De preguiça e decisão

Maria Lucia Solla

Olá,

Ai, que preguiça! Dei uma lida nas listas de resoluções e regras para o ano novo, em jornais e revistas, e cansei. Não é regra demais, não? Tudo o que é bom é ilegal, imoral ou engorda. Alguém já disse isso em letra de música, mas não me lembro quem foi, e nem vou procurar. Vou aproveitar meus últimos momentos de férias curtas, antes das férias longas, e atirar o corpo na espreguiçadeira do terraço. Vou ficar bem quietinha olhando as flores, ouvindo e flertando com os passarinhos que vêm tomar banho sem medo, na minha fonte com cara de leão, e que me olham como se eu fizesse parte da paisagem. E faço.

Ano passado trabalhei feito gente grande. Não bebo, e minha alimentação é saudável. Passei horas intermináveis na frente do computador e pouquíssimas na frente do espelho; li muito, estudei até envesgar, cultivei, reguei e cuidei das plantas do jardim e da minha plantação de amigos, e fui recompensada por elas e por eles, quase sempre na mesma medida. Ora mais, ora menos. Meditei bastante, porque ninguém é de ferro, e no final, apesar de ter sido uma boa menina, estressei e adoeci. Dois mil e sete foi ano ímpar. Pois bem, quem sabe devo trabalhar nos anos ímpares, dando corda na vida, e então, nos anos pares, esparramar meu corpo na poltrona mais próxima e ver a vida passar, e me cansar só de pensar.

Hoje em dia, faço menos questão de ter razão e certezas. Sei, por experiência vivida e sentida, que quanto mais a gente briga para ter razão, menos razão a gente acaba tendo. Ouvir mais do que falar, faz sentido; sonhar e amar sempre, e muito, mesmo sem ser amada e nem sonhada de volta, estar mais perto das pessoas que admiro e respeito e dar de ombros para as outras, nos momentos em que não puder escapar de engolir suas presenças, também faz.

Dois mil e oito nem sabe que é dois mil e oito. A gente começou resolvendo contar os sóis e as luas e aí endoidou de vez e criou essa divisão toda. E o sol e a lua, sempre fieis, continuam fazendo o que vieram ao mundo para fazer. Sem vacilar, nem questionar. Talvez a solução seja olhar mais para o céu, ir lá para o alto da montanha do meu filho, brincar com meus netos e, deitada na grama, contar estrelas com eles, ouvir suas histórias e contar outras tantas.

Uma coisa é certa, estressada ou não, cansada ou não, com medo ou sem medo, acuada ou acolhida, amo a vida. Já passou pela minha cabeça a questão de parar, descer desse trem e buscar o descanso eterno, mas acho que foi só para experimentar o pensamento. Sou curiosa, e quero sentir tudo. Nasci para viver. Nasci para cumprir a minha parte, assim como a lua e o sol nasceram para cumprir a sua.

Então, depois dessa reflexão, sem dúvida nenhuma, decidi levantar da espreguiçadeira e continuar dando corda na vida. E você?

Pense nisso, e até a semana que vem.


Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

3 comentários sobre “De preguiça e decisão

  1. “ter razão e certezas” realmente não fazem falta quando se chega a maturidade!!! a busca constante é o que satisfaz a mente rica como a sua, que nos presenteia com tão belos textos e nos faz pensar sobre assuntos tão diversos a cada domingo!!!

  2. É ainda estou na fese da correria….ficar parada não aguendo….mas vou guardar esse texto para ler quando tiver um pouco mais de experiencia!
    Bjo parabens por mais um texto muito bem escrito

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