Bem feito para quem insiste com essa tal “terceira idade”

 

Por Milton Ferretti Jung

 

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“Não existe terceira idade. Idade é algo contínuo”.

 

Surgiu,finalmente,uma pessoa que foi capaz de proclamar, alto e bom som,que a mania que os mais jovens têm de considerar quem atinge determinada idade ter chegado à terceira de sua vida é um erro. A frase que reproduzi na abertura deste texto foi pronunciada por um médico cuja competência para falar – e tratar,como não? – de um assunto sobre o qual é um dos maiores,senão o maior dentre todos os especialistas no seu ramo – a geriatria – é incontestável.

 

Chamou-me a atenção a manchete de Zero Hora que encaminhou a entrevista de Luisa Martins com o Professor Yukio Moriguchi. É uma pena,mas este cidadão nascido no Japão faz 89 anos, vai se aposentar após formar centenas de médicos e revolucionar a especialidade que tornou o seu nome famoso no Brasil e no mundo.

 

O reitor da PUC,na qual o médico lecionou durante 45 anos e considerava a sua segunda casa, o irmão Joaquim Cortet, anuncia que Moriguchi receberá, durante o 16º Simpósio Internacional de Geriatria e Gerontologia, o título de Professor Emérito. Esta é a maior honraria acadêmica fornecida aos professores aposentados que atingiram alto grau de projeção em sua atividade.

 

“Se Deus me desse uma segunda chance de nascer, eu iria escolher ser professor de novo”. Doutor Moriguchi, autor também dessa frase, acorda às 4h30min para preparar aulas e revisar o conteúdo de suas palestras.Não esquece de sua mulher Lia,para a qual deixa sobre a mesa um copo de chá gelado. Ela,que acorda às 8h, quando o Professor já se encontra no seu consultório.

 

Aos seus pacientes, ele pergunta, antes de mais nada,”em que pode ajudar”. Eu lhe perguntaria,mesmo sem ter sido um de seus pacientes, por que motivo os mais jovens tacham os mais velhos de uma coisa que para Moriguchi não existe,isto é,a “terceira idade”.

 

Bem feito para quem teima em usar,como se fosse um elogio, esta maldita expressão!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Elsa e Fred: para pensar sobre a única certeza da vida

 

 

Por Biba Mello

 

FILME DA SEMANA
“Elsa e Fred Um Amor de Paixão”
Um filme de Marcos Carnevale.
Gênero: Amor.
País:Espanha/Argentina

 

Dois senhores se apaixonam… Elsa é cheia de vida e Fred rabugento e melancólico. Fred é o novo vizinho de Elsa e ele acabou de perder a esposa. A urgência pela vida é grande. Os dois não terão um futuro juntos. Querem viver o momento; cada um a seu modo.

 

Por que ver:
É um daquele filmes que te leva a uma reflexão profunda sobre nossas vidas seja qual for o momento dela. Nos leva a pensar sobre a única certeza que insiste em estar presente a cada resfriado que pegamos… a morte. Será que estou inteira em minha vida, no meu trabalho, com meu marido e filho, amigos? Cada vez que assisto a este filme, me dá uma vontade louca de viver, um momento Carpe Diem total.

 

Existem duas versões do filme, uma mais atual, com um de meus atores favoritos na pele de Fred, Christopher Plummer, e, interpretando a Elsa, a Shirley Maclaine; e a versão argentina que foi a que eu vi. Portanto, estou falando da versão original, ok?
Nessa, a atuação do casal é tão soberba, precisa e tocante, que a cada olhar e a cada gesto nos faz estar na pele daquele personagem, expondo nossa própria história com uma crueza cortante. É aí que fica evidente o quanto este filme/roteiro foram construídos em cima do talento destes atores que são capazes de nos despirem com suas atuações.

 

Como ver:
Com alguém bom de papo. A conversa vai durar por horas.

 

Quando não ver:
Se você tiver menos de 10 anos(classificação do filme), no mais, vale tudo.

 


Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Aqui no Blog do Mílton Jung, sempre disposta a oferecer uma boa sugestão para você

Estatuto do Idoso faz 10 anos precisando se renovar

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Ontem, o Estatuto do Idoso completou 10 anos. Um avanço, de lei e de execução, embora ainda falte muito para que tenhamos efetivamente um tratamento ideal aos idosos. Nem mesmo o principal protagonista, o deputado Paulo Paim (PT/RS), autor do projeto de lei que originou o Estatuto do Idoso, pelo que observamos através da mídia, deixa de identificar um longo caminho à plenitude do trato ideal aos idosos. Há acertos a fazer na lei, na operação e na cultura geral.

 

A lei precisa atualizar a matemática demográfica, pois 60 anos é prematuro para conceituar idoso no mundo de hoje. Talvez 70 anos seja a melhor definição genérica. Pois específica nem tanto, se olharmos alguns espécimes como a turma do Rock’n’Roll, de Paul McCartney e Mick Jagger, ou os compositores e cantores brasileiros Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Roberto Carlos, todos na faixa dos 70.

 

Essa contextualização do Estatuto é fundamental para o equilíbrio do sistema. Tanto no aspecto de ressência quanto no atuarial, pois contribuiria para diminuir o déficit do sistema previdenciário. Ao mesmo tempo é preciso uma blindagem permanente à demagogia, tão comum em época de eleições. Agora mesmo está no Congresso um projeto para reduzir o período de aposentadoria de trabalhadores da construção civil, de frentistas, de garçons e de cozinheiros para 25 anos.

 

Ao mesmo tempo em que alguns itens do Estatuto são cumpridos, como nas áreas sociais, culturais e de medicação, ainda encontramos enormes necessidades não atendidas. Os planos de saúde não respeitam o Estatuto e aviltam os custos ao condicioná-los exclusivamente ao universo do idoso sem compensar com as demais faixas etárias. A burocracia estatal é gigantesca e alguns setores ainda não dão a prioridade necessária. Tributar a aposentadoria é algo inexplicável, bem como reduzir os reajustes da pensão, punindo severamente os longevos. Enquanto crescem as necessidades, decrescem as pensões. Nem mesmo a restituição do imposto de renda prioriza os idosos, embora a fala oficial a proclame.

 

O idoso não quer caridade, quer humanidade. Dando condições ativas poderá contribuir com a experiência que contará sempre positivamente.

 

Que tal começarmos pela mudança do símbolo? 60 anos com bengala?

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

 

A imagem acima faz parte de campanha “A Nova Cara da 3ª Idade” da agência Garage com apoio da ItsNOON, Catarse, Enox e Update or Die

O seguro morreu de velho

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O meu pai, seu Aldo, como preferia ser chamado, comprou o seu primeiro carro em 1937. Como nasci em 1935, não posso dizer que lembro desse automóvel. Conheci-o em fotografias, lamentavemente desaparecidas na poeira do tempo. Tenho uma vaga ideia de que o carrinho, com os seus dois cilindros, recusou-se a subir uma lomba em uma estrada de terra. Faltou-lhe força. A Segunda Guerra estava por começar quando papai trocou o DKW por um Chevrolet 1939, zero quilômetro, importado, como todos os automóveis daquela época, dos Estados Unidos. Desse tenho, até hoje,boas lembranças fotográficas, guardadas com saudade. Em uma dela, apareço já grandinho, junto com minha irmã, sentada sobre o capô.

 

Não sei qual era a quilometragem do Chevrolet quando o meu pai decidiu o colocar na garagem da nossa casa, sobre quatro cavaletes. Houve que preferisse usar o que chamavam de gasogênio, uma traquitana danada que substitua a escassa gasolina. Já o motor do carro do meu pai era ligado seguidamente a fim de evitar que sofresse danos com a longa paralisação. O meu querido velho acreditava piamente que, ao final da guerra, o preço dos automóveis não fosse subir. Mas aumentou de maneira considerável. Não tenho a mínima ideia de quanto obteve com a venda precipitada do Chevrolet.

 

O Citroën, terceiro carro do meu pai, veio da França, de navio. Era para ser negro brilhante. Aliás, como os primeiros Ford, nunca se viu um Citroën que não fosse, originalmente, preto. O revendedor da marca, explicou que a mão definitiva de tinta seria dada tão pronto o produto desembarcasse em Porto Alegre. Isso acabou caindo no esquecimento. Fosse hoje em dia e, no mínimo, a revenda iria se incomodar com o PROCON. Pintura à parte, o Citroën foi o primeiro automóvel que dirigi. Papai o adquiriu quando eu estava internado no Colégio São Tiago, em Farroupilha, na Serra gaúcha. Fui surpreendido com a visita do meus pais que foram me apresentar o francesinho. Ele acabou sendo o meu primeiro carro, depois de passar vinte anos na casa paterna. O seu Aldo o vendeu para mim em um negócio de pai para filho, isto é, sem juros. Precisei reformá-lo de cima para baixo. Saiu caro.

 

Após o Citroën, o meu pai passou a trocar de carro com mais frequência. Teve uma coleção de Fucas. O último, um 1966, quem herdou foi o meu caçula, o Christian. Hoje,ele tem um Fusca apetrechadíssimo. Já eu, sempre que papai comprava um Fusca zero km, ficava com o usado. E era um excelente negócio. Todos tinham baixa quilometragem. Só não consigo recordar a partir de qual automóvel passei a fazer seguro. A propósito de seguro-auto, fiz todo o intróito que se viu acima (se é que alguém enfrentou tal sacrifício), vou relatar a surpresa que tive ao renovar, faz uma semana, o do meu Beetle.

 

Depois de saber qual o preço do seguro, o moço do BB, que me ligou para acertar a renovação, disse-me que eu teria direito, em saídas noturnas, se houvesse ingerido bebida alcoólica ou, simplesmente, não estivesse disposto a dirigir, bastava ligar para determinado número de telefone para pedir que um táxi me buscasse. Tratava-se de um serviço gratuito, uma cortesia inesperada. Aí, o moço do Banco do Brasil lembrou-se de perguntar o ano do meu nascimento. Disse-lhe que era 1935. O rapaz ficou sem jeito e titubeou ao tentar explicar que, lamentavelmente, a cortesia valia somente para quem tivesse até 70 anos. Minha primeira reação foi dar uma risada. Desliguei o telefone e cai em mim. Por que será que pessoas com mais de 70 anos são discriminadas pela seguradora? Creio que os mais idosos teriam, inclusive, mais direito de se valer da “cortesia”.