Dez Por Cento Mais:  José Carlos de Lucca fala sobre viver o presente e dar sentido ao tempo

“A vida só acontece agora.”
José Carlos de Lucca

Oscilar entre memórias que pesam e projeções que angustiam tem um custo: rouba o único tempo disponível, o presente. Esse foi o fio condutor da conversa com o escritor e jurista José Carlos de Lucca, que propôs um exercício prático de presença e responsabilidade individual, tema da entrevista concedida ao Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, no YouTube.

Entre o passado e o futuro

Segundo De Lucca, gastar energia remoendo o que passou e antecipando o que talvez nem aconteça produz um descompasso cotidiano. “Somos um amontoado de passado misturado com um amontoado de futuro”, afirma. O resultado, diz ele, é previsível: “O excesso de passado gera, em regra geral, muita depressão”, enquanto mirar demais o amanhã alimenta ansiedade. A correção de rota começa com um gesto simples: notar quando a mente fugiu e trazê-la de volta. “Se pegou, se observou… dá uma espiadinha no passado, dá uma espiadinha no futuro, mas não fica lá. Volta para aqui.”

Ele recorre a imagens concretas para explicar. Viver grudado no ontem ou no amanhã é como “se movimentar numa cadeira de balanço: você faz força, mas não sai do lugar”. Já o presente pede inteireza: corpo e mente no mesmo lugar. “Viver é participar.”

O ego e o agora

De Lucca sustenta que a mente, guiada pelo ego, resiste à quietude do instante. “O ego precisa se autoafirmar a todo instante” por contraste, conflito ou comparação. No “agora”, muitas vezes não há nada de extraordinário acontecendo, e justamente por isso surge a fuga. O antídoto é cultivar a atenção ao banal que sustenta a vida: o cheiro do café, a conversa sem pressa, a árvore florida que estava na rota de sempre e nunca foi realmente vista. “Qual é a oportunidade agora? Qual é a alegria agora?”

Finitude sem morbidez

Encarar limites — de uma vida, de uma carreira, de um relacionamento — não é convite ao pessimismo, diz o entrevistado, mas condição para escolhas mais claras. “Tudo aqui é finito, é passageiro… tudo é um sopro.” A pergunta que emerge, citando Mário Sérgio Cortella, é direta: “Se você não existisse, que falta você faria?” A resposta não está no currículo, mas nos vínculos que criamos e na marca que deixamos nos outros.

Na prática, a ética do presente se traduz em rituais simples e consistentes. De Lucca recorda conselhos atribuídos a Chico Xavier: começar cada dia como o primeiro e, se isso não bastar, vivê-lo como se fosse o último. “Viva como se hoje fosse o último dia da sua vida.” E amplia: não ser plateia da própria história. “Nós somos a peça. Nós somos o ator principal. Nós somos o diretor.”

O que fazer com o que nos acontece

Ao falar de fracassos e frustrações, De Lucca recorre ao estoicismo: o foco não é o fato em si, mas o uso que fazemos dele. “Não importa tanto o que nos aconteceu; importa o que vamos fazer com o que nos aconteceu.” Trocar o “por que comigo?” pelo “para que isto?” muda a direção da conversa interna — da vitimização para a transformação.

No fim, fica um critério de avaliação que cabe no cotidiano: ao fim de um encontro, o que cada um levou do outro? Se nada mudou, o tempo foi apenas gasto, não vivido. “Dar sentido ao tempo é estar de corpo e alma, sentir a vida pulsando dentro de nós.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

O Dez Por Cento Mais pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, ao meio-dia, pelo YouTube. Você pode ouvir, também, no Spotify.

Tudo é muito coisa

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Reprodução do filme

“Eu sou aquela mulher
a quem o tempo muito ensinou.
Ensinou a amar a vida
e não desistir da luta,
recomeçar na derrota,
renunciar a palavras
e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos
e ser otimista”

Cora Coralina

O filme francês O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001) conta a história de uma jovem sonhadora que dedica a vida a consertar pequenas dores de outras pessoas: devolve um brinquedo esquecido, junta casais ou espalha bilhetes anônimos para fazer alguém sorrir. Ela faz tanto pelos outros que, por um bom tempo, esquece de si mesma, deixando sua vida cheia de histórias alheias, mas vazia do próprio cuidado.

Assim como Amélie, muita gente acredita que precisa ser útil, boa e generosa ao extremo para garantir que será aceita, valorizada ou pertencente.

Evidentemente, esse não é um padrão que alguém escolhe ter de maneira consciente.

Em geral, a ideia de que ser amado está associado a ser útil nasce de experiências antigas, de situações nas quais a criança, cedo demais, entendeu que precisava fazer além do que podia para receber amor, atenção ou segurança.

Às vezes é o filho mais velho que, ainda pequeno, assume o cuidado de irmãos menores enquanto os pais trabalham, e aprende, sem se dar conta, que precisa ser “responsável” para ser elogiado ou notado; ou a criança que nota que os pais estão sobrecarregados, doentes ou emocionalmente ausentes, e então tenta não dar trabalho, engole a própria dor, faz tudo para ajudar em casa, acreditando que isso evita brigas e mantém a família unida. Em outros casos, é a criança que recebe afeto apenas quando tira boas notas, faz tudo “certinho”, ajuda em tudo e percebe que não há espaço para ser apenas criança, com erros e limites.

Assim, muito cedo, a mensagem se instala: “Eu só sou amado quando faço algo por alguém”.

E o que era apenas uma forma de sobreviver emocionalmente vira, na vida adulta, um padrão invisível, difícil de perceber, mas que faz a pessoa se doar além da conta, enquanto carrega, lá no fundo, a sensação de nunca ser suficiente.

Ser generoso, amoroso ou disponível não é um defeito. É algo valioso! O risco está em oferecer tudo sem critério. E quem já me conhece sabe que sempre digo: tudo é muita coisa!

Porque quando se faz demais, corre-se o risco de atrair quem só fica enquanto se beneficia. O resultado?  O que era afeto disponível vira recurso de utilidade.

Talvez dentro de você exista uma Amélie: doce, cuidadosa, disposta a juntar pedaços do mundo dos outros. Que bom! Mas, hoje, faça o compromisso de cuidar também do seu próprio mundo, de cuidar de você.

Quero lhe propor um desafio: Pense em alguém importante na sua vida e se pergunte: “Essa pessoa me procuraria se ela não precisasse de nada?”


Se a resposta for não, talvez seja hora de rever esse laço, não com amargura, mas com a leveza de quem entende que vínculos verdadeiros não funcionam como caixas eletrônicos, onde alguém passa, retira o que quer e vai embora. Relações autênticas são presenças vivas em vias de mão dupla.

Penso que o tempo nos ensina… Nos ensina a amar, a não desistir, a recomeçar, a acreditar nos valores humanos e ser otimista!

Há sempre um jeito de seguir sendo generoso, sem se sacrificar, mas com respeito, equilíbrio e limites.

Afinal, afeto saudável não se mede pelo quanto você faz pelos outros, mas pelo quanto você consegue permanecer inteiro depois de se doar.

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das fundadoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

“Eles combinaram de nos matar. A gente combinamos de não morrer.”


Diego Felix Miguel

Foto de Valeria Machado na Unsplash

Às vezes, tudo o que nos resta é silenciar e elaborar melhor a dor provocada pela violência, pela indiferença e, até mesmo, pela banalização do sofrimento — seja de uma pessoa ou de uma comunidade inteira. No silêncio, reunimos forças para seguir lutando por uma sobrevivência minimamente digna.
Não falo aqui de um silêncio mudo. Muito pelo contrário: falo de um silêncio que arranca vozes jamais escutadas, mas que, infelizmente, não ressoam como relevantes para muitos ouvidos.


É no silêncio gritante que me veio a profundidade da frase de Conceição Evaristo que dá título a este texto, em denúncia ao racismo estrutural, e ela tem ressoado nos meus pensamentos nos últimos dias, desde que soube do assassinato de Fernando Vilaça, rapaz de 17 anos que vivia em Manaus e morreu após se defender de ataques LGBTfóbicos.


Já comentei, em outros textos, sobre o “não-lugar” que a sociedade impõe às nossas vivências e identidades dissidentes. São marcas profundas que carregamos ao longo da vida, a cada experiência, e nos esforçamos além dos limites para nos encaixarmos ou, então, passarmos como invisíveis, só para garantir uma suposta paz e segurança.


É um preço alto que pagamos por isso.


Obviamente, não existe em nenhuma dessas alternativas a possibilidade de se viver com dignidade. Desde cedo, nos cobramos para que aspectos “aceitáveis” aos olhos da sociedade se tornem mais visíveis, na tentativa de validação e pertencimento.


Não tem como esquecer do Pedro Henrique, aluno bolsista de um colégio tradicional de São Paulo, que, em 2024, aos 14 anos, foi suicidado pela violência que sofria por parte de outros alunos da instituição.
“Faziam chacota de mim por eu ser gay”, escreveu em uma das mensagens enviadas por WhatsApp.
A cada pessoa que morre vítima da violência, uma parte de nós também se vai. Somos cúmplices por não conseguir acolher as pessoas em suas diferenças e insuficientes enquanto sociedade, que segue a vida como se nada estivesse acontecendo.


O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBT, e ainda assim não temos políticas públicas que garantam nossa segurança, conforto e representatividade em todos os espaços.


A nós, que envelhecemos e seguimos resistindo, tentando nos manter fortes para honrar o legado daqueles que, infelizmente, tiveram suas vidas sacrificadas, cabem, também, as marcas e a incerteza de um futuro digno e acolhedor.


Sabemos que os estereótipos relacionados à identidade de gênero, orientação sexual e geração operam de maneira perniciosa, obscurecendo tanto a visão da sociedade quanto a ação do Estado, que insiste em manter discursos de igualdade enquanto ignora por completo as vivências dos grupos minorizados.
Brecht, dramaturgo alemão, nos alertou sobre isso quando escreveu: “a cadela do fascismo está sempre no cio”, e sabemos muito bem quem ela busca para anular suas existências.


Não quero finalizar esse texto num clima pesado, mas também entendo que a inquietação e o estranhamento fazem parte do processo de transformação.


Talvez, mais do que palavras, reste-me provocar empatia: e se fosse comigo? E se fosse com meu filho?
E aqui, sobrevivente de inúmeras violências institucionais e interpessoais do passado, um Diego que, muito cedo, quando ainda nem entendia o que o tornava diferente, conheceu a perversidade do não-lugar, o que eu desejo, de verdade, é que, mesmo após quase quarenta anos, a gente consiga mudar essa realidade.


Que mais vidas tenham o direito e a garantia de envelhecer e vivenciar suas velhices de forma digna.

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Depto. de Gerontologia da SBGG-SP, mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Quando a vida te diz: Não!

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de Kaboompics.com

O desejo é um bichinho inquieto e guloso… está sempre com uma fome nova, muitas vezes de algo difícil de conseguir… coloca a gente em agitação, incomodados com a falta daquilo.

O desejo é um bichinho insatisfeito… você dá o que ele quer e, pronto, logo ele já nem saboreia mais aquilo e já parte pra outra vontade.

É o que temos – desejos. Desejos e mais desejos. Mil vozes na nossa cabeça: “Quero isso. Preciso daquilo. Olha, que legal, que vontade!” Existe férias da mente?

Essa intensidade cansa, mas ruim de verdade… é o tal do: Não!

“Não é pra você. Não dará certo. Não irão te ajudar. Não gostaram do que você fez. Não lhes interessam o que você pensa ou faz.”

Na mesma facilidade que o desejo pula, o Não vem. Às vezes da gente mesmo, às vezes de outras pessoas… Muitas vezes, da vida, que parece “não querer que aconteça”.

Então, não dá pra parar de desejar? Porque esse tal de Não dói pra caramba… A mente pensa: “A partir de agora, a ordem é não querer, deixa a vida me levar”.

Pois é, mas e quando vem o Sim? E quando nosso desejo é atendido… Que sensação mais gostosa! Uma comida, uma conquista material, um elogio de alguém, um amor… Desejos atendidos jogam luz em qualquer dia cinzento!

Então, quando a vida diz: Não! … Uma saída é dizer pra ela: Sim!

Sim, você comanda, você decide…

Sim, meu poder é limitado…

E, Sim, vou seguir aqui, porque vai que você me surpreende qualquer dia desses e me faz, ainda que momentaneamente, feliz?!

A vida diz Não, a gente diz Sim…

E que venham os desejos!

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Dez Por Cento Mais: Dr. Fabrício Oliveira discute sexualidade e longevidade sem tabus

Image by Mabel Amber from Pixabay
Image by Mabel Amber from Pixabay

“Desejo não envelhece.” A afirmação do Dr. Fabrício Oliveira poderia ser apenas uma provocação retórica se não viesse sustentada por mais de uma década de trabalho clínico com pessoas idosas e pela escuta atenta a histórias muitas vezes silenciadas dentro de casa. No programa Dez Por Cento Mais, apresentado por Abigail Costa, no YouTube, o psicólogo e gerontologista defendeu com firmeza que envelhecer não significa perder vontade, nem identidade.

A entrevista trata de um tema ainda cercado por preconceitos: a sexualidade na maturidade. “As pessoas confundem sexualidade com ato sexual. Sexualidade é afeto, é toque, é desejo, é companheirismo. E isso não tem prazo de validade”, disse Fabrício, que, desde 2010, atua no universo do envelhecimento com foco no bem-estar emocional, psicológico e relacional dos idosos.

“Eu só atendo idosos”

A decisão de se especializar no público idoso nasceu de um encontro entre a sensibilidade clínica e a demanda reprimida. Tudo começou com um trabalho de conclusão de curso que virou referência acadêmica. Depois, veio uma reportagem de televisão que repercutiu de forma inesperada. “Os idosos começaram a me procurar porque se sentiram representados. Eles diziam: ‘doutor, eu tenho vontade de reencontrar o primeiro amor, mas os meus filhos acham isso uma bobagem’”.

Fabrício entendeu que não bastava escutar. Era preciso acolher, orientar e também educar as famílias. Por isso, passou a oferecer atendimento domiciliar. “O idoso vai muito ao médico. Psicólogo? Só se for alguém que vá até ele. No consultório ele não aparece”, explicou. A visita à casa do paciente, segundo ele, abre espaço não só para a escuta terapêutica, mas também para a reorganização do ambiente doméstico — desde a retirada de tapetes até conversas com os filhos que, sem perceber, reforçam o etarismo.

Miss Longevidade e o protagonismo invisível

Se os consultórios ainda são pouco acessados, as passarelas podem ser caminhos de transformação. Foi assim que surgiu o projeto Miss e Mister Longevidade, idealizado por Fabrício em João Pessoa e já realizado em várias cidades da Paraíba. “A mulher passa o ano pensando no vestido. A neta vai à escola e diz: ‘minha avó é Miss’. Isso muda tudo.”

Mais do que promover autoestima, o concurso combate um estigma estrutural: a exclusão social da velhice. “A maior violência contra o idoso no Brasil não é a financeira. É a psicológica”, alertou. E parte dela começa na infância, quando se ouve frases como “cuidado com o velho do saco” ou se vê bruxas velhas como vilãs em contos infantis. Para ele, mudar isso exige uma presença ativa: “O idoso precisa ser protagonista. Quando ele afirma sua identidade, a família pensa duas vezes antes de zombar da idade ou fazer comentários discriminatórios”.

A velhice como escolha de vida

Perguntado sobre o que espera da própria velhice, Fabrício respondeu sem rodeios: “Eu não quero ser um velho cheio de manias. Mania afasta. Eu quero ser o velho legal, que abre a casa para os amigos, que está de boa”. Ele aposta na leveza como estratégia de convivência e qualidade de vida. E reforça: “Envelhecer é natural. O que não é natural é se isolar, deixar de viver, parar de amar”.

Ao fim da conversa, deixa uma sugestão simples, mas poderosa: “Acorde, olhe no espelho e diga: hoje eu envelheci mais um dia. E que bom que estou vivo”. Para ele, aceitar o processo com naturalidade e presença é a chave para viver bem — e melhor — os anos que virão.

Assista ao Dez Por Cento Mais

A entrevista completa está no canal Dez Por Cento Mais, que você assiste no YouTube. Inscreva-se no canal e receba as atualizações sempre que um episódio inédito for ao ar. Você também pode ouvir o programa em podcast, no Spotify. 

Quando tudo não cabe no mesmo dia

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Dá tempo?

Tem que caber – dizem.

Em uma vida adulta “saudável”, tem que caber trabalho, atualização profissional, controle do orçamento, organização da rotina da casa, convivência – com qualidade – com a família, alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos, momentos de lazer e… sono, de 7 a 8 horas por noite.

Tem que caber em um dia. Em vários dias. Em todas as semanas, ao longo do mês. Como fazer? Dá tempo?

Vamos começar do fim desse caminho. Reflita comigo: onde você quer chegar? Nessa fase da sua vida, o que tem bastante valor para você? Algumas opções para te ajudar a pensar: destacar-se no trabalho para melhorar o cargo e o salário; organizar a vida financeira para juntar dinheiro para um projeto específico; cuidar mais da saúde física, com exercícios e alimentação; estar mais tempo com a família – envolvendo-se em atividades que conectem vocês…

Precisamos escolher. A vida – de todos, mas especialmente dos adultos – é feita de perdas. Precisamos saber perder, porque será necessário perder. E, se aprendermos a soltar, sobrarão espaço e tempo para o que de fato importa. Para o que mais tem valor no momento.

Desistamos da ilusão do “tem que caber”, “preciso achar tempo pra tudo isso”. Não dá tempo para tudo. Mas dá tempo para o essencial. Para o que é o grande destino dessa fase da sua vida!

Então, antes de sair, anote: onde você quer chegar? Escolha seu grande destino de agora. Organize seus dias, suas semanas, suas prioridades e suas decisões com o olhar nessa direção.

Saboreie o ato de concretizar seus desejos. Não se prenda à fantasia da super produtividade. À armadilha de que tudo caberá.

Liberte-se ao focar naquilo que importa. Para isso, sim, dá tempo!

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: a ilusão que nos move

Grêmio 4×0 Caxias
Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Pavon comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O apito final mal havia soado, e a avalanche de mensagens já rolava pelo WhatsApp, inundando as telas com euforia gremista. “O que faz a mão de um técnico!”, exclamava um amigo. “Imagina quando os reforços chegarem?”, arriscava outro, cheio de esperança. Eu, no entanto, observava tudo de longe, entre um sorriso discreto e uma dose de ceticismo. Talvez seja a idade ou os muitos campeonatos que me ensinaram que a alegria no futebol, assim como a bola, sempre gira.

Cético como nunca antes, mesmo diante da empolgação contagiante de meus companheiros de torcida, optei pelo silêncio. Não fui ao computador para conversar com você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, como costumo fazer ao fim das partidas. Na estreia, deixei de escrever porque achei que seria um desperdício de sono. A atuação pífia não merecia palavras. Já na noite de domingo, mesmo diante da goleada, decidi adiar o prazer de escrever. Não queria me render ao excesso nem ser cúmplice da ilusão que, certamente, contaminava as conversas gremistas após a primeira apresentação do time na Arena, em 2025.

Mas ilusão nem sempre é algo ruim. Foi o que aprendi recentemente ao reler o livro Rasgando o véu da ilusão, em que minha esposa é uma das autoras, junto de duas colegas psicólogas. No prefácio, o professor Alexandre Marques Cabral me desarmou com uma reflexão poderosa: a ilusão é um “conceito imprescindível para que a finitude da condição humana se faça visível e possa ser assumida em toda a sua dramaticidade e grandeza”. Decepções e desilusões, diz ele, não são o fim do caminho, mas portas de entrada para compreender os contornos da vida e aprender a conviver com as aparências – nem todas erradas, nem todas a serem corrigidas.

Dito em futebolês: aproveite que seu time está ganhando e se jogue. Comemore a vitória, celebre o bom desempenho, entusiasme-se com a dinâmica em campo. Faça tudo isso sem culpa, porque, como me lembrou hoje cedo Paulo Vinicius Coelho, o Grêmio de Gustavo Quinteros ainda não tomou gols nesta temporada — em contraponto a fragilidade defensiva das duas últimas temporadas. Reconheça a realidade como ela é, sem pressa de antecipar o que não sabemos se acontecerá. Porque não há razão para desperdiçar a alegria desse momento.

Que o Grêmio de Quinteros continue a me iludir — porque, no fim das contas, no futebol, a ilusão não é apenas inevitável: é indispensável.

Nos acréscimos: o livro “Rasgando o véu da ilusão” (Dialetica), foi escrito por Abigail Costa, Aline Machado e Vanessa Maichin

A quem pertence a nossa saudade?

Diego Felix Miguel

Foto de Magi Dobreva

Cara leitora, caro leitor, qual é a sua primeira lembrança ao falarmos sobre saudade?

Nos últimos dias, tenho refletido sobre o lugar que a saudade ocupa na minha vida. Ela parece estar enraizada na minha infância, aparecer em raros momentos da adolescência e se manifestar com frequência nas relações mais intensas que estabeleci na vida adulta. A saudade é um sentimento fascinante; nela repousam nossas memórias mais significativas, acompanhadas de aromas, sabores e amores.

Recordo aqueles momentos de risadas e da sensação de completude quando estamos com quem amamos e sentimos a reciprocidade, ou mesmo na ausência dela, quando saboreamos nossa imensurável capacidade de resiliência. Parece-me que a saudade sempre vem acompanhada por alguém: sejam pessoas queridas, animais que foram nossos fiéis companheiros ou, talvez, pela maior e mais importante presença: a nossa. É a partir dessa entrega afetiva que nos permitimos nos envolver e sermos transformados pelo contato com os outros, com os animais e com o mundo.

Sei que este texto pode soar filosófico, mas, enquanto escrevo, diversas lembranças vêm à mente, especialmente das oportunidades que tive ao longo da vida de conviver com pessoas idosas, tanto em casa quanto nos ambientes profissionais em que atuo.

Neste período em que celebramos a saudade — e, por que não, os bons afetos? — não posso deixar de reverenciar dezenas, ou talvez centenas, de pessoas mais velhas que me inspiraram e contribuíram para a construção da minha identidade. Essas contribuições vieram tanto por meio de boas experiências quanto por escolhas menos felizes, todas compartilhadas em uma intensa troca afetiva. Dessa forma, as memórias se tornam imortais por meio do legado que deixaram, mesmo sem terem plena consciência dessa responsabilidade. Elas passaram a fazer parte da essência das minhas ações e valores, multiplicando-se pelo mundo.

Ouso dizer que isso é o que chamamos de “geratividade” em sua essência: passamos o bastão de nossos saberes e vivências para as gerações mais novas, mantendo acesos os sentimentos e as saudades que carregamos.

E, pensando nisso, pergunto-me: quais saudades estou plantando nesta minha trajetória?

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP, escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.

Anestesia social

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Estou andando pela calçada e sou atropelada por um pedestre que caminhava próximo de mim: ele não me viu ali.

Estou esperando na recepção do prédio para a porta ser aberta e a porta não abre: o porteiro não me percebeu ali.

Estou entristecida porque tenho passado por um problema grave na família: ninguém nota.

Uma anestesia geral. Pessoas não percebem a presença de outras. Pessoas não percebem as necessidades e os sentimentos de outras.

Veja, não existe intenção de ser mau ou egoísta – não é um ato consciente. É que existe uma neutralidade de percepções e afetos sobre o mundo ao redor. Na verdade, é como se não houvesse mundo ao redor.

A maioria de nós, humanos, está tão ensimesmada, tão individualista, tão presa dentro de si (ou do mundo digital), que não nota os acontecimentos em volta. Desconectados, ausentes, anestesiados.

As consequências são caóticas. Nessa anestesia, não tomamos a iniciativa de respeitar o espaço do outro (exemplo da calçada), de executar a ação que é esperada de nós (exemplo da portaria), de ajudar no acolhimento da dor do outro (exemplo da tristeza).

Nessa anestesia, cada um acredita que vive no seu mundo particular, que não existe mais ninguém por ali, que está sozinho. Às vezes, pior: cada um acredita que tudo (e todos) em volta são “só” objetos e ferramentas para fazer sua vida individual funcionar – e estranha quando isso não acontece, quando suas necessidades não são vistas ou satisfeitas!

Precisamos acordar. Cada um de nós, acordar: lembrar que vivemos em sociedade, que nossas ações impactam nos outros, que precisamos funcionar todos em conjunto.

Precisamos recuperar nossa capacidade de olhar pra fora, fazer parte do todo, colaborar sempre que possível, pedir ajuda quando necessário, respeitar pessoas e mundo ao nosso redor.

Precisamos sair da anestesia – se quisermos sobreviver e, assim, ter chances de voltar a viver.

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.