São Bernardo ensina a combater violência na escola

Reduzir em até 40% o número de atos infracionais dentro das 230 escolas da rede pública municipal e estadual, em São Bernardo, região metropolitana de São Paulo, é a meta de uma força-tarefa organizada pelo Ministério Público Estadual, através da Promotoria da Infância e Juventude. Em pouco mais de um ano de trabalho, teria havido uma queda de até 20% nas ocorrências, segundo a promotora Vera Lucia Acayaba de Toledo.

Lesões corporais, agressões entre alunos, contra professores e de professores, roubos e furtos, e consumo de drogas, são algumas das questões que deixaram de ser vistas apenas como caso de polícia e passaram a ser encaminhadas para um grupo multidisciplinar que se formou na cidade.

Para entender a boa experiência de São Bernardo ouça a entrevista com  a promotora da Infância e Juventude Vera Lucia Acayaba de Toledo. Vale a pena !

Os perigos que assolam as garagens de ônibus

Por Adamo Bazani

Os relatos de motoristas, cobradores, gerentes e fiscais que trabalharam no setor de transporte urbano até os anos 80 mostram as garagens de ônibus  como extensão das comunidades. Nas garagens, vários garotos brincavam vendo os ônibus e os mecânicos trabalhando. Muitos. inclusive, se tornaram profissionais do setor.  Algumas garagens aos fins de semana se transformavam até mesmo em pontos de encontro, onde eram feitas churrascadas e os empresários atendiam às comunidades carentes.
Com o aumento da violência urbana e da organização de quadrilhas de roubos e assaltos, as garagens de ônibus viraram fortalezas, com câmeras de segurança, cabines de vigia e o acesso à população se tornou bem difícil, o que implicou num maior distanciamento entre passageiros e empresas. Até mesmo os busólogos, grupo de pessoas que admiram ônibus, têm uma vida difícil quando querem pelo menos fotografar um veículo novo que chegou em determinada empresa ou registrar as últimas imagens de um veículo que vai ser vendido.

Muita gente sabe o quanto é perigoso trabalhar com ônibus na rua. Diariamente, vários motorista e cobradores são assaltados ou vítimas de gangues, torcedores de futebol em dias de clássicos e de muito vandalismo. Mas trabalhar nas garagens de ônibus também tem sido perigoso.

Maria Eliana Barbosa da Silva, de 46 anos, trabalha na Viação Barão de Mauá, há 28 anos, sempre lidando com o setor financeiro. Ela começou a carreira rasgando passes de papel, depois passou para o departamento pessoal, datilografava folhas de cheques de pagamento de motoristas, controlava a bilhetagem até ser chefe do setor financeiro de um grupo formado por três grandes empresas de ônibus em Mauá. Ela tem relatos impressionantes para contar de como as garagens viraram alvo em potencial de grupos criminosos especializados.

Maria já viu várias tentativas de assaltos, principalmente em dias de pagamento nas garagens, mas dois fatos a marcaram: o seqüestro do qual foi vítima e o seqüestro da mulher do sócio majoritário das empresas.

Era uma sexta-feira, final de 1998. Maria tinha acabado de sair da garagem em Mauá. Perto de sua casa, viu um homem encostado num carro, estacionado na esquina, que a abordou. O homem sabia que ela trabalhava na empresa, o nome, o apelido dela, Morena, e sua rotina de vida. Armado, ele obrigou Maria Eliana a entrar no carro, onde estavam outros seqüestradores. O objetivo do grupo era usá-la como escudo para invadir a garagem de ônibus no fim do dia. Nesse período, os ônibus trazem toda a féria das tarifas, e o banco da empresa ainda estava com o dinheiro que muitos trabalhadores iriam sacar.

“Foram momentos de tensão. O grupo sabia que naquela época eu tinha um carro Tipo, cor preta, e foi até minha casa, usada como meu próprio cativeiro, para pegar o meu carro e invadir a garagem com ele, para facilitar ainda mais o assalto. Mas naquela semana tinha batido  o carro e ele estava na oficina”.

O grupo armado entrou na casa de Maria Eliana e a fez refém, enquanto planejava como invadira a garagem com um carro desconhecido. “Eu já estava muito nervosa. Os bandidos estavam de cara limpa, mas quando falaram que estava chegando a hora de invadir a garagem, eles colocaram capuzes, aí, fiquei com mais medo ainda, não sabia o que ia acontecer. Foram horas desesperadoras”.

A casa de Maria ficava a poucos minutos da garagem. O bando tinha dito para ela que observava a rotina da funcionária e da empresa há mais ou menos seis meses. E não era mentira, pois detalhes que só quem conhece o funcionamento da empresa eram de conhecimento do grupo criminoso. Repentinamente, o celular de um dos assaltantes toca. Era um olheiro, dizendo que o seqüestro e assalto tinham de ser abortados, pois uma ronda policial estava insistentemente ao lado da garagem. Alguém teria descoberto o plano e avisado a polícia, pela movimentação estranha ao redor da empresa.

“Eles tinham olheiros em todo o canto. Os seqüestradores então me trancaram e foram embora.  O susto foi muito grande e o que me surpreendeu foi o fato do alto conhecimento e especialização deles, além das armas grandes. Até hoje tenho trauma disso” – confessa.

A Polícia foi avisada, mas não chegou a prender os criminosos.

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Trote universitário: quando perdemos nossos filhos?

Por Ricardo Gomes Filho
Ouvinte-internauta do CBN SP

Universitários novatos submetidos à humilhação de serem amarrados, embriagados e forçados a se espojar em uma mistura composta por lama, esterco e restos de animais em decomposição. Este foi o valor cobrado por estudantes veteranos a jovens recém-matriculados, durante o trote, ocorrido em algumas universidades do interior de São Paulo. A brincadeira, antes um ato de integração entre os cursando e os recém-matriculados, há muito deixou de ser uma pregação de peças engraçada, inócua, sadia para se transformar numa catarse daquilo de pior que habita o ser humano: o desrespeito ao próximo, à vida do seu igual, à própria família e de outrem. Sem defesa e com os sonhos mutilados pela violência em bando os novatos tiveram de aceitar o preço imposto pelos cursando.

A pergunta que mais ecoa entre operários, donas de casa, empresários, o próprio alunado e professorado é: o que poderia explicar tanta violência no ambiente acadêmico – um lugar que deveria ser centro de cultura, inteligência e reflexão?

Talvez a própria má-formação humana, ética e de caráter desses jovens. O psicólogo Içami Tiba já descreveu em livros, palestras e entrevistas que nós, pais e mães, estamos cada vez mais à mercê de nossos filhos porque abandonamos a conversa do dia-a-dia, olho no olho. A falta de tempo e o mundo mercantilista nos roubaram o interesse pelo envolvimento e desenvolvimento das crianças e jovens. Por isso, somos presas fáceis das chantagens emocionais e da rebeldia precoce dos nossos rebentos. Em vez da educação, do limite (equilíbrio entre direitos e deveres), do respeito ao próximo, trazemos “oferendas” aos nossos deuses, os filhos.

Pagamos o comportamento e o cumprimento daquilo que é obrigação dessas crianças e jovens, com prêmios que variam de acordo com o tempo. Dos  bonecos do Falcon e da Barbie, passamos por Lango, Transformers, até chegarmos aos “irados” vídeo games de última geração – sem esquecermos das vistas grossas para as intermináveis horas em lojas de jogos em rede (lan houses). Tudo isso salpicado com longas e entediantes horas em frente à tevê e, agora, aos sites de relacionamentos da internet, sozinhos em seus bunkers (quartos). Mas acredite, o problema não está nos bonecos. Nem na tevê. Nem nos games. Nem nas salas da internet. Está no distanciamento dos pais em relação a seus filhos.

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Trote violento reproduz o que jovens fazem na escola

Na primeira página dos jornais e nas imagens divulgadas pela televisão, o trote aos calouros ganhou destaque devido a violência que obrigou pessoas a serem hospitalizadas, nesta semana. No interior de São Paulo, na cidade de Leme, a polícia apura as responsabilidades pelas agressões contra estudantes e pelo fato de dois calouros terem sofrido coma alcóolico. No entanto, o que se vê na porta das universidades e choca opinião pública acontece, também, na sala de aula do ensino médio e infantil. Não que os alunos sejam obrigados a beber, mas são muitas vezes vítimas da agressividade dos colegas em uma prática batizada com o nome inglês bullying.

Com apelidos e expressões preconceituosas estes jovens são alvo de outras crianças e adolescentes e ficam fragilizados em sua defesa pois na maior parte das vezes a escola não é capaz de identificar a agressão moral e psicológica. Prática essa que ocorre, também, pela internet através do cyber-bullying.

O CBN São Paulo discutiu o tema com dois especialista no assunto:

Ouça a entrevista com o pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Renato Alves

E aqui você conhece a opinião do vice-Reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Pedro Ronzelli

 

Riscos da Operação Saturação na favela de Paraisópolis

Com a presença de enorme contigente de policiais, pela segunda vez,  o Governo do Estado de São Paulo decide implantar a Operação Saturação na favela de Paraisópolis, na zona sul, onde houve confronto com moradores na segunda-feira. As entradas da região estão vigiadas pela Polícia Militar, segundo informou o repórter Fernando Andrade, da CBN.

A coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP questiona a ação policial, neste momento. Lembra que na favela, as famílias vivem como se estivessem em guetos e são obrigados a conviver com diferentes grupos, desde organizações não-governamentais que atuam para melhoria da qualidade de vida até as criminosas que exploram o tráfico na região.

Ouça o que disse Nancy Cardia em entrevista ao CBN SP.

Paraisópolis, da violência à ação social

Lojas abertas, ônibus circulando, e pessoas caminhando nas ruas. Fora do normal era o número de policiais e viaturas espalhados nas esquinas, além de alguns restos do confronto que marcou a segunda-feira, na favela de Paraisópolis.

Para entender o que provocou os incidentes lamentáveis de ontem, a CBN conversou com pessoas que conhecem e trabalham dentro da comunidade na zona sul da capital paulista. Das entrevistas foi possível tirar um perfil dos cerca de 80 mil moradores desta que é a segunda maior favela paulistana.

Um dos pontos cruciais foi a morte de um homem no domingo por policiais, o que teria revoltado a família que decidiu protestar. Antes da manifestação, houve uma tentativa de negociação com a polícia, sem sucesso.

Ouça o que disse ao Jornal da CBN o presidente da Associação dos Moradores de Paraisópolis, Gilson Rodrigues.

No CBN São Paulo, ouvimos o comandante da PM na capital, Coronel Ailton Araújo Brandão

Favela tem mais de 50 ONGs e dinheiro do PAC

A presença de organizações sociais dentro da favela de Paraisópolis é uma das marcas positivas desta comunidade. Existem cerca de 50 ONGs atuando com os moradores, além das iniciativas individuais. Da formação de jovens ao atendimento a pessoas dependentes de drogas, do incentivo a cultura à capacitação profissional, é possível encontrar diferentes trabalhos sendo desenvolvidos.

Ouça o que conta o fundador da ONG Barracão dos Sonhos, Dinho Rodrigues

A região também passa por um programa de urbanização que une os governos municipal, estadual e federal, no qual são aplicados cerca de R$ 117 milhões que vem do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento. De acordo com o subprefeito do Butantã, Luiz Ricardo Santoro, a limpeza de córregos e a construção de cerca de mil unidades habitacionais são duas das ações que estão sendo realizadas neste momento.

Ouça a entrevista com o subprefeito Luiz Ricaro Santoro.

Por que teve essa explosão de violência em Paraisópolis?

Reproduzo texto e título de post escrito por Joildo Santos, morador da Paraisópolis, envolvido na Escola do Povo e outras ações sociais na favela que reúne pouco mais de 80 mil pessoas e foi cenário de confronto com a polícia.

Não me surpreendo mais em ler nas mal traçadas letras de jornalões paulistas, de assistir em canais da TV tradicional e ouvir nas rádios, as mentes iluminadas da imprensa brasileira, que a serviço sabe-se lá de quem preferem esconder a realidade da população, transparecendo que fatos como que os que ocorreram em Paraisópolis são fatos isolados e que para resolvê-los basta a ocupação policial permanente e intensiva.

À exceção do jornalista Mílton Jung que publicou um post sobre o que ocorreu ontem e de mais alguns poucos que conseguem não se contaminar pelo discurso preconceituoso contra nossa comunidade.

A tese de muitos é exemplificada da seguinte maneira: “Ao encontrar sua filha transando no sofá, o sujeito joga fora o sofá”, resolvendo assim um problema eminentemente de educação sexual.

Não adianta virar a cara para o outro lado e achar que bloqueando a comunidade esses problemas vão ser resolvidos, fingir que se preocupa também não adianta, o problema continua lá. O que falta é comprometimento e descer do pedestal de senhores iluminados e buscar arregaçar as mangas em prol da população.

A ameaça do Morumbi é aumentar a pressão sobre Paraisópolis. Costumamos dizer que “Não existe Morumbi bom com Paraisópolis Ruim.”

Movimento espontâneo que se descontrolou ou ação manipulada não importa, porque o que devemos nos atentar agora é a razão que leva a ocorrência de atos deste tipo.

Julguemos que sejam presos os tais responsáveis por orquestrar essa ação, o que fazer daqui para frente? Deixar para lá? Fingir que nada aconteceu? Barril de pólvora é assim quanto mais é pressionado tem cada vez mais chance de explodir. Deve-se lembrar que ali residem mais de 80.000 pessoas, cidadãos que precisam ser assistidos pela sociedade, ser inclusos para exercerem plenamente sua cidadania.

Agora a polícia ocupa Paraisópolis por tempo “indeterminado”, até prender os responsáveis [dizem os comandantes]. Espero que os direitos dos moradores, falo daqueles que saem as 5 da manhã e voltam às 18-19 horas e não estavam naquela baderna não sejam mais uma vez violados à guisa de “encontrar” os responsáveis pela ação.

Tem um detalhe que gostaria que analisassem, o estopim que está sendo relatado na imprensa, o suposto assassinato de um trabalhador [ou de um bandido, como diz a PM] teria ocorrido por volta do meio-dia do domingo, e a manifestação de ontem ocorreu bem próximo dos horários dos programas polícias da TV aberta [Brasil Urgente, SP Record e logo mais o SPTV da Rede Globo], ou seja mais de 24 horas depois do ocorrido.

Acredito que o que realmente ocorreu foi a demonstração de poder de uma facção que o Governo do Estado de São Paulo já disse não existir mais, e que a imprensa prefere encampar o discurso oficial. Ao ver um dos “seus” ser assassinado, precisavam dar uma resposta ao fato e demonstrar que “quem manda” são eles.

Neste fogo cruzado quem é a verdadeira vítima é a população que vive nesta comunidade, com índices baixos de violência, com histórico de atuação dos movimentos sociais em rede entre outras ações.

A violência tem raiz e é ela que deve ser atacada, não os frutos, pois assim as razões dos problemas permanecem intactos.

Desafios fizeram de Aniceser um líder nas garagens

Por Adamo Bazani

O transporte de passageiro é um dos setores mais dinâmicos. Em algumas ocasiões, nada do que se planeja – horário, escala, itinerário – dá certo, pois os imprevistos são constantes. Sem contar a rapidez nas decisões e a necessidade de  lidar com pessoas das mais diferentes, num só dia.

Foi essa rotina que, inicialmente, assustou o encarregado de tráfego da Viação Barão de Mauá, Aniceser Antônio Santana, de 37 anos, há 20 no setor. Foi também essa correria e agitação que despertou no mineiro, que veio para São Paulo ainda novo, o espírito de liderança. Hoje, ele comanda as operações de um conglomerado de três empresas: Barão de Mauá, Januária e E A O S A (empresa Auto Ônibus Santo André), um contingente de mais de 700 profissionais e uma frota que beira 400 ônibus.

Até chegar a este posto, Aniceser teve de suar muito a camisa e enfrentar momentos tão difíceis que pensou em desistir. Acostumado com uma rotina simples e pacata na cidade de Lagoa Formosa, interior de Minas, ele veio trabalhar na Grande São Paulo, no fim dos anos 80. E iniciou carreira na  Viação Barão de Mauá,  que ainda não fazia parte de um conglomerado. Era fiscal de plataforma, responsável por gerenciar as partidas e chegadas de ônibus de várias linhas dentro de um terminal.

O choque entre a rotina na cidade natal e o cotidiano em Mauá foi enorme. “Nunca imaginava tanta correria, tanta responsabilidade e necessidade de se tomar decisões rapidamente. No meu primeiro dia me senti num barco sem vela, sem rumo, sem horizonte. Não conhecia ninguém na empresa e era difícil atender todas necessidades que a função exigia”.

No início dos anos 90, em Mauá, os motoristas e cobradores não usavam uniformes. Aniceser se lembra que viu um homem parado perto de um ônibus e disse pra ele: “Bom, já ta na hora, pega o carro e vai fazer tal linha”. O homem não era motorista. Era um passageiro a espera do ônibus que, até aquele momento, estava sem condutor. “Depois de perguntar prá meio mundo, descobri quem era o motorista. É assim que a gente começava. Não tinha tempo de ficar conhecendo todo mundo na garagem”. Vários erros aconteceram no primeiro dia de trabalho de Aniceser que se encerrou com ele trancado em uma cabine de fiscal e chorando.

No dia seguinte,  forças renovadas e a determinação de prosseguir no ramo “Sempre gostei de encarar desafios, então fui à luta. Meu sonho era liderar pessoas, e no ramo de transportes  as oportunidades para isso, se bem aproveitadas, são muitas e bem recompensadoras”.

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A Paraisópolis está no Datena !

Na rua, um amigo comenta: “mataram dois nessa noite em Paraisópolis”. A segunda-feira estava apenas começando. Durante o dia estive afastado dali e soube muito pouco do que estava para ocorrer.

Apenas o recado no telefone celular, ouvido às cinco da tarde, me alertou para o que iria se transformar em notícia nos telejornais da noite: “Vão travar a Giovanni, a polícia matou um trabalhador”. Eu estava de carro, a caminho da avenida que separa o Morumbi, um dos mais nobres bairros da cidade, da Paraisópolis, a segunda maior favela da capital. Avisei a redação, que ainda não sabia de nada.

O congestionamento na subida da Giovanni, pouco depois do estádio do Morumbi era mais um sinal preocupante. Fosse outro dia qualquer, o colocaria na conta da falta de planejamento no trânsito. Troquei de estação de rádio várias vezes. Ninguém dizia nada. O relógio marcava cinco e meia da tarde.

O comboio de viaturas da polícia na contramão e sirenes estridentes não deixavam dúvida. O recado estava certo. A coisa iria complicar. Saí na primeira rua à direita e passei a desviar de policiais que vinham no sentido contrário. Voltei a relatar ao pessoal da redação o que ainda não havia chegado no noticiário.

Antes de chegar em casa, o som do helicóptero já chamava atenção. Quando eles sobrevoam por ali pode ter certeza: ou é a polícia caçando bandido ou a imprensa caçando notícia. E se é da imprensa, ou estão olhando de cima para o Pirajuçara ou para baixo na Paraisópolis.

Liguei a TV e não tinha mais jeito. A Paraisópolis já estava no Datena. E a polícia, também.

A Escola do Povo, o Barracões do Sonho, a  Crescer Sempre, o projeto de capacitação de jovens na prevenção às violências e ao uso abusivo de álcool, os R$ 117 milhões para urbanizar a favela e mais um mundo de ações desenvolvidas neste complexo com mais de 80 mil pessoas serão esquecidos. E todos transformados “nestes bandidos” – expressão tão comum quanto injusta por igualar os diferentes.

Lembrei do Gilson, do Rolim, do Joildo, da Maria, das filhas e dos filhos deles. Dessa gente que luta para viver e enxerga a violência da porta de casa. Não precisa de helicóptero para saber o que acontece nas ruas de Paraisópolis.

CET só multou um motorista por desrespeito a ciclista, em São Paulo

Foi uma das perguntas ao superintendente de planejamento da CET Ricardo Laíza, quantos motoristas foram multados por desrespeito ao ciclista. Durante a entrevista que foi ao ar nesta sexta-feira, no CBN São Paulo, ele disse que não tinha a informação naquele momento.

A pergunta tinha como objetivo apenas chamar atenção para a prioridade da fiscalização de trânsito na capital paulista, pois na conversa Laíza se esforçou para mostrar que a CET está agindo para reduzir a violência que resultou na morte de uma ciclista, nessa quarta. Citou a participação em discussões de grupo, estudos para implantação de ciclovias e palestras para motoristas de ônibus, como exemplos das medidas adotadas (?). Na realidade, reproduziu em parte o que dizia a nota da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente que está publicada um pouco mais abaixo aqui no

Na opinião dele, a morte de Márcia foi um caso isolado. O número de mortes de ciclistas está diminuindo, apesar de ainda ser alto (veja quadro da violência do trânsito aqui mesmo no blog). Para andar com segurança, o ciclista tem de ter noção de “direção defensiva”.

Pelo menos não aproveitou a situação para por a culpa na administração anterior, como fez o prefeito Gilberto Kassab (DEM) em entrevista na quinta-feira, ao repórter Fernando Andrade, da CBN.

Pelas mensagens que recebi desde que a entrevista foi ao ar – e, infelizmente, restrições técnicas no blog me impedem de reproduzi-la, assim como as demais feitas no programa -, as justificativas de Ricardo Laíza não covenceram os ciclistas da cidade que esperam muito mais da prefeitura.

André Pasqualini, um dos organizadores da Bicicletada, escreveu que também havia feito à CET a mesma pergunta sobre o número de multas por desrespeito a lei de trânsito que exige que os motoristas mantenham distância de até 1,5 m das bicicletas.

Leiam a resposta que recebeu:

Informamos que em pesquisa realizada foi encontrada 01 (uma) autuação no
enquadramento Código 589-4 (Deixar de guardar a distância lateral de 1,50m ao passar/ultrapassar bicicleta no período de dez/2007 a nov/2008. )

No CBN SP, Ricardo Laíza, apesar de não se lembrar do número de autuações, deu uma “resposta defensiva”: “há dificuldades técnicas para os fiscais da CET multarem este tipo de infração”.