De segurança e da falta dela

Por Maria Lucia Solla

Olá,

No tempo de Adão e Eva, considerando-se que o casal tenha mesmo existido, o assunto segurança não constava da pauta a ser discutida no dia-a-dia, se é que tinham um idioma e que se comunicavam através dele. Como nunca ouvi dizer que tenham brigado e, muito menos, se separado, imagino que não tivessem. Mas, supondo que havia um vocabulário, segurança, certamente, não fazia parte dele.

Hoje, no entanto, segurança é palavra que transita, a torto e a direito, nos lábios de todos; letrados e iletrados, jovens e nem tão jovens, modernos e nem tanto. Buscamos alcançá-la, a tal da segurança, imaginando que só através dela poderemos conseguir a impalpável, intangível e indefinível felicidade. Me vem uma estranha sensação de que essa coisa toda foi inventada por aquele lá de baixo, o temido, o vermelhinho de garfo na mão. E porque teria ele se dado ao trabalho de inventar algo assim, que nos ocupa a mente, o coração e a alma, e nos faz tremer de medo? Elementar. Enquanto a gente fica ali, buscando proteção impossível, nos afastamos do real motivo pelo qual fomos colocados neste planeta, pelo lá de cima, o cheio de luz, o imparcial, aquele que, a despeito da opinião de muita gente, não julga. E ele nos colocou aqui, basicamente, para vivermos livres e bem, perseguindo objetivos possíveis.

Mas vamos definir a impossível segurança. É a condição do que está seguro, certo? É a condição do que está protegido, do que não corre risco. Agora, sejamos absolutamente honestos; isso existe? Existe algo assim no mundo real? Um mundo onde nada é permanente, uma vez que a marca registrada do Universo é a impermanência? Bertolucci aborda o tema, no filme O Pequeno Buda, que vale a pena rever.

Por que então essa mania de conservar tudo, de se agarrar a lembranças, a coisas e pessoas? A neurose de guardar, segurar, controlar, de nos atarmos pelas mãos e pelos pés; o medo de andar, correr, voar, tocar outras superfícies, e sermos tocados por elas, o medo de abrir portas que nos despertam a curiosidade, só paralisam a vida. Computadores e celulares não são seguros. Meu último celular se jogou na piscina num dia quente, e perdi toda a agenda telefônica. Meu notebook, como você sabe, precisou de um transplante de disco rígido e lá se foram documentos, lembranças, fotos, palestras, endereços e contatos. No primeiro momento cheguei a pensar em sofrer, mas logo decidi dar as boas-vindas à oportunidade de limpar também esse setor da minha vida, e começar de novo. Do quase zero. Tenho limpado armários e doado ou jogado fora tudo aquilo que não uso há pelo menos um ano, e tenho limpado também a minha própria memória. Talvez seja uma técnica para não sofrer com as perdas que chegam com as próprias pernas. Já me desapego, e pronto. Tomo a iniciativa, eu. A experiência tem sido interessante, e recomendo.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

2 comentários sobre “De segurança e da falta dela

  1. É que dificil, essa insegurança não só que vem de fora mas também a que vem do nosso coração, dificil se desprender das coisas, mas é um bom treinamento para sofrermos cada dia menos com cada mínima perda que sofremos todos os dias !
    Bjo Malu

  2. Incrível , como as afinidades de visão , de princípios , de forma de encarar a vida , continuam nos aproximando , se lembras, desde muito cultivamos juntas o desapego. Bjs, Maryur

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