Por Maria Lúcia Solla
Olá,
Passei parte da manhã de sábado num grande laboratório de análises clínicas, em São Paulo. Logo na entrada, pegando uma senha em moderna engenhoca eletrônica, ergui as sobrancelhas – era cedo demais para reação mais profunda – ao ver o número de pessoas que tinham acordado ainda mais cedo e estavam sentadas na primeira sala de espera. Lotada.
Com a senha na mão eu esperava, nos dois sentidos, que cada campainha estridente viesse acompanhada do meu número, estampado em vermelho num dos painéis espalhados à volta. Enquanto isso, o máximo que cheguei a ler foi meia página truncada, de um saboroso livro de Gabriel García Márquez, testemunha de minha jornada.
Dava um sobressalto a cada campainhada e, quando a sorte grande bateu à porta, fui até o guichê indicado na tela. Apresentei documentos, passei por revisão detalhada de meus dados cadastrais, já vistos e revistos outras vezes, e entreguei as requisições do médico. A atendente levantou com elas nas mãos, fez cópias, sentou, levantou novamente, voltou a sentar, digitou, imprimiu uma requisição para cada exame e profetizou mais duas salas de espera no meu destino, naquela manhã.
Exames clínicos hoje são obrigatórios, você sabe. Não se admite viver um ano inteiro sem pagar regiamente para que examinem seu corpo, por dentro e por fora, que fotografem e imprimam cópias, retirem e analisem alguns de seus humores mais bem guardados, e que ainda por cima comentem e troquem opiniões a respeito.
E não é preciso que haja queixa, dor, ou suspeita de que algo não ande bem com você, para que seja dada a largada na corrida aos exames. Agendamos inspeções e laudos periódicos, porque não sabemos mais sentir. Temos noção distorcida do que seja normal e do que seja sadio, e estamos tão ocupados com pensamentos, tarefas e metas a serem atingidas que mal percebemos o descompasso do coração. A poluição envolveu, e levou com ela, nossa capacidade de sentir, da comida os odores e o cheiro das flores. Os sons que nos chegam são medidos em decibéis, e ouço dizer que, nesta metrópole, quase dois terços dos motoristas de ônibus apresentam séria perda de audição. Suas mulheres deveriam ser proibidas de discutir a relação quando eles chegam para o jantar. Ideal seria uma massagem, neles é claro, antes da refeição, em absoluto silêncio e com flores verdadeiras na sala.
Há critérios científicos para avaliar a intensidade do som que chega até nós, mas e a qualidade dele? Ouso dizer que se passa a ouvir menos, de propósito, puro instinto de preservação.
Quanto ao paladar, quem hoje prepara um prato, picando tempero, refogando no azeite, ralando um tomate fresquinho e se maravilhando com a alquimia?
Está passando da hora de acordarmos, concorda comigo? De começarmos a perceber o que se passa dentro para começarmos a entender o que se passa fora.
Pense nisso, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.
Que bonito Maria Lucia, alem de saber onde fica esse laboratorio – quem ja foi sabe exatamente o que voce passou, so piora se o convenio nao autorizou o tal exame, ai voce fica com a vontade de fazer xixi eternamente.
E o molho entao , faltou manjericao no molho !!
Lindo tudo isso !
Jack “Azeiter” Aré
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