Por Maria Lucia Solla
Olá,
Dona Nadir, mãe da Edna, diz que quem cala, vence, e o seu dizer mexe comigo, me leva a pensar e a escrever.
Gosto de falar, e falo quando me deixam. Meus filhos dizem que se me deixar falar está perdido. Coisa de filho. Meu pai dizia, fecha a boca menina, quando descíamos a Serra do Mar. Coisa de pai. Ele dirigia, com minha mãe quieta, delicada como só, e calada ao seu lado, e eu, ajoelhada no banco de trás do carro, olhava a paisagem se afastando, e cantarolava sem descanso, a cada bananeira que via. Pé de bananeira, pé de bananeira! Uma chata!
Na casa dos meus pais, criança não tinha vez. Não se manifestava. Calava mesmo sem ninguém mandar. Responder não precisava porque não havia pergunta. Havia comandos que não deixavam brecha para dúvida. É hora de dormir. Coma tudo. Endireite as costas. Não amasse o vestido até seu pai chegar. Ao final da refeição, era permitido pedir licença para deixar a mesa. E só.
Fui filha única até os quatorze anos, quando chegou meu irmão para compor o quebra-cabeça do meu pequeno núcleo familiar. Ele era nenê, e em mim já despontava a mulher. Entre nós, falávamos o nananenês. Até hoje me chama de Nana.
Quando casei, magrinha, de gestos e voz contidos, fui compor o quebra-cabeça de outra família. Enorme, com pessoas enormes, altas, fortes, de gestos e vozes retumbantes. Eu raramente era ouvida. Não porque me ignorassem, quero crer, mas porque não podiam me ouvir em meio a tamanho alarido.
Durante cada período de quietude, estudei. Estudei muito. Li. Li muito. Li Tolstoi quando deveria ler Monteiro Lobato. Projetava na mente as idéias de Dostoyevsky, Voltaire e Balzac, quando talvez devesse desenhar corações flechados em troncos de árvores.
Calava só do lado de fora. Do lado de dentro explodia em passeatas e comícios, chorava, ria, viajava, amava. A vida interna era tão intensa que me sentava para ler, no telhado que cobria o terraço do meu quarto, para que meus sonhos tivessem espaço para abrir as suas asas.
Minha mãe me teve ainda menina, e fui sua primeira boneca. Me penteava, vestia, enfeitava e alimentava. Deviam ter dito a ela que com boneca não se fala. Ela acreditou.
Concordo com a Dona Nadir. Dizem também que a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, mas assim como a respiração de Deus nos faz ser na carne, em Sua expiração, e nos leva de volta para Si na inspiração, há tempo de calar e há tempo de falar. O meu tempo agora é de falar. E o seu?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.
Bah Luzinha , revi a minha infância no teu relato ,mas acho que era o padrão vigente , não conheciam outra maneira e, em consequência nossos interiores se tornaram fantásticos e , cada
qual a sua maneira criou um mundo subjetivo que poucos podem atingir. Bjs, Maryur