Conte Sua História de São Paulo: as chácaras e campos de várzea da Berrini

 

Por Umberto Canônico Filho
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Quando nasci, São Paulo ainda estava de ressaca pelo seu IV centenário. Nasci na maternidade Matarazzo, hospital de referência da época, que hoje é só uma lembrança. Não existe mais.

 

Meus primeiros anos foram no tradicional bairro da Lapa, mas a grande parte da minha infância e juventude foi no bairro do Campo Belo.

 

Dá para acreditar que onde hoje estão as Avenidas dos Bandeirantes e Luiz Carlos Berrini – novo centro de negócios de São Paulo – havia apenas pequenas chácaras, onde se criavam até cavalos, e os campos de futebol de várzea, hoje quase que extintos.

 

Nesta época, frequentava o primário no Grupo Escolar Mário de Andrade e o percurso da minha casa ate lá era feito por, acreditem, bondes elétricos – lentos, mas silenciosos e não poluentes.

 

Ah, que saudade dos passeios no centro da cidade, quando minha mãe me levava nas lojas Clipper, na Casa Eduardo e no inesquecível Mappin, onde os ascensoristas recitavam em quase versos os produtos que compunham cada um dos andares da loja.

 

Bons tempos do ginásio no Instituto Ênio Voss na hoje Av Jornalista Roberto Marinho, mas naquela época apenas um córrego que margeava o caminho até minha casa.

 

Saudades também das catacumbas do Curso Objetivo, na Av. Paulista, que me levaram a frequentar a mais paulistana das universidades – a USP. Lá me formei e fui conhecer novas paragens – onde fui muito feliz também, mas como diz o ditado: “o bom filho a casa torna”. Eu voltei e hoje já avô levo minha neta a passear, não de bonde nem até o Mappin, mas pelos ainda recantos desta cidade mutante.

 

Umberto Canônico Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: futebol na cabeceira da pista

 

Por Omar Ayub
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Em 1969 mudei da Alameda Barros, 164 (vizinho de fundos da Rádio Globo da rua das Palmeiras), para um bairro longe do centro: Jardim Aeroporto e me tornei o mais novo vizinho do Aeroporto de Congonhas. Para um garoto de 11 anos essa proximidade foi espetacular. Já adianto que apesar do fascínio pelos aviões  não me tornei aviador, piloto ou qualquer profissional ligado a área. Estudei na Escola Estadual de 1º Grau Congonhas (depois denominada Prof.ª Ilka J. Germano) e após na Escola Estadual de 2º Grau Padre Manuel de Paiva. Hoje, somente os edifícios existem, servindo a outras atividades pois as escolas foram fechadas, segundo as autoridades da época devido a baixa procura dos moradores do bairro. Passo pelos prédios e me lembro das salas de aula, dos colegas, da sirene, dos professores e das aventuras que vivíamos na década de 1970. Mas o que gostaria de contar mesmo é de outro lugar que não existe mais.

 

Vizinho a atual Av. dos Bandeirantes e bem “debaixo” da cabeceira da pista do aeroporto na Av. Washington Luís, existia um campo de futebol de várzea, sem um centímetro quadrado de grama, pura terra. Nós garotos que usávamos esse campo o apelidaram de Campão. Não sei se era grande mesmo ou se parecia enorme devido ao nosso tamanho. Acordávamos cedo, aos sábados, para sermos os primeiros a usá-lo, pois a procura era grande e a fila para jogar maior ainda. Enquanto corríamos atrás da bola parávamos de quando em quando para observar os aviões que passavam por cima de nossas cabeças. Parecia que bastava levantar as mãos para tocá-los. Sábados à tarde e aos domingos, o Campão recebia os times de várzea e ficávamos junto a uma torcida numerosa e animada observando e admirando aqueles jogadores uniformizados.

 

O tempo passou muito rápido, a demanda por voos também e a pista do aeroporto precisou ser aumentada. A ampliação custou os sonhos de muitos jogadores e o Campão deixou de existir. Passo todos os dias pela Av. Washington Luís, lembro-me do posto Shell, que já estava lá desde 1969 e foi atingido pelo avião da TAM. Lembro-me das chácaras do bairro que forneciam verduras e legumes e onde hoje existem casas e prédios, mas, principalmente, lembro daqueles garotos que corriam atrás da bola, vibrando, rindo, gritando, sorrindo, xingando…

 

Lá se vão mais de 40 anos e ainda hoje vejo o Wellington, o Antônio, o Paulo, o Claudio Bento, o Augusto, o Mauro Japonês, o Gladstone disputando a bola com a única preocupação de sermos felizes e aproveitarmos aqueles momentos mágicos no Campão, que já se foi.

 


Você pode participar do Conte Sua História de São Paulo enviando texto para milton@cbn.com.br ou agendado entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Como se elege um vereador

 

Gráfico mostra a influência do vereador em cada uma das regiões

Gráfico mostra a influência do vereador em cada uma das regiões

 

O investimento nos campos de futebol de várzea, projeto que poderia se transformar em apoio a prática do esporte e incentivo as atividades de entreterimento nas periferias desasistidas da capital, se confunde com a estratégia eleitoral de vereadores e candidatos a tal, em São Paulo. Reportagem do Estadão de domingo, assinada pelos jornalistas Bruno Paes Manso e Diego Zanchetta, mostra que a prefeitura desembolsou cerca de R$ 800 mi, desde 2007, para recuperar mais de 300 campos, 1/4 dessa verba saiu de emendas parlamentares.

Das muitas frases das cinco reportagens publicadas em duas páginas, uma me preocupa em especial: “Alguns líderes comunitários, contudo, reclamam que atualmente só conseguem melhorias quando se comprometem com parlamentares”. No momento em que a construção e recuperação dos campos estão relacionadas ao apoio de vereadores, todos os objetivos do programa ficam desvirtuados. Contamina-se uma prática que deveria ser incentivada.

O Orçamento é público e a este deve servir, única e exclusivamente. No momento em que sua execução se torna refém dos desejos de vereadores, torna-se privado.

Deixarei aqui os links das duas reportagens que estão abertas ao público:

“Investimento público na várzea reforma 300 campos em três anos”

Para Prefeitura, grama fica até 40% mais cara

E reproduzo trecho do artigo “O que mantém o clientelismo vivo”, do professor Fernando Antonio Azevedo, cientista político e docente da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que, infelizmente, está bloqueado e apenas pessoas cadastradas podem acessá-lo:

… Como tudo isso funciona? Na elaboração do Orçamento, o parlamentar destina verbas para atender sua base eleitoral. Como o Orçamento no Brasil não é impositivo, mas autorizativo, o Poder Executivo ganha grande margem de manobra para barganhar apoio político com os parlamentares: emendas são liberadas quase sempre de acordo com conveniências e necessidades políticas do governo. E o parlamentar aparece diante da sua clientela política como patrono dos benefícios.

É por isso que São Paulo terá mais de 622 campos para a prática do futebol de várzea. Isso pode não nos tornar uma potência olímpica, mas levará os políticos ao pódio eleitoral.