De chuva e sol

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Hoje é domingo, e chove. É quase o mesmo que usar camisa xadrez, casaco listrado e calça de bolinhas. Simplesmente não combina. Se fosse sábado ainda vá lá, que é dia regido pelo planeta Saturno, taciturno por natureza. Mas domingo é regido pelo Sol, e chuva definitivamente não combina. Especialmente essa que, feito visita inoportuna, não sabe a hora de ir embora. Quando a gente lê que a personagem do romance vestiu as roupas de domingo, nunca a imagina vestida com capa e galocha, lutando contra o vento que insiste em virar-lhe o guarda-chuva do avesso.

Quando o sol não dá o ar da graça, fico imaginando que foi se encontrar com a lua, e perdeu a hora. Sei que não é verdade, mas faz bem acreditar, assim como faz bem, às crianças, acreditar em Papai Noel. Quem é que não gostaria que a vida fosse certinha, como episódios de antigos enlatados norte-americanos, onde a família perfeita e feliz morava numa linda casa com jardim florido, mamãe vestida de mamãe e papai vestido de papai. Quem é que não gostaria que sempre fizesse sol aos domingos, que chovesse à noite, entre três e seis da manhã, enquanto a gente sonhasse sonhos que se tornariam realidade ao abrir dos olhos.

Fico pensando, como é que a gente escolhe o que vai entesourar na caixa de memórias e de sonhos. Quais as impressões que nos marcam de forma positiva e quais as que doem só de tentarem escapulir dali. O que é que nos faz românticos, mesmo tendo sido criados por uma família onde não havia espaço para o romantismo, nem de noite e nem de dia? Mistério. Românticos ou não, ignoramos o hoje e vivemos de nostalgia e de esperança, gêmeas siamesas ligadas pela coluna vertebral. Uma suspirando pelo que já foi e a outra pelo que virá.

E então, me espreguiço, depois de olhar a chuva cair e deixar a mente livre e solta. Retomo a leitura do jornal e encontro fotos das duas ex-reféns das FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia -, que ficaram seis anos em poder do grupo facínora, narco-terrorista e fora-da-lei. Clara e Consuelo. Quem mais me comove é Clara, que teve um filho no cativeiro, em plena selva, levado pelos bandidos aos oito meses de idade, doente e com um bracinho quebrado no parto, e que nunca mais foi devolvido a ela. O menino já foi localizado, tem três anos e oito meses, e quero crer que se reunirão, e que a vida e o tempo vão se incumbir de colocar as peças de seu quebra-cabeça, nos seus devidos lugares. Entre outras atrocidades, Clara conta que muitos dos seqüestrados ficam desumanamente acorrentados uns aos outros, pelo pescoço, como punição por desobediência, ou por tentativa de fuga. Fico fascinada olhando as fotos. Clara e Consuelo sorriem porque parte do pesadelo terminou para elas. Foram libertadas numa manobra bem planejada, para beneficiar e fortalecer a imagem de um delinqüente, cúmplice dos bandidos, e muito amigo do presidente do nosso país. Calcula-se que hoje ainda haja mais de setecentas pessoas seqüestradas e mantidas em poder desses indivíduos. Marginais, seqüestradores e torturadores. E eu aqui choramingando a falta do sol!

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

4 comentários sobre “De chuva e sol

  1. que maneira tão suave de comentar notícia tão triste!
    Também gostaria que as coisas entrassem nos eixos… Não dá para entender o motivo de tantas atrocidades. Será que a humanidade é feita de “massas” diferentes???

  2. Professora Maria Lucia tenho acompanhado seus textos e não poderia de agradecer e bater palmas para a sutileza dos assuntos abordados pela senhora e profundidade. Cada texto seu bate a alma de qualquer um …. Tenho orgulho de ser brasileiro . Parabens e muito agradecido !!!
    Michel

  3. lendo seu texto não pude deixar de lembrar que ontem, fomos ao shopping, que não fazia há muito tempo, mas afinal…era um domingo chuvoso, e vi algumas pessoas vestidas misturando listrado e xadrez, me chamou atenção mas passou…
    então realmente as coisas estão mudadas porque CHUVA E FRIO TAMBÉM NÃO COMBINAM COM VERÃO !!!
    Rosa

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