu pai a plantar, transportar e vender verduras. Era eu, também, quem fazia muita força para girar o motor do caminhão velho dele, virando uma manivela. 

Depois trabalhei como enfermeira na Cruzada Pró-Infância e operadora de caixa na Casa Pequena, perto da igreja de Pinheiros, onde o bonde fazia o retorno a caminho do centro. Vivenciei a transformação do bairro, com o aumento do comércio em suas ruas. Surgiram pastelarias, mercados, lojas de móveis … Eu sempre levava meus irmãos e meus filhos até as ruas Cardeal Arcoverde e Teodoro Sampaio para comerem pastel e tomarem garapa. Com a chegada das grandes lojas, mesmo sem dinheiro, gostava de passear no Bazar 13, Mesbla, Eletroradiobraz, no Shopping Iguatemi, o primeiro da cidade …

Quase ninguém mais sabe o que se passou no Largo da Batata ou como era de fato Pinheiros. Pouco se preservou da memória. Ficaram apenas a igreja e algumas ruas e árvores como testemunhas de muitas vidas. Hoje, carrego dores e limitações —- consequência do trabalho duro e dos anos vividos. E sou feliz com tudo que fiz e com a família que Deus me deu.

Nasci na Mourato Coelho, na Vila Madalena, criei-me no Butantã, trabalhei e me casei em Pinheiros e moro no Ferreira. Faço parte de um pequeno pedaço de São Paulo que ajudei a construir e hoje me ajuda a viver, seja com uma vacina, seja com lembranças positivas e saudosas, seja com uma alegria por admirar as cores vivas na vila em que nasci.

Maria de Lourdes M. Ferreira Martins é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie você também seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sem ilusão e com vacina no braço podemos avançar no combate à Covid-19

 Foto: João Gabriel Alves/Agencia Enquadrar/Agencia O Globo

O e-mail e as redes sociais estão cheios de céticos e negacionistas. Para estes, nada a declarar. Apenas lamento pela ignorância. Àqueles, tudo a agradecer. O ceticismo, ao contrário do senso comum, promove o pensamento científico. É questionador. Busca as evidências. Não por acaso, uma das entidades científicas mais prestigiadas do mundo atende pelo nome Committee for Skeptical Inquiry —- em bom português, Comitê para Investigação Cética. 

O jornalismo é feito de ceticistas. Estamos sempre perguntando o porquê das coisas. Não nos satisfazemos com a primeira resposta. Queremos confirmar em uma segunda e terceira fontes. Desconfiamos do político que se faz de bonzinho. E aliviamos menos ainda para que o que fala duro, mas se entrega no primeiro questionamento. Tentamos sempre entender o que está por vir. 

Do comitê de céticos faz parte nossa colega de CBN, a microbiologista Natália Pasternak —- no ar, às terças-feiras, 7 horas, em Hora da Ciência. Aliás, a única brasileira a fazer parte do grupo internacional. Foi ela quem, dia desses, em entrevista ao Nexo, definiu:

“Não podemos confundir o cético com o negacionista. O cético é a pessoa que quer ver as evidências, enquanto o negacionista recusa as evidências que estão diante do seu nariz”. 

Dito isso, vamos ao tema da minha conversa com você, caro e raro leitor deste blog. Na edição desta sexta-feira, entrevistamos uma pesquisadora e um político, cada um com sua devida expressividade. Na conversa com os dois, uma certeza, baseada nas evidências:

“… a boa notícia: a vacina está fazendo diferença”

Foi com esta frase que a doutora Margareth Portela, da Fundação Oswaldo Cruz e do Observatório Fiocruz Covid-19, abriu a entrevista no Jornal da CBN quando perguntei sobre o que caracterizava a “nova fase da pandemia” —- expressão que se encontra no relatório do observatório publicado ontem. Graças a vacina —- e qualquer uma das vacinas aplicadas no Brasil —, foi possível conter o número de pessoas internadas com gravidade nos hospitais e reduzir um pouco a velocidade de crescimento no número de pessoas infectadas e mortas: 

“Foi registrada uma queda tanto no número de casos novos (-2,1%), quanto no número de óbitos (-2,6%), tendência sustentada desde a análise das semanas anteriores. A taxa de letalidade foi mantida em torno de 3%”, diz o relatório.

Do ponto de vista demográfico, é possível perceber outra mudança. 

Se no início do ano, jovens adultos estavam mais propensos a ficar doentes; a participação deles entre internados e mortos diminuiu. A maior parte dos óbitos por Covid-19 tem mais de 60 anos —- um retorno ao cenário do início da pandemia, no Brasil. E mais uma vez é a vacina quem faz a diferença. Porque em condições iguais —- com imunização para as diversas faixas etárias —, os mais jovens tendem a ser mais resistentes do que os idosos.

A vacina também foi o foco da nossa entrevista com o governador João Doria, de São Paulo —- apesar de que com ele falamos também de outras coisas mais, como sucessão presidencial, PSDB com candidato próprio em 2022 e os embates políticos com o presidente Jair Bolsonaro: “é um golpista”, disse Doria. Isso, porém, você confere ouvindo a entrevista completa.

Vamos a vacina no braço que é o que cabe a este texto. 

Doria está em casa, se recuperando da segunda infecção por Covid-19 e diz que resistiu muito bem ao vírus desta vez. Quem está próximo dele me definiu assim os sintomas do governador: foi como uma gripe. E se o foi, a vacina é a responsável, segundo o próprio governador. Como o é pela redução no número de pessoas internadas e em UTIS, nos hospitais do Estado de São Paulo. O último boletim divulgado mostra que o estado teve a menor média de ocupação de leitos de UTI de 2021, com taxa de 59,25.

Se tiver mais vacina à disposição, o governador antecipou ao Jornal da CBN que o estado pretende reduzir o intervalo das doses de vacinas Pfizer e AstraZeneca, que hoje é de 12 semanas. Nos Estados Unidos, o prazo entre a primeira e a segunda doses é de apenas um mês. O problema, diz Doria, é que o Ministério da Saúde não tem cumprido com os prazos de entrega:

“O Ministério da Saúde, não querendo politizar nesta resposta, prometeu e não cumpriu. Prometeu oito vezes enviar vacinas da Pfizer e da Astrazeneca e entregou, oito vezes, menos doses do que o previsto para o Plano Nacional de Imunização. Se tivermos regularidade na entrega é possível e recomendável esse prazo (menor)”.

Se em São Paulo, os números estão em queda, conforme ratificou o governador. E se no Brasil, o cenário nos estados é melhor do que antes, como diz o relatório da Fiocruz. Isso significa que o pior já passou? Não. O ceticismo é a melhor reação diante dessas duas verdades. Porque só com esse olhar desconfiado é que chegamos ao alerta necessário.

Ainda que os números aparentem uma melhora no quadro da Covid-19 no Brasil, ao ser perguntada sobre o risco de estarmos gerando uma ilusão na população brasileira, a doutora Margareth, concordou:

“Não dá para normalizar esses números …. Tivemos uma situação de absoluta tragédia. Essa semana, está uma situação melhor e isso nos dá um certo alívio, mas não é para comemorar. A situação continua muito grave”. 

Os farejadores de vacina e a pandemia dos não vacinados

Foto: Governo do Estado de SP

Pra uns é um resfriado. Para outros, uma intensa dor no corpo. Tem quem sequer ficará sabendo. Há os que precisam recorrer aos hospitais. E os que, infelizmente, deles não saem mais — entre os quais muito mais jovens do que no início desta pandemia. A variante Delta que predomina na Europa e nos Estados Unidos — e já é “influencer” no Rio de Janeiro  —-, pelo que se sabe até agora, mata menos e contamina mais (de 30 a 50% mais do que sua irmã mais velha). No entanto, quanto mais gente contaminada, maior a pressão no atendimento da rede hospitalar, menos leitos à disposição e o risco de morrer por falta de atenção. 

Falamos do assunto, nesta terça-feira, com o doutor Jarbas Barbosa, médico sanitarista e epidemiologista, que faz às vezes de vice-diretor da Opas, a Organização Pan-Americana de Saúde, braço da OMS aqui na nossa área. Com experiência internacional e de quem já comandou, também, a Agência de Vigilância Sanitária — Anvisa, no Brasil, Dr Jarbas tem ajudado a fazer alertas importantes, desde o início da pandemia, às nações, às autoridades e às populações.

Na entrevista ao Jornal da CBN, da qual participamos Cássia Godoy e eu, o médico foi claro no recado que enviou: 

“Vivemos uma pandemia de não vacinados”

Mesmo diagnóstico que havíamos ouvido, lá dos Estados Unidos, um dia antes, da doutora Rochelle Walensky, diretora dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças quando informou que a média diária de pessoas infectadas teve aumento de 70% em relação a semana anterior; e a média de internações, alta de 36%, em solo americano.

A despeito de o número de casos de pessoas contaminadas com a variante Delta, aqui no Brasil, ser incerto e inseguro —- já que investigamos bem menos do que o necessário —, não se tem mais dúvidas de que precisaríamos acelerar as medidas de proteção. Baseado no que acontece em outros países, fica evidente que o aumento da cobertura vacinal é a melhor resposta que poderíamos dar para impedir a disseminação dessa variante. Foi o que falou o Dr Jarbas. Foi o que ratificou o Dr Luis Fernando Correia, nosso comentarista, em entrevista ao jornal Extra: 

“Em alguns países, aumenta o número de casos, porém não aumenta o de mortes de internações, como no caso do Reino Unido. Já em casos como Rússia, Vietnam e África do Sul, as três curvas sobem juntas. Muitos casos, muitas hospitalizações e muitas mortes. O que parece fazer diferença é a cobertura vacinal”.

A fala dos dois tem o mesmo alvo: os negacionistas e os farejadores de vacina

Os primeiros são os que mais incomodam nos Estados Unidos —- onde a campanha antivacina sempre foi intensa, promovida por setores mais conservadores do  país, quase sempre ligados ao Partido Republicano; e por comunidades que foram vítimas de práticas discriminatórias de instituições de pesquisa no passado, como os afro-americanos. O outro grupo de não vacinados — em especial aqui no Brasil, mas não apenas no Brasil — é de pessoas que deixam de se imunizar enquanto buscam a vacina de estimação. 

No Brasil, especialmente uma elite mal-informada, seleciona vacina como se escolhesse roupa para viajar. Corre de posto em posto para saber se ali estão aplicando o imunizante que aceitam nos Estados Unidos, na Europa e, especialmente, em seu grupo social. Tomar Coronavac, é de última. AstraZeneca, toda a periferia tem. O chique é a Pfizer. A Janssen é um luxo. E por aí vai. Enquanto escolhe, fica exposto ao vírus. Corre o risco de morrer e de matar, disse Jarbas Barbosa:

“É um atentado contra você mesmo, porque você perde um tempo que é vital para garantir a sua proteção individual, mas, também, vamos relembrar que a vacina tem um papel coletivo”.

Em tempo: passou-se a identificar os que escolhem a marca da vacina que vão tomar como ‘sommeliers’ —- termo usado, inclusive, por especialistas na área de saúde. Sempre achei chique de mais para a atitude que adotam. Prefiro chamá-los de ‘farejadores de vacina’, pois passa a ideia daqueles cães que esfregam o nariz na terra em busca de algum cheiro para o qual foram treinados. Dr Luis Fernando ,que concorda com minha discordância em relação a expressão ‘sommelier’, foi mais direto ao ponto, na entrevista ao Extra

“… Tem me incomodado essa história de sommelier de vacina. Porque a elite brasileira adora esse tipo de coisa. Então, se a gente continua a usar esse termo sommelier de vacina, esses imbecis vão continuar achando que estão fazendo a coisa certa. Temos que chamar eles de imbecis e ponto”.

Ponto.

Ouça a entrevista completa com o Dr Jarbas Barbosa, da OPAS, ao Jornal da CBN:

O que o presidente da República melhor faz, segundo um senador também da República

Presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (Foto: Pedro França/Agência Senado)

“Cada um faz aquilo que melhor faz, ele (o presidente) tem feito muito isso no governo, né!?!”

O presidente da CPI, senador Omar Aziz, foi curto e grosso na primeira resposta que deu hoje, na entrevista que Frederico Goulart e eu fizemos, no Jornal da CBN, quando perguntei a ele sobre um inusitado palavrão dito por Bolsonaro em seu “cercadinho” digital.

O que o presidente melhor faz, segundo o senador da República pelo estado do Amazonas? Para que fique claro, vamos antes a sequência de fatos que levaram à frase de Aziz, hoje cedo.

No dia 25 de junho, os irmãos Miranda —- o Luis Deputado e o Luiz Servidor — estiveram na CPI da Covid e disseram que levaram ao presidente Jair Bolsonaro denúncia de irregularidades na compra da vacina Covaxin, da Índia. No encontro que ocorreu no Palácio do Planalto, em 20 de março, Bolsonaro teria dito que entregaria o caso à Polícia Federal. Teria dito mais, segundo os Miranda: 

“Isso é coisa do Ricardo Barros. [Palavrão], mais uma vez” 

Ricardo Barros, deputado federal e líder do Governo Bolsonaro na Câmara, foi rápido no Twitter: no mesmo dia, negou qualquer envolvimento com irregularidades. 

Já o presidente, se calou. E calado se manteve. 

Diante do silêncio —- nem no cercadinho havia se pronunciado —-, a CPI entregou, ontem, dia 8 de julho, uma carta no Palácio do Planalto, assinada por Omar Aziz, Randolfe Rodrigues, vice-presidente da CPI, e o relator Renan Calheiros. Eles pediram para que Bolsonaro se pronunciasse quanto as denúncias. E o fizesse de forma ‘clara, cristalina, republicana e institucional’:

“Somente Vossa Excelência pode retirar o peso terrível desta suspeição tão grave dos ombros deste experimentado político, o Deputado Ricardo Barros, o qual serve seu governo numa função proeminente.”

À noite, Bolsonaro, já no “cercadinho digital” — aquela live que realiza todas as quintas-feiras —, proferiu a frase que deve ter saído dos anais dele:

“Caguei para a CPI, não vou responder” 

Fatos relacionados e contextualizados, imagino, fica claro e cristalino —- ao mesmo tempo que pouco republicano e nada institucional —- o que o presidente da CPI pensa ser o maior “mérito” do presidente da República.

Se quiser saber mais, ouça a entrevista completa com o senador Osmar Aziz:

Vacina na hora certa teria salvado muitas vidas

Era bem cedo, 6h30 da manhã, quando o doutor João Gabardo já dava explicações na rádio sobre porque São Paulo havia relaxado às restrições ao comércio mesmo diante da informação de que a variante delta está circulando entre nós. Ele é o coordenador-executivo do Centro de Contingência de Combate ao Coronavírus do estado de São Paulo —- grupo que olha para índices de morte, contaminação e internações nos hospitais e avisa ao Palácio do Governo: a coisa está ruim, melhor fechar tudo; não vamos mexer em time que está ganhando porque está estável; ou, o que mais os palacianos gostam de ouvir, melhorou um pouco, pode afrouxar. Nesta semana, afrouxaram: comércio fica aberto até mais tarde, permitiu-se mais gente dentro de bares e restaurantes e se planeja eventos testes.

No mesmo horário — no relógio do Mato Grosso do Sul, que está uma hora atrás em relação a São Paulo —-, o governador Reinaldo Azambuja, atendeu ao telefone para conversar com a gente na rádio e falar de como está a situação do estado no combate a pandemia. No início de junho, Mato Grosso do Sul exportava pacientes com Covid-19 para São Paulo, hoje reduziu número de internações e tem a maior cobertura vacinal de todas as unidades da federação: 24,47% da população recebeu as duas doses. 

Azambuja disse que isso é resultado de diálogo. Eu prefiro traduzir por vacina, que é o que realmente interessa nesta hora:

“O estado está oferecendo incentivos financeiros para os municípios que aplicam mais doses do imunizante, com equipes que trabalham aos finais de semana”

São Paulo tem até agora 14,7% da população com o ciclo vacinal completo. Vai ter de acelerar. E não é para superar o Mato Grosso do Sul. É para impedir que a variante delta impulsione novamente para cima os números de mortes, contaminados e internados em estado grave.

Gabbardo disse que número de óbitos caiu 10,6% na semana passada; de novos casos, 20%; e de novas internações, 10,4%. As UTIs têm folga para atender pacientes mais graves. Na Grande São Paulo, por exemplo, a ocupação é de 62%. Foram esses os dados que permitiram o estado dar uma folga para o comércio. 

Quanto a variante delta —- aquela que surgiu na India —, Gabbardo falou que, primeiro é preciso monitorar e fazer mapeamento genético e, depois, entender como esse vírus se comporta. Lembra que o Reino Unido — onde a variante delta predomina — aumentou a circulação e transmissão do vírus e tem uma taxa de novos casos maior do que São Paulo, no entanto esse aumento não veio acompanhando de crescimento nos casos graves e óbitos. Se em São Paulo, a taxa de mortalidade é de 1,14 pessoas por 100 mil habitantes, no Reino Unido é de 0,03.

“No Reino Unido, a taxa de mortalidade é 38 vezes menor do que no estado de São Paulo, porque as pessoas mais idosas e o público mais vulnerável estão vacinados e a imunização está bem mais avançada”.

Nas duas entrevistas, ouvimos o compromisso de que SP e MS vão aumentar a velocidade da vacinação e espalhar o imunizante para a maior parte da população até o fim de agosto. 

Encerradas as conversas com Gabbardo e Azambuja, fiquei com a convicção de que se comprássemos vacina na hora certa — em lugar de criar dificuldade para ganhar pixuleco — muitas mortes seriam evitadas. Quantas? Não sei ao certo. Dia desses, ouvi, na CPI, o doutor Pedro Hallal, epidemiologista da UFPel, falar em até 400 mil mortes a menos, mas para isso era necessário ter investido de verdade nas medidas de controle, no distanciamento social e na celeridade da vacinação.

Saiba por que o número de pessoas com vacinação completa não passa de 12%, no Brasil

Imagem: Governo do Estado de SP

Todas as vacinas disponíveis no Brasil são seguras e eficazes e, por isso, a turnê realizada por alguns brasileiros em busca do imunizante preferido é inconsequente e egoísta. Foi o que nos disse, nesta manhã, no Jornal da CBN, doutor Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, quando perguntado sobre os sommeliers de vacinas, que foi como passaram a ser chamadas aquelas pessoas que só aceitam tomar vacina de determinadas marcas seja por desconfiarem da eficiência de alguns fabricantes, seja por temerem efeitos colaterais, seja para facilitar acesso a países no exterior. 

Pior do que escolher a marca é se negar a tomar a vacina. Isso é criminoso. 

Apesar de dizer que o “brasileiro gosta de vacina” e oferecer uma visão otimista em relação a adesão ao programa nacional de imunização contra Covid-19, Juarez Cunha teme a ação dos negacionista e mostra que ao deixar de se imunizar você coloca em risco também a vida das outras pessoas:

“Não se vacinar é uma decisão egoísta”

Nem os sommeliers nem os negacionistas, porém, são o motivo de, há duas semanas, o número de pessoas vacinadas com duas doses se manter na faixa de 11 a 12% dos brasileiros.

No levantamento desta noite de segunda-feira, feito pelo consórcio de veículos de imprensa, o Brasil chegou à marca de cerca de 27,3 milhões de habitantes com vacinação completa contra a Covid-19 — esse número corresponde a 12,92% da população nacional.

Juarez Cunha explicou que a despeito de algumas pessoas não terem voltado para a segunda dose —- e isso exigirá uma forte campanha no sentido de mostrar que o ciclo vacinal precisa ser respeitado —, o índice se mantém estável porque atualmente a maior parte das vacinas distribuídas no Brasil exige intervalo de até 90 dias entre a primeira e segunda doses.  

Ao contrário da Coronavac, que prevê intervalo de apenas 28 dias, e foi aplicada em maior número no início da vacinação, atualmente a maior quantidade de imunizastes é da AstraZeneca que, assim como a Pfizer, sugere cerca de três meses de intervalo entre uma dose e outra. Por enquanto, apenas a Janssen, recém-chegada e em quantidade pequena, prevê apenas uma dose.

Ouça a entrevista completa que fiz ao lado de Cássia Godoy, no Jornal da CBN

Falta de vacina em 7 cidades é alerta para quem insiste em escolher imunizante

Foto: Governo do Estado de São Paulo

Escrevi dia desses sobre a turma que faz turismo em posto de saúde em busca da vacina de estimação. Escolhe vacina como se estivesse na gôndola de vinho. A esses que mantém a prática, que sirva de alerta o que acontece em sete capitais brasileiras, desde o início da semana —- cidades em que a vacinação da primeira e, em alguns casos, até da segunda dose teve de ser interrompida por falta de imunizante.

Hoje, entrevistamos no Jornal da CBN, o prefeito da cidade de Aracaju (SE), Edvaldo Nogueira, que acumula o cargo de presidente da Frente Nacional de Prefeitos: foi claro ao dizer que faltarão vacinas em outras capitais, em breve, especialmente naquelas que haviam conseguido avançar mais no calendário. Um dos problemas citados pelo prefeito — além da já sabida gestão incompetente do Governo Federal, que demorou para comprar vacina —- é a falta de previsão de entrega de vacinas pelo Ministério da Saúde. Segundo ele, a informação somente chega um ou dias antes da distribuição na cidade, prejudicando o planejamento:

“Precisamos de um calendário nacional de chegada de vacinas com quantitativo de doses’

Diante dos fatos e dos riscos, o que se entende é que, aqueles que ficarem escolhendo vacina, acabarão sem mel nem porongo — se é que essa expressão, que sempre ouvi do meu pai, faz algum sentido para você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog.

Escrevi agora “sem mel nem porongo” e isso me remeteu a outra expressão, ou melhor, outra história que costumava ouvir no passado. Essa contada pela minha avó, Iva Guartieri.

Toda vez que abria a geladeira para escolher qual fruta pegar e me demorava diante da escolha, vó Iva repetia a lenda da “Escolha da Cruz”, contada na Umbria (ITA), em que um homem se lamentava da vida e considerava pesada de mais a cruz que tinha de carregar. Pedia a Deus que trocasse seu fardo. De tanto reclamar, foi atendido. Deus abriu a porta da sala das cruzes. O homem deixou a dele lá dentro e começou a escolher uma melhor: uma muito grande, outra áspera, havia cruz gelada de mais, quente de mais. A busca durou horas até que o homem deixou a sala feliz com uma cruz que lhe parecia apropriada e foi-se embora para a vida. Deus olhou, sorriu e pensou: “lá vai ele com a mesma cruz que entrou!”.

Assim como escolher qual cruz vamos carregar —- pois cada um tem a sua própria —-, é perda de tempo e risco de vida escolher a vacina. Tome a que estiver disponível e saia do posto de saúde feliz com a vacina que lhe cabe. Até porque, neste caso, nem todos teremos esse privilégio, infelizmente!

Os efeitos colaterais da vacina

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Imagem Gov do Estado de SP

— “Que vacina estão aplicando?”

Foi a pergunta que mais ouvi nos cerca de 30 minutos em que esperei —- ao lado da minha esposa — a oportunidade para tomar a primeira dose da vacina contra a Covid-19. Vacinei em um posto avançado, criado pela prefeitura de São Paulo, em uma escola de classe alta, na zona Oeste da cidade. 

Assim que informados de que a vacina disponível era a fabricada pela AstraZeneca, que chegou ao Brasil em acordo com a Fiocruz, davam meia volta e seguiam em frente — provavelmente ao posto mais próximo, onde repetiram o ato. Desconfio que a reação seria a mesma se dissessem que era Coronavac. A vacina da moda entre os mais abastados é a da Pfizer —- seja porque acreditam que terá menos reação adversa que as demais, seja porque esperam que a aplicação de uma dose da fabricante americana sirva de visto para viagem ao exterior. 

Mesmo para quem fala de gestão de marcas todos os sábados pela manhã com a dupla de especialistas Jaime Troiano e Cecília Russo —- no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso —, e sabe o quanto elas ditam nossos comportamentos, descobrir que vacina têm marcas e com força suficiente para adiarmos a proteção de nossa vida porque não têm a grife preferida na “loja”, me deixou embasbacado. Tive reação adversa maior a essa atitude do que pela marca da AstraZeneca que carrego no braço desde a quarta-feira, ao meio-dia.

Agimos como estivéssemos diante da escolha de uma roupa para vestir ou uma bolsa para comprar:”Chinesa? É falsificada, né!”; “essa inglesa aí não dá nem pra viajar”; “é a americana? meu sonho de consumo, os amigos vão morrer de inveja”. Selecionamos vacina como vinho na adega: “nunca soube que a uva chinesa faz bons vinhos”; “esse inglês, dizem, dá dor de cabeça”; “ouvi falar que o americano é incrível, quero dois!”.  

Quando a Janssen chegar —- aquela que ‘a gente vai estar recebendo dos Estados Unidos não sei quando” —, imagine a maratona em busca de postos que aplicarem a vacina: uma dose só, eficácia que chega a 95%, reações adversas mais intensas desconhecidas e, dizem, abre as portas para o paraíso (se não o paraíso, para os Estados Unidos). 

Faz parecer aquela disputa em festa de madames que põem as roupas de melhor marca, do estilista famoso, e levam no braço a bolsa de luxo pra desfilar na cara das amigas. 

A senhora chega com a sua clutch Lana Marks’Cleopatra de US$ 400 mil, acha que está abafando e de repente vem a frustração. A metida do condomínio entra com uma Birkin da Hermès (US$ 1,4 milhão) a tiracolo. Mas como alegria de rico também dura pouco, a vingança não tarda. A moça da cobertura entra pela porta conduzindo uma Mouawad 1001 Nights Diamond, comprada por imbatíveis US$ 3,8 milhões. Onde será que ela conseguiu?

Como vacina é assunto em tudo que é canto —- ainda bem —-,  fico curioso em ouvir o bate-papo no vestiário da academia entre os senhores marombados. “Tá vendo essa marquinha aqui ó, é Janssen”, diz o coroa de toalha na cintura. “A minha é Pfizer, gostou?”, arrisca o outro enquanto seca os dedos do pé. O gerente da multinacional que estava por ali, vestiu logo sua camisa Lacoste, aquela do jacaré, para ir embora antes que descobrissem, tadinho, que ele só encontrou a Coronavac. 

A saber: a vacinação ocorre por ordem de chegada das doses e não é possível escolher qual tomar. Recusar o imunizante e deixar passar o dia previsto da primeira dose é a abertura de mais uma janela de oportunidade para contrair e transmitir o vírus. É um desserviço à sociedade, porque para controlar a Covid-19 é preciso de alta cobertura vacinal e rapidamente, diminuindo a circulação do vírus e o risco de surgir variantes com maior poder de contaminação, além de conter o aumento da velocidade de pessoas doentes e mortas.

Ao amigo e amiga que usa como argumento a busca por vacinas consideradas mais eficazes, lembre de que do ponto de vista individual a proteção entre uma vacina e outra muda muito pouco.

Todas à disposição no Brasil nos protegem do risco de morrer e diminuem consideravelmente qualquer possibilidade de termos sintomas graves. A eficácia faz sentido aos gestores de saúde que planejam o número de pessoas que têm de ser vacinadas para alcançarmos a imunidade coletiva.

Quanto as reações adversas, algumas pessoas que foram vacinadas disseram ter tido febre, dor de cabeça, indisposição e dor no local onde foi feita a aplicação —- muito pouco para quem até então corria o risco de morrer por contrair a Covid-19. Outras, que estão por aí correndo atrás da vacina da moda, e desperdiçando a chance de se imunizar em troca de um luxo, consta que tiveram o sentimento de egoísmo acentuado nos últimos meses. E para isso não tem cura.

No meu caso, que fui vacinado com a AstraZeneca, porque fiquei na pequena fila que se formava no posto lá da escola, perto de casa, o único efeito colateral que tive até agora —- quase 24 horas depois da primeira dose —- foi uma alegria extrema de saber que estou mais protegido e, em um ato de cidadania, estou ajudando a proteger as pessoas que amo. Uma felicidade que contaminou a família, amigos próximos, colegas de trabalho e ouvintes da CBN, muitos dos quais vibraram quando contei no ar que a vacina acabara de ser aplicada. Que essa felicidade contamine a todos!

Sorria (?), sua carteira de vacinação está sendo filmada

O controle sobre nossos dados ganhou reforço extra nos últimos tempos com a LGPD —- aquela sigla que obriga empresas a dizerem o que fazem com as suas informações. Apesar da força da lei, sabemos que tendemos a ter pouco cuidado sobre nossos dados e cometemos deslizes nos mais simples gestos, já não bastassem os roubos e vazamentos que ocorrem diariamente. 

Hoje, soube de mais uma graças ao alerta da jornalista Rizzo Miranda, da FSB Comunicações, feito em artigo sobre inovação: “criminosos se aproveitam da felicidade daqueles que se vacinam e compartilham a carteirinha na rede”. Chama atenção para o hábito que os brasileiros têm de comemorar —- e devemos mesmo comemorar — quando tomam a vacina contra a Covid-19 registrando em foto ou vídeo sua imagem com a carteirinha de vacinação em mãos. Sem perceber, oferecemos informações a quem não deve. Ou não presta.

De acordo com números da Pfase, que desenvolve soluções de cibersegurança, desde o início do ano, mais de 53 milhões de crimes por estelionato digital foram registrados.

Nessa ficha corrida, encontramos golpes como clonagem de WhatsApp, uso de perfis falsos e fake news — nesta situação usada para vender produtos falsos. Têm ainda os diversos tipos de phishing —- que são métodos para fisgar informações confidenciais, como senhas e número de cartão de crédito. Só com phishing bancários já são 14 milhões de registros. E, claro, que o queridinho dos ciberladrões são os golpes com o PIX.

De volta a inocente e feliz carteira de vacinação. Rizzo Miranda calcula o volume de informação que as fotos espalhadas pelas redes sociais oferecem aos piratas digitais. Até agora o Brasil tem cerca de 54 milhões de pessoas que receberam ao menos a primeira dose da vacina. Soma-se a isso o fato de sermos considerados um dos povos mais sociais do mundo, o que nos leva a ter 99 milhões de usuários no Instagram e 130 milhões no Facebook. “Dá para projetar o estrago que fotos comemorativas de vacinação podem provocar”, escreve.

A recomendação é que você siga comemorando o dia da vacina, mas deixe a carteirinha no bolso.