De achismo

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Foi amizade à primeira vista. Eu esperava pelo elevador de serviço, com a Valentina, para caminharmos lá em baixo, e para esticarmos as patinhas, namorando o Mar, mas ele não chegou vazio. O elevador. Elas estavam lá. Mônica e sua filha com um sorriso e um batom vermelho de arrasar quarteirão. Eu não as conhecia. Perguntei se se importavam que minha Valentina entrasse – quem a conhece sabe que ela é sedutora até não poder – e elas imediatamente agacharam para brincar com ela. Imagina, amamos cachorros; responderam.

 

Começou o papo.
Contei a elas que antes da Valentina eu jamais imaginava ter um cachorrinho. Tive cachorros grandes, que ficavam do lado de fora da casa e faziam a ronda nos protegendo, ou eu assim acreditava. Nosso contato não era próximo. O Doberman, que ficava no sítio, era alto e forte, e um pulo dele em mim seria um desastre, mas era eu que cuidava dele e o alimentava. Nosso relacionamento era muito bom, e ele era muito gentil comigo. Fazia festança com os maiores e mais fortes, lambia meus filhos que quase caiam de tanto rir e baixava a cabeça quando vinha me encontrar, para que eu lhe fizesse uma coleirinha na cabeça.

 

Contei também que quando eu via na rua alguém levando seu cachorrinho passear na calçada ou no parque, eu ‘achava’o ó! Sem preconceito, mas não podia me imaginar naquela situação. Eu? Nem pensar! Cachorro dentro de casa? Quarto? Cama?????

 

Isso foi assim, até a Valentina me encontrar, pular no meu colo, colocar seu inexistente focinho no meu pescoço (é uma Shi Tzu) e me conquistar para todo o sempre. Ela faz de mim, a cada dia, uma pessoa melhor.

 

E o papo incendiou e continuou na barraca da praia mais tarde: encasquetamos com o verbo ‘achar’e chegamos à conclusão de que está aí um verbo, num de seus sentidos mais populares, que deve ser mantido longe, ou de preferência aniquilado logo de uma vez.

 

Personagem 1: – Viu como ela anda de nariz empinado?

 

Personagem 2: -Vi e ‘acho’ que ela ‘acha’ que é melhor do que os outros.

 

Realidade: Ela se submeteu a uma cirurgia na coluna e ao se curvar, sente dor.

 

Pronto. Decretamos nossa ação contra o ‘achismo’

 

E você, ‘acha’ muito?

 

Pense nisso, ou não, e até breve.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De cair a ficha

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

Preparando o almoço, mantive um olho na faca e outro na Valentina e, como sempre, aprendi com ela.

Valentina come um prato de ração e uns dois biscoitinhos caninos por dia divididos ao longo do dia. De manhã come meia maçã dividida em quatro pedaços. É um ritual gostoso, divertido; enquanto preparo o café da manhã, dou a ela um a um os quatro pedaços. Quando corto a maçã ela vem se chegando, senta perto de mim de frente para o balcão da pia, sem dar um pio, me olha sem piscar e sem mexer, dos lindos cabelos, um fio. Eu ofereço um pedaço, ela se levanta, se apoia nas patinhas traseiras, se estica e delicadamente recebe a maçã da minha mão; então se vira e vai para a sala, deita na caminha de lá e roc-roc. Terminado o primeiro pedaço ela volta, e o ritual se repete; mas ela não volta depois do quarto pedaço. Eu me encanto e penso que ela é melhor do que eu na relação com números! Além desses hábitos, quando preparo alguma coisa e corto tomate ou manga, ela sente o cheiro – adora tomate e manga!! – se põe perto de mim, sentadinha, olhando para cima na esperança de um pedaço e sempre recebe um agrado. Geralmente mais de um.

Agora, tem vezes em que estou preparando outra coisa, como hoje, quando eu cortava uma berinjela em cubinhos, ela, mesmo sem sentir o cheirinho característico do que gosta, e sabe que eu dou, se planta ali e fica de guarda. Patrulha a pia. Eu digo as palavras mágicas: não tem nada, não pode, vai brincar, e ela se vira, faz menção de sair e volta. Se põe um pouquinho mais longe, mas fica ali olhando para mim. Vai que…

E eu fiquei ali encantada, sorrindo feito boba, porque me dei conta da tenacidade dela, da esperança, da fé inquebrantável num bichinho tão pequeno, que dizem não pensar.

O cachorro é tão condicionável quanto nós, certo? Posso ir até a pia e cortar o que for, que ela fica por perto mesmo tendo ouvido as palavras mágicas que querem dizer: vai para a tua caminha que aqui não tem nada para você. Ela entende, não pede coisa nenhuma, mas fica ali, alerta. Vai que…

Então eu sorri, e sorrio até agora quando lembro da caída de ficha desta manhã, e me dou conta de que somos muito mais frágeis do que ela. Desistimos fácil. Quantas vezes desistimos antes mesmo de tentar. E com isso a gente perde, perde, perde. Dali viajei, repensando minha vida, e não paro de sorrir. Devo estar no caminho certo. O que você acha?

Pense nisso ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung