Avalanche Tricolor: que a benção de Espinosa recaia sobre Marcelo Oliveira

Grêmio 2×1 Coritiba

Brasileiro — Arena Grêmio

Homenagem a Marcelo Oliveira foto LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foram 15 minutos de bom e ofensivo futebol. Tempo suficiente para o Grêmio marcar os dois gols que lhe dariam a terceira vitória em 13 jogos disputados pelo Campeonato Brasileiro. Antes de garantir os três pontos na tabela, ainda assistiu ao adversário marcar duas vezes — um dos gols muito bem anulado com a ajuda do VAR — e oferecer algum risco à nossa defesa.

A emoção da noite ficou reservada para o apito final quando os jogadores se reuniram no meio do campo para homenagear Marcelo Oliveira, que havia substituído Pepê no último minuto. O lateral de 33 anos fazia ali sua despedida dos gramados, pouco mais de um ano depois de ter sofrido grave lesão e ficado em recuperação por longo tempo. 

Marcelo é baiano, de Salvador. Formou-se na base do Corinthians, passou por clubes do interior paulista, e entre idas e vindas  para a capital, foi campeão da Copa do Brasil, em 2009 —- na primeira partida da decisão foi ele quem deu assistência para o gol corintiano contra o Internacional.

Vestiu as camisas do Atlético Paranaense, do Cruzeiro e do Palmeiras, mas foi quando chegou no Grêmio, em 2015, que se reencontrou com os títulos. Como titular da lateral esquerda, raras vezes de volante e se necessário atuando dentro da área, Marcelo assumiu posição de liderança de um dos grupos mais vencedores da história gremista. 

Mesmo quando seu futebol era questionado diante de atuações irregulares, tinha seu papel de líder exaltado pelo técnico Renato e seus colegas de equipe. Dizem que o comando sobre o elenco no vestiário o levou a essa posição. E foi extremamente importante para manter unida uma equipe que foi campeã da Copa do Brasil, em 2016; da Libertadores, em 2017; da Recopa Sul-Americana, em 2018; e tri-campeão Gaúcha, de 2018 a 2020. 

Sua capacidade em mobilizar os colegas e a proximidade com Renato —- com quem muitas vezes vimos trocando observações enquanto esteve no banco de reservas, ao lado do técnico —- certamente inspiraram a diretoria do Grêmio a convidá-lo a ocupar o cargo de coordenador técnico.

Ao fim do jogo, em entrevista ainda com os olhos marejados pela emoção, Marcelo declarou seu amor ao Grêmio:

É muita emoção falar nesse momento, por tudo que representa para mim estar no Grêmio. Desde que cheguei, na primeira coletiva, falei que estava realizando um sonho. As pessoas mais próximas a mim sabem há quanto tempo tinha esse sonho. 

Que Marcelo seja capaz de transferir para a função técnica o mesmo voluntarismo e liderança que revelou enquanto esteve em campo. E seja abençoado no cargo por aquele que substituirá: Valdir Espinosa —- saudoso e querido Espinosa — que também foi lateral como Marcelo, conquistou o Mundial como técnico do Grêmio e na última passagem pelo clube atuou na função de coordenador, que esteve vaga até esse momento.

Avalanche Tricolor: a homenagem a Valdir Espinosa

 

 

Grêmio 3 x 0 Juventude
Gaúcho — Arena Grêmio

 

 

49600475276_443bc1c7bc_c

O luto por Espinosa em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPS


 

 

Havia algo especial naquele ambiente. E não era o fato de a partida se iniciar às 11 da manhã, em um sábado pós-Carnaval — coisa rara e justificável diante das prioridades do nosso calendário futebolístico, em 2020. Nem mesmo a escalação proporcionada por Renato com três dos reforços contratados este ano formando o time principal: Caio Henrique, Orejuela e Thiago Neves, que se juntaram a Vanderlei, Lucas Silva e Diego Souza —- estes últimos também novos no elenco mas que já vinham atuando há mais tempo entre os titulares.
 

 

Meu olhar a cada instante se perdia da bola que era trocada com habilidade, no gramado bem acabado da Arena, atraído pelas homenagens a Valdir Espinosa, que morreu aos 72 anos, na quinta-feira, após complicações pós-operatória, no Rio de Janeiro. Havia trapos estampando o rosto dele e faixas estendidas com mensagens de carinho, pelas arquibancadas. Em campo, nossos jogadores ostentavam a braçadeira de luto com a imagem de Espinosa e os dizeres “Eterno Campeão”. Na casamata, Renato vestia a camisa com o número 72 às costas e o agradecimento no peito: “Obrigado Espinosa”.
 

 

49599979153_b00ff6ca9f_c

A homenagem de Renato em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA


 

 

Temos muito a agradecer a Espinosa. Nos deu o maior de todos os títulos que poderíamos sonhar. Foi o técnico campeão do Mundo, em 1983. Antes, já havia nos feito campeão da Libertadores e comandado a equipe em partidas épicas que forjaram nossa identificação com a Imortalidade.
 

 

Em 2017, quando tive oportunidade de conversar com ele pela última vez, em entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN, demonstrou uma das suas grandes habilidades em vida: contar histórias. Seus títulos, seus feitos e sua experiência por si só eram gigantescos —— pergunte ao torcedor do Botafogo e do Cerro Portenho —-, porém quando contados por ele próprio tornavam-se ainda mais extraordinários.
 

 

Screen Shot 2020-03-01 at 12.29.26

O dia em que tive o prazer de entrevistar o ídolo, reprodução ESPN


 

 

Espinosa era ser humano especial. Tratava as pessoas com carinho. Era simpático e divertido. O admiro desde criança quando meu pai, pelas mãos, me levava ao estádio Olímpico para ver o Grêmio treinar, no início dos anos de 1970. Era uma época em que arriscava chutes e caneladas jogando na escolinha de futebol gremista na mesma posição que ele, lateral. Mais tarde, quando foi técnico, entre os anos de 1982 e 1984, compartilhava com o pai seu conhecimento estratégico em montar equipes.
 

 

Para chegar ao título de 1983, por exemplo, Espinosa foi inteligente ao perceber que a maneira como o Grêmio jogava era semelhante ao do seu adversário na final, o Hamburgo, e por serem os alemães mais bem preparados fisicamente do que os brasileiros teríamos de surpreendê-los. Foi quando decidiu, com a diretoria do Grêmio, liderada por Fábio Koff, contratar jogadores com a habilidade de Paulo César Caju e Mário Sérgio, que dariam ainda mais talento ao nosso meio de campo, conseguiriam segurar a bola e conter a correria do adversário, oferecendo espaço para que Tarciso e, especialmente, Renato brilhassem lá na frente.
 

 

Quando Espinosa e o pai se encontravam, havia quase que um ritual: o pai o chamava de Alan Delon, devido a aparência física e os olhos azuis que sempre foram marcantes; e Espinosa engrossava ainda mais a voz para imitar o grito de gol-gol-gol que marcou a carreira do pai. Eu, orgulhoso e em silêncio, assistia ao encontro dos meus dois ídolos.
 

 

Hoje, nenhum deles está mais por aqui. O pai morreu ano passado. Espinosa na semana que passou. Os dois me deixam saudades. E o Grêmio, como ponto a unir nossas lembranças.