No diálogo do silêncio, uma lição de vida

Por Beatriz Breves

Era uma tarde de domingo quando fui visitar algumas senhoras muito idosas no Amparo Thereza Christina, instituição filantrópica fundada em 1924 para acolher a velhice desamparada. Acontecia um baile vespertino, onde um rapaz, tocando órgão eletrônico, cantava, convidando as senhoras a dançarem.

— Tem dias que dá uma dor no peito, que não dá vontade de fazer nada! Essas palavras vieram de Rosa. Disse e, assim como falou, calou-se em um silêncio profundo.

Sem saber o que fazer, afinal, eu nunca estivera com ela antes, coloquei minha mão sobre seu ombro. E fiquei ali.

O rapaz continuava a cantar músicas que, se não me engano, eram do tempo de minha avó. Algumas senhoras dançavam, outras apenas observavam, e algumas dormiam profundamente. Arrisco dizer que a média de idade era de 85 anos.

Depois de um tempo, Rosa voltou a falar, com um tom sofrido:

— Acho muito triste a cadeira de rodas

Havia várias senhoras em cadeiras de rodas. Mas, bem à nossa frente, uma delas chamava atenção: tão magra que era possível quase ver seu esqueleto. Devia ter mais de 90 anos.

Disse a Rosa que tudo dependia do ponto de vista: se não houvesse cadeiras de rodas, muitas daquelas mulheres estariam confinadas às camas. Acrescentei:

— E você não está numa cadeira de rodas.

Ela suspirou fundo:

— Graças a Deus!

Depois das palavras de Rosa, meus olhos não podiam mais se desviar daquela senhora à nossa frente. Com seus pouquíssimos cabelos brancos, faces “chupadas”, parecia mais um cadáver vivo. Aquela cena começou a despertar o sentimento de uma profunda dor no meu peito. Como uma pessoa tão magra poderia carregar um corpo tão pesado?

Senti que ela representava, em si mesma, a convergência entre a fragilidade de uma idade muito avançada e o peso de uma longa história de vida. E com a dor aumentando em meu peito, eu pensei: “o que é que eu estou fazendo aqui?” Era um domingo de sol. Sentia vontade de sair correndo, queria fugir daquele lugar.

Foi então que eu disse a Rosa:

— É… você tem razão, cadeira de rodas é muito triste e eu entendo a dor que você está sentindo.

Ela permaneceu em silêncio por um longo tempo, até murmurar:

— Às vezes tenho vontade de ir embora desse lugar!

Eu não consegui responder. Ela sentia o mesmo que eu. A diferença é que eu tinha para onde ir. Rosa, não.

Comecei a me projetar no futuro e percebi meu pânico: o medo de um dia estar daquele jeito. O pavor de perceber que, para não estar como aquela senhora, só havia uma opção: a morte.

Uma revolta tomou conta de mim. Que grande escolha a vida me oferecia: morrer ou ficar daquele jeito, um pedaço de carne viva. Que direito a vida tinha de exercer tamanho poder sobre mim? O que ela poderia fazer com meu corpo, minha alma?

Meu consolo era que, diferentemente de Rosa, eu ainda estava longe daquela situação. Ironicamente, a morte parecia uma sorte.

Foi então que compreendi: Rosa não se entristecia com a cadeira de rodas em si, nem com o lugar — limpo, acolhedor, cheio de cuidado e afeto. Ela falava da cadeira em que todos nós estamos sentados para assistir à nossa própria decadência na roda da vida. Falava do lugar humano que ocupamos dentro de nós mesmos.

E minha angústia aumentou, porque percebi que eu também não tinha para onde ir. Ir para onde? Eu poderia passar a vida inteira mudando de endereço, mas jamais poderia me mudar de mim.

A saudade tomou conta de mim diante do poder mágico e cruel da vida de transformar anos em segundos. Quando olhei para trás, minha história inteira parecia ter acontecido num instante. Então, seria apenas uma questão de segundos até eu estar daquele jeito..

Compreendi que o que eu projetava para o futuro, caso não morresse antes, não era o futuro: era o meu presente em poucos instantes; e mais, que não estava bem à minha frente, mas dentro de mim.

Para aliviar o que sentia, perguntei a Rosa quantos anos tinha.

Com dificuldade e constrangimento, respondeu:

— Não estou escondendo minha idade de você. Eu realmente não sei quantos anos tenho. Eu perdi a minha idade.

Aquilo me desconcertou. Ela não dizia que havia esquecido, dizia que havia perdido. E o que significava perder a idade? Como aquilo tudo doía dentro de mim..

Concluí que, um dia, todos começamos a perder a nossa idade. E isso começa devagar, no instante em que a memória parte levando consigo nossa história. Ah, meu Deus, como isso dói.

Os meus sentimentos fervilhavam quando Rosa, após um longo silêncio, virou-se para mim e disse:

— Estou começando a colher o que você plantou!

Perplexa, perguntei o que eu havia plantado. Ela apenas sorriu e não respondeu. Poucos minutos depois, levantou-se e foi dançar. Percebi então que, apesar da tristeza, ela estava viva, e por isso também podia se alegrar.

Quando voltou a sentar-se ao meu lado, minha mão começou a formigar. Contei a ela. Generosamente, começou a friccioná-la para fazer a circulação voltar.

Entendi que, assim como algumas senhoras dormiam profundamente, eu tentava adormecer meu corpo para não enfrentar a dor de estar ali. Mas Rosa me mostrou que, abrindo espaço interno para sentir, mesmo que fosse apenas um sentir sensorial, como o da senhora na cadeira de rodas, ainda era possível, apesar de tudo, sentir alegria e dançar ao som da vida.

E então percebi o quanto eu estava sendo cega ao olhar aquela senhora como um pedaço de carne viva. Eu nunca olhei para um bebê assim. A diferença é que um bebê desperta a ilusão dos meus sonhos; aquela senhora, a desilusão deles. E só por isso ela me assustava tanto.

Ela vibrava nos semitons da vida, contrariando meu desejo de que a vida tocasse apenas na escala principal. E só por isso me assustava tanto.

Aquela senhora ainda poderia me ensinar muito, se eu estivesse disposta a aprender.

Descobri que aquela conversa não acontecia a duas, mas a três: eu, Rosa e a senhora da cadeira de rodas. E que não era só eu quem havia plantado algo. Nós três plantamos e colhemos, uma na outra, um dos sentimentos mais profundos do ser humano: a solidariedade.

Aprendi que não adianta fugir da possibilidade da minha velhice avançada. Naquele dia, conheci um pouco mais de mim mesma, do respeito e do amor. E isso foi muito bom.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Manifesto de um ativista: quem cuida das velhices LGBT+?

Por Diego Felix Miguel

Estamos no mês historicamente dedicado ao Orgulho LGBT+, movimento que, desde o fim da década de 1960, ganha visibilidade e protagoniza uma luta legítima por representatividade e equidade de direitos.

Mesmo em uma data com tamanha relevância, uma questão me inquieta como ativista dos direitos da pessoa idosa, especialmente daquelas que permanecem vulnerabilizadas e invisibilizadas pelas políticas públicas: qual é o lugar ocupado pelas Velhices LGBT+ durante o mês do Orgulho — e nos outros onze meses do ano?

Recentemente, fui atravessado pelos discursos de artistas como Gretta Star e Márcia Pantera, figuras que marcaram gerações e foram fundamentais na construção de laços identitários para parte da comunidade que, durante muito tempo, viveu aprisionada por normas sociais, em um processo de autoviolência negação de si mesma. Elas denunciam algo perverso: além da LGBTfobia, enfrentamos também o idadismo.

A discriminação por idade nem sempre aparece de forma explícita. Muitas vezes, manifesta-se em atitudes sutis que reforçam o sofrimento e ampliam a exposição à violência em suas diferentes formas, inclusive a financeira.

É inadmissível que artistas tão importantes para a nossa comunidade sejam colocadas em posição de desvalorização em eventos voltados à celebração da própria identidade LGBT+. Assistimos a um cenário em que pessoas mais jovens da comunidade supervalorizam talentos contemporâneos — o que é legítimo —, mas relegam ao esquecimento ou a um segundo plano aquelas que abriram caminhos para que hoje pudéssemos ocupar espaços, conquistar direitos e sermos vistos e ouvidos.

São artistas que fizeram e continuam fazendo história. Abriram caminhos para que pudéssemos viver com mais liberdade e seguem sendo referências no processo de envelhecer e na própria velhice. Mantêm vivo o orgulho de sermos quem somos e ajudam a preservar uma trajetória que integra a cultura construída pela comunidade LGBT+, distante de todo e qualquer “armário”.

Na velhice, continuam sendo mestras e mestres. Ensinam sobre o direito de viver plenamente essa etapa da vida e denunciam que as desigualdades persistem, muitas vezes sustentadas por empresários e “ícone$” que consumimos em casas noturnas, shows, bares e saunas.

“Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la.”

A frase atribuída ao filósofo Edmund Burke ajuda a compreender o cenário que vivemos.

Até quando abandonaremos aquelas e aqueles que são parte fundamental do legado do qual usufruímos?

Qual o sentido de ocuparmos as ruas com bandeiras se não honramos nossa história e não garantimos proteção às pessoas que iniciaram essa trajetória?

Não se trata de “velhinhos e velhinhas LGBT+”. Trata-se de pessoas idosas empoderadas, ativistas que chegaram à velhice desprotegidas pelo Estado e, muitas vezes, pela própria comunidade, que não oferece oportunidades de trabalho, não remunera com dignidade e não reconhece suas trajetórias.

Os ídolos atuais têm seu valor e sua legitimidade. Entretanto, sem aquelas pessoas que vieram antes, dificilmente estariam hoje mostrando seus talentos na mídia e ocupando espaços de grande visibilidade.

Como comunidade, no verdadeiro sentido de apoio mútuo e fortalecimento identitário, o que faremos para mudar essa realidade?

Quais estratégias adotaremos no ativismo para garantir segurança financeira, proteção patrimonial e acesso a serviços para as nossas velhices?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

O idadismo da “abominável classe média”: moradores não querem casa de repouso na vizinhança

Bengala de idoso
Foto de Mohamed Larbi Larouk no Pexels


Por Diego Felix Miguel

Prezada leitora e prezado leitor, peço que não me julguem pelo título deste texto — não antes de chegarem à última linha.

Minha reflexão parte do cruzamento de duas situações. A primeira evoca o célebre e controverso pensamento do filósofo Marilena Chauí, proferido em 2013:

“A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética, porque é violenta, é uma abominação cognitiva, porque é ignorante.”

A segunda é a reportagem publicada na Folha de S.Paulo, em 25 de maio de 2026, sob o título: “Moradores pressionam a gestão Nunes e ocupas casas de repouso para idosos da Lapa”.

No vídeo publicado pelo jornal em suas redes sociais, moradores exaltados alegam que as instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) ocupam uma área estritamente residencial e manter um serviço como esse retira a tranquilidade do local devido à circulação de ambulâncias e carros funerários — fatores que, segundo eles, desvalorizariam os imóveis da região.

Agressividade, falta de empatia e discriminação são ocorrências do dia a dia do idadismo — bem como as condições de saúde e sociais de pessoas que demandam cuidados de longa duração — emergem nos gritos histéricos de uma suposta elite que busca, a todo custo, higienizar o seu reino.

Essas mesmas pessoas manifestam-se posicionando suas casas de forma ostensiva, com música alta, para deliberadamente prejudicar o funcionamento das instituições. Interferem, assim, diretamente no bem-estar e no cuidado de pessoas idosas, principalmente daquelas que vivem com demências ou outras condições que comprometem sua autonomia e exigem um ambiente calmo, sem estímulos.

A filósofa aborda duramente isso quando conceitua a “classe média”.

Chauí não limita esse termo a uma condição meramente econômica, mas sim a uma postura política e existencial. A polêmica de sua fala, de 2013, ecoa, finalmente, no absurdo da Geriatria e da Gerontologia — e no ativismo pelos direitos humanos da pessoa idosa — neste ano de 2026, servindo como um exemplo didático e doloroso da postura que ela denunciava.

Testemunhamos ali o autoritarismo do fascismo social, que desconsidera a convivência democrática, o respeito às diferenças e a valorização da vida. Presenciamos a abominação ética que violenta, por meio de palavras e atitudes, pessoas vulnerabilizadas que necessitam de suporte especializado — sabendo-se que a complexidade logística e assistencial de uma ILPI é enorme e que uma mudança intempestiva, sem planejamento e investimento, pode trazer transtornos gravíssimos e riscos à saúde dos residentes.

Por fim, vemos a abominação cognitiva: a ignorância que banaliza a vida, colocando o valor patrimonial e o metro quadrado acima da dignidade humana, incomodada pela mera passagem de uma ambulância que socorre ou de um carro funerário que acolhe a finitude.

A questão aqui tratada não é burocrática ou sobre a regularização dessas instituições; é sobre a forma violenta e desumanizadora como a situação é posta, sem qualquer respeito à longevidade. Prosperar economicamente não é um problema — quem dera todas as pessoas tivessem as condições necessárias para transformar suas realidades —, mas a arrogância e a violência legitimadas pelo poder socioeconômico, sim, são problemas crônicos. São posturas que acentuam a exclusão de grupos historicamente minorizados e silenciados pelas políticas públicas que, quando finalmente se tornam visíveis, são tratados como um estorvo urbano a ser arremessado para além da linha abissal.

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

A falácia do mercado prateado

Por Diego Felix Miguel

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Prezada leitora e prezado leitor, este texto não tem o objetivo de desqualificar o mercado como campo de estudo, ciência ou estrutura de capital fundamental da nossa sociedade. A crítica se dirige à forma como ele se apresenta para atrair consumidores, muitas vezes por meio de termos que, à primeira vista, parecem positivos, mas que acabam alimentando preconceitos e discriminações. À superficialidade do discurso que tem como atribuição gerar lucro com palavras e expressões que impressionam quem ainda não mergulhou nas águas profundas do envelhecimento humano.

Nos últimos anos, assistimos a um “tsunami” de termos que tentam qualificar uma velhice privilegiada, blindando uma minoria de homens e mulheres contra estereótipos e mitos que, paradoxalmente, os expõem ainda mais ao preconceito.

“Nolt”, “silvers”, “ageless” ou “geração prateada” nada mais são do que atualizações do que antes rotulávamos como “melhor idade”. Essas nomenclaturas impõem uma hierarquização das formas de envelhecer, ditando modelos “melhores” ou “piores” e responsabilizando, implicitamente, o indivíduo por seus sucessos ou fracassos. Trata-se de uma lógica que ignora, deliberadamente, o abismo da desigualdade social.

As estratégias desse nicho podem ser perversas. Muitas vezes, carecem de responsabilidade social ao vender uma negação romantizada da velhice,  o que chamo de idadismo cordial.

É o artifício de enganar quem ainda não aceitou o envelhecimento como uma conquista, enxergando-o apenas como um inventário de perdas.

Trata-se de uma estratégia neoliberal para ofuscar o impacto da iniquidade no acesso às políticas públicas e às estruturas de poder. Esse movimento reforça preconceitos de gênero, raciais, étnicos e geracionais, vulnerabilizando ainda mais grande parte da população, que segue sobrevivendo na invisibilidade.

A ciência do mercado e do consumo é, na verdade, muito mais profunda. Deve ser multidisciplinar, beber de muitas fontes e buscar respostas para demandas reais. Quando exercida com ética, reconhece os diferentes públicos e elabora estratégias de comunicação que não visam apenas à venda, mas contribuem para a transformação social.

Não precisamos de maquiagem para a velhice. Precisamos de dignidade para nos assumirmos velhas e velhos com orgulho, com direitos garantidos e acesso, não apenas ao Estado, mas também ao consumo com autonomia e independência. Afinal, essas são as bases para um envelhecimento verdadeiramente ativo.

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

Stanford mandou avisar que ainda não sou velho; alguém pode contar para o plano de saúde?

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Acordei nesta manhã um pouco mais jovem. E não foi a sequência de exercícios, com musculação e bicicleta, a que tenho me dedicado nos últimos anos, que me concedeu esse prêmio. Nem a alimentação, que ainda precisa de um controle maior — desde que a Dra. Márcia não se atreva a mexer na minha taça de vinho. A juventude fora de hora me foi oferecida em formato de notícia.

Quando o dia está amanhecendo e estou à mesa de café da manhã, a Letícia Valente, produtora do Jornal da CBN, me envia pelo WhatsApp sugestões de assuntos para o bate-papo que faço na passagem do programa Primeiras Notícias para o Jornal da CBN. Uma das mensagens que chegaram hoje, publicada em O Globo, se destacava pela manchete: “Quando começa a velhice? Estudo indica marco biológico aos 78 anos”.

Sério? Faz uns dois anos que dizem que sou velho porque passei a marca dos 60. Agora vem essa novidade: velho mesmo só aos 78.

A reportagem fala de um estudo da Universidade de Stanford sobre o desenvolvimento biológico do envelhecimento. A conclusão dos pesquisadores veio da observação de mudanças bruscas nas proteínas plasmáticas, moléculas que circulam no sangue e indicam o estado geral de saúde do organismo. Essas proteínas são como ajudantes de bastidor: mantêm o equilíbrio de líquidos, carregam nutrientes, defendem o corpo de infecções. Quando mudam de comportamento — aos 34, 60 e 78 anos — sinalizam que o corpo virou a página e entrou em outra fase.

Se, do ponto de vista biológico, eu ainda não sou velho, do ponto de vista burocrático o sistema já me carimbou faz tempo. Ser 60+ nos oferece algumas vantagens: prioridade no recebimento da restituição do Imposto de Renda, gratuidade no transporte coletivo, meia-entrada em espetáculos, vaga privilegiada no estacionamento e fila preferencial nos serviços de atendimento (e no embarque do avião, também). Quem não gosta? Por outro lado, com o aumento dessa população — já somos milhões de pessoas acima dos 60 — tudo isso gera mais custos para quem concede essas vantagens.

Já assistimos a movimentos para que os direitos concedidos a idosos sejam limitados a pessoas um pouco mais velhas, tipo 65+. O estudo talvez possa ser usado para radicalizar ainda mais e convencer legisladores a adiar os benefícios apenas para aqueles que tiverem atingido os 78 anos.

A depender de mim, sem problema. Posso abrir mão de furar fila no embarque e no caixa — desde que os planos de saúde também abram mão de tratar quem tem 60 como se estivesse à beira do fim. Se biologicamente a velhice começa aos 78, a tabela de preços bem que podia acompanhar.

Dez Por Cento Mais: novo livro de Mariza Tavares fala de escolhas que moldam a velhice


“Os 60 não são os novos 40; são os novos 60.”

Mariza Tavares, jornalista

Viver mais e viver melhor depende de escolhas que começam cedo e seguem por toda a vida: cuidar do corpo, da cabeça, das relações e do bolso. Essa é a defesa de Mariza Tavares, jornalista e escritora, autora de A Vida Depois dos 60 –  Prepare-se para criar a sua melhor versão (Best Seller), que propõe olhar para a longevidade como projeto contínuo, sem romantização e sem fatalismo. Em conversa com Abigail Costa, jornalista e psicóloga, no programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, Mariza lembra que “a longevidade é uma construção da vida inteira.”

A autora propõe que a longevidade seja encarada como a soma de diferentes “reservas” acumuladas ao longo da vida. A financeira, alimentada por pequenos aportes feitos desde cedo, quando “o tempo conspira a nosso favor”. A física, cultivada por meio do movimento contínuo e da manutenção da força muscular. A mental e a social, fortalecidas pelas conexões que sustentam o ânimo e estimulam o autocuidado. Mariza destaca que estudos de décadas apontam a qualidade das relações como fator decisivo para envelhecer melhor e sintetiza a ideia com uma imagem pessoal: “Dentro de mim eu tenho todas as idades.”


O alerta é direto: adiar decisões tem seu custo, mas começar tarde não impede ganhos. “Mesmo pessoas com um estado fragilizado se recuperam em força muscular com o devido treino.” O verdadeiro risco, segundo Mariza, está em se render aos estigmas: “O mais triste é a gente introjetar aquela coisa de que ‘eu tô muito velho para isso’.”

Trabalho, aposentadoria e combate ao etarismo

A transição do trabalho pago para outras formas de atuação pede preparo, não improviso. Mariza critica a pouca atenção das empresas ao tema e defende políticas que retenham e adaptem funções para profissionais mais velhos. “Nós temos que ser militantes da velhice”, diz, ao apontar microagressões e estereótipos que afastam pessoas 60+ de oportunidades — especialmente mulheres, alvo precoce do idadismo.

A aposentadoria sem projeto pessoal tende a abrir espaço para vazio e isolamento. A saída, segundo ela, está em redes de convivência, mentoria intergeracional e flexibilidade: “Eu posso usar o meu repertório para ensinar.”

Afeto, sexualidade e novas combinações de vida

Mariza propõe tratar sexualidade na maturidade sem tabu, inclusive nas consultas médicas. O foco é ampliar repertório e comunicação entre parceiros, não reduzir a vida íntima a desempenho. “Sexualidade nos acompanha até o final da existência.” Também reconhece arranjos de vida em que muitas mulheres 60+ escolhem autonomia, amizade e viagens em grupo, sem abrir mão de bem-estar para “ter alguém” a qualquer custo.

No fechamento, ela oferece um pequeno ajuste de rota: “10% a mais de confiança em si mesmo.” Pode virar bússola prática: “Vou me divertir 10% mais, vou namorar 10% mais, vou celebrar a vida 10% mais.”

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Dez Por Cento Mais: “Precisamos integrar o velho e o novo”, diz Fábio Betti sobre o futuro do trabalho e o papel das gerações


“O trabalho é uma das maneiras de mantermos nossa utilidade na vida, mas não a única.”

Fábio Betti, Age-Free.World

O mercado de trabalho não quer mais saber de fidelidade cega, nem valoriza currículos marcados por longas permanências em um mesmo lugar. Enquanto os mais jovens pulam de emprego em emprego em busca de sentido e equilíbrio, líderes experientes questionam se ainda cabe a eles atuar em um modelo que exige energia de super-herói e uma dedicação que sacrifica a vida pessoal. Esse movimento de transformação — que atinge todas as gerações — foi tema da entrevista com Fábio Betti, que está à frente da age-free.world, no programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa.

Entre gerações: rupturas e aprendizados

Para Betti, que também atua na Corall Consultoria, “envelhecer no mercado não deveria ser sinônimo de se tornar descartável”. Ele alerta que muitas empresas continuam presas a parâmetros que exigem velocidade e entrega constante, ignorando a experiência acumulada ao longo dos anos. “Muitos líderes chegam aos 55, 60 anos e dizem: ‘Eu não aguento mais’. Não porque falte energia, mas porque não faz mais sentido atuar em um ambiente desumanizador”, afirma.

A busca por um trabalho com propósito também não é exclusividade da nova geração. Para os mais velhos, surge a necessidade de se reinventar. Segundo Betti, mais de 40% das novas empresas no Brasil em 2019 foram abertas por pessoas com mais de 45 anos, mostrando que empreender também é uma alternativa para quem deseja continuar contribuindo, mas em outro formato. “A sensação de inutilidade adoece. Encontrar novas formas de se sentir útil é fundamental para a saúde mental”, destaca.

As novas gerações, por sua vez, querem clareza. “O jovem quer uma relação mais pragmática: ele quer saber como crescer, quanto vai ganhar e o que precisa fazer para chegar lá. E muitos líderes não sabem conversar sobre isso porque construíram suas carreiras em um modelo que pedia sacrifício absoluto”, pontua Betti.

Essa convivência entre cinco gerações no mesmo ambiente — boomers, X, Y, Z e alfa — intensifica os choques e, ao mesmo tempo, abre espaço para conversas importantes. “Precisamos integrar o velho e o novo, porque ambos têm valor. A evolução não é destruir o modelo anterior, mas entender o que manter e o que transformar”, explica.

O humano versus a máquina

Betti também observa que o avanço da inteligência artificial escancara a crise do trabalho automatizado. “Se o trabalho que fazemos pode ser substituído por uma máquina, o que resta de humano?”, questiona. Ele defende que a reflexão sobre o sentido do trabalho é urgente, já que o modelo atual, centrado em controle e metas incessantes, está “sobrevivendo por aparelhos”.

Para ele, o papel dos líderes deveria incluir cuidar das pessoas de forma integrada, não apenas fora do ambiente corporativo. “Vejo líderes que correm maratonas e falam sobre autocuidado, mas dentro das organizações continuam reproduzindo discursos de cobrança e desconfiança. Como integrar essas duas vidas?”, provoca.

No fim, a mudança depende de disponibilidade para ouvir e de coragem para criar um ambiente em que todos — jovens ou veteranos — possam pertencer e contribuir de maneira autêntica. “O grande desafio é lembrar que ninguém quer estar em um lugar onde a desconfiança é a base”, conclui.

Assista ao Dez Por Cento Mais

O Dez Por Cento Mais pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, ao meio-dia, pelo YouTube. Você pode ouvir, também, no Spotify.

“Eles combinaram de nos matar. A gente combinamos de não morrer.”


Diego Felix Miguel

Foto de Valeria Machado na Unsplash

Às vezes, tudo o que nos resta é silenciar e elaborar melhor a dor provocada pela violência, pela indiferença e, até mesmo, pela banalização do sofrimento — seja de uma pessoa ou de uma comunidade inteira. No silêncio, reunimos forças para seguir lutando por uma sobrevivência minimamente digna.
Não falo aqui de um silêncio mudo. Muito pelo contrário: falo de um silêncio que arranca vozes jamais escutadas, mas que, infelizmente, não ressoam como relevantes para muitos ouvidos.


É no silêncio gritante que me veio a profundidade da frase de Conceição Evaristo que dá título a este texto, em denúncia ao racismo estrutural, e ela tem ressoado nos meus pensamentos nos últimos dias, desde que soube do assassinato de Fernando Vilaça, rapaz de 17 anos que vivia em Manaus e morreu após se defender de ataques LGBTfóbicos.


Já comentei, em outros textos, sobre o “não-lugar” que a sociedade impõe às nossas vivências e identidades dissidentes. São marcas profundas que carregamos ao longo da vida, a cada experiência, e nos esforçamos além dos limites para nos encaixarmos ou, então, passarmos como invisíveis, só para garantir uma suposta paz e segurança.


É um preço alto que pagamos por isso.


Obviamente, não existe em nenhuma dessas alternativas a possibilidade de se viver com dignidade. Desde cedo, nos cobramos para que aspectos “aceitáveis” aos olhos da sociedade se tornem mais visíveis, na tentativa de validação e pertencimento.


Não tem como esquecer do Pedro Henrique, aluno bolsista de um colégio tradicional de São Paulo, que, em 2024, aos 14 anos, foi suicidado pela violência que sofria por parte de outros alunos da instituição.
“Faziam chacota de mim por eu ser gay”, escreveu em uma das mensagens enviadas por WhatsApp.
A cada pessoa que morre vítima da violência, uma parte de nós também se vai. Somos cúmplices por não conseguir acolher as pessoas em suas diferenças e insuficientes enquanto sociedade, que segue a vida como se nada estivesse acontecendo.


O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBT, e ainda assim não temos políticas públicas que garantam nossa segurança, conforto e representatividade em todos os espaços.


A nós, que envelhecemos e seguimos resistindo, tentando nos manter fortes para honrar o legado daqueles que, infelizmente, tiveram suas vidas sacrificadas, cabem, também, as marcas e a incerteza de um futuro digno e acolhedor.


Sabemos que os estereótipos relacionados à identidade de gênero, orientação sexual e geração operam de maneira perniciosa, obscurecendo tanto a visão da sociedade quanto a ação do Estado, que insiste em manter discursos de igualdade enquanto ignora por completo as vivências dos grupos minorizados.
Brecht, dramaturgo alemão, nos alertou sobre isso quando escreveu: “a cadela do fascismo está sempre no cio”, e sabemos muito bem quem ela busca para anular suas existências.


Não quero finalizar esse texto num clima pesado, mas também entendo que a inquietação e o estranhamento fazem parte do processo de transformação.


Talvez, mais do que palavras, reste-me provocar empatia: e se fosse comigo? E se fosse com meu filho?
E aqui, sobrevivente de inúmeras violências institucionais e interpessoais do passado, um Diego que, muito cedo, quando ainda nem entendia o que o tornava diferente, conheceu a perversidade do não-lugar, o que eu desejo, de verdade, é que, mesmo após quase quarenta anos, a gente consiga mudar essa realidade.


Que mais vidas tenham o direito e a garantia de envelhecer e vivenciar suas velhices de forma digna.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Depto. de Gerontologia da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Dez Por Cento Mais: Dr. Fabrício Oliveira discute sexualidade e longevidade sem tabus

Image by Mabel Amber from Pixabay
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“Desejo não envelhece.” A afirmação do Dr. Fabrício Oliveira poderia ser apenas uma provocação retórica se não viesse sustentada por mais de uma década de trabalho clínico com pessoas idosas e pela escuta atenta a histórias muitas vezes silenciadas dentro de casa. No programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube, o psicólogo e gerontologista defendeu com firmeza que envelhecer não significa perder vontade, nem identidade.

A entrevista trata de um tema ainda cercado por preconceitos: a sexualidade na maturidade. “As pessoas confundem sexualidade com ato sexual. Sexualidade é afeto, é toque, é desejo, é companheirismo. E isso não tem prazo de validade”, disse Fabrício, que, desde 2010, atua no universo do envelhecimento com foco no bem-estar emocional, psicológico e relacional dos idosos.

“Eu só atendo idosos”

A decisão de se especializar no público idoso nasceu de um encontro entre a sensibilidade clínica e a demanda reprimida. Tudo começou com um trabalho de conclusão de curso que virou referência acadêmica. Depois, veio uma reportagem de televisão que repercutiu de forma inesperada. “Os idosos começaram a me procurar porque se sentiram representados. Eles diziam: ‘doutor, eu tenho vontade de reencontrar o primeiro amor, mas os meus filhos acham isso uma bobagem’”.

Fabrício entendeu que não bastava escutar. Era preciso acolher, orientar e também educar as famílias. Por isso, passou a oferecer atendimento domiciliar. “O idoso vai muito ao médico. Psicólogo? Só se for alguém que vá até ele. No consultório ele não aparece”, explicou. A visita à casa do paciente, segundo ele, abre espaço não só para a escuta terapêutica, mas também para a reorganização do ambiente doméstico — desde a retirada de tapetes até conversas com os filhos que, sem perceber, reforçam o etarismo.

Miss Longevidade e o protagonismo invisível

Se os consultórios ainda são pouco acessados, as passarelas podem ser caminhos de transformação. Foi assim que surgiu o projeto Miss e Mister Longevidade, idealizado por Fabrício em João Pessoa e já realizado em várias cidades da Paraíba. “A mulher passa o ano pensando no vestido. A neta vai à escola e diz: ‘minha avó é Miss’. Isso muda tudo.”

Mais do que promover autoestima, o concurso combate um estigma estrutural: a exclusão social da velhice. “A maior violência contra o idoso no Brasil não é a financeira. É a psicológica”, alertou. E parte dela começa na infância, quando se ouve frases como “cuidado com o velho do saco” ou se vê bruxas velhas como vilãs em contos infantis. Para ele, mudar isso exige uma presença ativa: “O idoso precisa ser protagonista. Quando ele afirma sua identidade, a família pensa duas vezes antes de zombar da idade ou fazer comentários discriminatórios”.

A velhice como escolha de vida

Perguntado sobre o que espera da própria velhice, Fabrício respondeu sem rodeios: “Eu não quero ser um velho cheio de manias. Mania afasta. Eu quero ser o velho legal, que abre a casa para os amigos, que está de boa”. Ele aposta na leveza como estratégia de convivência e qualidade de vida. E reforça: “Envelhecer é natural. O que não é natural é se isolar, deixar de viver, parar de amar”.

Ao fim da conversa, deixa uma sugestão simples, mas poderosa: “Acorde, olhe no espelho e diga: hoje eu envelheci mais um dia. E que bom que estou vivo”. Para ele, aceitar o processo com naturalidade e presença é a chave para viver bem — e melhor — os anos que virão.

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