O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche já leu textos em que descrevi cenários que encontramos nos jogos do campeonato gaúcho. Arquibancadas precárias e torcedores amontoados na laje de casas vizinhas para assistir aos jogos. Vestiários em que mal cabem o elenco completo durante a preleção dos treinadores. E gramados esburacados e impróprios para futebol.
Hoje, acrescentamos mais um elemento nesta várzea: um clássico da dimensão do Gre-nal sem o recurso do VAR. Responsabilidade daqueles que no início da competição aceitaram essa regra esdrúxula e ultrapassada. Aos desavisados, a explicação: os clubes que disputaram a competição decidiram que não haveria o recurso eletrônico em nenhum jogo da primeira fase por uma questão financeira.
Soube-se que no meio da semana, os dirigentes da dupla Gre-nal teriam aceitado pagar a empresa responsável pelo VAR, chegaram a depositar o dinheiro na conta, mas enquanto os funcionários se deslocavam para Porto Alegre foram informados que o recurso não teria sido autorizado. Até agora não entendi se isso se deu porque não houve unanimidade entre as demais equipes, o que era uma exigência do regulamento.
O fato é que em um estádio de Copa do Mundo, com a presença das duas maiores torcidas do Rio Grande do Sul, a do Grêmio e a do Inter (necessariamente nesta ordem), com equipes que fazem investimentos milionários e capacitadas a oferecer um futebol de qualidade, fomos obrigados a assistir a um jogo em que não cabia revisão às decisões de campo do árbitro que, como se sabe cada vez mais, é limitado na sua atuação – e aqui não estou sequer entrando no mérito da qualificação deste que apitou a partida, pois é considerado um dos melhores que temos no país. Uma várzea!
A despeito disso, ao Grêmio cabe entender o que motivou a derrota deste início de noite, em Porto Alegre, e, principalmente, coloca-lá na devida dimensão. Primeiro, identificar seus pontos positivos e enaltecer a impetuosidade de Gustavo Nunes que, não podemos esquecer, tem apenas 18 anos e joga como gente grande. Depois, ajustar a marcação em uma faixa do gramado em que saíram os dois gols e o pênalti fatídico. E, finalmente, conscientizar-se de que esse resultado significa praticamente nada na missão maior que é ser heptacampeão desta várzea!
Pepê disputa jogada no ataque, em flagrante de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA
Dois colegas na mesa de debate começaram os trabalhos criticando as críticas gremistas ao árbitro e a utilização do VAR ouvidas ao fim da partida desse sábado à noite. A crítica contra os críticos veio ilustrada por um lance logo no início do jogo em que Pepê caiu dentro da área quando recebia a bola em direção ao gol. Os dois decidiram em comum acordo em favor do árbitro. “Lannnnce leeegaaaal — teriam gritado se fossem Mario Vianna, ex-árbitro e primeiro comentarista de arbitragem que trabalhou na Globo e na Tupi, nos anos de 1960.
(Para ser preciso —- antes que alguém peça para conferir no VAR, ops, no Google —-, o grito de Vianna era “goooool leeegaaaal”)
Sim, comentaristas de árbitro existem desde aquela época, apesar de terem ficado famosos mesmo com a chegada da função à televisão, em 1989, quando o árbitro Arnaldo César Coelho foi convidado por Armando Nogueira, diretor de jornalismo da TV Globo, a assumir a função. Foi da parceria de Arnaldo com Galvão Bueno que surgiu outro bordão marcante nas narrações esportivas: “pode isso, Arnaldo?”, momento em que o ex-árbitro esclarecia o que havia acontecido no lance.
Hoje é comum todos os programas esportivos contarem com a presença de ex-juízes de futebol comentando os lances mais polêmicos — alguns difíceis inclusive de tomar uma decisão após ser visto por vários ângulos, o que sempre leva à inocência o árbitro de campo. Na Justiça se diria “in dubio pro reo”. No futebolês: se na tela da TV já foi difícil de decidir, imagine no calor da partida. Verdade que com a tecnologia à disposição, auxiliando nos momentos em que a regra permite, a vida do árbitro no gramado ficou mais fácil. Caiu na área, teve dúvida, o VAR confere e se suspeitar de irregularidade, chama o árbitro de campo para assistir na casinha; caiu na área, o árbitro marcou, o VAR discordou, chama para o cantinho e entram em acordo.
Na partida desta noite, a turma do VAR não estava muito afim de trabalhar —- foi a impressão que tive (ou foi a pressão que os cartolas do adversário tinham feito na semana, a ponto de a escalação da arbitragem sofrer mudanças pela CBF?). Nem tanto pelo lance de Pepê, que por ter ocorrido fora da área, apesar dele ter caído dentro, não existe motivo de revisão do VAR, mesmo que o árbitro tenha se enganado na marcação. Esse é o típico lance em que o erro é do árbitro e o VAR não pode salvar. Mas houve erro? Para os comentaristas de futebol, lembrados no primeiro parágrafo desta Avalanche, não. Tanto que usaram o lance para justificar as críticas que faziam aos críticos gremistas. Usaram o lance errado. Durante a partida, o comentarista de árbitro Sandro Meira Ricci havia sido taxativo: foi falta, fora da área e passível de cartão vermelho porque Pepê seguia em direção ao gol.
O lance em que o VAR não trabalhou —- e que me deu a impressão de que a turma da cabine estava incomodada por já ser tarde da noite, em São Paulo, e a temperatura estar baixa, pensando que seria muito melhor estar em casa com a família e sem sofrer pressão da cartolagem — foi outro, bem distante daquele, no outro lado do campo e no segundo tempo. Refiro-me a falta que teria ocorrido sobre Geromel em uma bola alçada na área adversária. Nosso zagueiro que raramente recebe cartão amarelo, perdeu a pose, reclamou de nada ter sido sinalizado no momento da jogada e sequer ter havido revisão do VAR.
(Que fique claro, só tem revisão se aquela turma da cabine chama — aquela que eu desconfio não estava muito disposta a fazer sua tarefa no jogo por frio ou por medo. Ou seja, nem o juiz viu em campo nem o VAR, na cabine)
A jogada que foi esquecida pelos críticos dos críticos, e não foi vista nem pelo árbitro nem pelo VAR, segundo Sandro Meira Ricci também foi ilegal. Para ele, Geromel foi derrubado, deveria ter sido sinalizado pênalti e como não o foi, o VAR teria de ter alertado o árbitro. Nem uma coisa nem outra. O juiz Rafael Traci fez cara de bravo, mandou seguir o jogo e na primeira parada puniu a crítica de Geromel com o cartão amarelo.
Além do amarelo de Geromel — que mesmo com razão, exagerou na reclamação —-, Kannemann também foi amarelado em outro lance no qual o VAR não podia interferir e em que o juiz decidiu punir a vítima. Na cobrança de falta quase na linha da área, a barreira adversária claramente avançou, o juiz mandou voltar o lance, e a barreira continuou avançando, tanto que o árbitro insistia para que voltasse à posição correta. Desrespeitado, em lugar de amarelar o homem base da barreira —- como manda a regra —, destinou o cartão ao zagueiro gremista que reclamava para a regra ser cumprida.
Evidentemente que estou dedicando esta Avalanche a falar de comentaristas e de arbitragem porque o futebol ficou em dívida com o torcedor, mesmo que o Grêmio tenha sabido desarmar a principal arma do adversário, depois de sofrido muito nos primeiros 20 minutos de jogo para segurar o toque de bola rápido e envolvente do time da casa. Tivéssemos marcado em alguns dos lances de ataque e saído de campo com os três pontos, meu olhar agora estaria brilhando de alegria, o que se refletiria neste texto. Não foi o que aconteceu, então decidi compartilhar com você, caro e raro eleitor desta Avalanche, meu mau humor com os comentaristas —- que, aliás, admiro muito —- e com os árbitros —- destes, confesso, nunca fui muito fã.
Sem bom futebol, me restou criticar a critica aos críticos. Pode isso, Sandro?