De julgamento e de amor

Por Maria Lucia Solla

“Olá,

Julgar pode não ser o verbo mais conjugado, mas a ação que declara é, sem sombra de dúvida, uma das mais praticadas entre nós. Cada dia mais. É praga disfarçada, é instrumento nacional, na maioria das vezes, desafinado. Alguns arriscam um julgamento aqui outro ali, e vão intensificando a dose, buscando superar o próprio recorde. Outros se sentem campeões, desde sempre. Têm o julgamento no sangue; arte praticada pela família, há gerações. Só que velha e engessada.

Julgar, como tudo na vida, pode ser bom ou ruim. É bom quando estamos acordados, conscientes, ousando reconhecer nossa própria essência e nossos desejos mais verdadeiros. É optar com sabedoria. É reagir às badaladas do coração, no ritmo e tempo certos.

Julgar é decidir culpa ou inocência, com base em códigos de conduta, e então, se e quando comprovado o erro, aplicar a pena correspondente. E, convenhamos que esse julgamento é da alçada de quem tem preparo para isso. Quanto à grande massa, vê sua margem de tolerância com alguns dos erros alheios diminuir, enquanto outros erros, como água em pedra dura, acabam sendo aceitos com um dar de ombros. Com um olho fechado e o outro trancado. Acostumamos a dançar a música do outro, a adotar a moda do outro, a almejar o que a maioria almeja, perdendo nossos valores na multidão dos valores alheios. Acabamos nos acostumando a deixar que resolvam, decidam e escolham tudo por nós. Fomos dizendo amém para o patriarca de plantão e perdendo nossas esperanças, enterrando sonhos natimortos e enfiando a cabeça em buracos escuros.

Assim como estamos reaprendendo a comer, depois de anos macaqueando a moda alheia, está mais do que na hora de reaprendermos a julgar, a olharmos mais para dentro do que para fora, a ouvir nossos desejos mais verdadeiros; a nos satisfazermos a alma. Só assim, e é nisso que acredito, poderemos recuperar esperança, valores, e reassumirmos a dignidade.

Quanto a mim, ando treinando. Tenho posto de lado valores antigos, e venho me redescobrindo. Nunca é tarde. Deixo que outros olhos mergulhem nos meus, que atravessem a barreira resistente do meu ego enrijecido pelo medo e por uma vida de condicionamento, e me permito entrar em contato com minhas verdades mais íntimas e minhas limitações mais inconfessáveis. É através do olhar do outro que vou, pouco a pouco reaprendendo a julgar. E a amar.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.”

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

8 comentários sobre “De julgamento e de amor

  1. Lú,
    Maravilhoso artigo! O mundo precisa de mais amor e menos julgamento! Esta é a verdadeira transmutação, renascermos melhores para evoluirmos cada vez mais! Parabéns! É muito bom termos oportunidade de entrar em contato com leitura tão iluminada!
    Rosely

  2. Muitos confundem, analisar uma situação, com julgar uma situação; O dia que descobrirem a grande diferença entre elas, e o mal que um julgamento causa para os dois lados, ai teremos o mundo que você inteligentemente almeja.
    Parabéns por mais um grande artigo iluminado como disse minha prima em comentário anterior.
    Bjs.
    Sola

  3. Oi ,acabo de descobrir que algumas coisas não mudam nunca , adorei a essência do eu texto , mas algumas coisas são imutáveis , portanto às 19,16 SAUDAÇÕES COLORADAS !!!!!!!!

  4. Incrível, suas palavras foram um “tiro” pra mim. Creio que para muitos também, mas que continuam introspectos em seus “cascos”, inertes, sem reação. Quero continuar contigo, mudando, aprendendo e crescendo, sorrindo e colorindo sonhos e realizações. Bj. Te peço, nunca pare de escrever !! Mario Baccarelli.

  5. Professora
    Magnifico seu artigo …. É fascinante ver como vc consegue colocar nosso cotidiano em forma de leitura …. O óbvio q é tão difícil !!!!

  6. Gente eu contei mais de 30 buracos na radial leste só do trecho que vai de um pouco antes do metro carrão até o final do viaduto depois do shopping tatuapé. isso ja vai mais de um ano e a prefeitura não toma providencias . de vez o prefeito arrumar de vez a radial leste , fica remendando que nem gato e rato, remendo de uma lado abre 2 buracos de outro. buraco ? aqui são crateras. ta uma vergonha .. acorda cassab.

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