De confusão e dor

Por Maria Lúcia Solla

Olá,

As últimas levas de acontecimentos, do macro e do microcosmo, têm drenado energia também da minha porção otimista; e haja força para mantê-la de pé. Falo de otimismo autêntico, não de tapar o sol com a peneira, não da síndrome de Poliana, e nem de uma síndrome ainda pior, a da hiena – nunca se sabe se está rindo com você ou de você. Fico me perguntando se a ciência já seguiu as pegadas de cada síndrome que assola o planeta, para determinar suas origens e tentar entender por que nos deixamos dominar por elas.

Síndromes são como pessoas que driblam porteiros e entram na festa, sem convite. Penetras. Invasores da intimidade. Guerrilheiros sociais. Você pensa que são meus amigos porque se vestem e batem tambores como a minha tribo, e eu penso que são seus. Ao final da festa, quando se apagam as luzes do salão, tímidas e impotentes perante o brilho do sol, já nos abraçamos todos, intoxicados pela ilusão. Então, essas pessoas acabam se incorporando ao grupo, ou a parte dele, exercendo profunda influência, sem que ninguém questione de onde e a quê vieram. Passam a interferir nas escolhas e a imprimirem nelas, a sua marca.

Mas eu falava de otimismo, que não se encontra na loja da moda, não se adquire seguindo conselhos, e nem se compra na farmácia. Vem no pacote; é ingrediente da nossa receita. Todo mundo tem ele e o seu contraponto, o pessimismo, que fazem parte da realidade dual que experimentamos. Tudo é assim, tem cara e coroa. E com o meu otimismo fraquinho do jeito que está, pensei em falar sobre alguns dos acontecimentos a que me referi lá no início. Mas logo pensei que você seguramente já sabe de tudo o que lhe interessa e, as minhas listas de acontecimentos bons e maus devem bater, em grande parte, com as suas. Portanto teria sido perda de tempo, para dizer o mínimo, porque aqui caberia um compêndio. Já sabemos das notícias de última hora e, principalmente, estamos cansados de ouvir as das horas passadas, do micro e do macrocosmo. Cada boca repetindo o mesmo fato a seu modo, sempre revestido de frustração, inconformismo – síndrome da criança mimada – medo, e outras ramificações, só para citar o lado pesado e dramático. Estou cansando de repetir e ouvir repetir cada fato, como reedições de um mesmo filme, mesma trilha sonora, com letras diferentes.

Então, quando senti que o nível da porção otimista baixava vertiginosamente, tive medo de ir escorregando até virar pessimista, assim do dia para a noite, oito ou oitenta, claro, mas acabei parando para sentir.

E sinto que o véu que ainda nubla a visão da minha consciência vai caindo, e otimismo e pessimismo diluindo um no outro, para que o equilíbrio se estabeleça. E o mesmo acontece com amor e ódio, rancor e perdão e todos os outros pares. E não haverá mais nem paz, nem guerra. Até dá medo de imaginar a vida sem paixão. Vai doer no começo, ou melhor, já está, mas é como aprender a andar de bicicleta; cai, machuca, levanta, se anima outra vez, vai com medo, mas quando se vão as rodinhas de segurança e com elas, ironicamente, a insegurança, então a sensação é indescritível. Lembra?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

2 comentários sobre “De confusão e dor

  1. Meu primeiro tombo de bicicleta foi inesquecível e doloroso, muito doloroso. Primeiro, porque doeu muito, fiquei toda arranhada na perna e o sangue jorrava, segundo, porque tive que esconder o fato da minha mãe, se ela soubesse do ocorrido e visse o machucado me daria uma surra. Apesar disso, amei tudo, como amo os cheiros da terra molhada, da flor de laranjeira e o suor do pescoço de cavalo. Uh, meu interior querido.

  2. eu adorei a ideia, porque vou contar uma pra voces milton, eu só voto em mulher,sabe porque, porque se esta moda de uniforme pegar á meu filho o que vai ter de boate e casas noturnas que vai fechar a isso vai porque o que tem de vereadores e prefeitos e entre outros que vai pra zona não esta escrito ? valeu é uma pena que eu voto em vinhedo si não este cara ai ia ganhar o meu voto ; a vota para as mulheres pelo menos elas não ? com o nosso dinheiro . até a manhã boa noite;

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