Como deve ser o diálogo de governantes e governados pergunta o médico-escritor Moacyr Scliar, em uma de suas crônicas publicadas no jornal Zero Hora. No texto, lembra frases recentes de autoridades brasileiras sobre a crise no setor aéreo que causaram indignação apesar de terem sido disparadas com o intenção do bom humor.
Scliar faz a pergunta em tom de auto-provocação, já que ele próprio oferece as respostas. Diz que, em primeiro lugar, governante tem de falar sério. E ressalta o fato de o brasileiro ser brincalhão, mas não querer brincadeiras de seus líderes.
Tem um segundo argumento: o povo não quer comentários, esperam de seu governo soluções objetivas, rápidas, precisas e eficazes.
A tentação da brincadeira, da frase bem humorada e da piadinha de oportunidade já deixou muita gente de saia justa, não apenas governantes. No setor corporativo até hoje os homens escorregam em gracinhas sobre as mulheres durante uma reunião, na maioria das vezes com a mesa cercada ou comandada por elas.
No almoço de domingo, quem nunca deixou escapar maledicências sobre solteironas diante daquela tia que até hoje está a procura de marido; ou fez voz afeminada em imitação barata de um gay no dia em que o tio enrustido foi visitar os sobrinhos; sem falar das bolas-fora quando a turma parte para as piadas étnicas e esquece a presença do amigo judeu.
O discurso politicamente correto, as escolas de marqueteiros e os treinamento de mídia limitaram muitas dessas gafes que fazem parte do anedotário nacional, mas não foram sucientes para eliminá-las do pensamento do cidadão. Por isso, escapam no primeiro descuido e podem gerar constrangimento de toda ordem.
A única vantagem mesmo é que ao se assistir a um autoridade nesta situação tem-se a certeza de que pelo menos naquele instante não estão sendo hipócritas. Dizem a verdade, falam o que pensam, sem cerimônias e sem vergonha, sem-vergonha.
Para Scliar há um sentimento de que, sem seriedade, os problemas do país não serão resolvidos. Eu acrescentaria que sem sinceridade, também não. O Brasil seria melhor se as pessoas dissessem o que realmente pensam. Com certeza não continuaríamos sendo enganados por aparências construídas em laboratório e tornaria mais fácil a tarefa de definir o caráter de cada um.