De Deuses e Demônios

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Deus é brasileiro, mas a paciência dele também tem limite. A terra, aqui por estas plagas, já começou a tremer sob sua ira, e os rios se enchem de espumas flutuantes que prenunciam a morte, como Castro Alves prenunciou a sua. Os governos estão desgovernados; nas prisões, drogas, armas, festinhas e celulares de última geração rolam soltos e, fora delas, a gente fica presa em casa, cercada de arames eletrificados, de seguranças que muitas vezes são traíras-assassinas travestidas de anjos da guarda, e de muros que nos protegem do vizinho que pode muito bem ser mais um traficante disfarçado de cidadão bem-sucedido. Parece que ele, Deus, se cansou da nossa adulação e das tentativas de distraí-lo com promessas, velas para seus assessores mais próximos, dinheiro a rodo para seus intérpretes sediados em Miami, orações, rituais e lavagem de escadarias. Estressou! Soltou, pelas ruas das cidades, demônios abomináveis e deu-lhes carta branca; criou vírus terríveis para ver se consegue exterminar a raça da qual não se orgulha de ter criado, para que invadam as vísceras de humanos e máquinas, desumanamente. E a gente se multiplica, mais pelo prazer fugaz e pela inconseqüência do ato do amor do que pelo sonho de construir, manter, e cuidar da família e dos filhos.

É véspera de Natal, e nós o que fazemos? Saímos em bandos ensandecidos e vamos às compras para presentear, por amor ou por pura obrigação social, adulando e distraindo os presenteados, da mesma forma que sempre fizemos com os deuses, buscando seus favores em forma de matéria ou de amor; tanto faz. Ainda não entendemos que a receita faliu. Sobram presentes e faltam carinho e compreensão. Sobram promessas e faltam abraços apertados. Passou da hora de acordarmos e nem sei, se nos apressarmos agora, se dá tempo de salvar o pouco que ainda resta.

E o que resta? É só olhar em volta. Resta trapaça em todos os níveis, de todas as sociedades. Resta traição e resta esperteza; aquela do Gerson que só quer vantagem em tudo. No começo dos tempos, temíamos os animais e a Natureza que, com sua força, nos punham em nosso devido lugar. Hoje, mantemos animais engaiolados e os vendemos mutilados. Hoje, é a Natureza que teme o homem e ruge, ferida, tentando resgatar o equilíbrio que lhe roubamos sem dó nem piedade. É a sociedade do eu-primeiro, da beleza artificial, da mulher construída por fora e destruída por dentro, dos papéis trocados, das crianças abandonadas, entregues a DVDs e a joguinhos eletrônicos. Crianças que sabem dizer download e que não têm idéia do valor do amor verdadeiro.

Quando vejo bueiros entupidos de lixo e garrafas plásticas sendo atiradas pelas janelas de BMWs pretos e de Brasílias amarelas, sinto vergonha da minha condição de ser humano. Não há mais como esperar que Deus nos ajude.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

3 comentários sobre “De Deuses e Demônios

  1. Maria Lucia, parabens, um texto pra la de conveniente. Eu mesma estou as vezes (por opcao propria, concordo) exposta a essa situacao: distribuir presentes quando tenho certeza que eles seriam muito melhor aproveitados se o dinheiro fosse doado para outros fins… Mas dai vem as convencoes sociais, a familia supostamente feliz, o jantar pra la de exagerado, as sobras, a bebida correndo solta… Em vez de refletir sobre a vida e o sentido do Natal, festejar a familia, vemos pessoas perdidas com valores tortos correndo atras de algo que nunca vao conseguir comprar! Mas concordo que Deus sabe o que esta fazendo… Ainda acredito na luz no fim do tunel! Um abraco.

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