Por Maria Lucia Solla
Olá,
Você leu a notícia de que a torcida sãopaulina atacou o ônibus do Corinthians, na chegada ao Morumbi?
Eu não gosto de andar de ônibus, mas adoro andar de trem, e fico sonhando em deixar o carro na estação e ir para onde eu quiser. Para Minas Gerais, para o Rio Grande do Sul, sem o estresse e o sufoco do trânsito que já entope as vias dos bairros mais longínquos.
Sonho em não ter que entrar no corpo-a-corpo com o perigo, incorporando rugas por dentro e por fora do meu corpo, a cada quilômetro rodado. Tenho horror a poluir o ar de quem está quieto e de ter que engolir sapo empanado na fumaça negra de quem não está nem aí para nada que não seja o próprio umbigo. Me imagino embalada pelo encontro da máquina com os trilhos, lendo um livro, comendo chocolate, ouvindo música, curtindo a paisagem pela janela… Mas é melhor voltar para a linha do assunto principal.
O que será que o predador sente? Ele fica à espreita, de tocaia, arquitetando o ataque, afiando o bico e as garras. Será que dá barato? Porque me parece que vicia e que é tremendamente contagioso. “Melhor nem experimentar”, sabiamente diria a minha avó.
Já está mais do que provado que dinheiro não dá garantia de felicidade, e que cultura, educação e estudos também não dão. Se a terceirização da sua vida não está trazendo os resultados prometidos, só coheço uma saída. Despertar a consciência.
Quem sabe saída não recolheu o assento, que, acreditávamos fosse cativo, para a gente não sentar e dormir. Para que possamos nos dar conta dela e descobrirmos um mundo cada dia melhor. Como ? Arregaçando as mangas e mandando às favas o medo, a preguiça, a procrastinação, que é, sim, um baita palavrão. Só mesmo desinstalando o software de birra de criança mimada, no qual fomos treinados, é que podemos fazer alguma coisa.
Será que dá para parar de destruir o brinquedo dos amiguinhos ? Dá para parar de brincar de queimada com bomba e tiro de metralhadora ? Dá para parar de espernear e bater o pezinho toda vez que alguma coisa não sai do jeito que você tinha planejado ?
Dá para parar com os crimes de todo tipo e tamanho, contra tudo e contra todos ? A maioria dos crimes são filhos da consciência que dorme a sono solto. Arruaça é filha da consciência em coma. Dá para parar de querer ter razão ? Até porque o único que sempre tem a última palavra é o eco.
Então me diga, por favor: pelo time e pelo partido, vale tudo ? Pelo poder, pelo dinheiro, pela vaidade, vale tudo ?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.
Ouça “De consciência em coma” na voz da autora.
Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos está sempre por aqui para mostrar que, apesar dos pesares, existe uma saída.