Conte Sua História de São Paulo: Chiove

 

Por Sérgio Mendes
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Chiove” sonorizado por Cláudio Antônio

"Olhar da janela da minha casa para a av Santo Amaro", por Sérgio mendes

Você já ouviu E chiove, na voz de Zizi Possi ? Esta musica é a minha história de São Paulo. Quando cheguei, vinha de quase cinco anos fora do Brasil. E vim pra cá justamente pelo nome que dá título ao disco daquela música napolitana interpretada tão bem por Zizi. Os primeiros dez dias eu estive hospedado na casa de uma tia que morava e ainda mora até hoje na Brás Leme, em São Paulo.

Per amore, cheguei antes. Seis meses antes. São Paulo era a possibilidade de fazer viável um projeto antigo.

É claro que não podia permanecer muito tempo ali, e a partir de uma primeira visita à Av. Paulista meu amor por São Paulo se confirmou. Não poderia mais viver em lugar algum.

Meu tio me acompanhou naquele domingo, fomos de metrô. Ele mudo e eu embasbacado!

No dia seguinte tratei de encontrar logo um lugar para morar. Fazia frio, garoava e o centro estava lindo. Ficou impresso na minha mente, uma das saídas do metrô Pça da República. Aquela escada que dá vista para o Terraço Itália! Aquilo é de arrepiar !

Foi só depois que eu fui percebendo que a cidade estava mesmo era mal tratada, e tinha ares de abandono. Naqueles primeiros dias, ela ainda era as imagens dos livros que eu havia lido. Rua Aurora, Rua 7 de abril, o Viaduto do Chá, o Anhangabaú, até o Paissandu. E chiove!

Ainda não havia os celulares com MP3, não havia mesmo nem MP3, nem celulares. A música era na cabeça mesmo… E faz só pouco mais de dez anos!

Encontrei o meu cantinho em uma quitinete na rua Abolição, bem perto da Câmara Municipal. O dinheiro era curto. E eu tinha que seguir estudando, passar no vestibular e trazer meus créditos da Universidade para concluir aqui meu curso.

Seis meses. Meu apê, não tinha nada, entenda bem… Nada! Mas era meu! Era a minha casa agora, e logo seria a nossa casa!  Como eu disse, o dinheiro era curto, curto mesmo. E eu tinha que esticar o máximo possível, para que o projeto fosse possível.

Seis meses pagando o aluguel e caminhando !

Caminhava e estudava. Era o que eu fazia. Logo cedo eu tomava um copo de café no boteco da esquina, 70 centavos e caminhava rumo a Santana. Saia da rua Abolição e caminhava. Duas horas, admirando as belezas estonteantes deste lugar caótico. Atravessava o Vale do Anhangabaú e seguia pela calçada da Brigadeiro Tobias, Av. Tiradentes, Av. Santos Dumont e finalmente Brás Leme.

Comer, estudar e voltar. Neste percurso diário, aprendi sobre a vida de são Paulo que não estava na novela, sobre os rostos que não vão pra TV, que nunca vão e sempre estão. Eu via o Metrô. Eu via os carros. Eu pensava e caminhava.

De volta à minha casa, era tomar banho e seguir para a Paulista, no prédio da Radio Gazeta, onde eu fazia um cursinho pré-vestibular e caminhava. Estudava e caminhava.

Desta vez pelo Bexiga! Vi ruas escuras, abandonadas, passei por moradores de rua, cães, portarias de prédios, frangos assados, cheiros do centro e os magníficos ares da Paulista! A avenida da TV.
Eu me sentia parte. Poucas vezes tive medo. Sendo estrangeiro, era parte. A síndica do meu prédio, uma senhora negra e grande por nome Erundine, bateu a minha porta e tomou o meu depoimento! Depois que descobriu as minha reais intenções, me disse que nunca olhasse para ninguém e seguisse o meu caminho, desta forma não teria maiores problemas. Somos amigos desde então !

A cidade me acolheu, as personagens da rua não sabiam que eu era de fora, minha aparência nordestina me fazia tão igual a eles e eles eram eu, também. Meu único obstáculo era a chuva. Não dava pra caminhar e chegar molhado para a aula. Mas não dava para não caminhar e não comer!  Assim segui em frente, e houve dias que não pude estudar.

Seis meses se passaram. Finalmente minha casa virou a nossa casa. Não deu tempo de virar doutor. Tínhamos a responsabilidade de nos mantermos, Voltei a trabalhar com o que trabalhei desde os dezesseis, procurei escolas de idioma e voltei a ensinar. Já morei na Vila Olímpia, estou agora na Lapa, onde compramos nossa primeira casa. Gente estranha que mora lá no alto…é São Paulo!

Bairros distintos, rostos de TV, rostos anônimos, de botequins, de viver na rua, de morar no vigésimo andar!

São Paulo tem de tudo, e esta é a força da beleza daqui, mal tratada, sempre esperando a promessa de que será melhor. Dividida entre a gente da TV e a das ruas. Díspar por que foi feita para a gente da TV e eu suspeito que sejam quase todos como os da rua. Cidadãos possíveis.

Mas esta terra generosa me acolheu assim mesmo e em retorno a tornei minha. E quero cuidar dela caminhando sempre. Dos lugares bonitos onde já morei, nem um tem a beleza do Centro, menos ainda quando chove aquela garoa que só cai aqui em São Paulo.

O autor deste texto é Sérgio Mendes. A sonorização é do Cláudio Antônio. Você participa enviando seu texto por escrito ou em arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. Leia e ouça outros capítulos da nossa cidade no Blog do Milton Jung.