De Cidade Limpa a exemplo de cidade


Reprodução do caderno de cultura da ZH

São Paulo é exemplo e inspiração de reportagem do jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul, sobre a poluição visual. O tema provocado por um leitor ganhou duas páginas no caderno de Cultura e reproduziu uma série de opiniões que copio para você nas notas abaixo. Todos são arquitetos, cada um com seu olhar. Há quem defenda, há quem critica, mas não há indiferença. E você: o que pensa de tudo isso ?

Issao: catálogo telefônico

“A cidade contemporânea é um depositário de interesses pessoais, uma terra de ninguém, uma vitrine a céu aberto, como um imenso catálogo telefônico. Há uma hipertrofia da imagem, uma gigantografia”


“No primeiro momento, há uma gritaria. Depois, as pessoas se acostumam. A legislação em geral trabalha com as noções de mínimo e máximo, não com o ideal. Há uma excessiva permissividade. É nesse quadro que um prefeito totalmente desconhecido, que veio do anonimato (Gilberto Kassab, que era vice de José Serra), de um partido conservador (o recente Democratas, antigo PFL) aparece com uma vontade política de ver as coisas com outros olhos.”

“A cidade respirou, se viu aliviada. Estávamos míopes, com os olhos sujos”.

Issao Minami, arquiteto, professor da FAU-USP.

Prysthom : cidade artificial

“Um certo excesso e feiúra fazem parte da cidade contemporânea. É uma condição inevitável. Acho artificial o que foi feito em São Paulo. Talvez fossem mais interessantes programas que envolvessem a população na revalorização dos espaços”.

“Pessoalmente, achei ótimo. Em Recife, o centro histórico até que está bem preservado, mas nos chamados bairros de classe média a poluição visual é muito invasiva, muito violenta. Ali, pouco a pouco, os espaços públicos foram sendo privatizados.”

Angela Prysthom, professora no Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, doutora pela Universidade de Nottingham (Inglaterra).

Portella: cidade clonada

“A desordem dos anúncios comerciais pode criar o que chamam na Inglaterra de “clones towns”. Clone towns são cidades onde a identidade histórica e local das ruas de comércio é substituída por anúncios comerciais de franquias e lojas de departamento, cujos logotipos são conhecidos internacionalmente. Neste caso, o indivíduo perde a referência da identidade local de cada cidade e passa apenas a ter uma imagem mental de vários anúncios sobrepostos uns aos outros. Em uma visita que fiz às cidades de Alexandria e Cairo, no Egito, no ano passado, pude ter essa experiência. Nessas cidades, embora o contexto cultural seja completamente diferente do brasileiro, em muitas ruas comerciais os prédios históricos são cobertos por anúncios de franquias internacionais, sendo a situação muito similar com a que encontro em Pelotas ou Porto Alegre.”

Adriana Portella, arquiteta e pesquisadora

Kiefer: cidade negada

“A cidade, hoje, é vista mais como um lugar para se ganhar dinheiro do que um lugar para se viver. As ruas deixaram de ser ruas. Há uma negação da cidade histórica, que era feita para se andar”.

Flávio Kiefer, arquiteto, UniRitter-RS.

Mahfuz: cidade borrão

“É um mundo regido pelo grito. Ora, edifícios de escritórios não deveriam ficar berrando pela cidade. Edifícios de escritórios deveriam ser discretos. Tudo acaba em um excesso de formas. Vira um borrão”

Edson Mahfuz, arquiteto, professor de Arquitetura da UFRGs

Deixe um comentário