Por Maria Lucia Solla
Olá,
Hoje pela manhã, caminhei pelo bairro onde estou hospedada, em Atenas, com familiaridade e segurança. Fui ao supermercado porque quero levar comigo e ter à mesa, por algum tempo, pedacinhos da Grécia. Suas cores, seus aromas e seus sabores. Então, num dado passo, num estalo, me dei conta de que cada viagem é uma pequena vida, com início, meio e fim. Quando se adquire a confiança necessária para usufruir cada minuto, é hora de ir embora.
No início desta minha pequena vida, sentia-me insegura e tateava o terreno com cuidado, temendo o caminho nunca trilhado. Passei por tudo um pouco; ilusão, desilusão, aprendizado de todo quilate, mudança de hábito e de opinião, emoção de todo tamanho e feitio, ruído e silêncio, companhia e solidão. No entanto, uma das fases mais importantes desse meu pedaço de vida começou com a viagem de trem, de Atenas para Edessa, cidade de aproximadamente cento e cinqüenta mil habitantes, capital do distrito de Pella, na região da Macedônia Central, ao norte da Grécia. No balançar do trem que deixava a cidade e se embrenhava entre montanhas cobertas de neve, um novo tipo de solidão tomou conta de mim. Não havia tristeza; só solidão, pura, com gelo. Já estive na tristeza antes, em diferentes latitudes, e diversas estações. Passei pela tristeza que desabrocha com as flores, pela tristeza alquebrada, que vai largando a carga ao longo da estrada, por aquela que arde como fogo e a que queima como gelo. Ali não. A tristeza ficou na estação de Atenas, fazendo companhia para a ansiedade e a expectativa. Levei comigo apenas uma espécie de entrega e confiança no passo seguinte. Ah, que bom seria, sempre assim, a vida.
Num dos tantos momentos mágicos, numa quarta-feira despretensiosa, meu amigo Stratos dirigia na descida da montanha, depois de um dia na estação de esqui Kaimaktsalan, derrapando aqui e ali, na estrada ainda gelada. De repente, parou num cotovelo de montanha, de tirar o fôlego.
– Quer voar de Paraglide?
– Eu? Não sei!
Começou a desembarcar os equipamentos, enquanto eu observava, sentindo tudo em mim se expandir.
– E então, decidiu? Quer voar?
Lá, muito lá em baixo, como miniaturas, os pequenos povoados viviam mais um dia-a-dia corriqueiro. Tentei calcular a altura, e não cheguei a conclusão alguma. Eram momentos que, curiosa e misteriosamente, se arrastavam e corriam, simultaneamente. Meu coração saltava no peito, querendo voar, e eu disse não. E o meu não ecoou na vastidão solitária da montanha gelada.
– Vai perder uma oportunidade na sua vida.
O tom era suave, sem intenção de me convencer de absolutamente nada. Pura e honesta constatação. Respirei fundo uma, duas, três vezes e disse quase gritando, sim!
– Sim, o quê?
– Eu quero voar!
E você, sabe o que quer?
Pense nisso, e até a semana que vem
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano
Disse sim em dois momentos importantes da minha vida.
A sensação é realmente a descrita por você. Sensação de olhar para tudo e sentir um eco. Enquanto dizia não, não ecoava.
Incrível como a situação vivida por vc pode refletir de forma análoga em nossas vidas.
Parabéns mais uma vez!
Malu, suas lembranças desta viagem não serão de supermercado e muito menos compradas. Elas são vividas e não tem preço. Parabéns por não perder as oportunidades e parabéns pelo texto 100 ! Tomas
Um viajante para e pergunta para um sábio beduino.
-Como são as pessoas desta aldeia?
E o beduino responde.
-Como eram, de onde você vem?
-Eram más, egoistas e estúpidas.
– Assim tambem são as pessoas aqui.
Para encurtar a história, as pessoas e os lugares são o que você traz dentro de si; E vindo de você, qualquer lugar no Mundo em que você passar, sera maravilhoso.
Parabens pra mim, por ter a prima que tenho.
Te amo, muito
Olá Maria Lúcia,
parabéns pelos textos e obrigada por nos transmitir sentimentos tão íntimos desta maneira tão expressiva e singela.
bj. rosa