Por Paulo Henrique Souza
Jornalista e repórter da Rádio CBN
Um grupo de gamers organiza uma manifestação para protestar contra a proibição da venda do Counter Strike e do Everquest, dois jogos para PC. No próximo sábado, os fãs dos games prometem um ato pacífico em frente ao MASP, em São Paulo, questionando a determinação da justiça. Uma das principais reclamações dos gamers fãs de games é que as pessoas desconhecem o jogo e exageram na avaliação daquilo que vêm agora, mas que existe há quase uma década.
Idos de 2002, São Paulo vive a febre das Lan Houses. Diversas lojas eram inauguradas e logo ofereciam para jovens e adolescentes os mais diversos jogos a preços convidativos R$ 3,00 por hora no máximo dando a possibilidade de interagir com o amigo na máquina ao lado. Há seis anos a banda larga engatinhava no Brasil e conectar-se para rodar um jogo on-line era impossível. Nesse cenário cresceu o Counter Strike.
Nesta época, eu sempre passava pelo menos três horas por fim de semana jogando com garotos da vizinhança. Me lembro bem de Toshio, um dos colegas da turma que tinha apenas 14 anos. Ele sempre jogava e era um dos melhores, invariavelmente conseguindo uma série de headshots (tiros na cabeça).
O jogo nada mais é que a formação de dois times terroristas e contra-terroristas. Cada jogador escolhe em qual equipe quer atuar e o seu amigo sentado no computador ao lado pode ser o seu pior inimigo no campo virtual. Ao começo de cada round, o jogador compra as suas armas e equipamentos; nesse momento o jogo começa a revelar o grau de realismo que carrega. Você pode usar o histórico fuzil Ak-47 ou uma AWP fuzil de longo alcance, com mira de precisão, capaz de matar o adversário com um só disparo. As opções são inúmeras.
Equipe-se ainda com colete e capacete a prova de balas, granadas e bombas de fumaça. Pronto para o combate ? Agora é momento de sair explorando o mapa, o cenário em que o jogo se passa, aproveitar todo o realismo da construção em três dimensões com gráficos detalhados. Os cenários levam você a diversos lugares: uma estação de trens, restos de um boing acidentado ou um escritório, além de locais com paralelo real, como uma vila tipicamente italiana (CS_Italy), uma praça que lembra o oriente médio (CS_Beirut), ou ainda aproximar-se de um cenário tipicamente brasileiro: uma favela carioca (CS_Rio).
Se você reconhece também este cenário tipicamente urbano e que parece o entorno de uma estação da linha vermelha do metrô paulistano, não se preocupe, você está no CS_Sampa.
Um jogo que traz tantos detalhes não poderia deixar de lado o sangue, que aparece a cada tiro, ou então quando um jogador tem a ousadia de matar o adversário com a faca.
Tudo isso faz parte do universo do jogo Counter Strike, que começou a se difundir no Brasil em 2002, mesma época em que despertou o desejo de dois rapazes de criar o cenário CS_Rio, que gerou críticas do Procon de Goiás, gatilho para a decisão de suspender a venda do jogo. Isso mesmo, dois rapazes brasileiros criaram o bendito cenário e concluíram o trabalho em meados de 2002. Este é outro ponto em que o jogo atrai os gamers: a possibilidade de criar. Pode-se criar cenários por que não simular os ambientes da sua casa ? criar personagens há jogadores que utilizam o visual do Cap. Nascimento do BOPE ou ainda do Homem Aranha e criar visuais diferentes para a sua arma que tal pendurar um pé de coelho nela para ter sorte?
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O jogo, como se vê, replica a realidade, a reproduz em um universo virtual, o que é a essência do vídeo game: ou alguém acredita que o encanador chamado para o conserto da pia de casa pode ser mesmo um herói em universos paralelos lutando contra um Crocodilo Rei para salvar a princesa; falo dos irmãos Mário e Luigi, os personagens de games mais emblemáticos da história.
Essa é a maior reclamação dos gamers que irão protestar contra a proibição da venda de Counter Strike, no próximo sábado, no MASP, em São Paulo. Eles, que se manifestam em blogs e sites relacionados ao assunto (como http://liberdadegamer.wordpress.com/), afirmam que nunca agrediram alguém ou compraram uma arma para sair atirando contra todos como ocorre no jogo.
Opinião dos gamers à parte, a decisão é no mínimo discutível. Primeiro por que a justiça brasileira prima em perder o bonde da história as Lan Houses começaram a aparecer no Brasil em 2001 e a legislação para esse tipo de atividade no estado de São Paulo data de março de 2006. O jogo que é alvo de proibição e o cenário CS_Rio, existem há mais de seis anos.
Além disso, o fabricante vinha respeitando a legislação brasileira, imprimindo na caixa que traz os dois Cd´s de instalação as mensagens obrigatórias como inadequado para menores de 18 anos e este jogo contém extrema violência realista e sangue realista. Se a justiça entende como necessária uma proibição, torna-se no mínimo inútil o preceito de classificação etária.
Os argumentos apresentados para a decisão revelaram desconhecimento técnico do jogo. Afirmar que o game simula a luta entre traficantes e policiais é um equívoco, uma vez que os personagens são sempre os mesmos – terroristas e contra-terroristas quer seja no cenário carioca ou no cubano (CS_Havana). Além disso, os reféns presentes no cenário CS_Rio são personagens anônimos, como os reféns que existem também na CS_Italy, e que devem ser resgatados pelos mocinhos. A versão de que seriam representantes da ONU seqüestrados é uma criação dos jogadores externa e posterior ao jogo.
Também, a eficácia do veto ao jogo é algo que não se pode comprovar. Diversos especialistas das áreas que estudam o comportamento humano apontam para as mais diferentes direções quando tentam explicar o desenvolvimento de uma índole violenta, mas nenhum deles afirma categoricamente que o uso de jogos como Counter Strike possa tornar o indivíduo violento.
Quanto ao Toshio, hábil jogador aos 14 anos, depois que me formei deixei de jogar e perdi o contato com a molecada do bairro, mas ocasionalmente o encontro. Hoje com vinte anos ele cursa administração e é motivo de orgulho para a mãe. Nas nossas breves conversas ele sempre traz notícias boas: está trabalhando, namorando e progredindo. Quem sabe um dia nós possamos sair juntos para matar saudade do tempo em que dávamos uns tiros por ai ?
Milton,
eu não entendo nada sobre games e lan houses e afins (geralmente eu nem sei quem eu sou na tela do game….hihihihi) mas gostaria de fazer um comentário sobre o trabalho do Paulo Henrique Souza.
Nunca vou me esquecer do momento em que ele narrava a entrada no prédio da TAM, aquele do acidente na Washington Luiz, quando o mesmo foi pela 1a vez aberto para os jornalistas. Era nítida a emoção do Paulo Henrique quando ele chamou atenção para um fato incrível: que dentro do prédio incinerado, havia um vaso de planta onde estava colocado um sinal de advertência para fumantes (!) que dizia algo como “Me respeite, sou um ser vivo” e que inacreditavelmente, a planta desse vaso permanecera intacta (!), num tom que interpretei como respeitoso.
Parabéns para a sensibilidade do Paulo Henrique Souza!
abs
Celina Ishikawa (Moema)
Jogo games on-line a mais de cinco anos, juntamente com meus três filhos.
Ofator proibir não difere da ignorancia ou impotência das autoridades em resolver problemas sociais.
La em casa, educação em primeiro lugar e game em segundo
abraço