Bastidores da notícia: Andréia, o retorno da perseguida

Tentativa de seqüestro, cadeira de roda e R$ 15 mil mexeram com o imaginário dos jornalistas que, neste fim de semana, perseguiram Andréia Schwartz no desafio de levar ao ar as primeiras palavras da moça em solo brasileiro. Para quem já esqueceu, ela teria ajudado a polícia americana no escândalo sexual e fiscal que derrubou o ex-governador de Nova Iorque Eliot Spitzer.

Na semana passada (leia nota do dia 15 de março, neste blog), emissoras de televisão, jornais e revistas gastaram dinheiro à toa enviando equipes de Nova Iorque para São Paulo no avião que ela deveria ter sido deportada. As emissoras de rádio não costumam destinar suas verbas para estas aventuras. Como se saberia depois, Andréia permaneceu na cadeia por mais uma semana, durante a qual equipes de jornalistas fizeram plantão no Aeroporto Internacional de Guarulhos para não serem “furadas” pela concorrência.

Depois de 18 meses presa, Andréia finalmente foi levada para o aeroporto de onde deixaria os Estados Unidos para nunca mais voltar. Escoltada pelo jornalista Dival Ramiro, brasileiro que trabalha para o Daily News, Andréia ficou na sala de embarque do JFK de onde negociava sua chegada ao Brasil. Ela foi informada lá que encontraria um bando de repórteres, em Guarulhos, e se não quisesse ser “atacada” teria de organizar uma fuga estratégica. As conversas com o Brasil eram feitas através de um rádio Nextel do repórter do jornal americano.

Aqui no Brasil, os boatos se iniciaram assim que as redações começaram a organizar a escala de repórteres que iriam recepcioná-la. Houve quem deixasse a cama bem cedinho apenas para não correr o risco de perder a presa (aqui usado no sentido de “animal que serve de alimentação para os outros“).

Em Guarulhos, era “garantido” que para escapar dos jornalistas em Nova Iorque ela teria se disfarçado, chegado de cadeira de roda e com o rosto escondido por um capuz. A saber, Andréia tinha apenas um boné cor de rosa e desfilou pelo JFK com toda a opulência que teria chamado atenção de clientes americanos nos anos em que trabalhou, nos Estados Unidos. Teria, inclusive, passado pelo freeshop para compras de última hora.

Antes do vôo da American Airlines decolar, Andréia já havia sido promovida para a business class, enquanto os poucos repórteres que estavam a bordo ficaram nas poltronas desconfortáveis da classe turística. Lá na frente, Andréia sentou-se ao lado do jornalista do Daily, que também usava boné, seu interlocutor e “protetor” durante todo o traslado para o Brasil. Em Guarulhos, a bolsa de apostas corria solta: “ela está negociando uma fortuna para dar entrevista”, diziam alguns desinformados. Como “quem conta um conto aumento um ponto”, o preço da entrevista exclusiva com Andréia subia a cada minuto.

Um repórter do The Washington Post inconformado com a proximidade do concorrente do Daily News com a brasileira, assim que o avião aterrissou, em Guarulhos, tentou afastá-lo aos gritos: “Andréia, ele está recebendo R$ 15 mil para conseguir uma exclusiva para a televisão”. Não teve sucesso, mas a moça teria chorado ao pensar na possibilidade de que seu maior confidente, desde que deixara a prisão, a estaria traindo.

Ela era consolada e convencida da mentira pelo companheiro de viagem, enquanto os repórteres no salão de embarque tinham um olho na porta de saída e outro nos colegas. Qualquer celular que tocasse era motivo para mais especulações: “Ela já está fechada com o Fantástico”; “a Record vai pagar para ela falar”; “estou com fome e essa biscateira não sai”. Outros adjetivos surgiram no decorrer das conversas, mas este jornalista se reserva o direito de não ofender ninguém.

A excitação por Andréia era tanta que a saída de Pelé no portão de desembarque chamou atenção apenas de alguns poucos. E os poucos só perguntaram a ele sobre ela: “não vi, dormi todo o vôo”, despistou o Rei, pouco acostumado com o fato de não ser o centro das atenções.

Lá dentro, Andréia de óculos escuros para esconder as olheiras da noite mal dormida havia tido sucesso na sua saída estratégica, graças à colaboração da Infraero que, segundo explicação oficial, pretendia evitar tumulto no aeroporto. Quanto ao repórter Dival Ramiro, depois de ser visto como espécie de “cafetão de entrevistas” passou a ser acusado de “seqüestrador”, pois dois supostos amigos-segurança que foram receber a moça não puderam sair com ela nos braços.

A noite mal dormida dos jornalistas foi compensada com um rápido desfile público de Andréia no saguão do aeroporto em direção a sala onde aguardaria o vôo para o Espírito Santo. Com um belo sorriso e escoltada pelo repórter do Daily News, ela arriscou um discurso contra a corrupção e do alto de seu estrelato disparou: “Eu amo todos vocês”. Ainda não era a entrevista exclusiva que todos esperavam e que Andréia supostamente estaria negociando (a esta altura já não sei mais quanto estariam pagando a ela), mas o suficiente para fazer um passagem (momento em que o repórter aparece na matéria) e fechar a reportagem.

À noite, antes de seguir para cidade natal, Andréia ainda gravaria entrevista por telefone com a repórter Abigail Costa, da TV Record, que vinha monitorando toda a viagem da moça. Negou que suas informações é que derrubaram o ex-governador de Nova Iorque e disse mais algumas outras coisas. O que me chamou atenção mesmo foi o sorriso velado no momento em que se referiu a “este meu trabalho”.

Após assistir à cobertura do Jornal Nacional, da TV Globo, para quem só viria a falar no domingo, e ouvir seu nome ser precedido por “cafetina” e “prostituta”, disparou alguns palavrões, arrumou o cabelo, ajeitou a roupa e se preparou para embarcar a Vitória, onde enfrentaria mais uma aventura neste retorno ao Brasil.

Ramiro, que nada pagou nem recebeu, publicou sua reportagem na edição de domingo do Daily News. Andréia, que ainda nada ganhou, vai publicar seus segredos em livro. E os brasileiros, que pouco tem a ver com esta história, aguardam a próxima publicação da Playboy.

2 comentários sobre “Bastidores da notícia: Andréia, o retorno da perseguida

  1. Sem desfazer dos “atributos” da moça, que com toda certeza renderá algum filme, (os americanos adoram histórias deste tipo, sentem-se inspirados) ou série – aliás acho que é uma tendência de alguns políticos e personalidades americanas, se envolver em escândalos “sexuais”, com um pouco mais de discrição se comparados aos políticos brasileiros (aqueles que elegemos, indireta ou diretamente) e sem muitas diversificações e criatividade, como os nossos, claro – acho que não deveríamos permitir que ela se torne uma celebridade… sem falso moralismo, mas vocês não acham que podemos estar cometendo uma inversão de valores?
    O Brasil, outrora, lembrado por pessoas como Pelé, Tom Jobim, pela bossa nova, por Santos Dumont, pelo povo alegre e receptivo, mesmo pertecendo ao 3º mundo, agora ser reconhecido mundialmente, pelo país das “prostitutas e cafetinas” é simplesmente… degradante!
    Por favor, não dêem tanto “ibope”, tanta importância a este caso, além do que seja necessário.
    Simone Mazzoni

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