Por Maria Lúcia Solla
Olá,
Guardei a mensagem do meu amigo Francisco – Chico Solano – para abri-la agora, na calma da manhã de domingo. Em casa, num cantinho preferido, e de frente para parte do jardim que me oferece flores em pleno inverno, vejo dois canteiros de azaléias e um vaso de primavera; tudo cor-de-rosa, na manhã ainda menina, resultado do amor entre o amanhecer, que se ofereceu em sacrifício para que ela nascesse, e sua mãenhã.
É nesse cenário, com a lareira crepitando para manter minha atenção no presente, que viajo na sua sabedoria. Ele discorre sobre Fernando Pessoa e eu, com prazer, deixo-me iniciar chamando-o de gênio consciente da própria genialidade e afirmando que inconsciência e genialidade são incompatíveis. Convida-me ainda a refletir sobre o mandamento máximo, contido nos evangelhos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, e sabe a que chego? Que é por obediência e fidelidade a esse mandamento que aqui não se instalou ainda o paraíso, e que há fome, engano, mentira, dor e vazio.
É por estarmos longe de nos amarmos – a nós mesmos – que nos permitimos ficar vazios de alma. Confundimos tudo e nos perdemos na ilusão. Levamos ao palco um corpo tão cheio de individualidade que fica faltando espaço para o personagem (a alma) entrar e tomá-lo por inteiro. Confundimos veículo com essência e vamos empurrando a mentira. Acreditamos na ilusão a ponto de nos comportarmos como corpo que morre, e desistirmos, de fato, antes dele.
A alma, porém, verdade que é, prevalece, respeitando nosso desejo. Espera na linha de largada até agitarmos a bandeira da permissão, que é um ato da natureza do amor mencionado no evangelho. Pois é num ato de amor que lhe atribuímos o papel de heroína e permitimos que encante. Sem intenção, que isso não é de sua natureza, ela encanta porque se mostra inteira, que é só o que sabe ser, e contagia. Irradia tanta luz que outros enveredam, no impulso do momento, por um caminho de libertação.
Não sei dizer em que pedaço de qual caminho me encontro, porque o nome fantasia já não me atrai tanto, mas gosto do que vejo, das curvas acentuadas aos encontros e desencontros. Começo a nascer, mais uma vez enfrentando as paredes do útero da Vida, decidida a vir à luz. Não nascerei morta, e meu choro será um grito de glória infinita pelo privilégio de ser.
Quando, há anos, o mesmo Francisco informou-me que a criação é fruto da dor e exclusivamente dela, e que nada jamais poderia ser criado, não fosse através dela, não aceitei e chorei.
Eu não tinha idéia de que falava desta dor e de que ela morava em mim, latente, pronta para se manifestar. Só agora, quando se dilaceram as carnes da minha carne, vejo-me cara a cara com ela. Como poderia ter imaginado tamanha intensidade e tamanha beleza? Sabia apenas da dor corriqueira, fruto de expectativa frustrada. Hoje, abro-lhe as portas e suplico-lhe que me ofereça o cálice.
Pense nisso, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.