Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: a chuva de prata no Viaduto do Chá

 

 

Por Julio Tannus
Ouvinte da rádio CBN

  

 

  

 

Foi aqui que cresci, me eduquei, me formei, constitui família e hoje desfruto da cidade com todos os seus lugares, praças, shoppings, restaurantes, cinemas, teatros, livrarias, exposições e sua vida incessante.

  

 

Assim que cheguei de Paraty, no fim dos anos 1940, morei na São Lázaro, travessa da São Caetano, hoje a “Rua das Noivas”. Era movimentadíssima com todo tipo de comércio, além, é claro, do Cine São Caetano. Minha primeira escola, aos cinco anos, foi o Recanto Infantil Jardim da Luz, do Departamento de Cultura, no Parque da Luz.

  

 

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Julio passeia ao lado do irmão, Carlos, no Viaduto do Chá

  

 

Após alguns dias na cidade, fui com minha mãe e meu irmão caminhar na São Caetano em direção ao Parque da Luz. Ao chegar na avenida Tiradentes, em frente ao antigo Liceu de Artes e Ofícios, hoje Pinacoteca do Estado, me deparei com o monumento a Ramos de Azevedo. Ramos de Azevedo foi o centro em torno do qual gravitou o renascimento arquitetônico da cidade de São Paulo. Aquele monumento hoje está na Cidade Universitária. Quando o vi, exclamei do alto de meus cinco anos de vida: “Olha mamãe, uma mulher de peito de fora!”. Foi uma gargalhada geral. “Fica quieto menino!” foi a reação de mamãe diante da imagem daquela mulher de peito nu na estátua.

  

 

Fui flamenguista por herança de pai. E de tanto ouvir “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer” me sentia desajustado diante de tantos palmeirenses, são-paulinos, santistas … até que na celebração do Quarto Centenário da cidade, o Corinthians se tornou campeão e meu time paulista do coração. Por curiosidade, essa final contra o Palmeira só foi disputada em 6 de fevereiro de 1955.

  

 

O Quarto Centenário é de 1954. E teve imensa participação de toda a população, que invadiu as ruas de nossa cidade. Ocorreram festas maravilhosas. Recordo-me nitidamente da Chuva de Prata, que Randal Juliano, da Rádio Record, descreveu com precisão:

  

 

“O sentimento do paulista faz com que a cidade se locomova até o Viaduto do Chá. E aqui a multidão ergue os olhos para o céu, de onde caem lâminas metalizadas… Lâminas coloridas metalizadas sobre o Viaduto do Chá. Iluminadas por holofotes do exército, com o esplendor e luminosidade bonita. Traduzindo a alegria do povo paulista neste nove de julho, que comemorava uma derrota… talvez tenha sido o único povo a comemorar uma derrota.”

 
 

 

Palavras que me levam a recordar o hino do Quarto Centenário:
 

 

 

São Paulo, terra amada
Cidade imensa
De grandezas mil!
És tu, terra dourada,
Progresso e glória
Do meu Brasil!
Ó terra bandeirante
De quem se orgulha nossa nação,
Deste Brasil gigante
Tu és a alma e o coração!
Salve o grito do Ipiranga
Que a história consagrou
Foi em ti, ó meu São Paulo,
Que o Brasil se libertou!
O teu quarto centenário
Festejamos com amor!
Teu trabalho fecundo
Mostra ao mundo inteiro
O teu valor!
Ó linda terra de Anchieta,
Do bandeirante destemido.
Um mundo de arte e de grandeza
Em ti tem sido construído!
Tens tu as noites adornadas
Pela garoa em denso véu,
Sobre seus edifícios
Que mais parece chegarem aos céus!

 
 

 

Julio Tannus é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos contar outros capítulos desses 464 anos: escreva a sua história para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: a boneca que o Seu João comprou no Mappin

 

Por Luiz Silva

 

 

E assim que desembarcou na antiga rodoviária da estação da Luz, dentro do ônibus observou uma grande movimentação de pessoas que passavam rapidamente com enormes malas pra lá e pra cá.

 

O motorista abriu o compartimento que ficava na parte debaixo do ônibus, colocou as enormes malas do Senhor João no chão, conferiu o bilhete e fechou rispidamente o enorme “maleiro”:
 

 

– Felicidades e muito sucesso nesta grande metrópole!disse em tom de despedida.
 

 

O senhor João, sua esposa Maria e os seis filhos pequenos pegaram as enormes malas e saíram silenciosamente pelas ruas da redondeza sem destino, entraram num pequeno boteco e pediram alguns pastéis e duas tubaínas e lá ficaram a degustar os pastéis e olhando toda aquela movimentação da rua com muito receio da grande metrópole São Paulo.

 

Após saciarem a fome de todos, saíram ainda em silêncio olhando para o chão, enquanto as crianças admiravam com muita alegria e ansiedade tudo e todos.

 

Embarcaram em um ônibus lotadíssimo com destino a zona Leste onde poderiam rever um compadre que tinha vindo para a cidade há muitos anos e prontificou-se a recebê-los até que arranjassem um cômodo por lá mesmo, um emprego e a vida pudesse ganhar o seu rumo na cidade.

 

Durante o café da manhã o compadre disse ao senhor João:
– Olha compadre, vocês podem ficar aqui na nossa casinha morando conosco até “aprumarem”. Enquanto isso, tenho um pequeno serviço para o senhor!
O senhor João olhou para o compadre e foi logo perguntando:
– Mas que tipo de serviço eu poderia fazer se só sei capinar roçado, cuidar de gado e cortar lenha?

 

 
O compadre foi logo explicando que conhecia um senhor que trabalhava numa agência de publicidade e sempre estava precisando de pessoas para carregar algumas placas com propagandas pelo centro de São Paulo.
 

 

O senhor João um pouco receoso perguntou:
– Mas, Compadre, será que eu sirvo pra este tipo de serviço? Afinal nem ler e escrever eu sei!
– Ora compadre, é só carregar a placa pra lá e pra cá e ficar orientando o pessoal para ir até a loja, muito fácil o serviço e nem é necessário ser “letrado”.
 

 

      
No outro dia lá estavam os compadres descendo do ônibus no centro da capital e entrando numa agência de publicidade. O senhor João foi apresentado para um senhor obeso que fez algumas perguntas. E sem perder tempo, o levou até a frente da grande loja de departamento, chamada Mappin.

 

 
Após algumas orientações. o senhor João foi “abandonado” em frente a loja  com uma enorme placa que cobria todo o seu esquelético corpo e seguiu caminhando pela rua Sete de Abril com destino a Praça da República.

 

O senhor João muito apreensivo andava pela praça toda e sempre o seu olhar parava naquela enorme loja de departamento. Ficava imaginando o que poderia ser encontrado ali, na loja com aquele  enorme relógio e muitas letras, que ele não sabia o que dizia.

 

 
Pessoas passavam apressadas e a maioria nem parava para observar a insignificante presença do senhor João. No finalzinho da tarde quando a chuva despencou, todos correram para baixo de um toldo. E lá o senhor João coçou a barba e ficou morrendo de vontade de entrar na loja.

 

 
O senhor obeso apareceu e depositou uma quantia em dinheiro na mãos do senhor João. Desejou  boa noite e pediu que na manhã seguinte ele se apresentasse no mesmo lugar em seguida saiu apressado pelo viaduto do Chá.

 

 
O senhor João tomou coragem e entrou na loja. Vagarosamente atravessou o andar térreo, repleto de pessoas olhando tudo, e ficou a imaginar na grandiosidade daquela cidade. Foi andando entre alguns esbarrões, parou diante da vitrine que vendia brinquedos e perguntou, com sua humildade de praxe, quanto custava aquela boneca com um lacinho na cabeça. Atenciosa, a vendedora disse o preço, o senhor João enfiou a mão no bolso da carcomida calça e retirou a quantia exata para comprar o presente para a filhinha caçula.

 

 
Chegou em casa após viagem de duas horas dev ônibus, entrou sorrateiramente e depositou a bonequinha ao lado da filha que já estava dormindo. Tomou banho e foi dormir ao lado da esposa.

 

 
Adormeceu muito feliz com a imagem da grande loja de departamentos na cabeça e sonhando com o rosto de felicidade da filhinha no dia seguinte, quando abriria os olhos diante da linda boneca comprada no Mappin.

 


O Conte Sua História de São Paulo tem a sonorização do Cláudio Antonio. Você pode participar, enviando seu texto para milton@cbn.com.br