De música e família

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Fui passar o final de semana na casa do meu filho, no extremo sul de Minas Gerais. Ele mora com a família, no topo de uma montanha cercada de vales, de outras montanhas e da natureza toda, com a qual convivem respeitosa e agradecidamente.
Sempre aprendo, e aprendo muito lá.
No final da tarde de sexta-feira estava lendo, tranqüila na sala, quando comecei a ouvir meu filho no banheiro, administrando um de sete, um de cinco e uma de três, no banho. Foi muito interessante.
O resultado era um quarteto afinado, composto de uma só família de instrumentos que emitiam sons completamente diferentes. Ouvi de gritos de Tarzan a choro, e risadas de quase perder o fôlego. Às vezes meu filho, o primeiro violino, conseguia um solo surpreendentemente calmo e equilibrado, mas era por pouco tempo porque os outros instrumentos se atiravam literalmente em cena. Os movimentos da peça eram inesperados e surpreendentes. Tinham começado hesitantes, na entrada do banheiro, num adagio ma non troppo, e crescido até chegarem ao allegro. Tudo indicava que haveria um segundo movimento, mas não demorou para que quebrassem todas as regras e ziguezagueassem entre extremos.
Sem anúncio prévio nem sutil indicação, um ou outro instrumento se retirava do conjunto, por espaços de tempo descompassados, e o andamento continuava surpreendendo.
Havia ais, havia uis, havia sai daí que agora é minha vez, e olha ele pai! E eu, de camarote, sorria, me deliciando. Lavou bem a orelha filho? Ai pai, meu olho! Enxuga bem no meio dos dedos. Deixa eu ver atrás da orelha. Ai!
Quando estavam todos vestidos e cheirosos, meu filho pediu para eu secar os cabelos da criançada, e plugou o secador na tomada ao lado do sofá onde eu tinha sentado para ler.
Terminada a tarefa, dei graças aos céus por serem só três cabecinhas molhadas. Era o meu limite. Os cabelos da pequena, além de longos, finos e loiros, são cacheados. Bastaria um deslize para que eu perdesse pontos preciosos da sua confiança.
Entrei no quarteto, no meio de nova execução, quando fui à saleta de televisão onde se acomodavam para ver um filme, com o pai. Não demorou para eu perceber que a melodia resultante era bem diferente da que eu ouvira antes, vinda do banheiro. Saí de cena para testar e percebi que a melodia recobrava a harmonia original.
Tomei então a decisão de conter meu instrumento. De hoje em diante vou tocar mais baixinho, acompanhando mais do que solando. Quem tem ensaiado junto todos os dias, ano após ano, tem maestria do conjunto. Eu não. Sei que toco bem, sem falsa modéstia, mas no conjunto, sem ensaio, faço apenas o que posso, e de improviso, no momento da apresentação. Nunca tinha olhado para nós mesmos, através dessa lente. Gostei. Não posso dizer que vejo mais, mas seguramente vejo melhor.
Quem disse que vovós e vovôs não ouvem e não vêem bem?
Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Um comentário sobre “De música e família

  1. Sou françesa e adoro ouvir o ler a lingua portuguesa brasileira. Foi um prazer intenso de ler esse texto; poesia, sensibilidade, pudor, discreçao. : todos os ingredientes de uma vovo perfeita !!!

    Sophie (Paris)

Deixar mensagem para sophie Baccetti Cancelar resposta